MC Igreja: “TRABALHEI DURO NAS OBRAS PARA JUNTAR DINHEIRO E FAZER ESTE ÁLBUM, NÃO ADMITO BRINCADEIRAS A NINGUÉM”

[ENTREVISTA] O jovem músico raperista, Finhani Nandigna (MC Igreja), revelou numa entrevista exclusiva ao semanário ‘O Democrata’ que trabalhou muito duro nas obras de construção civil na Europa, com o intuito de juntar dinheiro e produzir o seu primeiro álbum discográfico denominado “Brinkadera tem hora” lançado em Setembro do ano 2016.

O rapper concedeu uma entrevista ao nosso jornal para abordar a sua iniciativa de ‘turné’ a nível do país, para a apresentação do referido trabalho, a convite da Empresa de Marketing e Promoção de Eventos ‘MMN Company’. MC Igreja trabalha igualmente em parceria com a Agência das Nações Unidas para a luta contra o Sida (ONUSIDA), como também com o Secretariado Nacional de Luta Contra o Sida (SNLS) e a Organização Não Governamental – ENDA.

O músico que contribuiu igualmente através do grupo ‘FMBJP’ para revolucionar o estilo ‘HIP-HOP/Rap’ no seio da camada juvenil guineense nos 2000, antes de decidir emigrar-se para o velho continente (Europa) em busca de uma vida melhor, a semelhança de alguns dos seus colegas do mesmo grupo, falou também, durante a entrevista, do seu grupo bem como analisou a evolução da música guineense, em particular do estilo HIP-HOP na Guiné-Bissau.

MC IGREJA: ‘MÚSICA É MINHA GRANDE PAIXÃO, POR ISSO TRABALHEI DURO PARA FAZER UM BOM DISCO’

Na entrevista, Finhani Nandigna explicou que formou-se na área de construção civil no CIFAP, em Bissau, o que o permitiu trabalhar nas obras na Europa. Graças a esse emprego conseguiu garantir a sua sobrevivência bem como ajudar a sua família.

Acrescentou ainda que o referido trabalho ajudou-lhe muito, porque “decidi trabalhar na Europa para a minha sobrevivência, sem complexos nenhuns, porque para além da formação que tenho na área, era a única forma de ganhar algum dinheiro. Trabalhei muito duro e poupei para produzir este álbum”.

“Depois de conseguir o dinheiro que me permitiu gravar, entrei no estúdio e gravei 20 músicas. Depois selecionei apenas 12 que constituem este primeiro álbum. A ideia de gravar muitas músicas permite a pessoa fazer uma boa seleção de músicas para publicar. Todas são boas, mas é preciso escolher rigorosamente as que vão constituir o disco”, contou.

Avançou neste particular que o álbum ‘Brinkadera tem hora’ foi financiado na íntegra por ele próprio, tendo espelhado ainda que “o álbum é fruto do sacrifício, de luta para alimentar a minha grande paixão, que é a música. Recebi apoio moral dos meus irmãos, amigos e dos meus fãs, mas em termos de dinheiro, foi custeado por mim”.

Informou que atualmente apenas o áudio não tem grande força na Europa e noutras partes do mundo. O que conta mais, ou melhor, o mais apreciado pelos consumidores são os ‘Vídeo Clips’.

“Resolvi dedicar-me mais ao trabalho nas obras de construção civil para investir na produção de Vídeo Clips. Foi assim que consegui produzir vídeos que hoje as pessoas estão a elogiar, um pouco por toda parte. Este álbum e inclusive o próprio vídeo deram-me muito trabalho, por isso, não quero brincar e não quero que ninguém, mas ninguém mesmo, brinque com o meu trabalho, porque custou-me muitos sacríficos e grandes investimentos que podiam servir-me para outras coisas. Mas como se sabe, a música é a minha grande paixão, por isso trabalhei duro para fazer um bom disco”, afiançou.

Finhani Nadigna disse que foi difícil conseguir apoios de patrocinadores individuais ou grandes empresas, porque se trata do primeiro álbum de um jovem africano que saiu da Guiné-Bissau. Frisou que esta foi a maior dificuldade. Por isso tomou a iniciativa de trabalhar duro para financiá-lo, de formas a apresentar o seu talento perante o mundo da música, ou seja, para as grandes agências e empresários que no futuro poderão apoiar o seu trabalho.

“Trabalhei muito duro nas obras de construção civil na Europa, com o intuito de juntar dinheiro e produzir o meu primeiro álbum discográfico. Não admitirei brincadeiras de ninguém com o meu trabalho. A produção do disco e do vídeo custou-me muito, portanto não permitirei que ninguém tente brincar comigo. Fiz muitas despesas para a produção de cartazes para vir apresentar o disco no meu país. Infelizmente, houve pessoas que tentaram criar-me dificuldades e até impediram-me de dar um concerto no Estádio Nacional “24 de Setembro”, o mesmo estádio que foi concedido para concertos de músicos estrangeiros. Eu continuo a fazer o meu trabalho com todo o sacrifício, mas que ninguém entenda que vai conseguir vedar-me o caminho”, advertiu o jovem músico.

Questionado sobre se teria solicitado o estádio para o concerto, respondeu que tinha solicitado o estádio nacional para apresentação do seu álbum, mas o ministério da Cultura e dos Desportos indeferiu o pedido, tendo-lhe proposto que alugasse um tapete em Dakar (Senegal) para a proteção da relva. Resolveu por isso desistir do estádio e optando pelo Espaço Lenox.

Para o jovem músico, o estranho é ver as autoridades cederem o mesmo Estádio Nacional “24 de Setembro” para o concerto de cantores estrangeiros, que segundo ele, foram trazidos pelo filho do Presidente José Mário Vaz.

FUI VÍTIMA DA MÚSICA QUE FIZ PARA CRITICAR A SITUAÇÃO QUE SE VIVE NO PAÍS

Solicitado pronunciar-se sobre se as iniciativas levadas a cabo por promotores de eventos e que trazem artistas estrangeiros para o país, investindo muito dinheiro não contribui para ‘matar’ os cantores nacionais, respondeu que os cantores guineenses foram ‘mortos’ pelos guineenses que nada fizeram para a sua promoção.

“A maioria dos cantores estrangeiros que passaram por cá tocou em ‘playback’, mas devia ser uma atuação com a banda, o que permitiria uma maior vibração do público. É bom que as pessoas mudem de mentalidade e que comecem a apoiar e a investir em nacionais, porque temos artistas de grande talento. É verdade que a música não tem fronteiras porque também fazemos concertos fora. Mas primeiro é bom investir em nacionais e criar condições para que possam trabalhar”, notou o jovem raperista, que entretanto, apelou o ministério da Cultura e dos Desportos para assumir a sua responsabilidade.

MC Igreja disse que foi vítima da música que denominou ‘Voz de Povo’ que, segundo ele, é uma música que chama atenção sobre a situação que se vive no país. Lembrou ainda que fez uma crítica dura a certas atitudes do Chefe de Estado guineense, José Mário Vaz.

“Fiz a música para defender os interesses do povo guineense, mas pessoas ligadas ao regime não ficaram satisfeitas. Orquestraram na altura para me dificultar, para que não tivesse sucesso na apresentação do meu disco. Uma coisa é certa, fiquei revoltado e indignado com o próprio povo guineense, que deixa ser arrastado por dois mil francos cfa para participar em manifestações. Um povo assim tem dificuldades em sair da situação em que se encontra, ou melhor, em conseguir defender os seus interesses”, precisou.

Sublinhou que é chegada a hora de o povo guineense começar a defender os seus interesses, para que possa garantir um bom futuro. Contudo, assegurou que para isso é preciso uma mudança de mentalidade da população guineense.

MC IGREJA PRIORIZA CONSTRUÇÃO DE SALÕES DE CONCERTOS EM BISSAU E NAS REGIÕES

Indagado sobre qual seria a sua prioridade se lhe fosse concedida, um dia, a liderança de uma estrutura ou a direção do ministério da Cultura. Respondeu que a sua prioridade seria logo no início trabalhar na organização do sector, bem como na promoção do mesmo através de iniciativas que ajudariam no crescimento e valorização dos homens da cultura guineenses.

Frisou que a cultura não se limita apenas aos cantores. Por isso daria toda a sua atenção para o desenvolvimento do sector que considera de espelho da Guiné-Bissau.

“É preciso criar escolas de músicas na capital e nas regiões. Criar condições para as escolas de música existentes. A construção de grandes salões de concertos também seria uma das minhas prioridades. É chegada a hora de termos um grande salão de concerto, tanto a nível da capital Bissau, como nas regiões”, defende.

Lembrou ainda que o ‘Espaço Lenox’ é o local com maior capacidade, em termos de capacidade para albergar gente, para além do Estádio Nacional “24 de Setembro”, que nos últimos tempos tem sido usado para concertos. Contudo, recordou que os nacionais são impedidos de dar concertos no estádio nacional, se não tiverem uma estrutura de peso que possa influenciar a decisão.

Sobre a sua participação noutros projetos musicais ou álbuns de outros artistas, MC Igreja disse que participou no álbum de um artista de origem guineense e de pais cabo-verdianos, e que fizeram a fusão de ‘Fado e Rap’. O Disco deve ser lançado ainda no decorrer deste ano.

Recordou ainda que trabalha neste momento com um empresário, Jean Pierre Mendy, que lhe apoia na internacionalização da sua carreia. Contudo, avançou que os trabalhos estão a avançar bem e o grande desafio que tem é trabalhar seriamente para cantar em língua francesa.

“Acho que será fácil, porque não é obrigatório saber falar uma determinada língua para cantar uma música nessa língua. O mais importante é ter quem nos vai instruir em termos de sonorização e sotaque. Consegue-se facilmente”, referiu.

No concernente a evolução do estilo musical ‘HiP-HOP’ que contribuiu na sua evolução no país, reconhece a evolução do estilo nos últimos tempos, tendo demostrado disponibilidade para trabalhar ou apoiar os músicos da nova geração que cantam o estilo Hip-Hop/Rap. Lembrou, no entanto, que logo a sua chegada no país, foi convidado pelo seu colega músico, Ryhmman e aceitou o convite para gravar com este.

Assegurou ainda que goza de uma boa relação com os seus colegas músicos tanto os que estão no país como aqueles que estão no exterior. Frisou que continuará a trabalhar para privilegiar a relação com os seus irmãos músicos, tanto os das velha geração bem como da nova.

MC IGREJA RECONHECE QUE A EMIGRAÇÃO SEPAROU OS ELEMENTOS DE GRUPO FBMJP

Relativamente ao seu grupo ‘FBMJP’, MC Igreja disse que as circunstâncias da vida levou a que cada membro do grupo escolhesse novos caminhos, de forma a poder auto-sustentar-se e continuar a fazer o seu trabalho.

“A emigração acabou por nos separar e as dificuldades da Europa não nos permitem continuar com o grupo neste momento, porque estamos dispersos. Eu estou em França, a viver em Paris, Jamil está em Lisboa e o Nbato ‘NB’ ficou em Bissau. Fazer um álbum a solo não significa que o grupo acabou. É um trabalho meu, particular, como o Jamil também já fez o dele. Aliás, ouvi também o trabalho de Nbato que será lançado brevemente”, explicou.

O Grupo ‘FBMJP’ é considerado por muitos guineenses como o pioneiro do estilo ‘HIP-HOP/RAPPER’, mas viram-se já muitos grupos a cantar o mesmo estilo e alguns já se tinham afirmado na sociedade guineense.

“É verdade que nós contribuímos muito na revolução deste estilo com as músicas críticas contra certos comportamentos da sociedade, de uma forma muito dura. Naquela altura havia também outros grupos que estavam muito bem no terreno. Eram: Cientistas Realistas, Best Friends, MVD, entre outros. Também contribuíram para o engrandecimento do estilo Hip-Hop na Guiné-Bissau”, contou.

Assegurou que o Grupo FBMJP não ‘morreu’, mas acrescentou que precisa de uma pessoa com condições financeiras bastantes para reunir de novo os membros do grupo.

“Hoje cada elemento tem uma ocupação e a preocupação de conseguir uma forma de ganhar a vida para ajudar a família. Ontem estávamos em Bissau e foram os nossos pais que nos davam tudo. Portanto, hoje é a nossa vez de trabalhar para a nossa família. Essa é a grande dificuldade que temos, mas existe a possibilidade de, no futuro, de juntarmo-nos de novo para fazer um trabalho”, observou.

 

 

Por: Assana Sambú/ Epifania Fernandes Mendonça

 

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