Odete Semedo: “O PANO DE PENTE E A CONSTRUÇÃO DA HUMANIDADE SÃO A MESMA COISA”

A escritora guineense, Odete Semedo, afirmou na quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020, que o pano de pente e a construção da humanidade ou da nação são a mesma coisa, onde é preciso ter um rapazinho que levante a tábua para ajudar o tecelão, a mulher a torcer a ponta de pano, “e todos têm lugar porque é um aprendizado com os tecelões de pano”.

Semedo fez esta afirmação na sua exposição de panos de pente no memorial da escravatura na cidade de Cacheu à margem da abertura dos trabalhos do primeiro simpósio internacional “Cacheu caminho de escravos. Histórias e memórias da escravatura e do tráfico na África Ocidental”.

A escritora, que atualmente exerce a função da ministra da Administração Territorial e Gestão Eleitoral, explicou que o pano de pente tem vários simbolismos.

“O babaram que serve para portar o bebé, o “lancom” que são panos nobres usados por “djambacus”, régulos e líderes de opinião na comunidade, o “lopé” que serve para trabalhos de campo e ainda há panos de “ronco” (ostentação) utilizados nas cerimónias de casamento, portanto cada um tem o seu significado”, explicou.

Odete Semedo alertou que, por falta do conhecimento do valor e gamas do pano de pente, às vezes vê-se que é oferecido a alguém um pano que na verdade não o merece, “sobretudo no caso de dar um lanciado a uma autoridade que merecia um “latrus” ou um ‘baba catcheu'”. Defendeu por isso que é preciso abrir a porta da cultura e poder dar a conhecer aquilo que é de raiz guineense.

A governanta salientou que os guineenses devem ter a coragem de se apresentarem junto das pessoas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), como pessoas instruídas e respeitadoras da tradição e que consigam encarrar o pano de pente e dar-lhe o seu verdadeiro valor.

Odete Semedo lembrou que o pano de pente é uma arte, na maior parte é feito por pessoas não escolarizadas que vão para lá do código binário, um trabalho de ciência e de computação e pode-se tornar num trabalho gerador de rendimentos, tendo sublinhado que o memorial de Cacheu chama a atenção para uma reconciliação com a história guineense. 

Alertou que é da responsabilidade de todos corrigirem as distorções dessa história da escravatura que não satisfaz nada e construir uma nova história a partir da qual se pode começar pelo domínio do género.

Por: Djamila da Silva

Foto: D.S

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