Opinião: AS PME’s – UM “PEQUENO” GIGANTE DA ECONOMIA AFRICANA

Este ano, a Agência Francesa de Desenvolvimento financiou um estudo independente sobre “as causas de inadimplência das PME na África Subsaariana”, através do exemplo de garantias financeiras da “ARIZ”. A “AFD” trabalha há 15 anos nos países em desenvolvimento no financiamento para PMEs, por meio de mecanismo de garantia “ARIZ”. 

Há, entretanto, poucos estudos sobre a inadimplência das PMEs nos países em desenvolvimento, sobretudo em África. Mas, estão disponíveis dados diversificados de 7.400 linhas de empréstimo garantidas pela “ARIZ” em todo o mundo, a “AFD” tem feito uma análise, sem precedentes, sobre as causas de inadimplência das PMEs em África Subsaariana.

O estudo concentra-se nos empréstimos garantidos pela “ARIZ”, na África Subsaariana em geral (86% dos empréstimos garantidos) e, em particular, no Senegal, Costa do Marfim, Camarões e Madagascar; de fato, esses quatro países representam 60% dos empréstimos garantidos pela “ARIZ”, constituem 78% das garantias e quase 65% dos valores totais de remuneração. O estudo se concentra apenas nas PMEs da África Subsaariana e se adapta em cada país à definição de PME dada pelas instituições financeiras parceiras da “ARIZ”.

Segundo este mesmo estudo, as 10 principais causas de inadimplência de empréstimos para PMEs, mais citadas, em 10% dos casos são:

  • I. Problemas relacionados a fornecedores, subcontratados ou clientes da empresa (36% dos casos);
  • II. Más escolhas gerenciais que impactam a gestão, organização, eficiência e lucros da empresa (29% dos casos);
  • III. A modificação das características do mercado durante o projeto (evolução de mercados potenciais, como concorrência, consumidores, choques de demanda, menores vendas, etc) (23% dos casos);
  • IV. Escolhas financeiras e sistemas de financiamento (18% dos casos);
  • V. O ambiente financeiro;
  • VI. Escassez de habilidades dos gerentes da empresa;
  • VII. Problemas relacionados às infraestruturas locais ou dificuldades de funcionamento do ecossistema local;
  • VIII. O conhecimento do beneficiário final da existência de um mecanismo de garantia;
  • IX. O nível de risco assumido pelo banco;
  • X. O ambiente político e social…

No entanto, os bancos oferecem poucas linhas de crédito que são, efetivamente, adaptadas às necessidades das PME: 70% são empréstimos de curto prazo (menos de um ano) e menos de 2% possuem empréstimos com prazo de vencimento superior a 10 anos; no entanto, as PME necessitatam de crédito de longo prazo para amortizarem seus investimentos. As dificuldades de acesso ao crédito, apresentadas acima, são motivadas pelos critérios de seleção dos bancos. Os bancos alegam que aprendem com próprios“erros” e se acautelam nos seus procedimentos de alocação de fundos, de acordo com os padrões que devem ser observados. Os instrumentos de garantia são uma solução usada por alguns credores para fazer face às preocupações dos bancos em relacão ao risco de empréstimo para PMEs. Na sua forma mais simples, uma garantia de crédito é um contrato no qual um garante compartilha o risco de inadimplência do mutuário com o banco.

Para os autores do estudo, as PMEs são sensíveis a problemas relacionados com osatrasos de pagamento por parte dos seus clientes, nomeadamente (o Estado) e sofrem com a falta de estruturação e a falta de habilidades gerenciais que levam a más escolhas (diversificação excessiva) ou escolhas financeiras (montante do empréstimo muito alto, custo do serviço da dívida muito alto).

  • As PMEs são sensíveis a problemas relacionados às infraestruturas locais (rodovias e energia, com falha pontual ou crônica), mas também a crises políticas.
  • As crises ambientais raramente são mencionadas nos riscos, hoje, exceto em Madagascar. 
  • Em menor grau, o conhecimento do cliente sobre uma garantia “ARIZ” e o nível de risco assumido pelo banco são dois fatores recorrentes de inadimplência.
  • As políticas de apoio às PME (desde a aceleração dos procedimentos de registo da empresa até a criação de registos de garantia) são cruciais para o bom funcionamento das atividades das PME e, ainda assim, fracassam nos países do estudo. 
  • O “feedback” entre os governos e as PME sobre as ações de apoio adotadas é frequentemente insuficiente.
  • Vários fatores afetam o risco de inadimplência da empresa: montante do empréstimo, natureza do empréstimo, tipo de taxa, porcentagem do empréstimo garantido, tipo de investimento, idade da empresa, volume de negócios da empresa.
  • Em todos os empréstimos tomados em conjunto, a primeira inadimplência das empresas ocorreu após 40% da duração empréstimo, o percentual garantido não é discriminatório nem o valor da relação empréstimos / empréstimos.
  • O risco de “jogo negocial” é muito alto para empresas que ainda não são clientes dos bancos: esse risco aumenta para 64%. No entanto, esse risco é reduzido significativamente quando o prazo do empréstimo situar-se entre 12 e 24 meses.
  • Quando uma empresa já é cliente do banco, o tamanho da empresa está discriminando o risco de empréstimo: empresas com menos de 5 funcionários (9% da amostra geral) têm uma taxa mais alta (27%) do que aqueles com mais de 5 funcionários (88% da amostra geral, 5% de taxa de inadimplência).
  • Empréstimos “pequenos” (menos de até € 300, geralmente como garantias de carteira) e empréstimos “maiores” (acima de € 300, geralmente como garantias individuais) são alocados de maneira muito distinta. Empréstimos maiores são obviamente mais sensíveis às mudanças do mercado.

É interessante notar que foi observada uma discrepância entre os discursos de interlocutores e os resultados do estudo estatístico: se considerarmos que a população total de empresas cobertas pela garantia da “ARIZ”.

A iniciativa “AFD” grupo “Agence Française de Développement” que lançou, em 2019,a iniciativa “Choose Africa”, como a “porta de entrada” para todas as soluções de financiamento e de apoio de propostas pela “AFD”, e sua subsidiária dedicada ao financiamento de atores privados “Proparco”, através de parceiros locais. A “Choose Africa” dedicará mais de 2,5 bilhões de euros ao financiamento de “start-ups”, PMEs até 2022 – www.choose-africa.com.

Este financiamento inclui garantias dadas às instituições financeiras para cobrir parte de seus riscos para as PME que, eventualmente, podem financiar aos particulares, através do mecanismo de partilha de riscos da “ARIZ”.

Assim sendo, o mecanismo de “ARIZ” permitirá que as instituições financeiras tenham uma garantia na perda final para cobrir 50% a 75% de empréstimos, quer aos particulares ou carteira de empréstimos a PME.

Finalmente, vale salientar que as pequenas e médias empresas (PME) representam 90% do tecido empresarial africano e cerca de 60% dos empregos em todo continente.

Por: Santos Fernandes

Referência 

Financial Afrik – “Les principales causes de défaut des PME en Afrique”  acesso a 25 de Setembro de 2019.

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