Crônica: ALDA  E A MORTE DA UTOPIA GUINEENSE II

Mais uma vez, e vez sem outra, com a vez outra, retomo esta singela lavra escritural sobre a morte da utopia nacional. Em tempos de campanha de castanha de cajú, à mercê do desejo soturno do Chefe da máfia nacional, o mentiroso contumaz, só me resta contar a história da menina Alda Sá Ferreira. Ei-la para ti que vais degustar destas parcas lavras sapienciais:

Meu avô amava profundamente a sua mulher. Admirava sua força e sua meiguice, respeitava suas qualidades morais. Isso não o havia impedido de ser atraído por outras mulheres, mas nada mais tinha importância agora. Atrações e traições são ninhos vizinhos. E amigos. Ciúmes de uns amores de outros.

E agora que, passados dias a fio, seu rosto navega pacificamente em minha memória, nas retinas do meu pensamento, e nas audácias generosas do meu coração; mas não sinto o peso duro da dor da perda no coração como nos primeiros tempos. Creio até que não ando prenhe de tristeza.

Não é que também, por princípio de superação e por necessidade de avançar para frente, sobrevive-se tão bem aos mortos!

Pois é. É sempre estranho dizermo-nos que podemos continuar a avançar, mesmo amputados de nossos amores pelas insistentes dores de perdas retinentes.

Os dias novos chegavam, como dizia o poeta Rui Knopfli, e eu lhes dizia bom-dia. Bom dia aos que já se foram, bom dia aos que ainda teimam em existir, mas bom dia àqueles que mesmo indo ainda se encontram entre nós por suas obras, por suas realizações de homens e de mulheres. Bom dia a eles todos e a meu avô, meu sublime amor!

Naquela época, eu sonhava como tornar-me uma mulher formada, independente, realizada emocional e profissionalmente. Eu não sonhava. E sim labutava para que isto acontecesse de fato. E de verdade.

Era toda essa inteligência posta à disposição como se fosse uma simulação neuronal, sapiencial, portanto; e, simultaneamente, isto me fosse útil para ocupar concretamente meus dias. Mas nada era menos certo. Nada no meu futuro parecia certo. Precisava de alguém que me amparasse, com quem me preocupasse.

Alguém, enfim, que me entendesse, ou pelo menos, entendesse meu pequeno mundo de tabanca; contudo, nunca imundo; um mundo feito de coisas fundas, de coisas sagradas, ainda que secretas.

E não um mundo imundo de coisas profanas como as que se veem por aí. Nada de secreções que gerem excreções profanas. Tão sumariamente profanadas que tudo parece ser meras aberrações.

Pois eu encontraria um caminho por seguir. E esse meu caminho volvidos anos chamava-se Will Ferreira. Mas como tudo na vida, às vezes, parece que nada a fazer, pois o presente, incerto e concreto, permanece imóvel. Resiliente.

E ninguém teve a ideia de inventar as lembranças do futuro. Mas os sonhos fazem-no, inventam as lembranças do futuro. Operam as necessárias transformações nas nossas reminiscências passadas para criarem o devir outro no tempo de agora por os pôr no lugar de outrora, e assim, inventam, a passarinhos, as lembranças do futuro.

Eu queria viver uma vida um pouco heróica, mítica; em suma, uma genialidade cansada que dormitava em mim.

Vida singela para que fosse perene, e nesta perenidade fosse bela.

Encontrei amores nesta cidade. Mas nenhum deles pareceu-me tão sério, tão valido a pena experimentá-lo. Nada. Nada mesmo. Eu era tão calma.

 A burrice dos homens descansava-me de seus quereres. Mas também de suas kerensas de lebsimenti[1]. Ria-me deles. Porque estava soberanamente feliz. E eu estava em bom posto neste juízo amoroso. Eu vigiava o meu amor, aliás, tinha de vigiá-lo.

Vigiar de noite é vigiar o amor dos outros. Vigiar de dia, contudo, é vigiar nossas (e, por que não minhas?) esperanças eróticas. Magistralmente sapienciais.

O ridículo da vida é não estar vigilante a nada. E em nada. E com o nada vem o ridículo. Em com o ridículo o estúpido.

O ridículo é como um sorriso falso esperando. Esperando qualquer coisa de útil (ou inútil?) como que a fazer espirais de exercer com humor a dúvida que paira sobre mim, sobre meus ombros e, ao mesmo tempo, sob meus pés.

A dúvida existencial do tipo que monopoliza longos minutos nos bantabás das nobas calientes, ou das fofoquinhas que alimentamos sobre a vida alheia. Ou contando histórias, (sempre as mesmas; ele devia viver mal socialmente com um magro aquário de algumas histórias sempre repetidas na sessão do conto). Digo o meu Will, meu terno grande amor.

Naquela época, eu não o conhecia, e tinha medo de ter de suportar, por obrigação de apaixonada, suas saliências e outras considerações sobre a sociedade. Nisso, eu experimentava a angústia de ter de rir de suas piadas, enquanto nada me fazia rir menos que uma piada, ainda que fosse a mais hilariante do mundo. Ainda que fosse o meu grande amor. Ainda que fosse sobre o sentimento que nutrimos um pelo outro.

A paixão, às vezes, é semelhante a tolice. Tudo faz-nos rir. Rimos o tempo todo de tudo sobre o nada, ou do nada sobre o tudo.

Meses a fio enfiava a pensar noutros possíveis meses a fio, noutros meses, desconhecidamente, vindouros. Estava fora de questão que eu me fiasse em minha intuição doentia, mais certamente gangrenada pelo abuso de devaneio, ou pela simples falta de experiência em matéria de relações humanas.

Que sabia eu daquele homem, no fundo? Eu não sabia que ele sentia certa ternura por mim, e que, com suas brincadeiras, tentava desajeitadamente manifestar esse sentimento.

Cada um exprime seus sentimentos como pode. Podia eu adivinhar que ele ia agora voltar para casa e enfrentar a frieza de sua mãe-mulher? Era isto que parecia. Uma mãe que controlava o filho como se fosse o próprio marido.

E talvez mesmo deixando este ao relento. Ia abrir a porta do quarto, hesitar um momento antes de sentar-se sem ruído na beira da cama.

Como podia eu saber que ele se poria então a acariciar-lhe os cabelos de maneira tão delicada? Nada a fazer, ela continuaria a dormir. A tentativa de sua mãe permaneceria num impasse sensual. Nesse compasso de espera parecia-me com Samuel Becket esperando o Godot que procura o sentido do sem sentido da nossa humana condição.

Tinha ali o início de um romance promissor. Mas morria eu de ciúmes de sua mãe. Do gesto delicado, lascivo e obsceno com que se tratavam. Às vezes, na minha frente. Desconrolava-me essas carícias obcenas, mas amorosas.

Era suficiente um pouco de sono para mudar a iluminação de uma inspiração e, simultaneamente, aspiração desmedida? Ufa!

A sensação de potência que anuncia a da fraqueza.

Eu não valia nada, eu não era nada, eu queria morrer. Mas a ideia de morrer sem sequer deixar este testemunho válido me parecia pior que a morte. Mesmo sabendo-a certa, preferiria não alimentar a hipótese da sua acontessência. Não sabia quanto tempo eu continuaria a viver assim, na esperança de poder agarrar concretamente meu pensamento. Aliás, meu amor, sem a presença constante de sua mãe que me enciumentava muito. Talvez isso não acontecesse nunca!

Tinha a quase certeza de que viver era ter a certeza de estar a atuar correta e obstinadamente como ser humano, consumindo-se em lembranças memorialísticas.

Pois a chave da vida está na obra do humano, feita palavra, frase ou discurso que o toca particularmente, fazendo nele eco às estranhezas do pensar e, simultaneamente, do sentir.

Viver é, sobremaneira, a loucura que nos escapa na memória precedida do nosso nascimento.

Não tendo nada mais a declarar. Fica tu o responsável por tirar as possíveis e prováveis ilações (des)necessárias.

Caro leitor d’O Democrata, até a próxima, que o cronista precisa dormir para tentar esquecer o desassossego pátrio.

 

 

 

Por: Jorge Otinta, poeta ensaísta e crítico literário guineense

——————————-

[1] Kerensa di lebsimenti em kriol bissau-guineense significa namoro de falta de respeito, desrespeitoso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Figura de Semana

Edição Impressa