Opinião :”HIPOCRISIA DO OCIDENTE: até quando?

Venezuela? Entre um dos países com maior reserva de petróleo das Américas – VENEZUELA – transformou-se, na perspetiva do ocidente, num lugar menos “SEGURO” no continente americano.

Será por que é dos países com grande quantidade de petróleo nas Américas? 

Será por que tem, efetivamente, um regime ditador?

Responder estas questões requer, digamos assim, um retorno ao passado não tão distante à história das colonizações que, o estudioso camaronês, Achille Mbembe (2017 p.37), chama de “civilizações de costume” que se tornou possível, graças às novas formas de enriquecimento (…).

Se, muito recentemente, o governo francês do presidente Macron, enfrentou uma severa onda de greves dos “coletes amarelos” e, por conseguinte, houve atos de solidariedade “ocidental” e de outros quadrantes do planeta, por quê que a “crise” venezuelana teve, com exceção da União Africana, China, Rússia e Itália, apoio direto ao auto-proclamado presidente?

Será, quiçá, por que o ocidente precisa de uma nova Síria, nova Líbia ou novo Iraque?

Alegam, os ocidentais, defender valores da democracia só, e somente, nos moldes ocidentais!

No entanto, a crítica à violência das democracias não é nova. A democracia segundo “modus operandi” ocidental consegue ser tão violenta, tanto quanto às ditaduras vistas à luz das perspetivas dos ocidentais… 

Estas críticas à democracia são relativamente conhecidas. Foi como se a história das democracias modernas se reduzisse a uma história das democracias do Ocidente e como se elas são fechadas sobre si mesmas e sobre o mundo, estas sociedades estivessem confinadas aos estreitos contornos do seu ambiente imediato. 

O triunfo da democracia moderna no Ocidente coincide com o período da sua história, no curso do qual esta região do mundo estava empenhada num duplo movimento de consolidação interna e de expansão além-mar. 

A história da democracia moderna é, no fundo, uma história com duas faces e, até, com dois corpos – “o corpo solar”, por um lado, e o “corpo noturno”, por outro lado.

Chamemos essas duas faces de uma espécie de “dois pesos e duas medidas”, ou seja, quando determinadas crises afetam países ocidentais – sendo ele mesmo o “dono disto tudo” solicita, diligencia e adota diálogo como instrumento para pôr cobro às crises internas.

Entretanto, quando a “crise” afeta países não “ocidentais”, quer latino-americanos, quer africanos ou árabes, o ocidente opta-se pela condenação, intervenção militar, ingerência nos assuntos internos desses “outros” mundos, sobretudo quando este “outro” mundo tem recursos naturais em abundância (e.g PETRÓLEO da Venezuela).

Para melhor apreender a natureza das relações entre, por um lado, a ordem democrática e, por outro lado, a ordem imperial-colonial, e o consequente modo como esta relação determina a violência das democracias, importa ter em consideração vários fatores (políticos, tecnológicos, geo-estratégicos, demográficos…).

Rapidamente, a violência das democracias passa a ser exteriorizada nas colónias, onde se manifesta em brutais atos de opressão. Sem qualquer legitimidade prévia que autorize, o poder na colónia procura agora impor-se como destino.

O “mal da democracia”, na ótica ocidental, é  que ela é quase sempre assombrada pelo desejo de extermínio  (eliminacionismo), a guerra colonial é, por definição, uma guerra fora de fronteiras e fora da lei, conforme Kevin Kenny  (2009). 

Uma vez assegurada a ocupação, a população submetida deixa de estar a salvo da carnificina. 

Aliás, não surpreende que os principais  genocídios coloniais tenham acontecido nas colónias de povoamento (caso da Ruanda em 1994). 

Qualquer “colono” acusado de ter cometido um crime contra um autóctone  (inclusive genocídio), bastava-lhe invocar a legítima defesa ou apelar às represálias, para escapar a qualquer condenação (caso do, então, presidente francês, Sarkozi face à crise na Líbia, em 2011).

Muitos historiadores assinalaram que o império “colonial” era, e é, tudo menos um sistema coerente. 

Entre a mprovisação, as reações “ad hoc” perante situações imprevistas e, muitas vezes, recurso à  informalidade e à uma débil institucionalização.

Não há democracia sem o seu duplo – a colónia, pouco importa o seu mome ou estrutura.

Como afirmava Frantz Fanon, esta face “noturna” esconde, na verdade, um vazio primordial e fundador – a lei que encontra a sua origem no não-direto e que se institui como lei fora da lei.

O grande mal das democracias é que esta violência latente no seu âmago e exteriorizada nas colónias e em terceiros lugares venha subitamente ao de cima, uma vez que ameaça a ideia que a ordem política fizera de si própria  (como se fosse instituída de repente e para sempre), conseguindo praticamente fazer-se passar do senso comum.

É, deveras, hipócrita o que se assiste na Venezuela, a par do que aconteceu na Líbia (2011), no Iraque (2004) e em  tantos lugares, por este mundo fora…!

Até quando esta “Hipocrisia Ocidental”, com vestes da “democracia”, se irá contentar com a lapidação dos recursos minerais disponíveis nos países que, na  leitura ocidental, são “periféricos” e são “maus exemplos de democracia”; 

Até quando o nosso planeta vai aguentando toda a hipocrisia que torna o nosso planeta, cada vez mais, DESIGUAL e mais POBRE, pelo menos, para os que sofrem com os seus efeitos, na medida em que esta hipocrisia ocidental tem tido uma “força” ideológica suportada pelos “média” -(imprensa), pois essa força consegue contagiar e contaminar “tudo e todos”, sobretudo, os menos atentos e mais alienados…

Apenas uma opinião!

Por : Santos Fernandes

4 comments

  1. Mamadú Cissé disse:

    Sempre bem posicionado nas suas opiniões, bom olhar Srº Fernandes agradeço por estar usando este espaço para trocas de ideias muito produtivas. No entanto, andei pensando em um tipo de autocrítica, senão vejamos: países como China, Russia, Cuba e por aí vai, parecem ter desenvolvido um certo tipo de anticorpos contra as tentativas de imposições das falaciosas ideologias democráticas que o ocidente tenta vender a todo custo para regimes em cujos territórios e commodities têm interesses. A minha inquietação vem justamente aqui: como os estados do sul global podem multiplicar e blindar suas integridades e soberanias contra as ingerências ocidentais (Europa e EUA)? Eu diria que através da badalada relação sul-sul, que embora fossem de grande importância estratégica, as conexões sul-sul nunca surgem desprovidas de interesses da China na África, por outras palavras, não são de graça, ou seja os chineses e os russos não são 100% bons samaritanos, portanto, daí que arrisco dizer, em concordância com o cientista político moçambicano Jaime Macuane, que os estados e lideranças africanas, latino americanos e alguns asiáticos têm feito pouco e precisam construir as próprias formas e visões de desenvolvimento que seria essencialmente endógeno, que não seja aquela , mera reprodução do modelo “À La Carte” que o ocidente lhes apresenta.

  2. Adilson Mário Ncosta disse:

    Exelente!
    No que toca com a República Venezuelana, sabemos que os ocidentais a muito tempo queriam criar beligerantes, mas com o ex-comandante falecido Hugo Chaves no poder não conseguiram, então depois da morte dele muitos se aproveitaram principalmente os EUA que alimentou essa crise, começando no primeiro mandato do N.Maduro. Mas como os Europeus são bons meninos dos EUA também entraram.
    Esses malfeitores por onde passam levam tudo, e querem a todo custo explorar abusivamente o petróleo da Venezuela e até podem conseguir porque nada é impossivel como é no caso da Líbia, da Síria, guerra na no Iemen entre outros países que estes envadiram e vandalizaram.
    Caso dos coletes amarelos da França, certeza eu tenho que há países Africanos que solidarizaram com a França mas quando acontece com um país Africano pouco importa, devemos abrir os nossos olhos e refletir profundamente no que diz respeito aos discursos desses ditos países democráticos Ocidentais, Venezuela está nos olhos da mídias internacionais que manipulam as informações, amanhã pode ser um dos países Africanos porque já aconteceu com o RDC, Líbia, está acontecer no RCA e no Sudão d Sul mas com pouca frequência.
    Eu chamo isso da Colonização Moderna ou seja Colonização pós-Colonização porque afirmamos que somos Estados independentes e soberano mas que na verdade não somos porque até os Ocidentais continuam a mandar em nós e tudo que fazemos é por bem deles ou porque nos permitaram Casas no estrangeiro e abertura de conta no Banco Suíço.

  3. Pedro Cardoso disse:

    Tem razao em varios pontos. Contudo temos que aceitar que o petroleo tem os dias contados e que mesmo os Americanos vao ter mais petroleo que necessitam. O povo da Venezuela, tal como muitos outros paizes, merecem melhor que um governo que, desde ha 20 anos, foi roubando os trabalhadores e agora temos o saco vazio. Tal vai o ditado, quando nao ha pao, todos ralham e ninguem tem razao. Um grande abraco e muito grato pelo artigo muito informador.

  4. Gervásio Silva disse:

    É seguro que a Guiné Bissau vai ser qualquer dia alvo do USA, vimos recentemente o que se passou no nosso país, a respeito de cortes de madeiras, o país a ser dirigido por incompetentes, que estão a matar para poder comandar petróleo, fosfatos, peixes e areias, sempre esquecendo patriotismo!

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