Opinião: HETEROGENEIDADE DA SOCIEDADE GUINEENSE: Nossa benção ou maldição?

O país está mais uma vez à beira de uma eleição presidencial, já se ouvem, se leem vários comentários que de certo modo coloca a heterogeneidade da nossa sociedade como um dos problemas que asfixia constantemente a nossa incipiente democracia. Geralmente, os comentários que nos levam à tal conclusão veem dos nossos políticos, que durante o período de caça ao voto (campanha eleitoral), dentro da pútrida lógica de fazer política de alguns deles, acabam utilizando-se das questões “étnicas” como forma de conseguir angariar votos. Isto é, os que estão na vanguarda da nossa democracia são principais, talvez únicos responsáveis por fazer mau uso dessa riqueza que o nosso país tem, com vista a tirar seus proveitos mesquinhos e voláteis.

Postergar a discussão em volta desse assunto, ou fazê-lo de modo sensacionalista, leviano, irresponsável e oportunista, como fazem alguns dos nossos políticos, em nada ajuda a nossa compreensão  sobre esse assunto de tamanha importância, que tem potencial para ser uma grande riqueza/benção como já foi e vem sendo em alguns momentos da nossa história, principalmente, no âmbito da cultura, assim como pode ser uma bomba relógio para nós em caso da sua má percepção e utilização. É importante termos coragem de discutir essa questão, é o que pretendo começar aqui, não tenho pretensão de dar uma resposta pronta e inconcusso, muito pelo contrário, o meu propósito é simplesmente chamar atenção das pessoas sobre essa questão, e dizer  que já não dá mais para ignorá-la com falas como: “Somos todos guineenses, não existe diferença, ou guineenses é um povo só”.

Precisamos ter coragem, maturidade, clareza e entendimento suficiente para dizer que somos todos guineense sim e temos orgulho disso, entretanto, sem negar que antes de sermos guineenses, temos nossos “grupos étnicos”. Aliás, antes de existir o que hoje é Guiné-Bissau e, consequentemente guineenses, o que existia eram territórios de diferentes “etnias”. Isto é, a nossa existência enquanto manjaco,mancanha, nalu, felupe, balanta, mandinga, fula, etc. antecede a nossa existência enquanto guineense, não podemos e nem precisamos negar esse fato em nome duma presumível unidade. Apenas precisamos nos respeitar enquanto membros de “etnias” distintas e pensar a Guiné-Bissau como um espaço de todas essas etnias, aliás, o povo guineense tem feito isso com excelência. Talvez não consiga provar que a nossa heterogeneidade não é a nossa maldição/pobreza, mas convido-lhe caro leitor de O Democrata a refletir comigo sobre o nosso passado recente.

Os que defendem a tese de que a nossa heterogeneidade é maior problema que temos, portanto, uma pobreza da nossa sociedade, partem do pressuposto de que a nossa sociedade é muito fragmentada de modo que fica difícil achar convergência de interesses, logo, a disputa e discórdia se torna constante. A nossa história da luta de libertação prova o contrário, Amílcar Cabral na condição de líder do Partido Africano para Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) conseguiu mobilizar juntamente com outros camaradas, obviamente, todas as etnias do país em torno da bandeira da independência do país. É claro que uma ou outra participou mais ou menos em termos numéricos (o que também se explica por várias razões), mas o fato é que todos participaram. Outro fato que depõe contra essa tese é que nunca houve guerra “étnica” no país, sem falar que o casamento “interétnico” não causa mais desconforto a ninguém na Guiné-Bissau, ou seja, a sociedade guineense lida muito bem com essa questão.

Ao contrário de alguns, endosso a tese de que a nossa heterogeneidade “étnica” é uma riqueza/benção. Porque em primeiro lugar, não nos impede de unir em torno de uma causa, como foi o caso da luta de libertação, não nos fecha cada um no seu círculo (dividimos escolas, hospitais, mercados, etc.), sem falar que não existe ódio declarado entre as “etnias”, etc. Por outro lado, graças a ela temos uma riqueza cultural invejável, isso perpassa a música, a gastronomia, a dança, as línguas e uma cosmovisão muito ampla e riquíssima. Poderia encher páginas e páginas mencionando as riquezas que advém desse fator, mas para não ser fatigante, cinjo-me a esses exemplos. Diante desses fatos que contrariam radicalmente a tese de pobreza/maldição, a pergunta a ser feita é seguinte: A quem interessa encarar a nossa pluralidade étnica como sendo um problema?

Por: Fernando Colonia

Licenciando em Ciências Sociais

São Francisco do Conde, Bahia, Brasil, 21/10/2019

2 comments

  1. Amadú N'Duro Baldé disse:

    Excelentes questionários, eu acho que deve servir de base para cada um de nós enquanto guineenses, ou seja, pessoas comprometidas com a violência ou desumanização. O momento é crucial para estar defender interesses alheios.
    Grande trabalho!

  2. Luís Carlos Mida Nhaslambé disse:

    Bravo mano.

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