LITERATURA: resenha crítica

Proporcionamos aos estimados leitores, a resenha crítica feita pelo PhD. Jorge Otinta, sobre o livro “Guiné-Bissau – A poesia da Guiné-Bissau: história e crítica”, de JOÃO ADALBERTO CAMPATO JÚNIOR

 

DE TEN-TEN EM TEN-TEN O GOLO DOS MESTRES

Um certo prosaísmo que toca e, ao mesmo tempo, perpassa toda a produção poética nacional tem dificultado, sobremaneira, que a nossa produção literária não passasse de convencionalismo discursivo, contudo, com uma discursividade poética que tem alguma conotação subversiva ou contestadora do sistema colonial. Ademais, a exaltação exacerbada duma revolução esvaída de forma e de conteúdo tem sido a muleta com que a nossa intelligentsia tem-se servido sobre a temática discursiva e referencial.

Assim, partindo desta premissa, é-me, necessariamente, relevante debruçar-me sobre o livro de ensaio literário sobre a literatura guineense, porém de um modo especial, sobre a poesia bissau-guineense do professor e crítico literário brasileiro, João Adalberto Campato Jr. Na extensa análise que fez no livro, A poesia da Guiné-Bissau: história e crítica[1], ele procurou discorrer sobre as marcas crítico-literárias dos nossos poetas e, mais precisamente, sobre os momentos marcantes de suas obras.

De ressaltar que entre avanços e recuos, portanto, entre História e Literatura, ele parece surpreender, de certa maneira, alguns poetas de várias gerações ao ressaltar aspetos positivos e negativos de sua produção. Para uns, mais negativos que positivos; para outros (sendo poucos estes) mais positivos, no sentido de, pela primeira vez, alguém, como estudioso da literatura, ousar dizer que nossa poesia é fraca, débil e, por isso mesmo, não evolutiva. Porque, ao que tudo indica, parou no tempo.

Assim sendo, o autor sem descurar do rigor metodológico e científico de sua análise, conseguiu, através de grande tento e talento demonstrar que, não obstante, toda a especificidade histórica, cultural e política por que passou nosso país, primeiro com o violento processo colonial; segundo, com o período da pós-independência com todas as vicissitudes por que passou o país. E mais: com o também violento processo de descolonização (se é que se pode falar nestes termos). Há ainda, segundo se pode depreender da sua crítica, o dissabor com que veio a resultar esta tentativa de descolonização política, cultural e espiritual do país, desde a independência até ao presente momento da conturbada democracia.

Para isso, Campato Junior esmiuça, duas questões fundamentais: de um lado, a conjuntura político-histórica que tem impedido um avanço no sentido de os intelectuais guineenses procurarem ir além do previsto, do conhecido, do previsível e, portanto, do plausível; de outro, a perda de vista do universalismo estético (sem que se ponha de lado o ético) da produção poética nacional.

Perfilaram-se poetas. Contudo, exímios e reconhecidos poetas não laudatórios da causa revolucionária e, muito menos ainda, da causa pós 73, estes permaneceram no ghetto de um tipo de escrita não muito criativa e nem tanto inovadora. Pelo menos em termos do trabalho com a linguagem.

Assim, quando Campato Jr. aponta alguns elementos para concluir seu ensaio, os quais cito, porém explicitando-os:

a)    Tibieza e convencionalismos imagéticos, pois não há inventividade literária capaz de persuadir e surpreender o leitor;

b)   Ausência do rigor compositivo, isto é, tem-se, na Guiné-Bissau, a figura do poeta inspirado e não a do artesão da palavra que se cria, inventa e persuade, artisticamente falando;

c)    Raro emprego de formas poemáticas fixas. Quer dizer que, além de tentarmos sonetos e acrósticos, não seguimos pelas redondilhas, pelos hai kais, entre tantos;

d)   Prosaísmo, isto é, ideias triviais, os lugares são comuns, o espaço  e o tempo, poucos inspirados e, muitas vezes, inautênticos;

e)    Predomínio das temáticas militantes e lírico-amorosa com exaltação, e até mesmo, celebração da independência e dos seus heróis, além de, é claro, uma exultação em relação à beleza de nossas mulheres;

f)     Pouca e superficial especulação metafísica, na medida em que não existe a reflexão sobre o pensar e o sentir nacionais, sobre o devir da nossa guineidade (ainda que em processo de constituição), sobre conceitos inovadores. Ficando a mercê de crenças mítico-supersticiosas e preconceitos tão arraigados na nossa mente de “descolonizados” que julgamos ser;

g)    Raras manifestações de intertextualidade que empobrece o(a) escritor(a) guineense, porque não consegue ir para além do seu umbigo. Não lê, canibalisticamente, o que é produzido noutras partes de África e do mundo. Ou seja, para que um escritor evolua, precisa voar para outras mundividências para que, enfim, possa abstrair outras vivências experienciais que possam enriquecê-lo;

h)   Acanhado emprego de estratégias pós-coloniais de escrita. Trata-se de recurso à ironia, à paródia e, até mesmo, à invenção de uma nova escrita que se propõe reveladora de sua nova identidade cultural;

i)      Temática pós-colonial que, segundo o autor, seriam as relações de poder, a questão da diversidade cultural, a globalização, a diáspora guineense, entre outros. Nisso, discordo-me dele, pois não acho que exista, tecnicamente, uma vida pós-colonial na Guiné-Bissau, mas sim, uma vida de pós-independência[2].

j)      Predomínio de poemas referenciais, no sentido de se debruçarem, sobretudo, sobre fatos e personalidade da recente história do país; mas não os sugerem enquanto possibilidade discursiva. Pois é nisso que consiste o labor literário. Mas, principalmente, a sua inventividade.

Entretanto, para sairmos desta poética de piegas, algumas ideias-mestras, a meu ver, fazem-se necessárias:

  1. A leveza e a precisão na linguagem que diz e constrói metáforas e alegorias;
  2. A introdução da palavra exata, certa, no tempo e no espaço, permitindo com que haja a consonância entre o ritmo e a lógica narrativas (porque é preciso que se saiba que a poesia também é uma narrativa, por isso, dispõe de narratividade);
  3. Conhecimento técnico e científico que permita a intertextualidade entre obras e seus autores, os quais permitirão possibilidades diversas de leituras que serão, simultaneamente, múltiplas e globais;
  4. Consistência entre os mundos ilusório e simbólico, porém não muito referencialista, mas que combine abstração lógico-filosófica com a condensação de estilo e de linguagem. E, por outro lado, a interiorização que permita uma poesia e uma escrita mais intimistas que aliem a subjetividade individual à coletiva.

Há, outrossim, outras questões que poderiam melhorar significativamente a nossa literatura, tais como mais leituras de clássicos africanos e ocidentais, uma circulação maior de livros entre os países, uma boa política editorial voltada ao consumo interno e externo, etc.

Como é do nosso conhecimento a compreensão da História, seja ela da Guiné-Bissau, seja ela de qualquer país, em especial os países de África, deverá obedecer conceptualmente a liberdade que, segundo Joseph Ki-Zerbo[3],

 

Representa a capacidade do ser humano para ‘inventar’, para se ‘projetar para diante rumo a novas opções, adições, descobertas’. E a necessidade representa as estruturas sociais, econômicas e culturais que, pouco a pouco, vão se instalando, por vezes de forma subterrânea, até se imporem, desembocando à luz do dia numa configuração nova.

 

Assim os dois pés da História, a história-necessidade e a história-invenção, ambas antecipam o sentido do processo (a liberdade) e, simultaneamente, constituem portas abertas para o futuro (necessidade). Porque a história-invenção reclama o futuro e a história necessidade postula a abertura para o devir.

É neste sentido que escrever nada mais é do que produzir devires histórico, literário e cultural nas nações africanas de língua portuguesa. Estas apresentam, assim, sinais críticos do olhar sobre o passado, mas que descortinam o presente e, por outro lado, constituem-se em estratégias discursivas que nos orientam em direção ao futuro utópico como devir-outro.

Para isso, merecem destaques, a partir da leitura auferida da obra de Campato Jr, os seguintes autores, agrupando-os em:

  1. 1.     Os maiores nomes

Carlos Semedo em quem ele reconhece a sobriedade escritural, a qual está aliada a uma postura de militância social e política, porém sem a demagogia militante.

Em Vasco Cabral, ainda de acordo com o autor, a poesia guineense, principia, de forma mais resoluta e artística, a edificar os alicerces (p. 45). Tese que corroboramos, não obstante, ser ele também um poeta militante, talvez mesmo, comprometido ideologicamente com a doutrina partidária. Aliás, é bom esclarecer que Vasco Cabral era (e assim se considerava) o maior ideólogo do seu partido, PAIGC[4].

Assim, Tony Tcheka, o mestre da rima imprevista e estética da criação é o nome que, ao lado de Conduto de Pina e de Félix Sigá, constituem os maiores nomes da literatura bissau-guineense, no verdadeiro sentido da ciência da criação verbal. Não obstante, julgo eu, considerar que Condito de Pina não seja assim tão inventivo.

No entanto, Félix Sigá, o mestre da palavra carneada e ossada, com musculatura de um intelectual que soube, poeticamente falando, fazer do ofício de escrever a “projeção do princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação”[5]. De frisar ainda que, tal como ficou provado na ensaística do Prof. Campato Jr., Félix Sigá desponta, de longe como o poeta guineense mais criativo, mais inventivo, surpreendentemente, inovador na sua escrita. Seria, sem exageros, exemplo de um poeta clássico; verdadeiramente original na seleção lexical e harmonização da estética literária. E é também, neste sentido, que Julião Soares Sousa, o poeta da saudade, da inquietação e da maturidade escritural entra para completar a lista.

  1. 2.     Os medianos, segundo Campato Junior

Estes são os que ficando na superfície da linguagem, não ousam (talvez por cobardia, ou por pura incompetência do fazer artístico) surpreender pela criatividade e inventividade de sua poética. Trata-se, assim, de Pascoal D’Artagnam Aurigema, Jorge Cabral e José Carlos Schwarz, sendo este mais letrista e músico do que poeta, até porque, poucas são suas produções poéticas.

Enfim, sua literatura é aquilo que o crítico literário paulista, Benjamin Abdala Junior[6], adverte ao dizer que “privilegiar a redundância é correr o risco (de construir, grifo meu) uma literatura populista e do falseamento da representação do real”.

  1. 3.     Os poetas engajados

São autores da poesia militante, os mestres de uma literatura engajada, de comprometimento com a causa política e social e, até mesmo, amorosa. Temos, assim, Hélder Proença, exímio poeta da causa revolucionária, Agnelo Regalla[7], Odete Semedo, uma poetisa ainda em processo e Francisco Fadul. Mas este supera os demais, produzindo uma literatura de linguagem de merecido valor estético. Há ainda o Carlos Edmilson Marques Vieira, o qual estou em crer que, tal como outros autores, ainda circulam pelo estilo para-literário das pílulas da sabedoria poética.

  1. 4.     A nova safra

E, finalmente, a nova safra que é, acima de tudo, constituída de poetas em formação, em busca de uma identidade de escrita e de estilo, e não só; mas também de temática. Nisso, elencamos alguns dos mais salientes, Rui Jorge Semedo, Emílio Lima, Édison Ferreira. Maior destaque para a Saliatu da Costa. Esta por trilhar pelos caminhos do inusitado, do inaudito, apelando, sem piegas, nem medos e vergonhas, pela sexualidade, uma pouco escancarada. E mais: por uma poética que está inovando a cada obra sua, não obstante os vícios da militância política e social.

Para escritores guineenses, a literatura, como estética de criação verbal, deve traduzir o desejo e a necessidade de descobrirem-se a si no mundo. É, nesse sentido, que a poesia se tornou na Guiné-Bissau como espaço fértil para inquirição e, ao mesmo tempo, construção da guineidade. Ainda que a Moema Augel não tenha feito na sua obra, A nova Literatura da Guiné-Bissau, um juízo valorativo da mesma, limitando-se a apresentar os autores com certo ufanismo ideológico e, por isso mesmo, analítico.

Devemos, contudo, concordar com o Prof. Pires Laranjeira, para quem a debilidade de nossa poesia resulta do convencionalismo imagético, do prosaísmo, da tendência para a referencialidade e, por extensão, à falta do rigor compositivo[8].

Assim, sendo a literatura uma das formas de representação imagética, ela abre espaço para a compreensão de vários fenômenos como, por exemplo, a imagem, o espaço e o tempo, e as personagens da narrativa que, muitas das vezes, se confundem com as pessoas reais[9].

Em suma, a história e, por extensão, a literatura, como sendo o continuum necessário, importam, de acordo com Antonio Candido[10] “não como causa, nem como significado, mas como elementos que desempenham um certo papel na constituição da estrutura (social, grifo meu), tornando-se, portanto, interno”.

 

 

 

 

Jorge Otinta, PhD. É ensaísta e poeta

 


[1] CAMPATO JR, João Adalberto. A poesia da Guiné-Bissau: história e crítica. São Paulo: Arte & Ciência, 2012.

 

[2] A Pós-Independência entendida esta como sendo o período de transição, necessariamente irregular, entre a era dos impérios e a era das revoluções pelas independências. Já o pós-colonialismo traduz, a meu ver, à mudança de prisma em relação às políticas de identidades e todas as idiossincrasias a ela inerentes. Mas os dois conceitos podem confundir-se, na medida em que ambos debruçam-se sobre questões tão variadas e interdisciplinares, tais como: representação, sentido, valor, cânone, universalidade, diferença, hibridação, ensino, nacionalismo, educação, feminismo, diáspora, etc. Cf. a respeito OTINTA, Jorge. Mia Couto: Memória e Identidades n’Um Rio Chamdo Tempo, Uma Casa Chamada Terra.  Universidade de São Paulo. São Paulo: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, 2008 (DM), p. 49-55 ou com mais extensividade de estudo e de análise LEITE, Ana Mafalda. Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais. Lisboa: Edições Colibri, 2003, p. 13-14.

[3] KI-ZERBO, Joseph. Para quando a África: Entrevista com René Holenstein. Trad. Carlos Aboim de Brito. Rio de Janeiro: Pallas, 2006, p. 17.

[4] É importante referir que Vasco Cabral exerceu, sobremaneira, grande influência na formação humanística de Amílcar Cabral. Tanto assim que foi ele, digamos assim, o mestre dos que tinham chegado a Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, para estudos. Citemos apenas Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Francisco José Tenreiro, Mário Pinto de Andrade e o próprio Amílcar. Foi o Mário quem apresentou Amílcar ao Vasco, este já funcionário do Ministério da Economia e Finanças e membro do Partido Comunista Português. Portanto, teve grande papel na formação dos seus colegas, porque havia anos que ele estava a viver em Lisboa. Além de ter tido grande experiência em matéria de política e de clandestinidade que viria a ser fundamental para que fugissem de Portugal para as colónias e, de lá, empreenderem pela luta de libertação destas.

[5] JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. 8ª. Ed. São Paulo: Cultrix, 1975, p. 130.

[6] ABDALA JR., Benjamin. Literatura, História e Política. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007, p. 190.

[7] Sobre o Regalla a tese do Prof. Campato Junior é discutível, na medida em que este, até ao presente, não publicou nenhum livro de sua autoria, limitando-se a aparecer, esporadicamente, numa ou noutra antologia. Embora tenha escrito um poema seminal que é Camarada Amílcar, o qual, por si só, constitui uma obra prima de grande relevo.

[8] PIRES LARANJEIRA. Prefácio. In: CAMPATO JR, João Adalberto. A poesia da Guiné-Bissau: história e crítica. São Paulo: Arte & Ciência, 2012, p. 11.

[9] OTINTA, Jorge. Representações do Intelectual: um estudo sobre Mayombe e Kikia Matcho. Curitiba, Editora CRV, 2012.

 

[10] CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 7a. Ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1985, 4.

1 comentário

  1. Bom exercício literário!

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