Editorial: ENTRE DESILUSÕES E DECEPÇÕES, O POVO GUINEENSE NÃO PERDE SEU ORGULHO!


A heroica luta pela liberdade e emancipação é incontestavelmente ponto mais alto do povo guineense na sua longa trajetória de resistência secular contra a ocupação e dominação estrangeiras. A junção de diferentes grupos do território em torno do ideal independentista foi, sem margem de dúvidas, uma das melhores arquiteturas políticas que só um Engenheiro de raro calibre como Amílcar Cabral podia conseguir com sucesso.

O processo que conduziu à consagração independentista foi árduo e a travessia podia-se alcançar com a abnegação de um povo orgulhoso. Humildemente, a independência,  fruto de onze anos de sacrifícios contra o poder colonial português, rapidamente transformou-se em pesadelo. O verdadeiro sentido da independência foi sistematicamente desvirtuado. A exploração colonial, substituída por uma nova forma de dominação perpetrada pelos próprios filhos de terra.

A miséria imposta pela desgovernação passou a ser o grande opressor do povo que deu o sacrifício supremo em prol da sua liberdade confiscada há séculos. O novo Estado proclamado nas colinas de Boé, sob signos de prestígio e admiração no mundo, foi capturado ao longo de décadas e o povo submetido à servidão sistemática resultante de ausência de visão de liderança orientada para o bem comum. A esmagadora da população vive longe de berma de Estado.

O heroísmo do povo guineense que inspirou vários movimentos de independência em África, na América, na Ásia, incluindo no próprio mundo ocidental, foi trocado pelo sentimento de “Djitu ka ten”, salve-se quem puder. Ajustes de contas entre companheiros de ontem, violência política, impunidade, corrupção, conformismo, foram marcas desses 46 anos. O multipartidarismo adoptado em 1991, sob imposição externa, ao invés de curar o mal, multiplicou e fertilizou as conflitualidades e colocou o Estado para o manto de vulnerabilidade e anarquia extremas. 

Desmaiado e desorientado, o Estado perdeu a sua alma. O almejado progresso sonhado pelos obreiros da independência é adiado ano após ano por fantasmas de protagonismo político, disputas fratricidas pelo poder e fome de roubar o povo. A permanente instabilidade política passou a ser mercada pela promoção de clientelismo e enriquecimento ilícito em detrimento do empobrecimento da esmagadora parte dos cidadãos deste país.

Passaram 46 anos e as estatísticas colocam o nosso país num quadro sombrio. Cerca de 60 por cento da população está na fatia de  analfabetismo, mais de 2/3 das vias rodoviárias estão por construir, os hospitais são autênticos cemitérios. A política, essa profissão nobre,  passou a ser um mero mecanismo de conversão de bens coletivos em propriedades privadas. Compra de consciência, burla, intrigas, tentativas de divisionismo com base em discursos étnicos. Tudo é válido para se impor nesse campo. 

As reformas estruturais de Estado não podem avançar perante a  inoperância dos partidos políticos capturados por cultura de máfia, corrupção, culto de personalidade, intrigas. A almejada agenda nacional permanece um horizonte. Entre desilusões e decepções, o povo guineense contínua de pé no caminho de resiliência. O vento de oceano vai transportando a esperança de um país possível e a certeza de uma mudança verdadeira à porta. O povo recuperará o poder e construirá o seu destino.

Por: Redação

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