Opinião: O PERIGO DE TER UM POLÍTICO DE ESTIMAÇÃO

Político de estimação é aquele político de quem você não consegue se discordar, apoia qualquer que seja ideia por ele apresentada, em outras palavras, é aquele  que para você sempre está certo, aquele  perante o qual você perde literalmente a capacidade de discrepar, e essa incapacidade de diferir dele/a não se deve muitas das vezes ao seu brilhantismo em termos de pensamentos e propostas, ou a similaridade do vosso raciocínio. Na maioria das vezes, tem mais a ver com a forma como ele fala, se veste, se apresenta ao público (coisas fúteis), etc. do que as ideias boas ou confluentes que expõe.

Isto é, o seu político de estimação conta sempre com seu apoio independentemente dos equívocos que comete ou teses erradas, as vezes perigosas que defende, e o pior é que, recorrentemente você sai em sua defesa ridicularizando, hostilizando e com muita frequência demonizando (através da lógica maniqueísta) a parte divergente, colocando-o no lugar de infalível, ainda que hipocritamente finge acreditar que ele é imperfeito, portanto, passível de cometer erros. Entretanto, não consegue nem apontar os erros dele, quanto mais discordar e ter capacidade de lhe tecer uma única crítica, ainda que construtiva.

No livro “como as democracias morrem”, publicado em 2018, da autoria de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, que rapidamente conquistou o mundo, dentro do campo da ciência política, os dois traçaram o perfil de um autoritário, tomando como arquétipo alguns líderes políticos do passado, nomeadamente, Adolf Hitler, líder do Nazismo alemão, Benito Mussolini, maioral do fascismo italiano e Hugo Rafael Chávez Farias (Vulgo Hugo Chávez), expoente máximo do bolivarianismo venezuelano. Os três tinham muitas similaridades, todavia, para nossa análise aqui, só uma característica que os três apresentavam nos interessa. Trata-se da ultraestimação destes por parte da população ou seguidores, eram quase que adorados pelos seus partidários, sob beneplácito destes se ascenderam ao poder, e a consequência disso foi implementação de regimes autoritários nesses países como a história consignou.

Hoje, o nosso país (Guiné-Bissau) se encontra dividido de maneira provavelmente jamais vista em toda sua história democrática, em termos de visão política da realidade guineense (o advento de redes sociais tem contribuído na exposição dessa divisão). De um lado, temos aqueles que acham que o Partido Africano para Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) é o câncer do país (resguardando, obviamente, sempre o seu passado heróico  na luta de libertação), que o impede de desenvolver, argumentando que é o partido que mais governou o país e nada fez. Portanto, é urgente a sua destruição (PAIGC didi kabadu kel) enquanto partido político mais forte do país, e para atingir tal objetivo vale tudo, inclusive violar sistematicamente as leis e a Constituição do país se for preciso. Do outro lado, temos aqueles que acreditam que o PAIGC se renovou sob a liderança de Eng. Domingos Simões Pereira (DSP), e no momento, é a única opção de desenvolvimento do país, deste modo, é  o único partido digno e merecedor de apoio de todos os cidadãos guineenses realmente comprometidos com o desenvolvimento do país, assim sendo, quem está do outro lado, é antirrepublicano. Os dois lados são extremos; ainda bem que existem outros lados!

Uma parte dessa divisão é encabeçado pelo “jomavismo” que se instalou no país nos últimos 5 anos e, que é movido por vários fatores, mas o principal motor que  move a ala extremista deste lado, a meu ver, é o ódio a PAIGC (grande número de pessoas que apoiam o José Mário Vaz, vulgo JOMAV são pessoas que não escondem suas revoltas contra o PAIGC, algo para mim cognoscível, tendo em vista o histórico da governação partido. No entanto, os extremistas acham que qualquer atitude a partir desse pressuposto se justifica) a hostilidade do jomavismo (regime que por ironia do destino só se instalou no país graças ao PAIGC, que o colocou no poder, em 2014) com o PAIGC é algo estarrecedor, salta aos olhos, é impossível de não ser percebido mesmo para as pessoas menos atentas.

Outra parte, é, por sua vez, liderada por aqueles que acreditam piamente na renovação do PAIGC, são em sua maioria cidadãos que confiam na intelectualidade,  isto é, são pessoas que entendem que já está na hora do país ser governado por jovens, e principalmente, jovens formados, eles enxergam em DSP a possibilidade dessa realização, e “por acaso” as pessoas que endossam essa tese são maioritariamente pessoas que gozam de um certo tipo de privilégio social, basta ver os resultados das últimas eleições legislativas de 10 de março de 2019, ficou claro ali que os “libertadores” contaram com mais apoio de pessoas com maior nível acadêmico e moradores de zona urbana, especialmente da capital Bissau. A ala extremista deste lado é movida pelo desprezo e ridicularização daqueles que não consideram intelectuais (os chamam de burros, atrasados e incompetentes).

Os dois líderes políticos (JOMAV e DSP)) atualmente, na Guiné-Bissau estão sendo políticos de estimação de um vasto número de pessoas.

No meio desses dois extremos existe um grupo de cidadãos moderados que não acredita em nenhuma dessas proposições de maneira integral e rigorosa, por isso, consegue dialogar e checar as propostas dos dois extremos, e a partir disso tirar suas ilações de maneira mais razoável possível, algo que os extremistas simplesmente dispensam. No entanto, essas pessoas são tachadas várias vezes de “isentões”, ou seja, são consideradas por extremistas dos dois lados de pessoas que não têm posição, como se ser extremista fosse a única posição existente! Na verdade, essas pessoas são mais sensatas que os extremistas que as rotulam, são elas as guardiãs da razoabilidade dentro do processo democrático.

Vale elucidar que não estou chamando os dois líderes de extremistas ou autoritários, muito menos afirmando que todos os que os apoiam são radicais ou extremistas, apenas estou dizendo que existe um radicalismo latente tanto de um lado, quanto do outro, coisa muito nociva para nossa incipiente democracia. E o mais importante, estou chamando atenção das pessoas no sentido de não transformarem os dois, e nenhum outro político, em seu político de estimação, para não incorrer no desacerto de transformar este político em um autoritário como foi o caso dos países citados anteriormente. Nós não merecemos e presumo que a grande maioria da população guineense não quer um presidente ditador, nem dos pretenciosos intelectuais, nem dos hipotéticos novos revolucionários insatisfeitos com os (des)mandos do PAIGC no passado, queremos, sim, a democracia e a pluralidade de ideias.

Mais uma vez somos convocados à festa da democracia (campanha eleitoral), que culminará com a escolha de um novo Presidente da República, vamos ouvir o que eles (candidatos) têm a nos dizer, vamos avaliar as ideias, vamos analisar se eles têm mesmo ciência da responsabilidade do cargo que pleiteiam, etc. vamos ouvir todas as partes e tirar as melhores conclusões, vamos deixar de lado qualquer tipo de comportamento que não coaduna com o espírito democrático, porque em última análise o que está em jogo é o nosso país. Não vamos fazer apologia ao autoritarismo de nenhum lado, pois as nossas instituições não teriam menor chance de conter um autoritário que chegasse ao poder; essa não é apenas opinião minha, é fato. Elas têm provado reiteradamente as suas fragilidades ao longo da história da nossa embrionária democracia.

Viva democracia! Viva pluralidade de ideias! Viva Guiné-Bissau!

Por: Fernando Colonia (o bolamense)

Licenciando em Ciências Sociais

São Paulo, Brasil, 03/11/2019

Referência

LEVITSKY, Steven & ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. edição: 1ª. 2018.

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