Crônica: O DESASSOSSEGO NO SOLO PÁTRIO

A manga e o cajú eram amigas de longa data mesmo. Uns diziam que desde os tempos imemoriais; outros desde de que se conheceram como frutas comestíveis. Ora saber qual das duas versões era a verdade, principalmente em se tratando de uma amizade sincera entre ambos, ninguém sabia ao certo.

Sabe-se que não são fingidas, pois quando vemos a manga logo a seguir vemos o cajú. Como se diz em Ciência: as plantas, a título de exemplo, todas elas sem exceção, estão na base dos ecossistemas. O sistema então de exibirem-se ao mesmo tempo no nosso país, e no entretanto, na hora da despedida esvairem-se também em simultâneo, deixam-me um tanto confuso.

E para que eu não permaneça nesta confusão que parece querer reinar no meu espírito de escritor, decidi, então, e por assim dizer, partilhar com os demais seres humanos esta experiência espectacular do Reino Vegetal.

Para ver, acredito eu, como a desgustação das duas espécies de frutas neste nosso mátrio solo, quer pela positiva porque nos abunda de fartura, quer pela negativa quando o desaparecimento das duas amigas quase que no mesmo período de tempo provoca a saudade da fome que nos fustiga a todos, tanto a adultos quanto a crianças, a adolescentes e a jovens.

Sei que a natureza é extremamente caprichosa. No bom sentido, hein? Afinal, como todos nós aprendemos nas aulas de Biologia, a Ciência da Vida, de que a diversidade biológica de todos os seres vivos está presente em todo lugar. E é uma presença constante, perena, contínua.

Assim, quer busquemos essa presença da multiplicidade dos seres vivos: animais, plantas e os humanos, podemos encontrá-la no meio dos desertos por mais áridos, íngremes ou insuportáveis que seja o modus vivendi no deserto. À vida de nós os humanos, os desertos, estes, acolhem-na com o sabor que lhes são peculiares.

Podemos ainda, se quisermos, e se pudermos, seguir os trilhos desta presença, seja nas tundras congeladas, seja nas fontes de água sulfurosas. Ou glamourosa para ser mais sublimemente poético.

Ou subliminarmente autêntico. E verdadeiro. Acreditem. Em mim. Se possível for.

Sabe-se que a diversidade genética entre a manga e o cajú é da natureza, sui generis, de cada um. É isto que possibilitou a adaptação da vida de ambos nos mais diversos pontos do planeta. Porém de um modo especial na Guiné-Bissau. Não fosse isso teríamos morido de fome; pois a grande maioria dos cidadãos guineenses dependem da colheita destas duas frutas para a exportação contribuindo significativamente para o crescimento do nosso PIB. Embora o cajú seja mais aproveitado; estamos a descuidar sobre a manga, e isto hummmm, pode ser-nos fatal. Um dia!

  1. Sobre a Manga

Conta-se que um cidadão estrangeiro veio cá nos idos anos 80. Não digo a nacionalidade. Mas tinha por missão certificar-se de que o nosso país era um dos mais pobres do mundo. Assim seu Governo entabulava contatos com as autoridades nacionais no sentido de saber em que podia ajudar para minimizar a fome do guineense.

Aportou-se em Bissalanca. Tratava-se de um Senhora emissária do Governo de seu país, mas sem que houvesse contato prévio com o nosso. E veio morar num dos hotéis do Centro Velho da Cidade de Bissau.

No dia seguinte fez um roteiro de visita. Decidiu começar pelo Hospital Central da Cidade. Ao atravessar a Avenida Pansau Na Isna viu as mangas a caírem ao chão. Os citadinos passavam tranquilamente pelas frutas. Só os porcos é que disputavam as mangas caídas ao chão. Ela, a mulher, simplesmente ficou atónita. Incrédula. Não sabia o que dizer, nem o que fazer perante este fato inusitado.

– Mangas caídas ao chão, e nenhum ser humano dignou-se a pegar numa delas para saciar a fome tão alarmada por este mundo fora sobre este país?, disse de si para si.

Voltou ao Hotel, e arrematou no Relatório da Missão:

O país onde dizem que há fome, esta na verdade não existe nele. Lá, as pessoas não comem mangas, só os porcos é que alimentam delas.

Arrumou as malas, e consigo, o Relatório e ponto final.

Como elas, as mangas, florescem com maior intensidade nas áreas húmidas e quentes, não preciso dizer mais nada, existem de sobra, por isso mal aproveitadas. Embora noutros trópicos sejam melhor aproveitas, e ainda damo-nos ao luxo de consumir doces, desfrutar do sabor do suco, ou sumo, se assim o quiserem fabricados noutros países que, a bem da verdade, não têm a diversificação agrícola da manga tal como no nosso país.

  • … E o Cajú? Ou Ataia Djú…

A produção, a exportação, e eventualmente a sua industrialização lá fora, como sempre, é muito intensificada. Mas, por nossas paragens, não se fez absolutamenmte nada para diversficar, ou até mesmo, aumentar a sua produtividade. Porém a plantação desenfreda desta nossa monocultura deixa a qualquer cidadão com o mínimo de conhecimento desesperado quanto ao futuro do nosso solo agrícola.

Só se planta cajú, o maior produto de exportação do nosso país para, ilusoriamente, matar a fome, e ganhar algum dinheiro para fazer pequenos investimentos. Estes, além de parcos, só correm a todo o vapor nos primeiros meses da campanha da castanha de cajú. Findo ela, a fome volta a danças nos nossos estômagos.

E em tempos de COVID-19. Será ele o COVID-20? Desastre total a campanha em termpos de pandemia. Qual a solução? Acho que nem os donos do poder o sabem.

Não me levem a mal os donos das pontas. Mas a destruição de florestas, por exemplo, está a crescer em níveis alarmantes. A exploração do cajú, mas de um modo especial, a castanha de cajú parecer ser como a poluição que infesta o meio ambiente.

Se descurarmos com o uso excessivo deste recurso natural, provocando, desse modo, a expansão da fronteira agrícola em detrimento dos habitats naturais, e ainda a expansão urbana e industrial deste produto, acabaremos ameaçando também outras produções agrícolas, e quiçá, outras espécies de plantas e animais.

Conta-se, e isto eu li nestas revistas científicas especializadas de que o Governo australiano estava em busca de uma solução para proteger as plantações da cana-de-açúcar. Sem que pensassem no contraditório – para ser mais filosófico possível – decidiram assumir uma posição um tanto radical. Qual foi a solução encontrada?

Depois de muitas reuniões sobre o assunto, análises e ponderações, decidiram realizar a importação do sapo cururu do Brasil com o objetivo de controlar a peste nas plantações da cana-de-açúcar no nordeste Austrália – para usar a retórica política.

Querem saber o resultado?

Ok! O animal, simplesmente, revelou-se num predador voraz dos répteis e anfíbios naquela região.

Ora, como podem imaginar, tentaram buscar uma nova solução, pois esta espécie de sapo acabou por transformar-se num problema a mais para os produtores da cana-de-açúcar, e não a solução.

Para finalizar, digo apenas de que é preciso conciliar os esforços nacionais com os mundiais para a proteção do meio ambiente com o desenvolvimento socioeconómico do nosso país. É preciso unir o útil ao agradável, e não o contrário.

Preciso é pensar com a cabeça, e não com a barriga.

Força na prevenção do Coranavírus para que o país, em descalabro, não nos leve para mais um desassossego neste solo maternal.

Bissau – Praça dos Heróis Nacionais – 10 de junho de 2020.

Por: Jorge Otinta de Sá, PhD

Poeta ensaísta e crítico literário guineense

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