Opinião: A VITÓRIA DA OPOSIÇÃO NA NIGÉRIA E PROVÁVEIS IMPLICAÇÕES PARA SEGURANÇA NACIONAL E REGIONAL

O mais populoso país africano (tem cerca de 170 milhões de habitantes) foi às urnas há uma semana e rejeitou, pela primeira vez na sua história democrática, a reeleição ao segundo mandato de um Presidente em exercício. A derrota imposta ao Presidente Goodluck Jonathan, do Partido Democrático do Povo – de centro-direita – pelo General na reserva, Muhammadu Buhari, do APC (All Progressives Congress) – uma aliança de principais partidos de oposição costurada há dois anos – deve-se, substancialmente, ao fracasso do exército nigeriano na contenção das sistemáticas violências praticadas pelo grupo terrorista Boko Haram. A surpreendente vitória do Buhari, de 72 anos, superando o Presidente governista com uma diferença de pouco mais de dois milhões de votos, representa um evidente recado dado pela sociedade nigeriana: queremos a segurança!

O ex-ditador e golpista Muhammadu Buhari, que governou a Nigéria (Nigéria é uma República Federativa inspirada no federalismo estadunidense) entre 1984 e 1985, havia sido derrotado nas últimas três eleições. Enquanto Presidente do país, Buhari exerceu violações de direitos humanos em nome de segurança do Estado. Ele mesmo reconhece seu passado político como ditatorial, tendo dito com frequência que já “converteu-se” em um democrata. Não obstante às atrocidades cometidas durante 18 meses do seu regime, paradoxalmente, General Muhammadu Buhari é lembrado pelos nigerianos como um obstinado oponente da indisciplina e corrupção. Devido ao fracasso do Presidente Goodluck e de seus antecessores do Partido Democrático do Povo, na blindagem de atos terroristas do Boko Haram e seu avanço pelo norte do país, General Buhari mereceu a histórica confiança do povo da maior economia da África – estudos realizados em 2013 revelaram que o PIB da Nigéria havia atingido US$ 509 bilhões, superando os US$ 370 bilhões da África do Sul. Todavia, a corrupção e a profunda desigualdade sócio-económica permanecem altas – últimos estudos publicados em 2012 mostravam que cerca de 61% da população nigeriana vivia com menos de US$ 1 por dia. Portanto, a corrupção e a pobreza são outras variáveis que elevaram a níveis crescentes à insatisfação popular e contribuíram para a derrota de Jonathan, mas o fator chave do seu revés é a generalizada insegurança que hoje permeia a Nigéria.

Dito isso, logo a eleição de Muhammadu é uma aposta popular de que ele poderá ser capaz de combater o grupo terrorista Boko Haram. Fundado em 2002, Boko Haram – cuja tradução é “a educação ocidental é proibida” – é um grupo radical islâmico que prega destruição do Estado moderno nigeriano e consequente instauração de um Estado islâmico fundamentalista. Tacham de abomináveis a educação secular, o estilo de vida moderno e renunciam o islamismo moderado, enfim, defendem a des-secularização total do país. Desde sua fundação, tem sequestrado e ceifado milhares de vidas e perpetuado um clima de insegurança e medo no país. Segundo fontes oficiais do governo nigeriano, Boko Haram já aniquilou mais de 13 mil vidas desde 2009 (de 2009 para cá seus ataques têm sido frequentes e letais).

Nos seus primeiros pronunciamentos após anúncio de sua vitória, Buhari garante que empreenderá ofensivas intransigentes e cirúrgicas contra o Boko Haram com vistas a devolver tranquilidade ao povo do país mais poderoso da África ocidental. É insofismável que a principal agenda política do recém-eleito Presidente será de combater o Boko Haram. A despeito de não sabermos exatamente qual estratégia militar que este adotará, no entanto, podemos especular que tenderá a atacar os radicais a partir de suas bases, no norte do país, com objetivo de expulsá-los da Nigéria. No meu ponto de vista, a anunciada disposição do General Buhari, no seu segundo advento à presidência, desta vez democraticamente, em combater com veemência o Boko Haram, representa em termos de segurança um discurso importante não só para a Nigéria, mas para a África ocidental e central. É importante sublinhar que, devido à natureza difusa e à operacionalidade clandestina das organizações terroristas, o seu combate é muito complexo. O caso de Boko Haram torna-se muito mais árduo por conta de alguns fatores que jogam a seu favor. Já controla cerca de 20.000 km2 do território no norte do país, o qual transformou em um “califado” sob seu controle. Ademais, o Boko Haram tem bases no Mali, onde a maioria de seus integrantes recebe treinamento e viola as fronteiras de Camarões (chegou a sequestrar a mulher do vice Primeiro Ministro camaronês).

Associado a tudo isso, sabe-se que Boko Haram é apoiado pelo Al Qaeda, usufrui da solidariedade de Al-Shabaab, que atua na Somália, e há poucas semanas selou um importante acordo de lealdade e apoio mútuo com o Estado Islâmico – grupo terrorista que atua na Síria e Iraque, cuja marca é exibição de vídeos de execução pública de indivíduos sequestrados.

Portanto, conta com amplo apoio da rede de terrorismo global. Desta feita, na minha opinião, o anunciado combate ferrenho do agora eleito Presidente Buhari a Boko Haram – dependendo de seus resultados – poderá ser profícuo para a segurança da Nigéria, mas dificilmente o será para as regiões da África ocidental e central. A minha constatação deve-se ao fato de que as organizações terroristas, ao serem expulsas do seu habitat tendem a instalar-se em outros territórios. E tomando em consideração à fragilidade dos Estados africanos, não é improvável que o Boko Haram venha a disseminar suas bases pelas regiões ocidental e central caso for expulso da Nigéria. Entretanto, para que haja possibilidade de isso ocorrer, é preciso, antes de tudo, que as prometidas ofensivas do Muhammadu Buhari contra o Boko Haram sejam assertivas e surtam efeitos práticos. Se isso ocorrer será um feito muito enorme do Presidente nigeriano. Mas pelo recente histórico de fracassados ataques a essa organização terrorista, não será uma surpresa se o exército reeditar seus fracassos dos últimos anos.

Assim, face ao exposto, pensamos que a efetiva e coordenada cooperação político-militar regional seria a melhor estratégia para tentar robustecer a segurança na região, enfraquecendo os reais atos terroristas e suas ameaças.

Por: Timóteo Saba M’bunde, Mestre em Ciência Política.

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