Diretor de centro saúde Bambadinca: “NÚMERO DE PACIENTES COM HIV/SIDA QUE TEMOS ULTRAPASSA O NÚMERO DE PREVALÊNCIA DA CIDADE DE BAFATÁ”


[REPORTAGEM_Novembro 2019] O director de centro de saúde de Bambadinca, Anderson Afonso Martins Bitipta, revelou numa entrevista exclusiva ao semanário guineense O Democrata, que o número de pacientes com HIV/SIDA que detém naquele centro ultrapassa o da prevalência da cidade de Bafatá, que segundo ele, é de 7.9 por cento da prevalência na região de Bafatá. Acrescentou ainda que Bambadinca é o setor com maior taxa de HIV/SIDA no país e com a maior prevalência nos jovens, que considera serem mais vulneráveis a essa pandemia. Bambadinca é um dos seis sectores da região de Bafatá no leste do país, conta com uma área territorial de 843 km² e dista a 123 quilómetros de Bissau, com uma população estimada em 32.000 habitantes de acordo com o senso de 2009. 

O Democrata apurou que o centro de saúde de Bambadinca, padece de problemas sérios relativamente ao fornecimento da água potável e eletrificação. E à semelhança de vários centros hospitalares do país, o centro de saúde local, “tipo C”, não tem há mais de uma década luz elétrica, água potável e nem recursos humanos para cobrir sessenta aldeias circundantes, que fazem parte da sua área sanitária e outras comunidades arredores, ou seja, áreas com acesso direto ao posto de Bambadinca. 

O centro conta com doze pessoas, das quais uma parteira, dois médicos, cinco enfermeiros, duas serventes, dois motoristas e um técnico de laboratório. Atualmente, o centro não tem ambulância e faz evacuação dos doentes apenas com moto ambulância, que também só faz serviços técnicos, isto é, pegar amostras ou levar alguns materiais para diferentes zonas do setor, áreas sanitárias sob controlo de sector de Bambadinca e, consequentemente, leva-los para a região sanitária de Bafatá.

DIRETOR DE CENTRO: “HÁ DOZE ANOS QUE O CENTRO NÃO DISPÕE DE ENERGIA E NEM ÁGUA POTÁVEL”

De acordo com as informações a que a nossa equipa de reportagem teve acesso, em caso de necessidade de evacuação de doentes os familiares dos pacientes recorrem recorrentemente a motos alugueres e carros. E preços variam de acordo com a distância e do meio recorrido. Ou seja, de três a sete mil francos CFA para os moto-caros e em relação às viaturas, o preço às vezes oscila até aos quinze mil francos CFA.

Soube ainda o semanário O Democrata que atual centro de saúde de sector de Bambadinca era um posto diurno na era colonial utilizado pelos militares portugueses e pertencia ao quartel. E soube igualmente que o centro não tem nenhum farmacêutico e que apenas são os enfermeiros é que se ocupam desse serviço.  

A nossa equipa visitou quase todos os serviços e constatou que o centro conta apenas com cinco camas, uma marquesa, mas em condições higiênicas extremamente precárias. As salas estavam cheias de poeiras e camas para os tratamentos ambulatórios sem lenções.      

O diretor do Centro de saúde de Bambadinca, Anderson Afonso Martins Bitipta, em reação a essa situação numa entrevista concedida ao semanário, mostrou-se preocupado com o nível de taxa de propagação de doenças sexualmente transmissíveis, abortos espontâneos e infeções vaginais, particularmente HIV/SIDA e cervicitis(inflamação do colo uterina suscetível de  apresentar sempre dores com nível baixo no ventre ou não).

Disse que a maior preocupação reside em pessoas com idade reprodutiva em termos de saúde reprodutiva, o fato de serem os mais ativos a procurar centros de saúde. Porém, também muito negligentes em respeitar os conselhos.

“Esse fato releva o número de pacientes com HIV/SIDA que temos e que ultrapassa o número de prevalência da cidade de Bafatá, isto é, 7.9 por cento da prevalência na região de Bafatá. E Bambadinca é o sector com mais taxa de HIV/SIDA, mas  os jovens são os  mais vulneráveis a essa pandemia”, revela.

Na observação do técnico sanitário, para fazer face a essa situação tanto  a direção setorial como regional têm desenvolvido junto dos parceiros as atividades de sensibilização, palestras com a juventude nas escolas no sentido de fazer com que as camadas jovem, adolescentes e pré-adolescentes se previnam e lutem contra essa infeção.

Relativamente ao aborto espontâneo, Anderson diz acreditar, no entanto, que trabalho pesado feito diariamente pelas mulheres para se autossustentarem e assegurar sustentos dos seus filhos esteja na origem de aborto espontâneo nas mulheres daquela zona leste do país. Para além de trabalho pesado e sobrecarga das atividades domésticas, Anderson Afonso Martins Bitipta aponta ainda dieta alimentar das comunidades como uma das razões para existência de número de casos de aborto espontâneo e partos prematuros que o setor de Bambadinca vem registando nos últimos tempos com maior frequência.      

Enalteceu, no entanto, a importância e atividade que os agentes comunitários têm feito junto da população. Segundo o médico Anderson, a população tem colaborado significativamente para a prevenção de doenças como o paludismo. Informou neste particular que em caso de emergência procuram sempre serviços médicos para o tratamento das suas enfermidades. Não só como também preocupam ter sempre acompanhamento médico e aponta como um dos exemplos gestantes. Porém, confessa que não tem controlo a cem por cento de toda a situação.

Em termos clínicos, o paludismo continuou a ser a doença mais frequente, apesar das medidas de prevenção e de despistagem adotadas pelo ministério e a colaboração das comunidades na prevenção e tratamento dessa doença.

Contou que há doze anos que o centro funciona sem eletrificação e nem de água potável, o que torna ainda mais difícil a situação sanitária daquela localidade. Relata igualmente que houve momento em que um dos parceiros tomou a iniciativa de instalar um grupo de gerador para cobrir as dificuldades, mas que, no entanto, a iniciativa não andou. O responsável indicou ainda que, atualmente, o centro beneficia de corrente elétrica graças à intervenção de um projeto privado, mas que, no entanto, é insuficiente para fazer funcionar todos os serviços. Aliás, o fornecimento é feito se o projeto não tiver muita sobrecarga nas suas atividades.

O mesmo técnico revelou que há 12 anos que o hospital tem contribuído, ou seja, tem facilitado na contaminação dos seus pacientes, tendo em conta à má qualidade de água dos poços vizinhos.

Explicou que conseguem esterilizar, ou seja, fazer a descontaminação dos materiais e artigos médico-hospitalares através da autoclave (um aparelho utilizado para esterilizar os materiais por meio do calor húmido sob pressão), doado pelo Programa de Luta Contra a Mortalidade Materna Infantil (PIMI2).

Considerou crítico e insuficiente o número de compartimentos que o centro tem e também da capacidade infraestrutural do mesmo para suportar o grande número de habitantes locais, que diariamente procuram seus serviços.

De acordo com os dados estatísticos revelados por Anderson, sua área sanitária cobre uma população de quase 34. 481 mil habitantes, o que para ele é preocupante. Explicou ainda que o centro continua a funcionar com a característica de um centro apenas para tratamento ambulatório. Para além desse dado estatístico, Anderson lembrou ainda que a estrutura do centro condiciona também as atividades de rotinas de técnicos que trabalham no centro.

“O espaço do centro é limitado. No entanto, não consegue cobrir ou albergar o número de habitantes do sector e pacientes que recorrem ao centro hospitalar local para procurar atendimento médico”, reforçou, alertando que para contornar a situação ou problemas será necessário redobrar esforços para que os mesmos possam ser contornados e atender dignamente seus utentes.

Anderson é da opinião que seja ampliada a dimensão do centro, de modo a permitir que se possa também alargar os serviços e, consequentemente, aumentar número de técnicos necessários para cobrir toda a sua área sanitária.

Segundo Anderson, ambulância que neste momento faz operações ao nível do setor e a região sanitária de Bafatá só movimenta se houver emergências, tendo em conta que faz também serviços para as outras 13 áreas sanitárias pertencentes à região sanitária de Bafatá com os mesmos problemas.

Explicou que os familiares dos pacientes são obrigados a recorrerem a caros privados (pessoas de boa vontade) ou alugueres incluindo motos-carros para transportar seus pacientes das comunidades para o hospital de Bafatá. Relativamente a evacuação das grávidas, explicou que o custo é assegurado pelo PIMI2. Tirando essa parte, o resto é suportado pelo hospital ou pelos familiares dos pacientes e em caso de haver a necessidade de disponibilização da ambulância, familiares suportam todos os custos, incluindo a compra de combustível.

Segundo Anderson Afonso Martins Bitipta, o centro funciona todos os dias uteis, apesar de todas as dificuldades que enfrenta.  Em caso de emergência nos fins-de-semanas o atendimento é reservado a casos ambulatórios. E tratando-se de internamento, o doente é imediatamente evacuado para o hospital de Bafatá, que reúne condições para atender casos fora da capacidade do centro de saúde de Bambadinca.

Por: Epifania Mendonça

Foto: E.M

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Figura de Semana

Edição Impressa