Editorial: GUINÉ-BISSAU PAÍS DE COMENTADORES PERMANENTES SEM JORNALISTAS

Tal como em qualquer sociedade democrática contemporânea, a cultura digital em que hoje vivemos na Guiné-Bissau estabeleceu também no nosso país uma mudança profunda da relação entre o jornalista e o cidadão. Essa mudança assenta-se fundamentalmente na emergência, na esfera pública nacional, de uma cultura de Comentadores Permanentes nos órgãos de Comunicação social. É verdade que hoje no nosso país a cultura digital liquidou por completo as fronteiras que outrora existiam entre os cidadãos e os jornalistas, estabelecendo uma nova relação entre os Comentadores Permanentes dos Órgãos de Comunicação Social e o público nacional.

O que permitiu aos Comentadores Permanentes multiplicar na nossa esfera pública, a produção de conteúdos informativos sobre os diferentes setores da vida social do nosso país. O país vive hoje uma era da participação ou seja, a era dos Comentadores Permanentes sem jornalistas, isto é, vivemos perante uma mera invasão do espaço jornalístico uma vez que nenhum dos Comentadores Permanentes deseja transformar-se em jornalista profissional.

Todos os Comentadores Permanentes dos órgãos de Comunicação Social não têm uma visão jornalística de transformar uma informação em notícia, porque não são dotados de sentido de ir buscar e noticiar os fatos relevantes, atuais e verificáveis. Por outro lado, desconhecem, por completo, os Meios de Assegurar a Responsabilidade Social dos Media e os princípios fundadores da Deontologia do Jornalismo. Aliás, se antes na nossa sociedade democrática, eram os jornalistas que iam a procura de informação, hoje são as informações que vão a procura dos Comentadores Permanentes dos Órgãos de Comunicação Social.

A meu ver, hoje na nossa sociedade democrática contemporânea não é menos verdade que por muito maus que os jornalistas e os órgãos de Comunicação Social sejam, continuam a ser infinitamente melhores do que as redes sociais como fontes de informações que os Comentadores Permanentes utilizam na produção dos seus conteúdos informativos. Os Comentadores Permanentes são exteriores a vida de um Órgão de Comunicação Social. Portanto, preocupam-se mais com o espaço que nele ocupam, com a visibilidade que lhes é oferecida e de onde retiram o capital simbólico que convertem em capital real. Por seu lado, o jornalista da redação faz sempre parte de um corpo de um Órgão de Comunicação Social que exclui na sua ação profissional a procura do capital simbólico e a prática de visibilidade.

Este cenário de a Guiné-Bissau ser hoje um país de Comentadores Permanentes sem Jornalistas está a ter um impacto negativo na Justiça intergeracional do jornalismo nacional uma vez que está neste momento a dificultar a instauração, nos Órgãos de Comunicação Social, de Instâncias Internas de produção de conteúdos jornalísticos de qualidade para o consumo. O que terá como consequência a ausência de uma prática forte de consciencialização da nova geração de jornalistas guineenses na produção técnica de conteúdos noticiosos.

No contexto da Guiné-Bissau as Instâncias Internas de produção de conteúdos noticiosos são instrumentos cujos valores são essenciais para a nova geração de jornalistas, uma vez que os habilitarão de Meios de Assegurar a Responsabilidade Social dos Media e dos Princípios Fundadores de Deontologia do Jornalismo que sustentam a responsabilidade da nova geração dos Jornalistas perante o público de valores democráticos: a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, de opinião e o direito à informação.

A meu ver, o cenário de justiça intergeracional mais justo na Guiné-Bissau seria a da atual geração de jornalistas deixarem a geração vindouraqq as Instâncias Internas de produção técnica de conteúdos noticiosos de qualidade no jornalismo guineense. Esta herança das Instâncias Internas na produção técnica de conteúdos jornalísticos seria uma prova da existência clara de um critério e de uma Justiça Intergeracional no jornalismo da Guiné-Bissau.

Por: António Nhaga

Diretor-Geral/ Editor principal

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