{"id":17630,"date":"2018-07-28T20:06:14","date_gmt":"2018-07-28T20:06:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=17630"},"modified":"2018-07-28T20:06:14","modified_gmt":"2018-07-28T20:06:14","slug":"cronica-nos-tempos-do-esquadrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=17630","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica: NOS TEMPOS DO ESQUADR\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Dia de voto. Est\u00e1vamos em 1985. Candidato? S\u00f3 havia um.<\/p>\n<p>Velhos tempos da sacana fa\u00e7anha no pa\u00eds de sempre, e nas mesmas coisas inacredit\u00e1veis de sempre. Era votar sim, com o cart\u00e3o verde, e n\u00e3o, com o amarelo. Mas ai de quem fosse encontrado com o verde nas m\u00e3os! Sabia, na certa, que o martelo vinha-lhe falar mantenha na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>As sess\u00f5es eleitorais estavam abertas \u00e0s oito da manh\u00e3 e se encerrariam \u00e0s cinco da tarde. Mesas e gentes postos nas v\u00e1rias Assembleias de voto para escolher um candidato, melhor dizendo, para confirm\u00e1-lo nestas elei\u00e7\u00f5es sui generis.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, rapaz, vai votar ou n\u00e3o vai votar?<\/p>\n<p>Foi a pergunta que o presidente da mesa fez ao Watna Na Py. Mas, o Watna n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Sentiu, no fundo de sua alma, que se voltasse para casa com o cart\u00e3o verde na m\u00e3o e algu\u00e9m de sua tabanca o denunciasse l\u00e1 em Buba, estava certo, que iria preso no Comando da Pol\u00edcia. Percebeu isso nos gestos do presidente da mesa, no ar bruto e decidido e sabia que se um seguran\u00e7a de Estado o pegasse com aquele cart\u00e3o, nada podia lhe salvar.<\/p>\n<p>Diz-me, voc\u00ea n\u00e3o sabe em quem vai votar?- Voltou a indagar-lhe o presidente da Mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Sei.<\/p>\n<p>&#8211; E est\u00e1 esperando algu\u00e9m, por acaso? Despacha-te que temos muito que fazer. Al\u00e9m do mais j\u00e1 s\u00e3o horas. Ou tu pensas que n\u00e3o temos nada a fazer?<\/p>\n<p>&#8211; Sei, camarada! Mas preciso pensar um pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Pensar? Agora? Aqui? Tinha que faz\u00ea-lo em casa; n\u00e3o aqui \u2013 bradou-lhe o ilustre presidente da Mesa de Assembleia de Voto. Aqui voc\u00ea s\u00f3 tem \u00e9 que votar. E j\u00e1 sabe, se errar o voto&#8230;<\/p>\n<p>Neste momento, por causa destas \u00faltimas palavras do presidente da Mesa, Watna sentiu um frio a atravessar-lhe o cora\u00e7\u00e3o, comprimindo-lhe os pulm\u00f5es. Bem que o presidente ou algum integrante da Mesa podia ser um destes seguran\u00e7as secreto de Estado.<\/p>\n<p>&#8211; Eles estavam ali atentos a quaisquer anomalias suas para denunci\u00e1-lo \u00e0s autoridades &#8211; pensou de si para si.<\/p>\n<p>Mas, como estava firme no seu prop\u00f3sito de n\u00e3o votar no candidato que concorre sozinho; afinal, elei\u00e7\u00e3o significa escolha, e n\u00e3o se pode fazer uma escolha sem op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Votou e foi para a sua casa. Levou consigo o cart\u00e3o verde. S\u00f3 que n\u00e3o deu conta de que no momento em que votava algu\u00e9m o viu colocar dentro da urna o cart\u00e3o amarelo e denunciou-o \u00e0 Mesa. Saiu sem que ningu\u00e9m o importunasse por isso.<\/p>\n<p>Noite de lua nova. Os meninos da tabanca do Watna Na Py brincavam alegres, cheios de entusiasmo. De repente, algu\u00e9m grita, meninos \u00e9 hora de dormir. Todos para dentro! J\u00e1! Alguns tentaram reclamar, mas n\u00e3o obtiveram sucesso. Entraram, tristes, para os seus quartos, sem sono e com raiva dos adultos ainda por cima. L\u00e1 se foram as crian\u00e7as dormir mesmo assim.<\/p>\n<p>Os velhos convocaram uma reuni\u00e3o com todos os demais velhos da comunidade para os informar da recente pris\u00e3o ora decretada contra o cidad\u00e3o Na Py. Sem delongas, o rapaz foi preso e levado para o comando da POP.<\/p>\n<p>Esbofeteando-o, o policial perguntou-lhe a raz\u00e3o de n\u00e3o votar no Chefe. Mas ele manteve-se calado, sem pio, mesmo que lhe matassem, n\u00e3o lhes diria seus motivos, suas mais rec\u00f4nditas raz\u00f5es. Ent\u00e3o, o comandante ordenou aos policiais que lhe amarrassem os p\u00e9s e as m\u00e3os e o colocassem a cabe\u00e7a para baixo por uns cinco minutos.<\/p>\n<p>Nada respondeu.<\/p>\n<p>Desceram-no e o ataram \u00e0 cadeira, uma esp\u00e9cie de cadeira feita s\u00f3 de concreto armado. E nada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o decidiu o comandante se n\u00e3o falasse a bem falaria a mal.<\/p>\n<p>Para cumprirem a sua miss\u00e3o civilizadora, os policiais come\u00e7aram a dar-lhe porrada de todos os tipos, socos, cuspos, maldizeres sobre a sua m\u00e3e e seu pai ex-combatente da liberdade da p\u00e1tria, outrora grande her\u00f3i, hoje a receber um esc\u00e1rnio sal\u00e1rio por parte destes policiais que nem mesmo ao mato foram. Pisavam-lhe nos dedos dos p\u00e9s, agora inchados e ensanguentados, bem como no seu corpo, com aquelas botas rudes dos sovi\u00e9ticos \u2013 que parecem s\u00f3 terem ensinado a esta gente a torturar e a matar.<\/p>\n<p>De tanto o baterem, o sujeito come\u00e7ou a defecar sem se dar conta, fazer xixi nos panos que trazia em volta do seu corpo. Nisso foi jogado na cela, as l\u00e1grimas escorreram-no pela cara e, dele, apenas se ouvia solu\u00e7os e gemidos.<\/p>\n<p>Com o corpo abatido, quase desfalecido, foi vencido pelo sil\u00eancio da madrugada que agora chegava ao pres\u00eddio.<\/p>\n<p>Amanheceu.<\/p>\n<p>Os outros presos conseguiram se erguer do leito para mais uma jornada de trabalho for\u00e7ado. Eles, como tantos outros presos que adentraram por aquela porta do pres\u00eddio eram sempre tratados com indiferen\u00e7a pela popula\u00e7\u00e3o. Que, no fundo, j\u00e1 sabia das hist\u00f3rias destes infelizes, pequenos lar\u00e1pios e aldrab\u00f5es, desordeiros e inconsequentes e\/ou delinquentes, unidos pelo mesmo destino: o da porrada, o das inj\u00farias e o das cal\u00fanias.<\/p>\n<p>S\u00f3 um, nesta manh\u00e3, n\u00e3o saiu, justamente, o \u00faltimo visitante daquela nave humana da tortura, do sofrimento. Mas, principalmente, da falta da liberdade do pensar, do sentir e o de se expressar.<\/p>\n<p>J\u00e1 fora, os presos que aguardavam conhecer o novo companheiro da desgra\u00e7a, viram um corpo embrulhado numa manta enorme e ser conduzido para a sua tabanca.<\/p>\n<p>O sangue foi escorrendo e a cara do defunto esbranqui\u00e7ada, p\u00e1lida.<\/p>\n<p>Assim se foi o rapaz. Ou como se diz ironicamente, ele havia assinado o div\u00f3rcio com a vida. Em seguida, transformar-se-ia na poeira que o vento faria levantar, at\u00e9 ao farfalhar ed\u00e9nico das palmeiras.<\/p>\n<p>Entretanto, o nosso pa\u00eds continua democr\u00e1tico. Ou <em>mocacr\u00e1tico<\/em> \u2013 perdoem-me o neologismo, pois faz parte do meu of\u00edcio de escritor &#8211; da democracia?<\/p>\n<p>Caro leitor d\u2019<strong>O Democrata<\/strong>, at\u00e9 a pr\u00f3xima, que <em>estou de sa\u00edda.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por: <strong>Jorge Otinta,<\/strong><\/p>\n<p>Poeta, ensa\u00edsta e cr\u00edtico liter\u00e1rio guineense<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia de voto. Est\u00e1vamos em 1985. Candidato? S\u00f3 havia um. 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