{"id":13643,"date":"2017-07-28T11:21:06","date_gmt":"2017-07-28T11:21:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=13643"},"modified":"2017-07-28T11:21:06","modified_gmt":"2017-07-28T11:21:06","slug":"embaixador-abdou-jarju-sistema-presidencialista-e-uma-das-solucoes-para-a-instabilidade-politica-da-guine-bissau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=13643","title":{"rendered":"Embaixador Abdou Jarju: &#8220;SISTEMA PRESIDENCIALISTA \u00c9 UMA DAS SOLU\u00c7\u00d5ES PARA A INSTABILIDADE POL\u00cdTICA DA GUIN\u00c9-BISSAU&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>[ENTREVISTA parte 2\/2] Abdou Jarju, Embaixador cessante da G\u00e2mbia para a Guin\u00e9-Bissau, Guin\u00e9e-Conacry e Cabo Verde, defendeu a adop\u00e7\u00e3o do sistema presidencialista como uma das solu\u00e7\u00f5es para a constante instabilidade pol\u00edtica e governativa da Guin\u00e9-Bissau, tendo afirmado ainda que n\u00e3o acredita se o sistema vigente, o &#8216;semipresidencialista\u2019, consegue funcionar em \u00c1frica e muito menos na Guin\u00e9-Bissau.<\/p>\n<p>Jarju, que foi demitido das suas fun\u00e7\u00f5es de Embaixador desde em maio do ano em curso, fazia assim a an\u00e1lise da crise pol\u00edtica e parlamentar que assola o pa\u00eds h\u00e1 cerca de dois anos, durante uma entrevista concedida ao seman\u00e1rio \u2018O Democrata\u2019, cuja primeira parte foi publicada na edi\u00e7\u00e3o passada.<\/p>\n<p>Para o diplomata gambiano, o Acordo de Conacry foi desde princ\u00edpio um acordo negociado para falhar. Explicou neste particular que muitas vezes os Chefes de Estados que desempenham o papel de mediador preocupam-se mais em defender as suas honras e esquecem-se dos interesses do pa\u00eds em causa, por isso tentam chegar a acordo a todo custo.<\/p>\n<p>Defendeu ainda a continuidade do executivo de Umaro Sissoco Embal\u00f3 at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, porque \u201co tempo agora \u00e9 para os partidos irem preparar-se para as elei\u00e7\u00f5es. Imagine se refizermos o acordo, o que \u00e9 longo e moroso, ali\u00e1s, ser\u00e1 que haver\u00e1 consenso a volta do novo acordo? Por vezes h\u00e1 muitas incertezas\u2026 do meu ponto de vista, os guineenses devem conformar-se com a situa\u00e7\u00e3o e prepararem-se para as elei\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p><strong>O Democrata (OD): Acha que a G\u00e2mbia pode ajudar na estabiliza\u00e7\u00e3o\u00a0da grande regi\u00e3o\u00a0de Casaman\u00e7a e como pode faz\u00ea-lo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abdou Jarju (AJ):\u00a0<\/strong>A G\u00e2mbia pode ajudar na estabiliza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o de Casaman\u00e7a, mas se for solicitada, porque um Estado atua na resolu\u00e7\u00e3o de um determinado problema, se lhe for pedido. Se decidir intervir numa situa\u00e7\u00e3o dessas, sem que seja solicitado, pode ser mal interpretado.<\/p>\n<p><strong>OD:\u00a0<\/strong><strong>Em poucas palavras como avalia os 22 anos do mandato do Presidente\u00a0<\/strong><strong>Yahya\u00a0Jammeh, que \u00e9 considerado um regime ditatorial?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>Foi muito positivo o mandato de 22 anos do Presidente Jammeh. Isso pode ser comprovado por quem conhece ou viveu na G\u00e2mbia durante o per\u00edodo do regime do Presidente Dawda Jawara. Ali\u00e1s, \u00e9 imposs\u00edvel comparar os 30 anos do regime de Jawara com os 22 de mandato do Presidente Jammeh,<strong>\u00a0<\/strong>em termos de desenvolvimento. A G\u00e2mbia n\u00e3o tinha nada, nem universidades, mas gra\u00e7as ao Presidente Jammeh, j\u00e1 h\u00e1 universidades na G\u00e2mbia.<\/p>\n<p>Havia problemas s\u00e9rios no sector de sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o, sobretudo no que concerne \u00e0 falta das infraestruturas. Jammeh conseguiu grandes progressos nestes sectores, desde a constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas hospitalares e escolares bem como na cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para o seu funcionamento. A grande verdade \u00e9 que Yahya Jammeh, durante o seu mandato, fez um bom trabalho para o desenvolvimento da G\u00e2mbia. N\u00e3o h\u00e1 aspecto do desenvolvimento de um pa\u00eds que o Presidente Jammeh n\u00e3o tenha feito para a sua terra e o seu povo. Todo o povo gambiano reconhece o seu esfor\u00e7o para o desenvolvimento da G\u00e2mbia. Ali\u00e1s, depois de seis meses da sua retirada j\u00e1 se ouvem reclama\u00e7\u00f5es dos gambianos.<\/p>\n<p>Garantiu seguran\u00e7a, estabilidade pol\u00edtica e social para o seu povo. Havia ordem e as pessoas podiam andar nas ruas \u00e0 vontade e a hora que quisessem sem quaisquer problemas. Essa \u00e9 a avalia\u00e7\u00e3o que posso fazer, em poucas palavras, sobre os 22 anos do regime de Jammeh, porque n\u00e3o posso citar todos os projectos desenvolvidos por ele durante esses anos. Concordo que nem tudo era mar de rosas, ou seja, n\u00e3o se pode dizer que tudo era bom, mas em termos do desenvolvimento, foi positivo.<\/p>\n<p><strong>OD: Considera positivo os 22 anos do regime de Jammeh. Em termos de direitos humanos bem como da liberdade de express\u00e3o e de imprensa, a G\u00e2mbia sempre \u00e9 relegada para a cauda da tabela. Os relat\u00f3rios das organiza\u00e7\u00f5es da defesa dos direitos humanos consideram Jammeh de campe\u00e3o de violador dos direitos humanos, por causa da lei de pena capital onde \u00e9 acusado de matar os seus opositores.<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>Cada regime tem uma parte boa e a parte ruim! Como disse, n\u00e3o podemos dizer aqui que tudo era bom. Para o desenvolvimento, \u00e9 preciso muitos passos e este aspecto pode servir de alavanca para a progress\u00e3o do regime de Yahya Jammeh. Mas era necess\u00e1rio, ali\u00e1s, podemos ilustrar o exemplo de Singapura [um pa\u00eds da Asia] que para chegar onde est\u00e1 hoje, teve que passar pela ordem.<\/p>\n<p><strong>OD: Era necess\u00e1rio que a G\u00e2mbia passasse por estas restri\u00e7\u00f5es da liberdade e da adop\u00e7\u00e3o da pena capital, para alcan\u00e7ar o desenvolvimento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>Entendo que era necess\u00e1rio que a G\u00e2mbia passasse por esta fase para chegar onde est\u00e1 hoje, porque sen\u00e3o seria imposs\u00edvel alcan\u00e7ar os progressos conseguidos.<\/p>\n<p><strong>OD: O embaixador defende restri\u00e7\u00f5es da liberdade de express\u00e3o e a pena de morte na G\u00e2mbia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>N\u00e3o\u2026 n\u00e3o defendo a pena de morte, porque acredito na recupera\u00e7\u00e3o das pessoas. Entendo que podia ser aplicada outra pena que permitisse a recupera\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos em vez da pena de morte. A morte \u00e9 uma destrui\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, como crentes religiosos e mu\u00e7ulmanos, n\u00e3o defendemos a extin\u00e7\u00e3o da vida de ningu\u00e9m. Como mu\u00e7ulmanos, dissemos que n\u00e3o demos a vida a ningu\u00e9m, por isso n\u00e3o seremos respons\u00e1veis por tirar a vida de uma pessoa. N\u00e3o defendo a pena de morte, nem a pris\u00e3o perp\u00e9tua.<\/p>\n<p><strong>OD: Como cidad\u00e3o gambiano, associa-se \u00e0s pessoas que defendem a aboli\u00e7\u00e3o da pena de morte na G\u00e2mbia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>A pena de morte vai ser abolida na G\u00e2mbia. As novas autoridades prometeram faz\u00ea-lo, como tamb\u00e9m falaram na mudan\u00e7a de muitas leis na Constitui\u00e7\u00e3o. Uma das leis que devia ser mudada \u00e9 a pena de morte e a da pris\u00e3o perp\u00e9tua.<\/p>\n<p><strong>OD: Yahya\u00a0Jammeh \u00e9 considerado at\u00e9 hoje por um grande n\u00famero de gambianos como um revolucion\u00e1rio e um grande l\u00edder que luta para o desenvolvimento do seu pa\u00eds e da \u00c1frica. No mundo fora e a olhos das organiza\u00e7\u00f5es das defesas dos direitos humanos e inclusive de maioria da popula\u00e7\u00e3o gambiana, Jammeh \u00e9 visto como um ditador. Senhor Embaixador, Yahya Jammeh \u00e9 um ditador ou um grande l\u00edder e revolucion\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>Jammeh descreveu a sua pr\u00f3pria pessoa como ditador de progresso. O Presidente Jammeh diz que se lhe chamarem de ditador, fica contente porque sabe que ele \u00e9 um ditador do progresso. A palavra ditador tem v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es como o conceito da democracia, de acordo com o entendimento da pessoa. Do ponto de vista filos\u00f3fico, digam-me, qual \u00e9 o marido que deixa a sua esposa fazer o que bem entende na sua casa, sem reclamar? Ser\u00e1 que vamos considerar aquele marido um ditador?<\/p>\n<p>A imprensa \u00e9 muito forte nestas situa\u00e7\u00f5es, em particular a imprensa europeia que trabalha na base da linha de orienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa dos seus pa\u00edses. Se uma imprensa europeia pinta um l\u00edder africano a vermelho, toda a imprensa ocidental pega naquela mesma linha, sem procurar outras informa\u00e7\u00f5es. Podemos admitir que apenas em \u00c1frica que a imprensa p\u00fablica goza de uma determinada liberdade de andar na base da sua linha editorial. No ocidente n\u00e3o \u00e9 assim, porque a imprensa p\u00fablica jamais vai em contradi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa dos seus pa\u00edses. \u00a0\u00a0\u00a0<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sabiam que o Presidente Jammeh expulsou o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e o Banco Mundial da G\u00e2mbia? \u2026 N\u00e3o sabem que o FMI e o Banco Mundial s\u00e3o mecanismos criados pelo ocidente com o intuito de manter o seu dominio e controlo total sobre a \u00c1frica? Se o Jammeh, sem o FMI e o Banco Mundial estava a conseguir pagar os sal\u00e1rios p\u00fablicos durante quatro anos, corria-se o risco de ver outros pa\u00edses africanos a seguir o mesmo caminho.<\/p>\n<p>Jammeh expulsou ainda o representante do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e mesmo assim obteve sucesso. Ser\u00e1 que outros pa\u00edses africanos n\u00e3o seguir\u00e3o os seus passos? Nos \u00faltimos tempos, os representantes do FMI e Banco Mundial estavam a mobilizar alguns presidentes africanos no sentido de ajudar convencer o Presidente Jammeh para permitir o regresso daquelas institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais.<\/p>\n<p>Lembro que numa audi\u00eancia com um Chefe de Estado africano, Jammeh disse:\u00a0O meu problema com o ocidente n\u00e3o \u00e9 que eu, Yahya Jammeh, tenha sido rejeitado como pessoa. O problema com eles \u00e9 a minha posi\u00e7\u00e3o. Durante os meus 22 anos de mandato estou numa situa\u00e7\u00e3o de conflito com o ocidente. Para mim, a G\u00e2mbia e a \u00c1frica est\u00e3o em primeiro lugar. Se essa posi\u00e7\u00e3o vai custar o meu cargo presidencial, ent\u00e3o que assim seja!<\/p>\n<p>Por causa da posi\u00e7\u00e3o adversa a pol\u00edtica ocidental adoptada por Jammeh, ele nunca ser\u00e1 visto como um bom l\u00edder aos olhos do ocidente. Para os gambianos que viram as suas realiza\u00e7\u00f5es e sem nenhum recurso natural para explorar, ele \u00e9 um grande l\u00edder. Todo o mundo sabe que a G\u00e2mbia n\u00e3o tem nada para explorar, mas ele conseguiu fazer um bom trabalho. Se a G\u00e2mbia tivesse recursos naturais para explorar, garanto-vos que entrar na G\u00e2mbia seria muito dif\u00edcil. Jammeh era um l\u00edder ambicioso e gostava de desafios, ou seja, de desenvolver o seu pa\u00eds a semelhan\u00e7a de outros pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>OD: Neste momento a CEDEAO enfrenta muitos desafios: crise pol\u00edtica e militar, terrorismo, etc&#8230; Na qualidade de diplomata, acha que a organiza\u00e7\u00e3o\u00a0no seu \u2018modus operandi\u2019 tem condi\u00e7\u00f5es de enfrentar estes desafios a curto e m\u00e9dio prazo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>Vai ser muito dif\u00edcil! Um senegal\u00eas escreveu um livro muito interessante sobre a CEDEAO. Segundo este senegal\u00eas: o m<em>aior problema da CEDEAO \u00e9 que cada Estado conspira para destabilizar outro Estado!<\/em>\u00a0\u00c9 dif\u00edcil neste sentido, mas tamb\u00e9m \u00e9 bom real\u00e7ar aqui que a CEDEAO \u00e9 a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o sub-regional no mundo que teve grandes sucessos. Se for estudar no exterior \u00e9 ali que entende a import\u00e2ncia do papel desempenhado pela CEDEAO. Na verdade, conseguiu sucessos, mas tamb\u00e9m tem ainda pela frente muitos desafios.<\/p>\n<p><strong>OD: Que an\u00e1lise faz da situa\u00e7\u00e3o\u00a0pol\u00edtica da Guin\u00e9-Bissau, um pa\u00eds que considera sua segunda p\u00e1tria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>Eu gosto muito desta terra. Desejo ver a Guin\u00e9-Bissau num caminho muito melhor do que neste em que est\u00e1 a andar neste momento. Estou convencido que, se os guineenses decidirem deixar tudo para tr\u00e1s e trabalhar afincadamente para o desenvolvimento do pa\u00eds com os recursos de que disp\u00f5e, digo-vos que at\u00e9 os cidad\u00e3os dos pa\u00edses vizinhos ter\u00e3o grandes dificuldades para entrar na Guin\u00e9-Bissau por causa do n\u00edvel de desenvolvimento que o pa\u00eds ter\u00e1.<\/p>\n<p>A Guin\u00e9-Bissau tem todas as condi\u00e7\u00f5es para se desenvolver muito mais que o Senegal, G\u00e2mbia e inclusive outros pa\u00edses da sub-regi\u00e3o. Lembro que a comunidade internacional culpabilizava sempre as for\u00e7as da defesa e seguran\u00e7a que consideravam respons\u00e1veis pela instabilidade deste pa\u00eds. Ficamos todo o tempo nesta abordagem cegamente e sem uma an\u00e1lise profunda da causa dos problemas. Perdemos muito tempo nisso.<\/p>\n<p>Hoje, o tempo mostrou-nos que o problema n\u00e3o residia nas for\u00e7as da defesa e seguran\u00e7a. Lembro que em v\u00e1rias reuni\u00f5es mantidas com diferentes delega\u00e7\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o da crise desta terra, dizia-lhes sempre que o problema deste pa\u00eds residia no seu sistema. Na altura, afirmei que o tempo poder\u00e1 culpar-me, mas n\u00e3o acredito que o sistema semipresidencial funcione na Guin\u00e9-Bissau. Ali\u00e1s, \u00e9 um sistema que dificilmente consegue funcionar em \u00c1frica.<\/p>\n<p>Tomemos em conta a hist\u00f3ria do nosso continente, porque ao longo da sua hist\u00f3ria n\u00e3o houve a multiplica\u00e7\u00e3o de chefes, mas sim sempre houve um \u00fanico chefe. Muitas pessoas associam o sistema presidencialismo com a ditadura, mas aquilo \u00e9 errado porque h\u00e1 pa\u00edses ao n\u00edvel da nossa sub-regi\u00e3o que adoptaram o sistema presidencialista, mas n\u00e3o t\u00eam ditadura.<\/p>\n<p>O exemplo \u00e9 o Senegal e Gana. O sistema de\u00a0<em>\u2018Check and Balance\u2019<\/em>\u00a0pode ser estabelecido no presidencialismo, mas a grande verdade \u00e9 que a dispers\u00e3o do poder complica a situa\u00e7\u00e3o da governa\u00e7\u00e3o no nosso continente. J\u00e1 percebemos que as for\u00e7as de defesa e seguran\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o factores de instabilidade, portanto \u00e9 preciso ter a coragem de mudar o sistema. Parece-me que todo o mundo sente medo de falar disso, ou melhor, da mudan\u00e7a do sistema actual para o presidencialismo que muitas pessoas associam \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p><strong>OD: Embaixador, defende a mudan\u00e7a do sistema semipresidencialista para presidencialista na Guin\u00e9-Bissau?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>A adop\u00e7\u00e3o do sistema presidencialista \u00e9 uma das solu\u00e7\u00f5es para a constante instabilidade pol\u00edtica e governativa da Guin\u00e9-Bissau. J\u00e1 t\u00ednhamos responsabilizado as for\u00e7as da defesa e seguran\u00e7a e conclu\u00edmos que n\u00e3o s\u00e3o eles os respons\u00e1veis pela cr\u00f3nica instabilidade pol\u00edtica. Agora a responsabiliza\u00e7\u00e3o virou mais para as pessoas e considera-se mais os pol\u00edticos como factores da instabilidade. Ser\u00e1 que vamos banir todos os pol\u00edticos da cena? Quem dirigir\u00e1 o pa\u00eds, com que experi\u00eancia? Temos que ter a coragem de mudar o sistema e adoptar o presidencialismo.<\/p>\n<p>Algumas pessoas continuam a defender que o sistema n\u00e3o \u00e9 culpado, ali\u00e1s, at\u00e9 considera o sistema semipresidencialista um sistema perfeito. Isso \u00e9 absurdo, porque nenhum sistema pol\u00edtico de governa\u00e7\u00e3o no mundo \u00e9 prefeito! Defendo que a Guin\u00e9-Bissau deve ter um \u00fanico chefe para guiar o pa\u00eds e que igualmente ser\u00e1 responsabilizado pelas falhas que cometer.<\/p>\n<p><strong>OD: O Acordo de Conacry ainda \u00e9 vi\u00e1vel ou acha que deve ser refeito. Tem alguma recomenda\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>Desde princ\u00edpio o Acordo de Conacry foi um acordo negociado para falhar. Um dos problemas fundamentais nas negocia\u00e7\u00f5es s\u00e3o as palavras usadas e que ficar\u00e3o escritas. Se as palavras n\u00e3o forem claras, as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o ser\u00e3o claras tamb\u00e9m. Se dissermos um Primeiro-ministro de consenso dos partidos pol\u00edticos assinantes do acordo e de confian\u00e7a do Presidente da Rep\u00fablica, ent\u00e3o temos duas palavras contradit\u00f3rias que, neste caso, acabaram por complicar o acordo.<\/p>\n<p>N\u00e3o assisti a negocia\u00e7\u00e3o de Conacry, mas participei em v\u00e1rias negocia\u00e7\u00f5es e vi as posi\u00e7\u00f5es defendidas pelos Chefes de Estado mediadores. Muitas vezes esquecem-se de defender os interesses dos pa\u00edses que est\u00e3o em conflito, em detrimento das suas honras. Nestas circunst\u00e2ncias tentam chegar a acordo a todo custo.<\/p>\n<p><strong>OD: Ent\u00e3o, foi isso que aconteceu em Conacry?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>N\u00e3o estou a dizer que foi isso que aconteceu a 100 por cento, mas vi essa experi\u00eancia muitas vezes. E acho que qualquer pessoa que tomou parte nas negocia\u00e7\u00f5es de princ\u00edpio ao fim, pode dizer-nos que foi isso que aconteceu, tendo em conta a contradi\u00e7\u00e3o do acordo alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p><strong>OD: Embaixador, defende renegocia\u00e7\u00e3o do acordo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>Ser\u00e1 que o tempo permite? Quanto tempo resta-nos para as elei\u00e7\u00f5es legislativas? O tempo agora \u00e9 para os partidos irem preparar-se para as elei\u00e7\u00f5es. Imagine se refizermos o acordo, que \u00e9 um processo longo e moroso, ali\u00e1s, ser\u00e1 que haver\u00e1 consenso a volta do novo acordo? Muitas vezes h\u00e1 incertezas\u2026 do meu ponto de vista, os guineenses devem conformar-se com a situa\u00e7\u00e3o e preparar-se para as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>OD: Defende a continua\u00e7\u00e3o deste governo at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>Claro, defendo a continua\u00e7\u00e3o deste governo. Esta \u00e9 a minha opini\u00e3o. Portanto, a oito meses das elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o vejo a raz\u00e3o para a demiss\u00e3o deste executivo e forma\u00e7\u00e3o de outro, \u00e9 apenas perda de tempo.<\/p>\n<p><strong>OD: O Embaixador terminou a sua Miss\u00e3o\u00a0na Guin\u00e9-Bissau. Quais s\u00e3o\u00a0as boas e as amargas recorda\u00e7\u00f5es\u00a0que leva depois de cerca de 12 anos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AJ:\u00a0<\/strong>A \u00fanica amargura que sinto \u00e9 que n\u00e3o consegui organizar uma Comiss\u00e3o Mista, porque o sucesso de cada diplomata mede-se em fun\u00e7\u00e3o dos acordos assinados bem como os que j\u00e1 forem implementados. Fiz tudo para organizar uma Comiss\u00e3o Mista. Desde 2003 at\u00e9 a presente data n\u00e3o houve nenhuma outra reuni\u00e3o deste g\u00e9nero entre os dois pa\u00edses, no sentido de reativar os acordos assinados e negociar outros. Para mim, o resto foi positivo. Fiz tudo que esteve ao meu alcance para estabelecer uma boa rela\u00e7\u00e3o de amizade e coopera\u00e7\u00e3o entre a G\u00e2mbia e a Guin\u00e9-Bissau.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por: Assana Samb\u00fa\/Sene Camar\u00e1<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto: Marcelo Ncanha Na Ritche \u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[ENTREVISTA parte 2\/2] Abdou Jarju, Embaixador cessante da G\u00e2mbia para a Guin\u00e9-Bissau, Guin\u00e9e-Conacry e Cabo Verde, defendeu a adop\u00e7\u00e3o do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":13596,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,16],"tags":[],"class_list":["post-13643","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-inicio","category-sociedade","wpcat-6-id","wpcat-16-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13643","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=13643"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13643\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13656,"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13643\/revisions\/13656"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/13596"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=13643"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=13643"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=13643"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}