Crônica: O DECRETO ROLAPIPA

Quando se chega à casa dos 40 nada, mas nada mais mesmo, nos intimida, ainda que estejamos à beira da morte anunciada. Nada mais mesmo. O que, se é que se pode chamar isto de dia, nos atormentava, deixa de nos atormentar, mesmo sendo um dia medonho. Apenas seguimos os trilhos que a vida ainda nos oferece para caminhar; e, se possível mesmo, sonhar.

Porém sonhar no sentido de vermos posto na prática àquilo que projetávamos, ou almejávamos, e quiçá, desejávamos que nos acontecesse. De preferência algo de bom, altamente profícuo para o nosso presente e simultaneamente para o nosso futuro, fazendo-nos esquecer as agruras do passado.

Sonho e realidadade são as duas faces da vida que, continuamente, nos perseguem porque somos nós os protagonistas da nossa história – quando assim queremos o ser. Paradoxalmente, podemos ser ainda os coadjuvantes da nossa história quando deixamos que terceiros interfiram nas nossas ações, e nos nossos pensamentos, afetando sobremaneira as nossas realizações.

Já vi tantas coisas nesta vida, e já vivi tantas experiências que, decerto, julgo-me à altura de fazer alguns juízos de valor acerca da vida quotidiana no nosso país.

Situações tão sui generis, mas tão singulares – e se fosse pela positiva, vá que não vá, porém não se trata do caso -, que, por mais incrível que possa parecer deixa a qualquer no mínimo tonto.

Assim, começo por narrar sucintamente a história de homem que queria ser o melhor rei de todos os tempos; que, de certa maneira, alguma vez se viu na nossa história menina:

  1. As reiteradas trapalhadas do Rei

Não volto ao passado longínquo de há cinco anos atrás. Vou repescar diretamente o passado recente que é simultaneamente presente. Assistimos em cinco a 7 sete governos, sendo que o primeiro com 36 horas de existência, o segundo com um primeiro-ministro sem elenco governamental.

Cena, no mínimo, patético. E para não piorar… mão preciso dizer mais nada. Depois do prazo vencido do mandato, o rei sai com mais uma de suas tiradas sarcásticas. Pois, brindou-nos com mais dois governos em três meses. Isto não beira à loucura? Senão? Entretanto beira à estuidez típica de quem estando na Cidade ainda comporta como se estivesse no mais distante do meio rural. Lá onde o Judas perdeu as botas; ou se preferirem para parafrasear um dos volumes da trilogia romanesca do escritor português Lobo Antunes: Os Cus de Judas.

Isto, às vezes não parece pátria, mas qualquer coisa em que um grupo de abutres que se apoderou do poder,  acossa as suas sarnas, e acaba, todo o grupo, por querer emburrecer toda a nação guineense.

Para dizer, mais do que isso, mas de um forma mais sucinta, assistimos em Outubro de que tal como na Europa se o processo de centralização política – passa-se o termo, fica nas mãos do rei conquistar mais um mandato para si. Aventurou-se tal como na formação dos Estados modernos do velho continente; então ele, tal como os reis do continente ora citado que almejavam conquistar riquezas no Além-Mar. Propunham, com isso, auferir de novos mercados ao mesmo tempo em que expandiam o comércio. Assim, o nosso monarca parecia que queria era conquistar um novo mandato para melhor pôr o país de joelho. Ou seja, ter a oportunidade de enriquecer-se ilicitamente à custa de toda a nação.

Pois ficou provado que projeto nenhum tinha para o país, que não fosse entrar em guerra para, descuidando o povo, subtrair do erário público e dos presumíveis amigos doutras prátrias frátrias e mátrias, avultadas somas em dinheiro para se transformar no homem mais rico da Guiné-Bissau. Coitado! Esqueceu-se de combinar com os seus deuses. Aliás, seus deuses, esqueceram-se de que cada um de nós também dispõe de sua força etérea.

Depois de esgotados todos os meios, frustrado todas as expectativas do cidadão comum, ainda sai com este de Decreto Rola Pipa, em que o voar e o cair constituem metáforas do mesmo poema.

Confundiu, outrossim, comandante supremo com comandante em Chefe. Precisa de aulas de linguística. No primeiro caso, aconselho-o a sê-lo no seu lar; o segundo, já passou, apenas está como as personagens figurantes que entram na narrativa apenas para ilustrar, e quando muito, bater palmas. Uma certa performance, não muito especial, para enriquecer o entrecho narrativo.

  • Paixão pela insana hegemonia patrimonial

É verdade que nós os outros não dispomos de nenhum património material. Primeiro porque não herdámo-lo de nossos progenitores; segundo porque ainda as paredes de concreto instaladas na nossa sociedade não permitiu com que os tipos da Libido dominante, os insaciáveis pelo domínio de toda a nação e de sua população, sem grande preparo intelectual, desenvolvessem esta paixão desenfreada pela hegemonia da burrice.

Meu caro rei das trapalhadas constitucionais, administrativas, pessoais e políticas, o mundo mudou. Já é outro até crianças não são mais como antigamente para se contentarem com uma chucha à boca.

Os dias passam, as pessoas mudam. Pois, em parte algum do planeta, o homem parou de pensar. É tanto o esforço de produzir, de gerar rendas, rendimentos, e riquezas, que, hoje, graças às tecnologias de informação e comunicação, permite-lhe ver o mundo e outros quadrantes dele por vários ângulos.

Dizia Aristóteles: o homem é, por natureza, um ser vivo político. Traduzido para uma forma mais simples: ele é um animal político.

Todos nós entendemos – mas fingimos que acreditávamos nas suas astúcias, até que sejas enterrado politicamente, ainda que aparentemente vivo.

Às vezes pensando cá com os meus botões pergunto-me a mim mesmo: se poderás aguentar na pele de ex-rei por muito tempo neste país, ou se procurarás um exílio no esterior. Desculpe-me tratá-lo por TU, já não és Sua Excelência, pois passaste agora à fórmula de tratamento deferencial: Sua Falência Intelectual. E estás ainda mais debilitado, depois da estrondosa derrota eleitoral, mas bem fizeste a rogar-se no colo do teu menino bonito.

Não quero nem imaginar como ficará a sua imagem pública, nem a política. É caso de um estudo minucioso.

Faltou humildade ao anunciar que o decreto não cairia, não fosse isso talvez tivesses saída. Agora a tua única saída, depois de anos de trapalhadas, será sem dúvida dar prioridade à mensagem que justifique por que falhaste, às ideias que ostentavas em 2014, que não eram tuas, e ao debate consigo e com os seus séquitos. Mas como não ouves – para não dizer escutar – ninguém. Bye, bye!

À guisa da conclusão: um homem só atinge a felicidades através da virtude. In medio virtus. Quer dizer em Latim que a prática da virtude está na moderação e na prudência, na sapiência e no conhecimento (científico, se preferir). Assim sendo, tiveste, sim, a reles satisfação das tuas necessidades individuais, mas não supristes as necessidades coletivas. Isto ficará marcado na memória coletiva da nossa subjetividade nacional. Do melhor rei que tinhas prometido ser, acabaste por contentar-te com o não-rei.

Caro leitor d ̓O Democrata, excelente leitura e interpretação, como queira, deste texto. Para dizer apenas ao rei morto: nós que aqui estamos – e deixados por ti à mercè da própria sorte – por ti esperamos – quiçá esperávamso que assim fosse o teu fim: entre anjos e demónios, arcànjos e querubins!

Quinhamel, 10 de dezembro de 2019.

Por: Jorge Otinta

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