Editorial: JORNALISMO NA GUINÉ-BISSAU NA ERA PÓS PANDEMIA DE COVID-19

[Edição de 20 de maio de 2020] Dantes, qualquer jornalista digno deste nome sabia perfeitamente que em tempo de guerra, a primeira baixa era sempre a verdade de que a guerra já se tinha iniciado. E sabia-se também muito bem como documentar, apurar e verificar os factos na linha da frente do combate dentre dois países ou duas fações em confronto. Mas hoje, na Era da crise, do confinamento e de distanciamento entre jornalistas e fontes de notícias, arriscamos muito ao praticar, na Guiné-Bissau, um jornalismo apressado e sem informação precisa. No nosso país vivemos no tempo da guerra do corona-invisível das fontes de informação cuja primeira baixa não significou nem significará a verdade factual das notícias produzidas na imprensa.

Hoje, o jornalismo guineense em tempo de pandemia, vive num oceano de Cafumbam (“Fake News”) e de Cafumbamdade (“Gaslighting”). O que torna e tornará sempre os princípios fundadores do jornalismo cada vez mais em uma das vantagens competitivas do nosso jornalismo. Por outro lado, coloca, nesta fase da pandemia, os Media e os jornalistas guineenses à procura de saber o que vai mudar e como está a mudar  o jornalismo nacional. A resposta às duas questões é bastante complexa porque também ainda não sabemos a quantidade dos Media e de jornalistas nacionais que vão sobreviver a esta  pandemia do coronavírus. Mas, podemos pensar como é que os Media e os jornalistas nacionais que hoje produzem conteúdos noticiosos poderão mudar na Era pós-covid-19.

A nosso ver, se a crise atual da pandemia do covid-19 fechar muitas empresas dos Media na Guiné-Bissau, haverá inevitavelmente um grande número de jornalistas desempregados. O que levará os Media e o Jornalismo do nosso país a perder, sem dúvida, o seu atual ecossistema de diversidade da opinião pública democrática. E quanto mais reduzidos forem os Media e os Jornalistas, menos diversidade de opinião pública democrática haverá na nossa esfera pública. E quanto menor for a diversidade de opiniões públicas democráticas mais controle político e económico da classe política haverá na produção de notícias.

Na nossa visão, as informações que os Media e os Jornalistas guineenses produzirão, na Era pós pandemia de covid-19, dependerão muito do seu novo ecossistema de produção de conteúdo noticioso. Com certeza, na Era pós-covid-19, haverá muito menos jornalistas nas redações. Resta saber se com esse pouco número de jornalistas haverá, na Guiné-Bissau, uma profunda mudança na produção de conteúdos noticiosos para o consumo.

Na Guiné-Bissau vivemos num oceano de Cafumbam e de Cafumbamdade, que são fenómenos sociais que alteraram profundamente, nos últimos anos, a produção de conteúdo jornalístico. A nossa classe política aproveitou, durante a crise do contencioso eleitoral, esses dois fenómenos para espalhar pelo país fora rumores, desinformações e pânico social. O que permitiu a manipulação psicológica dos eleitores no nosso espaço público literário e os levou a aderir as ideologias política partidária. Hoje o país está profundamente segmentado em grupos de interesses políticos antagónicos que questionam, de forma distinta, a nossa realidade socioeconómica e cultural.

É hoje triste, por exemplo, saber que quando todos guineenses vêem com os próprios olhos que um determinado assunto do interesse de Estado é branco, os nossos líderes partidários dizem que é preto. E mais, dizem de viva voz, que é preto brilhante e acusam-se uns aos outros de Cafumbam e de Cafumbamdade. O que leva a nossa própria esfera pública literária a questionar a sanidade mental da nossa classe política.

Os Media e o jornalismo guineense, na Era pós crise de confinamento e de distanciamento com as fontes de informações, só continuarão a ter o interesse público, se conseguirem, com menos jornalistas na redação, produzir rápido conteúdos noticiosos precisos, rigorosos e com todos os dados certos para o consumo. Mas, se continuar a produzir informações com longas estórias sem os princípios fundadores do jornalismo, terão dificuldades em acompanhar o novo ecossistema mundial do jornalismo da Era pós pandemia covid-19.

Na verdade o jornalismo guineense não deve comprar, na Era pós-covid-19, o sucesso dos novos modelos de ecossistemas de produção de notícias dos outros países do mundo. Mesmo os dos países da nossa sub-região, porque estes modelos assentarão sempre numa geometria variável distinta da realidade do nosso país. Os Media e os Jornalistas da Guiné-Bissau terão de encontrar um novo ecossistema próprio, adequado à  sua realidade social de produção de conteúdo para o consumo da sua população.

Por: António Nhaga

Diretor-Geral

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