Crônica: SE QUISERES A BENTANA COMA A BENTANA, MAS SE NÃO A QUISERES COMA-A NA MESMA

O tempo corre veloz. E os homens devagar. E a velocidade do tempo? Esta? Extremamente célere, a ponto de, se descuidarmos, perderemos o fio da linha do horizonte temporal tão ténue quanto fino, frágil, singular; porém com uma delicadeza sem limites para a nossa tão indolente mente.

E por falar em indolência? Já é sabido por todos nós a tamanha indolência que governa as nossas almas. Aliás, este fato notório já se internacionalizou. Pois basta falar do nosso país para se ouvir quem, de pronto, tenha uma piada, uma anedota qualquer para contar; normalmente sempre no sentido pejorativo. E, assim, vamos indo, aos trancos e aos barrancos.

Recentemente, mas parece que isto ainda paira no ar, os homens, cada um numa margem do rio, a esbravejar-se, a exibir a sua valentia. Entretanto no meio de tudo isso, há de tudo e mais um pouco, exceto projeto sério para tirar o país do lamaçal em que se encontra. Não há tempo para se pensar nisso, apenas o espetáculo horroroso de presunção; de um lado, da astúcia maligna, de outro, da suposta inteligência falaciosa.

Sei lá por quanto tempo este imbróglio mesquinho reinará no seio da nossa classe política. Ou politiqueira. A verdade é que ninguém parece disponível a ceder. E ao não se cederem estão confiantes de que estão certos. Certo? Errado.

Em tempos que correm não há vencidos nem vencedores. Apenas um recado dado nas urnas pelo povo: não confio em nenhum de vocês, entendam-se ou lixem-se. Tomem, a cada um, um bocado; no entanto, se quiserem mais, demonstrem serviço que, daqui há quatro anos, darei o que melhor souber fazer o bom uso do meu voto de confiança. Allez-y!

Ao que me parece os falsários ainda não entenderam o recado das urnas, por isso, estão a radicalizar posições. Ou, quiçá, estão a se fazer de desentendidos. Ora, ora, isto pode gerar mal-entendidos de grandes proporções. E aí então é que haverá dificuldades de se celebrar o tão almejado pacto de regime que nos tire, a todos nós, deste pot-pot sociopolítico.

  1. De mãos dadas é que vamos

Se alguém te dá um abraço bem dado, dê-o a ele também um outro abraço mais sutil, singular, ameno, enfim intenso. Isto para ele acreditar no teu abraço, no teu gesto sincero, no teu jeito de ser abnegado, e despretensioso.

Se alguém te dá um beijo bem dado, dê-o um outro beijo muito mais bem dado ainda. Não lhe dê o beijo de Judas. Ainda que com ele tu acreditas safar-te. Acredite: lá mais a frente pagarás caro por ele.

Parece-me a mim que é chegado a hora de pormos de lado as nossas querelas pessoais, as nossas diferenças ideológicas, e até mesmo, religiosas, e olharmos efetivamente para o país com otimismo, trabalho, competência. Senão corremos todos nós o risco de entrarmos para a História como homens fracassados, altamente ambiciosos, mas de uma ambição maligna.

Se calhar nojenta.

Se calhar cretina.

Se calhar assassina.

Se calhar fedorenta.

As ideias podem também elas serem nojentas, cretinas, assassinas e fedorentas, a depender da intenção de quem as tem, e de quem as defende, com unhas e dentes, ainda que erradas, ou ainda que encomendadas das grandes metrópoles. Ou das grandes corporações. Ou das grandes organizações criminosas que se instalaram há décadas na Guiné-Bissau operando, em conluio, com os nossos malfeitores.

  • Mas se eu fosse tu…

Se fosse tu, meu caro amigo e minha cara amiga, não operava com o mais puro cinismo e falsariedade jamais visto na história nacional. Punha a mão na consciência e parava com o jogo duplo, e sujo, para mais uma vez atrasar o destino das pessoas. Por incrível que pareça o teu destrono está logo ali ao lado.

Porque quando as pessoas se cansarem das tuas artimanhas, das tuas astúcias travestidas de inteligência, das tuas mentiras, e das grandes, das tuas ambições desmedidas, e das tuas entranhas cheias de peixes que vendes a milhões para o estrangeiro para saciares a tua ganância pelo poder, aí meu filho e minha filha, uma dupla nojenta e deprimente, terás a roupa que caberá nas tuas ancas malignas.

Pensa bem. E age certo. Ser correto é o caminho. Incorreto é o abismo. Age melhor. Sinta pena dos indefesos.

Não estou a dar a lição de moral a ninguém, nem tão pouco a mim próprio, mas ninguém deve julgar ser o único com projeto para desenvolver este país, quando, na verdade, não o tem. Apenas, creio eu, que és a encomenda do exterior para massacrar o teu povo, se é que te sentes guineenses, em nome da riqueza fácil, de mansões glamourosas no estrangeiro.

E à guisa da conclusão vai o meu conselho a todas e a todos os atores sociais e políticos:

Estou em crer, se calhar muito convencido de que, se atentarmos bem para o quadro que salta aos nossos olhos em relação à atual composição parlamentar resultante da vontade popular expressa magnanimamente nas últimas eleições legislativas, digo que apenas com base numa solução política de compromissos é que se pode salvaguardar o respeito pela Constituição e demais leis da República, e consequentemente, afinar as arestas para as tão prementes revisões da Lei Fundamental, das leis ordinárias, extraordinárias e especiais do país.

Para isso é preciso que sejam erguidos consensos políticos duradoiros por forma a promover e a garantir a estabilidade político-governativa até ao fim da presente legislatura. Só assim podemos ter um Estado novo sério que prime pelo trabalho altamente competitivo entre os seus cidadãos; ou seja, a menina de olhos lindos que desejamos.

É possível ainda aproximar as duas margens do rio, atravessando-o. Elas podem ser encurtadas, se usarmos a canoa, e navegarmos com a exímia inteligência, a qual deverá governar as nossas vidas, e projetar os nossos sonhos diurnos, para que estes possam superar os nossos sonhos noturnos, afastando-nos do mundo onírico para o mundo real que alicerça o nosso quotidiano.

Tentar é preciso, e possível. Não tentar impreciso, e duvidoso. Quiçá doloroso.

Não adianta fugir, nem fingir.

O caminho é um só: diálogo mais diálogo. É a porta da saída porque é por ela que vocês entraram.

Parlamento significa etimologicamente a casa da fala. Ou seja, o lugar, por excelência, de conversa, de diálogo, de entendimento.

Lugar onde os muros devem ser demolidos, e as pontes construídas.

A porta da entrada deve a mesma da saída. Saudemos a democracia como o era puro e diáfano da primavera.

Caro leitor d’O Democrata, aquele abraço frátrio, que cronista precisa dormir para tentar esquecer, pela enésima vez, o presente desassossego pátrio com o qual nos brindaram depois destas eleições fastidiosas.

Por: Jorge Otinta

Poeta, ensaísta e crítico literário guineense

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