{"id":10952,"date":"2016-12-09T23:40:46","date_gmt":"2016-12-09T23:40:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=10952"},"modified":"2016-12-09T23:44:24","modified_gmt":"2016-12-09T23:44:24","slug":"lider-do-paigc-simoes-pereira-jose-mario-vaz-nao-tem-preparacao-para-ser-o-chefe-de-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=10952","title":{"rendered":"L\u00edder do PAIGC, Sim\u00f5es Pereira:\u00a0&#8220;JOS\u00c9 M\u00c1RIO VAZ N\u00c3O TEM PREPARA\u00c7\u00c3O PARA SER O CHEFE DE ESTADO&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>[parte II da Entrevista] O presidente do Partido Africano da Independ\u00eancia da Guin\u00e9 e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Sim\u00f5es Pereira, disse durante uma entrevista exclusiva ao seman\u00e1rio \u201cO Democrata\u201d que o Presidente da Rep\u00fablica, Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz, n\u00e3o tem prepara\u00e7\u00e3o para ser o Chefe de Estado. O l\u00edder do PAIGC, que venceu as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es e que apoiou a candidatura de Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica, reconheceu que o seu partido falhou ao ter apoiado uma pessoa sem prepara\u00e7\u00e3o para exercer o mais alto cargo da magistratura guineense.<\/p>\n<p>\u201cFoi um erro que todos n\u00f3s cometemos. Em democracia tamb\u00e9m se cometem erros e espero que o povo guineense saiba corrigir o erro que cometeu. N\u00e3o h\u00e1 aqui uma quest\u00e3o de incompatibilidades, de Domingos n\u00e3o se entender com o fulano. Eu tenho potencial para n\u00e3o me entender com todos, mas tamb\u00e9m tenho potencial para me entender com todos\u201d, referiu.<\/p>\n<p>Sobre a alegada corrup\u00e7\u00e3o que o Presidente Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz referiu ao demitir o seu governo, Domingos Sim\u00f5es Pereira disse que Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es morais para falar da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o. Acrescentou ainda que a Guin\u00e9 precisa de se credibilizar, de credibilizar a sua administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas que a condu\u00e7\u00e3o do processo tem que ser feita por homens \u00edntegros e por gente que granjeou reconhecimentos morais que lhes permitam fazer este exerc\u00edcio.<\/p>\n<p><strong>O Democrata (OD): Como \u00e9 que o PAIGC v\u00ea a nomea\u00e7\u00e3o de Umaro Sissoco ao cargo do Primeiro-ministro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Domingos Sim\u00f5es Pereira (PSP): <\/strong>Quando estivemos a discutir, a n\u00edvel do PAIGC, no congresso de Cacheu, tentamos perceber quem tinha melhores ideias para este pa\u00eds. Quando sa\u00edmos de Cacheu e fomos para as elei\u00e7\u00f5es legislativas, passamos a discutir sobre que partido tinha melhor projecto para o pa\u00eds. Ficou assim desenhado que, para que o povo tivesse garantias, quem fosse colocado a frente dos des\u00edgnios do pa\u00eds deveria ter um projecto de sociedade que pudesse melhorar as nossas condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>\u00c9 disso que n\u00f3s estamos a falar agora? Estamos a falar de ganhar um pr\u00e9mio\u2026 voc\u00ea sai pelo mundo fora ou vai tratar de outras coisas e, de repente, ganhou uma lotaria e \u00e9 chefe do Governo. Isso \u00e9 desrespeitar o fundamento da nossa exist\u00eancia enquanto Estado. N\u00e3o se trata do problema do Sissoco. Por isso, n\u00e3o falo de pessoas, falo de princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Sabe as ideias do Umaro Sissoco sobre o problema do sector da reforma e seguran\u00e7a? Sabe alguma coisa escrita por ele ou defendida por ele sobre esse sector?\u2026 Sabe o que ele pensa em rela\u00e7\u00e3o ao combate ao narcotr\u00e1fico? Tem alguma ideia do projecto que ele prop\u00f5e em rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, \u00e0 quest\u00e3o do desporto? Sabe-se alguma coisa sobre ele neste sentido?\u2026 se n\u00e3o sabe, ent\u00e3o como pode o povo confiar nessa pessoa os destinos da Na\u00e7\u00e3o?!<\/p>\n<p>Quais foram as entidades que concorreram para governar o pa\u00eds? Foram o PAIGC, o PRS, o PCD e por ai al\u00e9m. O povo outorgou a compet\u00eancia ao PAIGC. Essa compet\u00eancia de poder governar, por algum motivo foi posta em causa, e foi posta em causa pelo Presidente da Rep\u00fablica e dos alco\u00f3licos que ele vai recrutando.<\/p>\n<p>O Presidente da Rep\u00fablica, de acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o, tem como \u00fanica compet\u00eancia verificar se h\u00e1 equil\u00edbrio no exerc\u00edcio dos poderes e que a democracia funcione.<\/p>\n<p>Se ele chegar \u00e0 conclus\u00e3o em como n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para que esse equil\u00edbrio prevale\u00e7a e para que a democracia funcione, ent\u00e3o ele apenas tem uma alternativa que \u00e9 dissolver o parlamento e convocar elei\u00e7\u00f5es antecipadas. Quando ele disse que n\u00e3o faria isso, assumiu as compet\u00eancias que a lei n\u00e3o lhe conferiu. Portanto esteve fora da lei. Ele disse que havia gente que queria! N\u00e3o, n\u00e3o\u2026Quem violentou a lei e quem est\u00e1 realmente numa logica de golpe de Estado \u00e9 o Presidente da Rep\u00fablica, o Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz.<\/p>\n<p><strong>OD: Quem \u00e9 realmente Umaro El Mokhtar Sissoco Embal\u00f3 para o PAIGC?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>\u00c9 muito importante dizer uma coisa. N\u00f3s lan\u00e7amos um processo do recenseamento e cadastramento dos nossos militantes. Eu acredito que esse \u00e9 um exerc\u00edcio que vai nos permitir no futuro responder a essa pergunta com algum rigor. At\u00e9 l\u00e1, muitas vezes s\u00e3o especula\u00e7\u00f5es, e muitas vezes s\u00e3o a sua palavra e contra a minha\u2026 Eu j\u00e1 ouvi algu\u00e9m dizer que foi dirigente do partido e que chegou a membro do Comit\u00e9 Central. Respeito isso. N\u00e3o tenho elementos para confirmar que assim foi, mas acredito que tenha sido.<\/p>\n<p>Neste momento diz que \u00e9 militante do PAIGC. Eu s\u00f3 me lembro do seguinte: para ser militante do PAIGC, n\u00e3o basta ter um cart\u00e3o do partido. \u00c9 preciso cumprir um conjunto de pressupostos. Neste momento, enquanto falo, n\u00e3o tenho raz\u00f5es para dizer que n\u00e3o cumpre, mas tamb\u00e9m n\u00e3o tenho elementos para garantir que cumpre.<\/p>\n<p><strong>OD: Em Fevereiro pr\u00f3ximo, o Eng. Domingos Pereira completar\u00e1 3 anos como l\u00edder do PAIGC. Olhando para as crises que abalam hoje o partido, com destaque para a dissid\u00eancia do grupo dos 15, o que ter\u00e1 falhado na sua estrat\u00e9gia de assegurar a coes\u00e3o interna? \u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Nada falhou! Obviamente que haver\u00e1 sempre elementos ou coisas que n\u00f3s pod\u00edamos fazer de forma diferente. Mas se rodarmos a cassete para tr\u00e1s, provavelmente voltar\u00edamos a fazer exactamente a mesma coisa. Hoje o partido est\u00e1 muito mais coeso. Alguns dos senhores que est\u00e3o c\u00e1 assistiram, de alguma forma, a nossa \u00faltima reuni\u00e3o do Comit\u00e9 Central, onde houve um debate franco e aberto. N\u00e3o h\u00e1 unanimismo e nem todo o mundo pensa igual ao l\u00edder do PAIGC, mas no final do dia somos capazes sempre de tomar decis\u00f5es que respeitam e protegem os interesses do partido.<\/p>\n<p>Depois de Cacheu, ainda n\u00e3o aprovamos nenhuma decis\u00e3o no \u00f3rg\u00e3o superior do partido com uma taxa inferior de 90 a 95 por cento. Isto \u00e9 uma aquisi\u00e7\u00e3o muito importante. Penso que o jornalista esteve na \u00faltima reuni\u00e3o do Comit\u00e9 Central, quando optei por n\u00e3o intervir antes da vota\u00e7\u00e3o. O que devia ser normal, enquanto o l\u00edder do partido, antes de submeter qualquer tema \u00e0 vota\u00e7\u00e3o devia ter o direito de poder dizer aos membros qual a posi\u00e7\u00e3o defendida pela direc\u00e7\u00e3o do partido.<\/p>\n<p>Optei pelo <strong>n\u00e3o<\/strong>! Disse que deixaria as pessoas definirem livremente a sua orienta\u00e7\u00e3o e defenderem aquilo que pensam que \u00e9 melhor para o partido. Em 212 membros presentes na sala da reuni\u00e3o, 11 pessoas votaram contra a resolu\u00e7\u00e3o final. E n\u00f3s continuamos a dizer que o partido est\u00e1 quebrado! O partido est\u00e1 numa rotura, n\u00e3o sei o qu\u00ea\u2026 vamos com calma e vamos ver quando chegar o momento. Eu tenho muita curiosidade em ver se os outros partidos v\u00e3o apresentar uma coes\u00e3o maior.<\/p>\n<p>Eu penso que h\u00e1 muita gente est\u00e1 a ficar com medo daquilo que o PAIGC est\u00e1 a demostrar, porque o testemunho que eu ouvi foi de gente que neste momento exerce cargos administrativos. T\u00eam-me dito. Mas se o problema \u00e9 o cargo que exer\u00e7o, eu coloc\u00e1-lo-ei \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para que o partido realmente saia bem.<\/p>\n<p>Para podermos, de facto, manter esta coer\u00eancia e resgatar o nosso pa\u00eds, temos de fazer sacrif\u00edcios. As pessoas est\u00e3o muito preocupadas. Acho que \u00e9 perfeitamente normal que estejam preocupadas com a quest\u00e3o dos 15. Mas quem s\u00e3o os 15? Os 15 s\u00e3o, de alguma forma, um instrumento que o Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz gostaria de utilizar dentro do partido para poder destabiliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>As decis\u00f5es que foram tomadas no partido foram decis\u00f5es muito concretas e muito assertivas. Essas quest\u00f5es colocaram-lhes fora da condi\u00e7\u00e3o de poder comprometer a condu\u00e7\u00e3o do partido. H\u00e1 um nervosismo crescente e, portanto como do outro lado est\u00e1 um Presidente da Rep\u00fablica, \u00e9 normal que esse seja um assunto que n\u00e3o passa. Cada vez que h\u00e1 um pequeno problema fala-se dos 15. Quem se interessa com os 15 \u00e9 o Presidente da Rep\u00fablica, porque ele \u00e9 o promotor dos 15.<\/p>\n<p>Agora pergunto-lhe, no passado n\u00e3o tem informa\u00e7\u00e3o do que o ex-presidente do partido e o Presidente da Rep\u00fablica da Guin\u00e9-Bissau, Jo\u00e3o Bernardo Vieira \u201cNino\u201d foi expulso do partido? N\u00e3o t\u00eam essa informa\u00e7\u00e3o? N\u00e3o t\u00eam informa\u00e7\u00e3o do actual primeiro vice-presidente do PAIGC, Carlos Correia ter sido expulso do partido? N\u00e3o t\u00eam informa\u00e7\u00e3o de que v\u00e1rios altos dirigentes do partido foram expulsos do partido. Porque \u00e9 que essas pessoas foram expulsas do partido e porque \u00e9 que estas agora n\u00e3o podem ser expulsas?<\/p>\n<p><strong>OD: Senhor presidente considera-se uma v\u00edtima do sistema tanto do partido como o do pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Eu n\u00e3o me considero uma v\u00edtima. Estou no PAIGC com um prop\u00f3sito. Sou um cidad\u00e3o nacional e a minha maneira e de acordo com a minha vis\u00e3o, quero o melhor para o meu pa\u00eds. Quero viver aqui! Eu acredito que aquilo que acontecer ao pa\u00eds, vai-me acontecer-me a mim e vai acontecer \u00e0s pessoas de quem eu mais gosto.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 uma luta e eu acredito que j\u00e1 estivemos mais longe. Eu compreendo a popula\u00e7\u00e3o e compreendo acima de tudo muita gente que se diz cansada! Mas n\u00e3o acredito que essas pessoas estejam a dizer que querem que esta situa\u00e7\u00e3o seja recorrente. Eu penso que desta vez, durante este exerc\u00edcio, por mais dif\u00edcil que a situa\u00e7\u00e3o esteja e, sabemos que est\u00e1, h\u00e1 um grande ganho que podemos retirar da actual crise. Estamos a utilizar um m\u00e9todo exclusivamente democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Recorremos \u00e0 lei. Atrav\u00e9s do confronto pol\u00edtico, estamos a fazer valer os nossos direitos e os nossos interesses. O que est\u00e1 a desequilibrar este exerc\u00edcio \u00e9 sobretudo um ou dois factores: um dos factores \u00e9 o Presidente da Rep\u00fablica ser um actor pol\u00edtico, o que n\u00e3o deveria estar a acontecer. Na nossa constitui\u00e7\u00e3o, o Presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o \u00e9 parte do jogo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O Presidente da Rep\u00fablica deve ser o fiel da balan\u00e7a. A segunda grande raz\u00e3o para este \u201csentimento\u201d \u00e9 o tempo. Isto est\u00e1 a durar muito, o que est\u00e1 a provocar muitos desgastes. \u00c9 pr\u00f3prio da natureza humana pensar que se eu estiver a sofrer disto durante muito tempo, ent\u00e3o qualquer solu\u00e7\u00e3o serve. N\u00e3o! N\u00e3o, nos serve qualquer solu\u00e7\u00e3o. Devemos ser capazes de sair desta situa\u00e7\u00e3o vencendo os fantasmas do passado. N\u00e3o podemos admitir que a indisciplina ven\u00e7a a disciplina!<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos permitir que um grupo de pessoas continue a poder condicionar o exerc\u00edcio de uma institui\u00e7\u00e3o. Lembro-me que muitas vezes as pessoas perguntam: porque n\u00e3o negociam com os 15? Fizemos isso. Sabe, essas negocia\u00e7\u00f5es redundaram em qu\u00ea?\u2026qual \u00e9 o lugar que me v\u00e3o dar no governo e qual \u00e9 o lugar que d\u00e3o \u00e0quelas pessoas que me acompanham? \u00c9 este o pa\u00eds que queremos construir?<\/p>\n<p><strong>OD: O seu ex-aliado, Baciro Dja, no processo da conquista da lideran<\/strong><strong>\u00e7a do partido, cedo tornou-se um advers\u00e1rio. Quais foram as causas que minaram a vossa alian\u00e7a? <\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Penso que essa \u00e9 uma pergunta que tem de fazer ao Dr. Baciro Dja. Porque \u00e9 que eu digo isso? Porque foi ele quem apresentou a carta de demiss\u00e3o e a dizer que deixou de ter confian\u00e7a para continuar a trabalhar comigo. Julgo que se lembram disso. Quando ele entregou a carta do pedido de demiss\u00e3o deu uma confer\u00eancia de imprensa e disse que muito pouco tempo depois haveria uma mudan\u00e7a. Isso acabou por acontecer.<\/p>\n<p>Dr. Baciro Dja, depois de ter pedid0 a demiss\u00e3o, menos de um m\u00eas depois o meu governo foi demitido. Portanto, ele estava na posse de informa\u00e7\u00f5es que diziam que se ele demarcasse dessa governa\u00e7\u00e3o teria uma recompensa. Essa \u00e9 uma pergunta que tem que ser dirigida ao Dr. Baciro Dja, sobretudo nesta altura em que ele tem condi\u00e7\u00f5es de comparar o passado com o presente.<\/p>\n<p><strong>OD: <\/strong><strong>Muitos consideram o seu estilo de lideran\u00e7a tendente a favorecer os pr\u00f3ximos e amigos e isso ter\u00e1 contribu\u00eddo para ruptura interna no PAIGC. Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Essa defini\u00e7\u00e3o de pr\u00f3ximos e amigos \u00e9 sempre muito parcial e muito subjectiva. Eu n\u00e3o partilho deste sentimento. Eu tenho que formar uma equipa capaz de produzir resultados. N\u00e3o consigo compreender este sentimento. Eu vou dizer-lhe o seguinte: perten\u00e7o \u00e0 uma gera\u00e7\u00e3o que tem todo o direito de pensar que \u00e9 a primeira gera\u00e7\u00e3o dos escolares guineenses.<\/p>\n<p>Recebi uma bolsa de estudos para forma\u00e7\u00e3o superior em 1981\/82. Somos praticamente a primeira gera\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos guineenses que receberam essa oportunidade de forma\u00e7\u00e3o. Portanto \u00e9 perfeitamente normal que haja aqui alguma coincid\u00eancia, com grande parte daqueles que conhe\u00e7o. Se acredito que podem produzir determinadas solu\u00e7\u00f5es, podem pertencer ao meu governo.<\/p>\n<p>Penso que o debate devia ser dirigido noutro sentido. Por exemplo, dizer que optei por \u2018A\u2019, quando tinha op\u00e7\u00f5es \u2018B, C e D\u2019, que s\u00e3o muito melhores do que a op\u00e7\u00e3o \u2018A\u2019. Ou que fui buscar algu\u00e9m fora, quando dento do partido tinha essa mesma compet\u00eancia. De facto, houve coincid\u00eancias. Alguns que foram membros do meu governo s\u00e3o da minha gera\u00e7\u00e3o e podem ser considerados meus colegas, eventualmente meus amigos.<\/p>\n<p>Tenho muito orgulho do desempenho que eles fizeram, mas h\u00e1 uma generaliza\u00e7\u00e3o nisso que n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade. Bom n\u00famero daqueles que s\u00e3o hoje apresentados como os meus colegas e meus amigos, eu conheci-os j\u00e1 neste percurso de candidatura \u00e0 lideran\u00e7a do partido. S\u00f3 que eu gosto de mobilizar compet\u00eancias. Acredito que sempre que encontro algu\u00e9m no meu percurso, que me pare\u00e7a competente, tento que pux\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O partido, talvez durante demasiado tempo orientou-se na perspectiva de \u201cquem fez campanha merece ser recompensado\u201d. \u00a0Muita gente pensa: estou na sede durante esse tempo todo. Considero-me \u2018Rei da Campanha\u2019 pol\u00edtica e agora n\u00e3o me colocaram a mim e foram colocar o fulano ou beltrano.<\/p>\n<p>Que me d\u00eaem exemplos concretos de gente que eu coloquei no governo por serem meus amigos e que um (1) n\u00e3o sejam do partido, dois (2) que n\u00e3o sejam do sector onde foram colocados.<\/p>\n<p>Dos 31 membros do meu governo, h\u00e1 quatro que podem ser vistos como os meus colegas, a quem reconhe\u00e7o compet\u00eancias e qualidades que me garantem resultados. O que \u00e9 interessante no meio disso tudo \u00e9 que as acusa\u00e7\u00f5es s\u00e3o parciais e fragmentadas. Num momento dizem que s\u00e3o amigos e colega foi por isso e, noutro momento vo dizem que voc\u00ea tem prolemas com os mu\u00e7ulmanos e n\u00e3o sei o qu\u00ea\u2026 mas quando dizem isso n\u00e3o v\u00e3o reconhecer que dentro desses amigos h\u00e1 mu\u00e7ulmanos e de todas as outras proveni\u00eancias. \u00c9 desonesto este sentimento, porque vejo em todos os guineenses homens e mulheres iguais a mim.<\/p>\n<p>Quero dar um exemplo que me parece verdadeiramente demostrativo. N\u00f3s elaboramos um plano estrat\u00e9gico operacional. Posso considerar que foi um exerc\u00edcio excepcional. V\u00e1 verificar quem s\u00e3o as pessoas que contribu\u00edram para a elabora\u00e7\u00e3o do documento. Portanto s\u00e3o pessoas que ficavam nesta sala, \u00e0s vezes at\u00e9 \u00e0s cinco da manh\u00e3 outras vezes at\u00e9 \u00e0s seis da manh\u00e3. Essas pessoas tinham de ir aos seus empregos \u00e0s 8h:30 ou nove horas da manh\u00e3 para trabalhar.<\/p>\n<p>Qualquer governo \u00e9 feito de equipas, s\u00e3o equipas de trabalho. Depois de criticarem tanto o que fizemos e se o governo era feito sobretudo dos meus amigos, afinal foram os meus amigos que escreveram isso. Afinal tinham compet\u00eancia para escrev\u00ea-lo. Agora sa\u00edram e entraram os amigos dos outros. Onde \u00e9 que est\u00e1 o produto de trabalho que eles fizeram? Chegaram e ali descobriram que o produto de trabalho dos meus amigos \u00e9 que era bom.<\/p>\n<p><strong>OD: <\/strong><strong>A sua demiss\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es do Primeiro-Ministro depois de um ano de governa\u00e7\u00e3o resultou da aus\u00eancia de um ambiente saud\u00e1vel de coabita\u00e7\u00e3o com o Presidente Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz. Qual foi na verdade o principal motivo de tens\u00e3o entre voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>N\u00e3o houve um motivo de tens\u00e3o, mas houve sim uma diferen\u00e7a de abordagem. O Presidente da Rep\u00fablica, Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz, na minha opini\u00e3o tem uma percep\u00e7\u00e3o e uma leitura completamente desenquadradas do nosso ordenamento jur\u00eddico e pol\u00edtico. Na nossa Constitui\u00e7\u00e3o e no pr\u00f3prio espirito da Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 consagrado que os demais \u00f3rg\u00e3os de soberania t\u00eam de ser do agrado do Presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Quando o Presidente da Rep\u00fablica invoca que eu n\u00e3o o respeito e que temos dificuldades em trabalharem em conjunto, na verdade eu nunca senti que n\u00f3s trabalhamos, o Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz e eu, porque ele (Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz) n\u00e3o discute subst\u00e2ncias. O Dr. M\u00e1rio Vaz ocupa o seu tempo naquilo que lhe v\u00e3o dizendo e nas percep\u00e7\u00f5es. Houve uma ocasi\u00e3o em que eu entrei no gabinete do Presidente Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz e ele recusou apertar-me a m\u00e3o, porque algu\u00e9m lhe disse que, se me apertasse a m\u00e3o alguma coisa poderia acontecer. Isto \u00e9 alguma substancia\u2026 s\u00e3o coisas dessa natureza.<\/p>\n<p>Consigo desculpar isso, consigo colocar-me por cima disso! Muito rapidamente compreendi que o Presidente Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz tinha uma agenda. Ele acredita que ter\u00e1 capacidade de chamar a si todas as compet\u00eancias do pa\u00eds. Ele acredita que verdadeiramente que vai poder controlar o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a e acredita que vai controlar Assembleia Nacional Popular. Acredita que pode controlar o Governo e vai ter capacidade de influenciar a sociedade civil.<\/p>\n<p>Quero lembrar aqui uma coisa interessante: Eu e o camarada Carlos Correia fomos \u00e0 casa do Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz, antes dele se mudar para o Pal\u00e1cio da Rep\u00fablica. Ele tinha convocado o Secret\u00e1rio Nacional do PAIGC, e algumas estruturas do partido para uma reuni\u00e3o em sua casa. Achamos estranho e assinalei que isso n\u00e3o me parecia normal, mas ele entendeu que, sendo o Presidente da Rep\u00fablica e sendo militante ou ex-militante do PAIGC, n\u00e3o sei como trat\u00e1-lo, ele tinha o direito de ter uma capacidade de influenciar o que vai acontecendo no PAIGC.<\/p>\n<p>Tanto assim foi que, na escolha dos membros do Conselho de Estado, o n\u00famero de elementos do PAIGC que ele colocou no Conselho do Estado indicava que ele queria poder influenciar as coisas dentro do partido. Chamei-lhe aten\u00e7\u00e3o na altura, disse-lhe que os cinco elementos que o Presidente da Rep\u00fablica tem o direito de convidar para o Conselho de Estado s\u00e3o escolhidos de forma de permitir que o Presidente tenha uma maior representatividade da Na\u00e7\u00e3o guineense.<\/p>\n<p>Os \u00f3rg\u00e3os de soberania representados no Conselho de Estado s\u00e3o o Presidente da Assembleia Nacional Popular, o Presidente do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, o Primeiro-ministro e os l\u00edderes dos partidos representados no parlamento que t\u00eam assento por iner\u00eancia. Depois disso, verifica-se depois os restantes cinco assentos a preencher. Deve ser tomada em conta a quest\u00e3o do g\u00e9nero, se uma mulher foi convida ou n\u00e3o. Se todas as religi\u00f5es est\u00e3o representadas, se o sector privado e a juventude est\u00e3o representados. \u00c9 assim que os cinco membros s\u00e3o cooptados como uma forma do Presidente garantir a representatividade.<\/p>\n<p>Para o Presidente Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz n\u00e3o era isso. Nos cinco elementos que ele tinha direito, e colocou quatro do PAIGC. Pretendendo ter uma verdadeira ascens\u00e3o dentro do partido, mas ele n\u00e3o ficou por a\u00ed. O Presidente M\u00e1rio Vaz, antes de tomada de posse do Governo, chamou-me numa determinada ocasi\u00e3o \u00e0 casa dele para me apresentar ao Governador do BCEAO. Anunciou-me que estava a negociar uma d\u00edvida para o pagamento de sal\u00e1rios. Estava a negociar em casa dele e o executivo ainda n\u00e3o tinha tomado posse.<\/p>\n<p>Eu disse-lhe que eu ainda nem o meu ministro das finan\u00e7as conhecia e como \u00e9 que ele estava a negociar uma d\u00edvida. Perguntei ainda com base em que prossupostos estava a negociar a d\u00edvida e qual era a taxa de juros que estava a negociar. Qual era a condi\u00e7\u00e3o de reembolso? Ele respondeu que eu ia chegar ao poder e n\u00e3o sabia o que encontraria. Respondi-lhe que eu n\u00e3o sabia, e se ele sabia. Ele respondeu que foi o ministro das finan\u00e7as e que conhecia melhor a situa\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma autocritica e ao mesmo tempo um reconhecimento de culpa que tivemos. N\u00f3s coloc\u00e1mos na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, que \u00e9 o mais alto cargo da magistratura nacional, algu\u00e9m sem prepara\u00e7\u00e3o para o efeito. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz n\u00e3o tem prepara\u00e7\u00e3o para ser o Chefe de Estado, n\u00e3o tem\u2026 foi um erro que n\u00f3s todos cometemos. Em democracia tamb\u00e9m se cometem erros. Eu espero que o povo guineense saiba realmente corrigir o erro.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 aqui uma quest\u00e3o de incompatibilidades, de Domingos n\u00e3o se entender com o fulano. Tenho potencial para n\u00e3o me entender com todos bem como tenho potencial para me entender com todos. Da mesma forma que o Presidente pode ter alguma dificuldade de relacionamento comigo, eu posso ter dificuldades de relacionamento com outro. Mas isso n\u00e3o me d\u00e1 o direito de pensar que, porque n\u00e3o nos entendemos, voc\u00ea tem que sair!<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 escrito na Constitui\u00e7\u00e3o que, para trabalharmos juntos, temos que ser amigos. O importante \u00e9 respeitar a ordem constitucional e seguir os procedimentos que est\u00e3o ai aditados.<\/p>\n<p><strong>OD: O senhor tem um problema pessoal com Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Que eu saiba n\u00e3o! Nunca tivemos nada cruzado\u2026 Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz j\u00e1 se referiu a minha fam\u00edlia publicamente, muitas vezes. J\u00e1 evocou situa\u00e7\u00f5es que tinham a ver com o meu filho, que tinham a ver com a minha mulher. Eu n\u00e3o, tudo que tem a ver em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia de Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz \u00e9 que eu a respeito. Eu tento distinguir os dois momentos: H\u00e1 um que exerce compet\u00eancias de Estado e nesses exerc\u00edcios das compet\u00eancias, podemos n\u00e3o nos entender. Posso ter uma leitura cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao resto da fam\u00edlia e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 intimidade de Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz. Eu sou religioso e respeito o direito que cada um tem a sua privacidade e ao seu bom nome.<\/p>\n<p>Quero lembrar aqui tr\u00eas momentos que considero extraordin\u00e1rios nesta andan\u00e7a e isso \u00e9 para responder \u00e0 quest\u00e3o, se tenho problemas com o Dr. M\u00e1rio Vaz. Primeiro, quando o Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz foi escolhido como candidato presidencial do PAIGC, n\u00f3s dois juntos fomos fazer a deposi\u00e7\u00e3o da candidatura no Supremo Tribunal de Justi\u00e7a. Logo depois da deposi\u00e7\u00e3o da candidatura, o ent\u00e3o Procurador-Geral da Rep\u00fablica apresentou um recurso dizendo que pendia sobre o Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz um conjunto de suspeitas que n\u00e3o lhe outorgavam o direito de ser candidato.<\/p>\n<p>Quem foi ao Supremo Tribunal de Justi\u00e7a defender o Dr. M\u00e1rio Vaz fui eu. Porque fiz isso? As pessoas podem perguntar se eu estou arrependido disso, n\u00e3o estou arrependido. Eu li o texto que invoca as raz\u00f5es por que o Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz n\u00e3o podia ser candidato. Eu disse que aquelas raz\u00f5es eram extemporaneas, porque apresentar como candidato foi buscar uma certid\u00e3o de registo criminal e a entidade que deu registo criminal escreveu \u2018Nada Consta\u2019.<\/p>\n<p>E a \u00fanica dificuldade que depois tive com isso foi quando o Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz recusa a outras pessoas esse mesmo princ\u00edpio. A seguir, a Comiss\u00e3o Nacional de Elei\u00e7\u00f5es (CNE) fixou um prazo que n\u00f3s achamos que era muito apertado para entrega de um conjunto de documentos, sobretudo para o nosso candidato presidencial. Quem foi a CNE fui eu, n\u00e3o foi ele. Eu \u00e9 que fui a CNE e eu \u00e9 que fui ter com o Presidente de Transi\u00e7\u00e3o, Serifo Nhamadjo, para conseguirmos a dilata\u00e7\u00e3o do prazo. Esses s\u00e3o dois sinais importantes para demostrar que n\u00e3o havia nenhum problema entre n\u00f3s dois, pelo menos que eu soubesse.<\/p>\n<p>Penso que todos devem se lembrar, que quando foi lan\u00e7ada a campanha eleitoral nacional, eu estava fora a correr o mundo, a ver se conseguia apoios para a campanha eleitoral do PAIGC. Durante as duas semanas que eu passei fora da Guin\u00e9, onde \u00e9 que o Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz fez campanha? Em Bissau apenas. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz n\u00e3o passou de Safim em campanha eleitoral. Porqu\u00ea? Porque tal restri\u00e7\u00e3o colocada pelo Procurador-Geral da Rep\u00fablica continuava a colocar esse medo de o fazer.<\/p>\n<p>No dia em que eu cheguei a Bissau, que subimos numa plataforma at\u00e9 a sede do partido. Foi esse o dia que sa\u00edmos para o interior e fizemos 23 dias de campanha. Se eu tivesse algum problema com o Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz provavelmente n\u00e3o faria isso. J\u00e1 com o an\u00fancio do resultado das elei\u00e7\u00f5es, havia o problema de aceita\u00e7\u00e3o do resultado. Isso porque o candidato Nuno Nabiam n\u00e3o queria reconhecer o resultado. O presidente Ramos Horta convida-nos para uma negocia\u00e7\u00e3o na UNIOGBIS para ver se conseguiamos ultrapassar aquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que nos foi proposto? Fizeram-nos uma proposta atrav\u00e9s de um documento escrito. Aceitar Nuno Nabiam como vice-Presidente da Rep\u00fablica e respons\u00e1vel pelas \u00e1reas econ\u00f3micas.<\/p>\n<p><strong>OD: Qual foi a resposta do Presidente Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz, na altura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Estava presente n\u00e3o s\u00f3 Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz, mas tamb\u00e9m o camarada Carlos Correia. A posi\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz foi de aceitar a proposta feita por Jos\u00e9 Ramos Horta. N\u00f3s \u00e9 que recusamos e dissemos na altura que isso n\u00e3o estava plasmado na nossa Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sa\u00edda dessa reuni\u00e3o, eu \u00e9 que liguei pessoalmente ao Nuno Nabiam, instando-lhe a aceitar o resultado das elei\u00e7\u00f5es e que a seguir ter\u00edamos uma reuni\u00e3o no Pal\u00e1cio da Rep\u00fablica. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz optou por n\u00e3o falar. Eu assumi as despesas de defender a sua posi\u00e7\u00e3o para a sua elei\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o me faz arrepender-me, porque eu n\u00e3o estava a defender o Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz. Eu estava a defender um princ\u00edpio, mas acima de tudo defender a Constitui\u00e7\u00e3o e as demais leis.<\/p>\n<p><strong>OD: O Presidente JOMAV baseou-se muito em alega\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o como motivos para demitir o seu governo. Como avalia hoje as ac\u00e7\u00f5es do Chefe de Estado contra corrup\u00e7\u00e3o na luta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Eu penso que n\u00e3o existe nada. O Dr. Jos\u00e9 M\u00e1rio Vaz n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o moral de falar da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 uma luta que a Guin\u00e9 precisa desencadear. N\u00f3s precisamos de credibilizar a nossa administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas a condu\u00e7\u00e3o desse processo tem que ser feita por homens \u00edntegros e tem que ser feita por gente que granjeou reconhecimentos morais que lhes permitam realmente fazer este exerc\u00edcio. O combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz atrav\u00e9s das acusa\u00e7\u00f5es infundadas. O combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o faz-se com outros ingredientes. Quais s\u00e3o esses ingredientes que eu acho que devem ser colocados para de facto haver um efectivo combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Primeiro, precisamos ter crit\u00e9rios objectivos para seleccionar os nossos prestadores p\u00fablicos de servi\u00e7o. Segundo, precisamos criminalizar todos os actos que lesam o bem p\u00fablico. N\u00e3o conhece um documento oficial, em que algu\u00e9m, em representa\u00e7\u00e3o da `Empresa JOMAV\u00b4, confirmou estar em divida com o pagamento de fisco. Escreveu um documento a dizer que iria pagar um milh\u00e3o por m\u00eas at\u00e9 liquidar a d\u00edvida de 600 milh\u00f5es de francos cfa. O sentimento atr\u00e1s disso \u00e9 que ele assumiu que pagaria a d\u00edvida, mas o problema n\u00e3o era esse. O problema \u00e9 que a Constitui\u00e7\u00e3o da Guin\u00e9-Bissau diz que quem deve ao Estado n\u00e3o pode servir o Estado.<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 a imaginar que vamos entregar a responsabilidade de, em nosso nome, gerir o patrim\u00f3nio p\u00fablico \u00e0 algu\u00e9m que tenha uma situa\u00e7\u00e3o desta natureza?! Estamos a espera de qu\u00ea? Revisitem o meu discurso de tomada de posse. Propus que todas as pessoas nomeadas para exercer cargos publicos passassem por uma comiss\u00e3o da \u00e9tica. \u00c9 importante criar uma comiss\u00e3o da \u00e9tica que possa passar a pente fino o nosso percurso e identificar eventuais situa\u00e7\u00f5es impeditivas do nosso exerc\u00edcio do cargo p\u00fablico. A comiss\u00e3o at\u00e9 foi criada, porque \u00e9 que n\u00e3o se funciona? O combate contra a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser visto como uma luta de antecipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 problema de fosfato, de bauxite, da areia pesada de varela e do petr\u00f3leo&#8230; algu\u00e9m o perguntou? O Presidente da Rep\u00fablica convocou o primeiro-ministro na altura e disse-lhe que a zona de explora\u00e7\u00e3o conjunta entre a Guin\u00e9-Bissau e o Senegal que ele tinha suspeitas da utiliza\u00e7\u00e3o desses recursos. Eu respondi-lhe que eu n\u00e3o faria essa gest\u00e3o, que era uma estrutura aut\u00f3noma e independente. Se o Presidente quisesse poderia convoca-los e eles viriam apresentar as contas, mas n\u00f3s n\u00e3o tinhamos rigorosamente nada a ver com aquilo.<\/p>\n<p>O Presidente insistiu dizendo que queria transpar\u00eancia na gest\u00e3o desse fundo. Eu disse-lhe que achava que ele estava a cometer um erro, porque essa direc\u00e7\u00e3o ocupava-se de duas componentes. Uma era das pescas e a outra era da pesquisa petrol\u00edfera. Essas duas componentes eram compet\u00eancias do Governo, mas se o quisesse se ocupar-se disso, eu n\u00e3o tinha nenhum problema. Mandei buscar todos os documentos e levei-os para ele na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o algu\u00e9m ouviu a falar disso? Eu vi foi o Presidente da Rep\u00fablica a entregar um cheque de 500 milh\u00f5es de francos cfa ao seu novo primeiro-ministro Baciro Dja, para construir uma avenida. Algu\u00e9m perguntou da avenina? Algu\u00e9m perguntou dos 500 milh\u00f5es de francos cfa? Algu\u00e9m perguntou se o dinheiro que veio era s\u00f3 500 milh\u00f5es de francos cfa?<\/p>\n<p>Eu vi na televis\u00e3o outra vez o projecto de \u201cNovo Bissau\u201d. Isso \u00e9 da compet\u00eancia de Presidente da Rep\u00fablica? Um projecto que at\u00e9 pode ser futur\u00edstico\u2026 lembro-me que n\u00f3s analisamos esse projecto na reuni\u00e3o do Conselho de Ministros e demos a nossa orienta\u00e7\u00e3o de como \u00e9 que esse projecto poderia e devia ser tratado. T\u00ednhamos v\u00e1rios projectos dessa natureza. S\u00f3 que a diferen\u00e7a com o Presidente da Rep\u00fablica \u00e9 que n\u00f3s quer\u00edamos come\u00e7ar por Cacheu, Bolama e Bafat\u00e1 antes de fazer o projecto dessa natureza em Bissau.<\/p>\n<p><strong>OD: J\u00e1 agora, Senhor Eng. tem um processo crime em curso no Minist\u00e9rio P\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Que eu saiba n\u00e3o. N\u00e3o fui nunca notificado de qualquer coisa. At\u00e9 este momento n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum processo-crime contra mim.<\/p>\n<p><strong>OD: A dupla JOMAV\/DSP apresentada aos eleitores guineenses defraudou as expectativas. Como explica esse fracasso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>A dupla \u00e9 um \u201cslogan\u201d de campanha. No nosso regime constitucional n\u00e3o pode haver duplas. Esse conceito de `suplas\u00b4 \u00e9 nos modelos <em>anglosaxonicos,<\/em> sobretudo na constitui\u00e7\u00e3o norte-americana, onde h\u00e1 um candidato presidencial e h\u00e1 um vice-presidente que o acompanha. Aqui foi mais aquela colagem, at\u00e9 erradas. Penso que foi um erro de campanha, apesar de ter funcionado durante algum tempo.<\/p>\n<p>Penso que foi um erro, porque quando propomos um candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ele deve ser apol\u00edtico. N\u00e3o deve e n\u00e3o devia ter se colado a um partido pol\u00edtico. Penso que todo o mundo compreende que na altura em que o Dr. M\u00e1rio Vaz foi apresentado como o candidato, ele era pouco conhecido no seio da nossa popula\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o estou a dizer que eu era mais conhecido, mas tendo feito a campanha que eu fiz para a lideran\u00e7a do PAIGC e estando a falar em nome do PAIGC, eu j\u00e1 levava alguma vantagem nesse aspecto.<\/p>\n<p><strong>OD: <\/strong><strong>O PAIGC \u00e9 um partido minado por diverg\u00eancias profundas. O senhor n\u00e3o teme que essas diverg\u00eancias internas conduzam a uma derrota nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es legislativas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Estou aqui enquanto presidente do partido a dizer-lhes que os \u00f3rg\u00e3os superiores do partido nunca estiveram mais coesos do que hoje. Eu n\u00e3o sei que tipo de outras evid\u00eancias preciso realmente apresentar\u2026deixam-me apresentar mais uma. Voc\u00eas sabiam que no ano 2015, ou seja, no exerc\u00edcio de 2015, o n\u00famero de reuni\u00f5es do Comit\u00e9 Central que fizemos \u00e9 superior a somat\u00f3ria de todas as reuni\u00f5es que foram feitas pelo Comit\u00e9 Central em mais do que uma legislatura completa?<\/p>\n<p>O que \u00e9 que configura essa crise interna que sistematicamente de que temos que falar. Parece que adopt\u00e1mos aquilo que \u00e9 o \u2018slogan\u2019 dos 15 e do Presidente da Rep\u00fablica, e encaixamo-lo no PPAIGC. O PAIGC respira sa\u00fade e no nosso entender respirar sa\u00fade n\u00e3o significa unanimismo. N\u00e3o h\u00e1 crise no PAIGC. H\u00e1 sim uma crise junto do Presidente da Rep\u00fablica e dos 15. O que eu posso aceitar \u00e9 que h\u00e1 entidades que gostariam de ter instrumentos dentro do partido, mas que neste momento n\u00e3o t\u00eam. N\u00e3o tenho duvidas que o povo percebe isso.<\/p>\n<p>Aos \u00f3rg\u00e3os da comunica\u00e7\u00e3o social que realmente afinem essa linguagem porque \u00e9 penalizante e desequilibrada. Os 15 n\u00e3o s\u00e3o um partido pol\u00edtico. Os 15 s\u00e3o ex-elementos de um partido e que foram sancionados. N\u00f3s estamos a priorizar a disciplina e a institui\u00e7\u00e3o. Estamos num processo de recenseamento e neste momento estamos a estimar em cerca de 180 mil o n\u00famero de cidad\u00e3os guineenses que se consideram afectos ao PAIGC.<\/p>\n<p><strong>OD: Como avalia o regresso dos exilados pol\u00edticos ao pa\u00eds, com destaque para Carlos Gomes J\u00fanior?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Antes da ida ao Cacheu ao congresso, eu j\u00e1 dizia que enquanto houver um cidad\u00e3o guineense no estrangeiro, impedido de regressar por raz\u00f5es pol\u00edticas, isso significa que n\u00f3s n\u00e3o estamos a viver em plena democracia. Eu sou \u00e0 favor do regresso incondicional de todos os cidad\u00e3os nacionais ao pa\u00eds. E tenho dito isso: sou respons\u00e1vel, portanto tenho tamb\u00e9m que ser respons\u00e1vel a avaliar objectivamente se h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para esse efeito.<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas que sa\u00edram do pa\u00eds n\u00e3o por livre vontade. Foram obrigadas a tal, portanto o seu regresso tem que ser avaliado no sentido de, primeiro criar-se condi\u00e7\u00f5es para que a sua seguran\u00e7a seja de facto preservada e que a sua presen\u00e7a n\u00e3o represente qualquer tipo de amea\u00e7a a outras pessoas. \u00c9 nessa perspectiva que eu, enquanto primeiro-ministro, levantei essa quest\u00e3o junto da CEDEAO e pedi a interven\u00e7\u00e3o da CEDEAO para esse efeito. Tive duas reuni\u00f5es com os ministros em exerc\u00edcio do Conselho de Ministros da CPLP, nomeadamente o ministro de Angola e o ministro de Mo\u00e7ambique, discutindo essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O que eu sinto hoje \u00e9 que convinha que a abordagem desta quest\u00e3o fosse realmente por preocuparmo-nos com essas pessoas e n\u00e3o preocuparmo-nos com n\u00f3s pr\u00f3prios. H\u00e1 muita gente que, para ter uma relev\u00e2ncia no espectro pol\u00edtico actual, pensam que devem trazer outros condimentos, isto que \u00e9 mau. Eu n\u00e3o acho normal que o Carlos Gomes J\u00fanior seja transformado num facto pol\u00edtico, porque h\u00e1 pessoas ou entidades que pensam poder beneficiar disso. Eu digo isso com tremenda responsabilidade, porque eu sei aquilo que isso configura.<\/p>\n<p>Um caso concreto \u00e9 quando o ex-Chefe de Estado-maior Zamora Induta regressou. O Presidente da Rep\u00fablica afirmou publicamente que o Governo \u00e9 que teria sido respons\u00e1vel pelo regresso dele e que a inten\u00e7\u00e3o da vinda do Comandante Jos\u00e9 Zamora Induta seria para preparar o regresso de Carlos Gomes J\u00fanior. Quando Zamora Induta regressou, significou a prepara\u00e7\u00e3o da vinda de Carlos Gomes J\u00fanior e isso foi tido como um crime. Hoje \u00e9 inverso, portanto eu n\u00e3o vejo muita seriedade nisso.<\/p>\n<p>Espero que as inst\u00e2ncias competentes trabalhem de forma s\u00e9ria na cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para que todos os cidad\u00e3os guineenses possam realmente, se assim entenderem, voltar ao seu pa\u00eds e poderem viver tranquilamente. Espero que essas pessoas no exterior e as suas fam\u00edlias saibam analisar de forma fria e ponderada a exist\u00eancia ou n\u00e3o dessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>OD: As rela\u00e7\u00f5es pessoais com o l\u00edder do PRS, Alberto Mbunhe Nambeia, eram excelentes antes da queda do seu governo. O que ter\u00e1 comprometido as vossas rela\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Eu n\u00e3o sei e penso que essa \u00e9 uma das perguntas que tem que ser colocada ao presidente do PRS. E o que eu posso dizer \u00e9 o seguinte: at\u00e9 hoje tenho muito respeito por Alberto Nambeia. Infelizmente hoje n\u00e3o posso dizer que tenha realmente muita confian\u00e7a no Alberto Nambeia, o que n\u00e3o altera o respeito que continuo a ter por ele. Penso que h\u00e1 aqui uma coisa que aconteceu, e n\u00e3o estou a dizer que seja a raz\u00e3o da nossa ruptura, porque a dado momento eu ouvi duas coisas.<\/p>\n<p>A primeira coisa que eu ouvi foi que o PRS tinha os seus pr\u00f3prios interesses e que esses interesses tinham que ser sobrepostos a todos os outros. H\u00e1 uma outra argumenta\u00e7\u00e3o de que um presidente \u00e9 um presidente, ent\u00e3o v\u00e1 se l\u00e1 saber o que \u00e9 que isso quer dizer\u2026 eu penso que o que falhou ter\u00e1 sido a nossa capacidade de demostrar \u00e0 Na\u00e7\u00e3o guineense que o pacto social que n\u00f3s est\u00e1vamos a propor era demostrar ao povo guineense que o pacto social que n\u00f3s est\u00e1vamos a propor era algo muito importante para este pa\u00eds.<\/p>\n<p>A luta pol\u00edtico partid\u00e1ria \u00e9 muito importante, mas nos seus momentos. Terminamos as elei\u00e7\u00f5es e vamos come\u00e7ar uma governa\u00e7\u00e3o. Eu entendi e eu convenci as pessoas dentro do partido que era importante termos quatro anos a pensar na governa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a pensar nas guerras pol\u00edticas. Achei ter compreendido que um partido como o PRS ou partidos com assento parlamentar, quando entendem que t\u00eam capacidades de influenciar quem tem o poder, poucas vezes se alinham nessa voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu pensava que a minha maior dificuldade seria dentro do PAIGC, em convencer os dirigentes do partido a aceitar outras entidades. Fiz quest\u00e3o de fazer-me acompanhar do presidente do PRS em v\u00e1rios momentos decisivos para a vida do nosso pa\u00eds e um dos exemplos \u00e9 a reuni\u00e3o da Assembleia das Na\u00e7\u00f5es Unidas a que fomos juntos. H\u00e1 um elemento que eu penso que \u00e9 muito importante. N\u00e3o foi t\u00e3o p\u00fablico e as pessoas podem n\u00e3o saber.<\/p>\n<p>O presidente do PRS era recebido no Gabinete do primeiro-ministro todas as quintas-feiras, antes da reuni\u00e3o do Conselho de Ministros, ou seja, os temas do Conselho de Ministro que iam ser debatidos e que poderiam representar algumas reformas estruturais, tinha sempre a aten\u00e7\u00e3o do comunic\u00e1-los ao l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o. Penso que falhamos em muitas coisas, mas isso n\u00e3o quer dizer que eu abandonei a minha convic\u00e7\u00e3o de que este pa\u00eds precisa de um contrato social.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acredito na pol\u00edtica de \u201csoma zero\u201d. A pol\u00edtica em que para um ganhar e outro tem que perder. Podemos ganhar os dois ou os tr\u00eas ou mais ainda, desde que haja crit\u00e9rios para esse efeito. Eu n\u00e3o tenho nada a assinalar ao presidente do PRS, antes pelo contr\u00e1rio, dei testemunhos do momento que nos marcaram.<\/p>\n<p>Infelizmente quem n\u00e3o quer o bem e quem n\u00e3o quer ver esse pa\u00eds para a frente tratou de incendiar as hostilidades. Ser\u00e1 que isso me faz perder a esperan\u00e7a de amanh\u00e3 podermos trabalhar? N\u00e3o! Quem est\u00e1 na pol\u00edtica tem que acreditar que se n\u00e3o funcionou hoje, \u00e9 poss\u00edvel funcione amanh\u00e3.<\/p>\n<p><strong>OD: E-mails (correios electr\u00f3nicos) foram publicados num conhecido blogue, a dar conta de informa\u00e7\u00f5es sobre tr\u00e1fico de influ\u00eancia que alegadamente envolveu o DSP, seus pr\u00f3ximos e algumas figuras da imprensa nacional. Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o sobre esses e-mails?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Primeiro \u00e9 preciso que o povo guineense e, ali\u00e1s, todos tenhamos consci\u00eancia de que se trata de um crime. Violar a privacidade de uma pessoa e tentar por via dessa viola\u00e7\u00e3o tirar proveitos ou vantagens nomeadamente pol\u00edticas. N\u00e3o devia merecer nenhum apre\u00e7o ou nenhum reconhecimento da parte de pessoas sinceras e leias. Outro aspecto que eu considero de extrema gravidade \u00e9 que algumas entidades e at\u00e9 oficiais se posicionaram muito pr\u00f3ximas disso. N\u00e3o sabemos quem \u00e9 que tentou entrar na minha privacidade, ou melhor, quem \u00e9 que a violou.<\/p>\n<p>Quando ouvimos algumas entidades fazer refer\u00eancia a isso, meteu-nos medo de admitir que podemos chegar ao ponto de entidades oficiais deste pa\u00eds fazerem uso de \u2018hackers\u2019 para violar a privacidade e poder com isso tirar vantagens. Quero referir-me a um ou dois dos meus e-mails que foram publicados. H\u00e1 um e-mail que eu enviei \u00e0 minha assistente administrativa dando instru\u00e7\u00f5es sobre um conjunto de pagamentos que deviam ser feitos. \u00c9 um e-mail em concreto que eu conhe\u00e7o e quando me falaram desse e-mail, meio a brincar, disse se aquilo era tudo o que tinham de mim, ent\u00e3o eu devia candidatar-me a Bispo ou Papa, porque realmente se era aquilo o que nos apontavam como tendo de errado, ent\u00e3o que fizesse mais coisas erradas.<\/p>\n<p>O e-mail que publicaram e pelo menos aquele que eu tive acesso e que eu mandei a minha assistente administrativa referia-se a pagamentos de doentes que deviam ser evacuados e que n\u00e3o tinham junta m\u00e9dica. Eu estava preocupado que eles ficassem c\u00e1 muito mais tempo, sem a cobertura m\u00e9dica e medicamentosa. \u00c9 claro que eles n\u00e3o foram em detalhes de precisar esses aspectos, mas eu desafio os \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o a irem e verem os detalhes dos nomes que est\u00e3o l\u00e1, para verificarem que eram pessoas que eu n\u00e3o conhecia de lado nenhum.<\/p>\n<p>Estamos a referir-me a um menino que caiu de um mangueiro e temia-se que ele tivesse partido o pesco\u00e7o e que estava no hospital Sim\u00e3o Mendes. Estamos a falar de das duas meninas e uma das quais tinha uma barriga saliente, com quatro anos de idade. As duas foram operadas e est\u00e3o bem. Na altura em que eu estava de viagem, lembrei-me de repente que n\u00e3o tinha conseguido tratar do assunto da evacua\u00e7\u00e3o dessas pessoas. Pedi que se fizesse a liberta\u00e7\u00e3o de fundos e pedi \u00e0 minha assistente administrativa que tratasse desses assuntos. Eles foram buscar o e-mail publicaram-no, mas tentaram esconder o conte\u00fado real do e-mail para simplesmente dizer temos provas de que fez isso e fez aquilo\u2026Que tr\u00e1fico de influ\u00eancia, quando estamos a falar de pessoas deitadas no hospital?<\/p>\n<p><strong>OD: O l\u00edder do PAIGC tem vindo a circular com duas grandes viaturas pretas. Foram compradas com o dinheiro de Estado da Guin\u00e9-Bissau, do partido ou do seu bolso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>Eu tenho tr\u00eas viaturas que eu utilizo neste momento. Tenho duas viaturas todo o terreno e tenho uma viatura Mercedes. Come\u00e7amos por esta \u00faltima, a viatura Mercedes foi-me entregue por respons\u00e1veis da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica com a notifica\u00e7\u00e3o de que teria sido uma oferta do Rei de Marrocos ao deixar Bissau. Disseram que ofereceu uma viatura ao Presidente da Rep\u00fablica e outra a mim. Foi um dos assessores do Presidente da Rep\u00fablica que entregou as chaves ao meu chefe de seguran\u00e7a, referindo que era uma oferta do Rei de Marrocos.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras duas, foi em setembro de 2015, logo depois da minha demiss\u00e3o e logo depois do Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a. Fui chamado \u00e0 Dacar para encontrar-me com os Chefes de Estado da CEDEAO. De Dacar, o Presidente da Guin\u00e9-Conakry, Alpha Cond\u00e9, chamou-me a Conakry para uma conversa. Fui acompanhado de v\u00e1rias pessoas.<\/p>\n<p>Em Conakry, o Presidente transmitiu-me uma preocupa\u00e7\u00e3o dos Chefes de Estado da CEDEAO, dizendo textualmente que compreendiam que o PAIGC tinha ganhado nas inst\u00e2ncias judiciais, mas tendo do outro lado um Presidente da Rep\u00fablica, gostariam de ter a minha colabora\u00e7\u00e3o para podermos ultrapassar a situa\u00e7\u00e3o. A \u00fanica coisa que lhes preocupava era a minha seguran\u00e7a e raz\u00e3o pela qual tomaram a dilig\u00eancia de me oferecer duas viaturas para melhorar a minha seguran\u00e7a. Essas duas viaturas foram compradas pelos Chefes de Estado da CEDEAO na altura da minha demiss\u00e3o de primeiro-ministro.<\/p>\n<p>Nem as duas viaturas todos terrenos e nem a viatura Mercedes foram compradas por mim ou pelo Estado guineense. \u00c9 claro que eles disponibilizaram dinheiro e n\u00f3s fizemos a transfer\u00eancia. Ali\u00e1s, as viaturas nem s\u00e3o novas, mas sim usadas, tendo em conta os valores que disponibilizaram.<\/p>\n<p><strong>OD: O Eng \u00e9 amante de desporto, em particular do futebol. O Senhor vai ao Gab\u00e3o para apoiar a selec\u00e7\u00e3o nacional? Que mensagem quer deixar aos dirigentes da Federa\u00e7\u00e3o e aos guineenses em geral, nesta fase de prepara\u00e7\u00e3o para o \u201cCAN \u2013 2017\u201d no Gab\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DSP: <\/strong>De ir ou n\u00e3o ir\u2026 se eu tiver a capacidade financeira e oportunidade, bem gostava de poder ir, porque \u00e9 uma oportunidade impar. Eu ouvi o novo primeiro-ministro dizer que ia providenciar o transporte para os apoiantes da selec\u00e7\u00e3o. Espero merecer esse t\u00edtulo de apoiante da sele\u00e7\u00e3o e poder beneficiar tamb\u00e9m dessa ida gratuita. Seria uma boa ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de deixar a tal mensagem eu gostava de clarificar uma coisa. Eu n\u00e3o sei se voc\u00eas t\u00eam ideia dos valores que o meu governo desembolsava para cada o jogo da sele\u00e7\u00e3o. Estamos a falar numa m\u00e9dia de 140 milh\u00f5es de francos cfa por jogo. Eu disse que n\u00e3o me parece que esta seja a forma mais racional de utilizar esse dinheiro. Perguntei-me na altura o porque \u00e9 de a gente n\u00e3o investir em infraestruturas de base. Que invest\u00edssemos na forma\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos e na reforma do nosso desporto. \u00c9 claro que quem est\u00e1 a frente n\u00e3o gosta de ouvir isso, mas eu disse-lhes que n\u00e3o condicionaria as verbas enquanto estiv\u00e9ssemos na competi\u00e7\u00e3o para chegar ao CAN, que dar\u00edamos todo o apoio. Se porventura fossemos eliminados, teria acabado, que parar\u00edamos e come\u00e7ar\u00edamos nas estruturas de base e at\u00e9 chegarmos ao topo.<\/p>\n<p>Agora posso responder \u00e0 sua quest\u00e3o, dizendo que o povo guineense tem todo o direito de sentir-se orgulhoso deste feito. Chegar ao CAN n\u00e3o \u00e9 algo que acontece todos os dias a todos os pa\u00edses. O que eu espero \u00e9 que, para al\u00e9m das vit\u00f3rias desportivas, n\u00f3s possamos associar a essa vit\u00f3ria algo que para mim \u00e9 transcendental. Transformar essa ida ao CAN numa raz\u00e3o para a unidade nacional. A meu ver, n\u00e3o importa quem fez mais ou quem fez menos. O que importa \u00e9 agora fazermos muito mais para que a nossa presen\u00e7a no CAN seja uma presen\u00e7a dignificante e que possa realmente honrar todos os guineenses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">&#8211; Fim-<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por: Ant\u00f3nio Nhaga, Assana Samb\u00fa e Sene Camar\u00e1<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto: Marcelo Ncanha Na Ritche<\/strong> \u00a0\u00a0\u00a0<strong>\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[parte II da Entrevista] O presidente do Partido Africano da Independ\u00eancia da Guin\u00e9 e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Sim\u00f5es Pereira,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":5752,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,18,7],"tags":[],"class_list":["post-10952","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-inicio","category-entrevista","category-politica","wpcat-6-id","wpcat-18-id","wpcat-7-id"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - 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