{"id":10256,"date":"2016-09-28T22:22:37","date_gmt":"2016-09-28T22:22:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=10256"},"modified":"2016-09-28T22:30:39","modified_gmt":"2016-09-28T22:30:39","slug":"mario-sissoko-defende-a-extincao-do-paigc-como-solucao-para-a-crise-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=10256","title":{"rendered":"M\u00c1RIO SISSOKO DEFENDE A EXTIN\u00c7\u00c3O DO PAIGC COMO SOLU\u00c7\u00c3O PARA A CRISE DO PA\u00cdS"},"content":{"rendered":"<p>O historiador guineense M\u00e1rio Sissoko defende que a solu\u00e7\u00e3o para a crise que afecta a Guin\u00e9-Bissau h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas passa pela extin\u00e7\u00e3o do Partido Africano da Independ\u00eancia da Guin\u00e9 e Cabo Verde (PAIGC) que, segundo ele, j\u00e1 n\u00e3o tem mais nada para dar aos guineenses. Sissoko falava a &#8220;O Democrata\u201d [segunda e \u00faltima parte da Grande Entrevista] para fazer uma abordagem hist\u00f3rica da cria\u00e7\u00e3o do partido libertador bem como das causas que originam o conflito interno que tem abalado o partido de Cabral, sustentando ainda que a actual direc\u00e7\u00e3o daquela forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o tem nenhuma ideologia clara para desenvolver o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Durante a entrevista, falou das circunst\u00e2ncias da morte do l\u00edder da guerra, Am\u00edlcar Cabral. De acordo com as suas pesquisas, Cabral foi o respons\u00e1vel pela sua pr\u00f3pria morte. Explicou igualmente a quest\u00e3o do alegado envolvimento do Presidente Sekou Tour\u00e9 na morte de Cabral. Contou ainda que os grandes comandantes do PAIGC sabiam da tentativa do assassinato de Cabral, mas nada fizeram para proteg\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8220;Vejam s\u00f3 um pormenor muito importante\u2026se nenhum comandante de grande envergadura tomou medidas para proteger Am\u00edlcar Cabral \u00e9 porque, certamente, os guineenses estavam fartos dele e das suas ac\u00e7\u00f5es, sobretudo, da sua \u2018supra murdi\u2019 ao mesmo tempo\u2026\u201d, espelhou o historiador.<\/p>\n<p><b>OD: Pode explicar as circunst\u00e2ncias ou as causas que estariam por detr\u00e1s do assassinato de Am\u00edlcar Cabral, segundo as informa\u00e7\u00f5es de que disp\u00f5e?<\/b><\/p>\n<p>MS: A morte de Am\u00edlcar Cabral para mim \u00e9 partilhada. Fiz uma abordagem sobre a morte de Cabral no terceiro volume do meu livro, onde apurei pormenores muito interessantes no concernente ao seu assassinato. Cabral tinha enviado uma carta para o Rafael em Bissau, mas a carta foi parar \u00e0s m\u00e3os de um agente da Pol\u00edcia Internacional e de Defesa do Estado\u00a0 (PIDE).<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o que se coloca at\u00e9 hoje \u00e9: porque \u00e9 que a carta foi parar \u00e0s m\u00e3os de PIDE? Na carta ele dizia que a luta chegara ao ponto que se exigia a tomada de todas as decis\u00f5es. Portanto, ele estava em condi\u00e7\u00f5es de tomar as referidas decis\u00f5es.<br \/>\nO agente de PIDE pediu ao Rafael que respondesse a carta, de forma a poder reenvi\u00e1-la para Conacri. O Rafael respondeu que se ele [Cabral] estava a dizer aquilo, que tinha poder para fazer aquilo que entendesse, ent\u00e3o que saiba tamb\u00e9m que era ele [Rafael] quem enviava os homens para a luta.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram apenas os \u201cestafetas\u201d que traziam recados ao Rafael que revelavam os segredos sobre as coisas que se preparavam contra ele, mas tamb\u00e9m havia pessoas que lhe contavam tudo. Havia at\u00e9 pessoas que foram enviadas \u00e0 Bissau para assassin\u00e1-lo, mas eles n\u00e3o concretizaram a miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Ficaram com medo de regressar \u00e0 Conacri, porque seriam todos mortos. At\u00e9 o pr\u00f3prio Rafael instruiu-os a voltarem \u00e0 mata, junto da base do comandante Osvaldo Vieira, mas mesmo assim recusaram voltar e ficaram em Bissau. As pessoas que faziam parte daquele grupo eram meninos que foram \u00e0 escola e sabiam o que estavam a fazer. Lembro-me ainda de um pormenor importante que abordei no livro que vou publicar\u2026<\/p>\n<p>Os cabo-verdianos acusavam o Rafael Barbosa de ser um agente da PIDE, mas o pr\u00f3prio Am\u00edlcar nunca o acusou como servidor da PIDE. Uma vez na minha presen\u00e7a, em 1968, quando um grupo de dirigentes criticaram as declara\u00e7\u00f5es proferidas por Rafael, depois de ter sa\u00eddo da pris\u00e3o. Rafael afirmara que se \u201csentia mais tuga do que pr\u00f3prio tuga\u201d.<\/p>\n<p>A partir dal\u00ed algumas pessoas indicaram o camarada Pascoal Alves para substitu\u00ed-lo como presidente do Comit\u00e9 Central. Quando Am\u00edlcar chegou, disse assim em portugu\u00eas: Eu conhe\u00e7o o Rafael\u2026 o Rafael n\u00e3o \u00e9 agente da PIDE! Em Bissau falaremos\u2026Citei esta frase textualmente no livro que estou a produzir. A grande quest\u00e3o que se coloca sobre essa situa\u00e7\u00e3o da acusa\u00e7\u00e3o contra o Rafael pela ala cabo-verdiana, de ele ser colaborador da PIDE \u00e9 o sil\u00eancio de Am\u00edlcar, ou seja, a sua lentid\u00e3o na resolu\u00e7\u00e3o daquela situa\u00e7\u00e3o levou a que o problema se agudizasse e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de mais tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Qual era o pre\u00e7o do sil\u00eancio de Am\u00edlcar Cabral relativamente \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o feita pela ala cabo-verdiana contra o Rafael? Qual foi a reac\u00e7\u00e3o do Rafael, se n\u00e3o acusar o Am\u00edlcar de ser um ac\u00f3lito ao servi\u00e7o da seguran\u00e7a portuguesa, a PIDE, para poderem destruir os seus advers\u00e1rios pol\u00edticos em Bissau.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 outra situa\u00e7\u00e3o que ocorreu em Conacri e que acabou por transformar-se num conflito. Momo Tur\u00e9, que desempenhava a fun\u00e7\u00e3o do Comiss\u00e1rio Pol\u00edtico a n\u00edvel da direc\u00e7\u00e3o superior do partido, beneficiou de uma bolsa para visitar todos os pa\u00edses e as organiza\u00e7\u00f5es que apoiavam a luta com meios materiais e financeiros.<\/p>\n<p>Ele aproveitou para observar e inteirar-se de todas as documenta\u00e7\u00f5es de apoios ao partido em termos de materiais e em dinheiro para a luta armada. Foram-lhe facultados documentos sobre os apoios que os respectivos pa\u00edses e organiza\u00e7\u00f5es disponibilizavam para o partido. Ele aproveitou a oportunidade e reuniu todas as informa\u00e7\u00f5es sobre bolsas de forma\u00e7\u00f5es, tratamentos, apoios materiais em armas, g\u00e9neros aliment\u00edcios e apoios financeiros.<\/p>\n<p>Depois do seu regresso, Momo pediu ao Am\u00edlcar o extrato de conta do partido, mas este n\u00e3o queria entregar-lhe. Momo exigiu-lhe que apresentasse o extrato da conta na reuni\u00e3o, depois iriam realizar uma confer\u00eancia nacional do partido para esclarecer algumas coisas.<\/p>\n<p>Cabral n\u00e3o quis entregar este documento que espelhava as contas do partido. Momo queria o esclarecimento porque havia casas que foram compradas na altura, mas os documentos estavam em nome de Am\u00edlcar Cabral. Esta era a raz\u00e3o pela qual Momo Tur\u00e9 pediu a convoca\u00e7\u00e3o de uma confer\u00eancia nacional, que podia transformar-se em congresso.<\/p>\n<p><b>OD: Podia explicar de forma sint\u00e9tica as circunst\u00e2ncias da morte de Am\u00edlcar?<\/b><\/p>\n<p>MS: Deixa-me terminar esses factos hist\u00f3ricos. Essa situa\u00e7\u00e3o aconteceu no momento em que o Am\u00edlcar estava envolvido num outro conflito, entre a ala cabo-verdiana e a guineense. Havia tamb\u00e9m no seio da ala cabo-verdiana um grupo de pessoas que estava em conflito contra o pr\u00f3prio Cabral, porque n\u00e3o concordava com a forma como as coisas se desenrolavam, sobretudo a quest\u00e3o da divis\u00e3o racial que se registava no seio de camaradas.<\/p>\n<p>O conflito interno que havia no seio do partido em Conacri, sobretudo a quest\u00e3o da divis\u00e3o racial, foi a raz\u00e3o principal do abandono da luta por parte de v\u00e1rios cidad\u00e3os cabo-verdianos. Um dos casos \u00e9 o do rec\u00e9m-falecido Presidente de Cabo Verde, Ant\u00f3nio Mascarenhas Monteiro, que decidiu abandonar a luta juntamente com a sua esposa.<\/p>\n<p><b>OD: Porque \u00e9 que ele abandonou a luta?<\/b><br \/>\nMS: Por causa de uma situa\u00e7\u00e3o de desigualdade racial que ocorria no internato em Conacri, na Escola Piloto. A maioria dos alunos eram crian\u00e7as guineenses (pretos) e uma minoria cabo-verdiana (burmedjus). Uma vez, a mulher do Mascarenhas chegou \u00e0 escola e viu os meninos pretos a comerem tocinhos, couro de porco frito. Dirigiu-se directamente ao frigor\u00edfico e viu peixe e carne.<\/p>\n<p>Seguiu para o refeit\u00f3rio dos professores e encontrou crian\u00e7as cabo-verdianas \u201cburmedjus\u201d a comerem carne. Dirigiu-se para uma das respons\u00e1veis, a Lilica, que \u00e9 mesti\u00e7a (burmedju), perguntando-lhe o porqu\u00ea daquela situa\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o, se na verdade as \u201ccrian\u00e7as s\u00e3o flores da nossa luta e raz\u00e3o do nosso combate\u201d.<\/p>\n<p>A esposa de Mascarenhas acabou por discutir com a Lilica e amea\u00e7ando que brigaria com ela. As pessoas foram informar ao Am\u00edlcar, que se deslocou at\u00e9 ao local. Depois de inteirar-se da situa\u00e7\u00e3o, voltou ao seu gabinete alegando que iria analisar o ocorrido. Voltou mais tarde e disse que a Lilica tinha a raz\u00e3o, relativamente ao desentendimento com a esposa de Ant\u00f3nio Mascarenhas Monteiro.<\/p>\n<p>Foi a partir dali que Mascarenhas Monteiro e a sua esposa decidiram abandonar a luta, porque entenderam que n\u00e3o podia haver desigualdades nem no seio das crian\u00e7as e muito menos a n\u00edvel dos combatentes. Al\u00e9m deles, havia tamb\u00e9m outras pessoas (cabo-verdianas e mesti\u00e7as) descontentes com a situa\u00e7\u00e3o e abandonaram a luta. Tendo em conta as situa\u00e7\u00f5es anormais que se registavam, come\u00e7ou-se a levantar quest\u00f5es sobre as circunst\u00e2ncias da morte de v\u00e1rias pessoas bem como dos julgamentos descabidos, o que acabou por criar muita desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias da morte de comandante Domingos Ramos continuavam a suscitar interroga\u00e7\u00f5es. Am\u00edlcar foi visitar os combatentes em Bo\u00e9, depois acabou por envolver-se em discuss\u00e3o com Domingos Ramos. Os guarda-costas perceberam que estavam a discutir e aproximaram-se do local. Perguntaram ao seu comandante, Domingos Ramos, o que se passava e este respondeu que ele e o Am\u00edlcar estavam a discutir alguns assuntos e o Am\u00edlcar tinha dito que era o chefe. Mas que ele, o Domingos, respondeu ao Cabral que quem mandava eram os que estavam na frente de combate.<\/p>\n<p>Disse ainda ao Am\u00edlcar que puseram-lhe no secretariado para secretariar. Uma semana depois daquela discuss\u00e3o com Am\u00edlcar, Domingos Ramos foi ferido em combate.<\/p>\n<p>Diz-se que o Domingos atacou um aquartelamento e que foi a\u00ed que ficou ferido por um tiro de obus de bazuca que acertou num tronco. Segundo as minhas pesquisas, se fosse na verdade um tiro do inimigo, n\u00e3o haveria ningu\u00e9m para socorr\u00ea-lo, porque seriam todos abatidos pela tropa portuguesa.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o que abordei \u00e9 uma das caudas entre tantas outras, que podem estar por detr\u00e1s da morte de Cabral, que foi assassinado pelos pr\u00f3prios combatentes do PAIGC. At\u00e9 hoje, muitas quest\u00f5es se colocam a volta das circunst\u00e2ncias da morte de Am\u00edlcar. Eu mesmo estou a trabalhar nestas quest\u00f5es e nas respostas que poder\u00e3o ser encontradas no livro que estou a preparar. Testemunhei algumas situa\u00e7\u00f5es em Conacri, porque trabalhei no secretariado bem como partilhei muitas informa\u00e7\u00f5es com grandes comandantes.<\/p>\n<p>Estou a trabalhar nesta mat\u00e9ria. Depois da publica\u00e7\u00e3o do livro as pessoas poder\u00e3o encontrar muitas respostas sobre as quest\u00f5es levantadas \u00e0 volta das situa\u00e7\u00f5es que ocorreram no per\u00edodo da luta de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>OD: Essa situa\u00e7\u00e3o que acabou de explicar foi certamente uma das raz\u00f5es que criou fric\u00e7\u00f5es e divis\u00f5es internas no seio do partido. Qual foi a contribui\u00e7\u00e3o dada por grandes comandantes para sarar as feridas e consequentemente evitar a morte de Am\u00edlcar? <\/b><\/p>\n<p>MS: Nenhuma&#8230; O Servi\u00e7o de Seguran\u00e7a do partido tinha informa\u00e7\u00f5es sobre uma (eventual) tentativa de assassinato de Am\u00edlcar. At\u00e9 os grandes comandantes sabiam disso. Mas porque n\u00e3o tomaram as dilig\u00eancias necess\u00e1rias para proteg\u00ea-lo?! Ou seja, porque \u00e9 que n\u00e3o enviaram homens e porque n\u00e3o activaram um alerta para garantir a seguran\u00e7a ao Cabral, uma vez que todos eles sabiam que ele era um alvo atado para matar?! Porque n\u00e3o fizeram quest\u00e3o de proteg\u00ea-lo?<\/p>\n<p>Vejam s\u00f3 um pormenor muito importante\u2026 Se nenhum comandante de grande envergadura tomou medidas para proteger Cabral, \u00e9 porque, certamente, os guineenses estavam fartos dele e das suas ac\u00e7\u00f5es, sobretudo da sua `supra murdi\u00b4 ao mesmo tempo. Toda a agente sabia da tentativa do assassinato contra Am\u00edlcar Cabral e at\u00e9 n\u00f3s que est\u00e1vamos em Moscovo sab\u00edamos disso, mas nenhuma estrutura do partido e, sobretudo, a seguran\u00e7a tomou a iniciativa de proteg\u00ea-lo.<\/p>\n<p>O grande enigma est\u00e1 aqui\u2026 porque n\u00e3o foram tomadas medidas para proteger Cabral, se toda agente sabia que era alvo a abater? A Guin\u00e9-Conacri, atrav\u00e9s do seu servi\u00e7o secreto, tinha informa\u00e7\u00f5es, tomou dilig\u00eancias e alertou a direc\u00e7\u00e3o superior do partido.<\/p>\n<p><b>OD: Um historiador cabo-verdiano acusou o Presidente Sekou Tour\u00e9 de ser o mandante do assassinato de Am\u00edlcar Cabral. O senhor tamb\u00e9m chegou \u00e0 mesma conclus\u00e3o, segundo as suas pesquisas?<\/b><\/p>\n<p>MS: O historiador cabo-verdiano, se calhar, tem informa\u00e7\u00f5es que o levou a chegar \u00e0quela conclus\u00e3o, a da implica\u00e7\u00e3o do Presidente Sekou Tour\u00e9. Deixa-me s\u00f3 explicar uma coisa sobre isso: outro historiador da pr\u00f3pria Guin\u00e9e-Conacry, Ibrahim Kaba, que tamb\u00e9m falou do envolvimento das autoridades conacri-guineense, considera o Presidente Ahmed Sekou Tour\u00e9 o mandante do assassinato de Am\u00edlcar Cabral.<\/p>\n<p>A grande verdade \u00e9 que este livro pode ser viciado, ou seja, as informa\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas pelo escritor carecem de fundamentos, porque ele (escritor) escreveu para agradar o regime do Presidente Lanssana Cont\u00e9.<\/p>\n<p>O escritor contou no seu livro que um Capit\u00e3o do ex\u00e9rcito conacri-guineense, Koiat\u00e9, detido na zona do pavilh\u00e3o dos servi\u00e7os secretos do Presidente Sekou Tour\u00e9, disse ao outro preso pol\u00edtico Alassan Djop que ele (Koiat\u00e9) sabia que ia morrer, porque matara o Am\u00edlcar Cabral por ordem de Chefe do Estado, Sekou Tour\u00e9.<\/p>\n<p>Esta foi a vers\u00e3o que Alassan Djop contou ao historiador Ibrahim Kaba. Outro oficial daquele pa\u00eds confirmou ao historiador que a miss\u00e3o do Capit\u00e3o Koiat\u00e9 era de matar aqueles homens todos, se n\u00e3o cumprissem a miss\u00e3o de matar o Am\u00edlcar. Significa que se os elementos do PAIGC n\u00e3o conseguissem matar Cabral naquela noite, seriam mortos todos pelo Capit\u00e3o Koiat\u00e9 e que iria por sua vez assassinar Cabral. O livro onde constam essas informa\u00e7\u00f5es foi escrito no momento em que cada qual falava mal do per\u00edodo do Presidente Sekou Tour\u00e9, para agradar ao novo regime.<\/p>\n<p><b>OD: Sekou Tour\u00e9 tem uma quota de responsabilidade na morte de Am\u00edlcar, de acordo com as suas pesquisas?<\/b><\/p>\n<p>MS: A rela\u00e7\u00e3o entre o Presidente Sekou Tour\u00e9 e Am\u00edlcar Cabral n\u00e3o podia ir mais longe, porque os compromissos acordados entre as duas partes, se fossem abandonados, isso criaria problemas, tal como acabou por acontecer. Sekou Tour\u00e9 tinha a inten\u00e7\u00e3o de unificar as duas Guin\u00e9\u2019s, a Guin\u00e9-Bissau e a Guin\u00e9e-Conacry.<\/p>\n<p>Am\u00edlcar falava na unifica\u00e7\u00e3o da Guin\u00e9-Bissau e as Ilhas de Cabo Verde. Mas no princ\u00edpio era esse acordo (unificar as duas guin\u00e9\u2019s). S\u00f3 que mais tarde Cabral mostrou a sua verdadeira inten\u00e7\u00e3o de unificar a Guin\u00e9-Bissau e as Ilhas de Cabo Verde. Para o Presidente Sekou Tour\u00e9, apenas Portugal ficaria a ganhar com isso. Essa situa\u00e7\u00e3o acabou por criar um mal-estar entre os dois. O Presidente Sekou Tour\u00e9 tinha os seus interesses geoestrat\u00e9gicos e geopol\u00edticos que queria levar a frente.<\/p>\n<p>Depois da independ\u00eancia, o Presidente Sekou Tour\u00e9 visitou a Guin\u00e9-Bissau. Durante a visita proferiu uma declara\u00e7\u00e3o na qual voltou a mostrar a sua verdadeira inten\u00e7\u00e3o. Disse que a Rep\u00fablica da Guin\u00e9e-Conacry e a Rep\u00fablica da Guin\u00e9-Bissau s\u00e3o um pa\u00eds de dois portos. Essa declara\u00e7\u00e3o teve o seu significado e toda agente sabia disso.<br \/>\nE mais, durante a sua visita a Bafat\u00e1, ele p\u00f4s o seu dedo no olho de Nino Vieira e este afastou-o. Ent\u00e3o, disse ao Nino Vieira que pensava que ele n\u00e3o enxergava bem. Isso aconteceu na presen\u00e7a do pr\u00f3prio Presidente Lu\u00eds Cabral, irm\u00e3o de Am\u00edlcar Cabral.<\/p>\n<p>Outra coisa que quero lembrar aqui \u00e9 a quest\u00e3o das duas ilhas, na regi\u00e3o de Bolama, que Sekou Tour\u00e9 dizia pertencerem ao seu pa\u00eds. Trata-se das ilhas de Poil\u00e3o e Jo\u00e3o Vieira. Ele estava disposto a fazer uma guerra contra a Guin\u00e9-Bissau para recuperar aquelas ilhas. E afinal, a verdadeira preocupa\u00e7\u00e3o do Presidente Sekou Tour\u00e9 era a presen\u00e7a do Presidente Lu\u00eds Cabral, irm\u00e3o mais novo de Am\u00edlcar Cabral.<\/p>\n<p>Isso demonstra claramente o seu racismo em rela\u00e7\u00e3o aos mesti\u00e7os, por causa de \u00f3dio que tinha de Am\u00edlcar Cabral. Ele sabia que era dif\u00edcil manter uma boa rela\u00e7\u00e3o com o irm\u00e3o de Am\u00edlcar que exercia a fun\u00e7\u00e3o do Chefe de Estado na Guin\u00e9-Bissau. Depois de golpe de 14 de Novembro de 1980, nunca mais reivindicou aquelas duas ilhas. Sekou Tour\u00e9 nunca ajudou a Guin\u00e9-Bissau, porque n\u00e3o chegou de aconselhar o Presidente Nino Vieira. Se tivesse aconselhado Nino Vieira, se calhar toda a sakalata (trapalhada) que aconteceu ou feita por Nino Vieira podia ter sido evitada.<\/p>\n<p>O Presidente Sekou Tour\u00e9 n\u00e3o queria nada ou que ningu\u00e9m na Guin\u00e9-Bissau, naquela altura, fortalecesse o Estado, porque o fortalecimento do Estado guineense n\u00e3o facilitaria a sua inten\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica da unifica\u00e7\u00e3o das duas Guin\u00e9\u2019s.<\/p>\n<p><b>OD: Quer dizer que o Presidente Sekou Tour\u00e9 pode ter estado por detr\u00e1s da morte de Am\u00edlcar Cabral\u2026<\/b><\/p>\n<p>MS: A \u00fanica coisa que sei, \u00e9 que as rela\u00e7\u00f5es entre os dois eram de desconfian\u00e7a\u2026ningu\u00e9m acreditava no seu companheiro, porque cada qual tinha o seu projecto ou interesses geoestrat\u00e9gicos e geopol\u00edticos. O que posso dizer sobre a morte de Am\u00edlcar Cabral \u00e9 que o pr\u00f3prio, Am\u00edlcar Cabral \u00e9 o factor da sua morte.<\/p>\n<p><b>OD: Am\u00edlcar \u00e9 respons\u00e1vel pela sua pr\u00f3pria morte, porqu\u00ea?<\/b><\/p>\n<p>MS: Cabral \u00e9 respons\u00e1vel pela sua pr\u00f3pria morte. Porque, quem mata \u00e9 morto.<\/p>\n<p><b>OD: Cabral matava pessoas?<\/b><\/p>\n<p>MS: Quem mata, \u00e9 morto. Na Guin\u00e9, quem mata, \u00e9 morto\u2026<\/p>\n<p><b>OD: Qual foi o envolvimento dos servi\u00e7os secretos portugueses. \u00c9 verdade que a PIDE teve uma quota de responsabilidade na morte de Cabral?<\/b><\/p>\n<p>MS: Foi imputada \u00e0 pol\u00edcia portuguesa \u2018PIDE\u2019 essa responsabilidade pelo pr\u00f3prio partido. A grande verdade \u00e9 que a \u201cPIDE\u201d foi sujada, porque a responsabilidade da morte de Am\u00edlcar Cabral \u00e9 unicamente do pr\u00f3prio PAIGC. As pessoas que estavam naquela miss\u00e3o s\u00e3o combatentes do PAIGC.<\/p>\n<p><b>OD: Havia guineenses e cabo-verdianos na luta, sob a orienta\u00e7\u00e3o do partido. Depois da luta, os cabo-verdianos foram para o Cabo Verde. Qual foi o segredo que estaria por detr\u00e1s do sucesso dos cabo-verdianos que conseguiram organizar-se e hoje tornaram-se em exemplo de democracia, enquanto n\u00f3s enfrentamos uma crise de mais de quatro d\u00e9cadas com guerras, sobressaltos militares e instabilidades pol\u00edtica e governamental. Tem alguma explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica para isso?<\/b><\/p>\n<p>MS: A \u00fanica explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s, os guineenses, est\u00e1vamos debaixo do colonialismo cabo-verdiano, que n\u00e3o nos permitiu ter homens preparados para estar na administra\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Fundamentei esse meu argumento no terceiro volume do livro que estou a preparar, mas tamb\u00e9m outra raz\u00e3o \u00e9 que o pr\u00f3prio Nino Vieira, depois de assumir o poder, n\u00e3o conseguiu organizar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel a situa\u00e7\u00e3o dele, porque n\u00e3o tinha nenhuma prepara\u00e7\u00e3o e acabou por levar o pa\u00eds ao abismo. No primeiro tempo da sua governa\u00e7\u00e3o instaurou um regime de terror e de ditadura, porque tinha grande complexo para que n\u00e3o viesse a ser descoberto como um operacional de Am\u00edlcar Cabral no per\u00edodo da luta de liberta\u00e7\u00e3o, sobretudo implicado no assassinato de alguns comandantes esclarecidos.<\/p>\n<p><b>OD: Nino Vieira era operacional de Am\u00edlcar para matar os seus pr\u00f3prios colegas?<\/b><\/p>\n<p>MS: Sim. Nino Vieira \u00e9 acusado de ser um operacional de Am\u00edlcar, sobretudo para eliminar os comandantes que eram considerados de perturbadores.<\/p>\n<p><b>OD: O senhor \u00e9 considerado cr\u00edtico de Am\u00edlcar Cabral. Ocorreu alguma coisa no passado na vossa rela\u00e7\u00e3o em Conacri, que pode ter influenciado negativamente as suas an\u00e1lises relativamente \u00e0 pessoa do Am\u00edlcar Cabral?<\/b><\/p>\n<p>MS: Muitas pessoas acham que tenho alguma coisa contra o Am\u00edlcar. Quero aproveitar o vosso jornal para esclarecer que eu, M\u00e1rio Sissoko, n\u00e3o tenho nada contra o Am\u00edlcar Cabral. Eu n\u00e3o fui \u00e0 luta como uma pessoa inocente, que n\u00e3o sabe nada. Sou uma pessoa esclarecida com forma\u00e7\u00e3o e bem instru\u00edda.<\/p>\n<p>Eu trabalhava no secretariado do partido em Conacri, e isso permitiu-me estar a par de v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es. Viv\u00edamos numa casa de duas moradias e a segunda moradia foi dividida em duas partes. N\u00f3s ocup\u00e1vamos o primeiro, onde estava eu, o Vasco Cabral, o Jos\u00e9 Ara\u00fajo e o Rui Cardoso. A outra parte que foi aumentada com um pr\u00e9-fabricado era ocupada por Am\u00edlcar Cabral, Aristides Pereira e pela secret\u00e1ria de Cabral.<\/p>\n<p>Outra moradia constitu\u00eda os aposentos de Am\u00edlcar Cabral, mas ele passava pelo nosso gabinete. Eu era o encarregado de arquivo morto no secretariado do partido em Conacry (Arquivo Morto \u2013 armazena documentos de frequente uso, consulta ou refer\u00eancia quase nulas. Embora n\u00e3o sejam significantes, precisam ser guardados).<br \/>\nHavia todas as informa\u00e7\u00f5es no arquivo morto. Portanto, estou em condi\u00e7\u00f5es de acompanhar muitas coisas e, ali\u00e1s, como se sabe, a minha profiss\u00e3o \u00e9 historiador. Vi muitas coisas que aconteceram em Conacry, Boke, Koundara. Havia uma situa\u00e7\u00e3o de apartheid no seio de camaradas do partido, sobretudo entre os guineenses (pretos) e os cabo-verdianos (burmedjus).<\/p>\n<p><b>OD: Ent\u00e3o, havia uma separa\u00e7\u00e3o racial no seio do PAIGC entre cabo-verdianos e guineenses?<\/b><\/p>\n<p>MS: Sim, havia separa\u00e7\u00e3o racial. As pessoas sentiam isso, mas simplesmente ignoravam. Eu vivi isso, mas n\u00e3o havia como. Tudo aquilo que eu disse que aconteceu na luta \u00e9 verdade. E qualquer pessoa que esteve presente na luta pode confirmar isso, excepto os criminosos que cegamente tentam camuflar a hist\u00f3ria, mentindo que tudo era maravilha e que Am\u00edlcar era santo.<\/p>\n<p><b>OD: Havia uma ideologia defendida por todos combatentes para libertar a Guin\u00e9-Bissau e Cabo Verde, sob a orienta\u00e7\u00e3o da direc\u00e7\u00e3o do PAIGC. Ser\u00e1 que a actual direc\u00e7\u00e3o do PAIGC tem uma ideologia clara hoje, para desenvolver a Guin\u00e9-Bissau?<\/b><\/p>\n<p>MS: Um partido pol\u00edtico dividido, no meio, entre \u201cmeninos bonitos\u201d e \u201cinimigos\u201d, \u00e9 um partido pol\u00edtico? Acha que esse partido tem uma ideologia clara, ou uma mentalidade de lutar para o desenvolvimento do pa\u00eds? A direc\u00e7\u00e3o de um partido que tem medo de diferen\u00e7a de opini\u00e3o e que prioriza apenas os que dizem sim senhor\u2026 ser\u00e1 que esse partido \u00e9 democr\u00e1tico?<\/p>\n<p><b>OD: Falemos da crise que hoje abala o PAIGC e que consequentemente acabou por atingir o pa\u00eds. O que acha que pode ser feito para ultrapassar a crise e unificar o partido, de acordo com a sua experi\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p>MS: A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para o partido PAIGC \u00e9 a sua extin\u00e7\u00e3o, de forma a dar o sossego aos guineenses.<\/p>\n<p><b>OD: Porque \u00e9 que o PAIGC deve ser extinto, um partido hist\u00f3rico\u2026<br \/>\nMS: Porque reproduz apenas ajustes de conta entre camaradas. J\u00e1 n\u00e3o tem mais nada para dar aos guineenses, portanto \u00e9 um partido que j\u00e1 est\u00e1 ultrapassado. Pode tirar essa direc\u00e7\u00e3o e afastar todos os dirigentes dos seus diferentes \u00f3rg\u00e3os. Eleger novas pessoas para a direc\u00e7\u00e3o. Tenho a certeza, que n\u00e3o se v\u00e3o entender e mergulhar\u00e3o na crise.<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 um partido de intrigas e de \u00f3dio, por isso, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a sua extin\u00e7\u00e3o e lev\u00e1-lo ao museu. Sabe que \u00e9 dif\u00edcil curar um doente biologicamente acabado. Portanto, nesta fase \u00e9 dif\u00edcil curar o doente. N\u00e3o h\u00e1 cura para o PAIGC e a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a sua extin\u00e7\u00e3o, como uma solu\u00e7\u00e3o para a crise constante que se vive no nosso pa\u00eds h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><b>OD: A CEDEAO enviou recentemente uma miss\u00e3o presidencial para mediar os guineenses. No seu ponto de vista, isso representa um falhan\u00e7o para a Guin\u00e9-Bissau ou o qu\u00ea?<\/b><\/p>\n<p>MS: Qual foi o papel jogado pela CEDEAO para estarmos nesta situa\u00e7\u00e3o? Eu fiz uma abordagem do papel ou da inger\u00eancia da CEDEAO na pol\u00edtica interna da Guin\u00e9-Bissau num dos meus livros in\u00e9dito.<\/p>\n<p><b>OD: Podia explicar um pouco sobre a inger\u00eancia da CEDEAO de que est\u00e1 a falar?<\/b><\/p>\n<p>MS: N\u00e3o. Quando o livro for publicado, poder\u00e1 ler.<\/p>\n<p><b>OD: Quer culpar a CEDEAO de toda a situa\u00e7\u00e3o da crise do nosso pa\u00eds?<\/b><\/p>\n<p>MS: N\u00e3o estou a culpar a CEDEAO. Ali\u00e1s, a gera\u00e7\u00e3o dos Chefes de Estado \u00e9 diferente agora. A verdade \u00e9 que a primeira gera\u00e7\u00e3o da CEDEAO, depois da independ\u00eancia, n\u00e3o queria a paz na Guin\u00e9-Bissau, sobretudo a parte franc\u00f3fona. Tenho provas daquilo que estou a dizer, que s\u00e3o documentos escaneados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por: Assana Samb\u00fa\/Sene Camar\u00e1<br \/>\nFoto: Marcelo N\u2019Canha Na Ritche<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O historiador guineense M\u00e1rio Sissoko defende que a solu\u00e7\u00e3o para a crise que afecta a Guin\u00e9-Bissau h\u00e1 mais de quatro&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":10199,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,18],"tags":[],"class_list":["post-10256","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-inicio","category-entrevista","wpcat-6-id","wpcat-18-id"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>M\u00c1RIO SISSOKO DEFENDE A EXTIN\u00c7\u00c3O DO PAIGC COMO SOLU\u00c7\u00c3O PARA A CRISE DO PA\u00cdS - 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