{"id":3384,"date":"2015-01-25T12:43:15","date_gmt":"2015-01-25T12:43:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=3384"},"modified":"2015-01-25T12:43:15","modified_gmt":"2015-01-25T12:43:15","slug":"libertador-da-ilha-de-komo-esquecido-na-vila-de-catungo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=3384","title":{"rendered":"LIBERTADOR DA ILHA DE KOMO ESQUECIDO NA VILA DE CATUNGO"},"content":{"rendered":"<p>Uma equipa da reportagem do jornal O Democrata deslocou-se este fim-de-semana ao bairro de Antula Bono, concretamente em Djogor\u00f3 (periferias da cidade de Bissau), onde mora uma figura que transportava guerrilheiros e muni\u00e7\u00f5es do Partido Africano para a Independ\u00eancia da Guin\u00e9 e Cabo Verde (PAIGC) das zonas libertadas para as matas da ilha de Komo (Tombali). O nosso jornal falou com o combatente que lamenta em como a sua contribui\u00e7\u00e3o para a liberta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds foi simplesmente ignorada e esquecida.<\/p>\n<p>Trata-se de Quedel\u00e9 Na Ritche, um homem de mais de dois metros de altura, 87 anos de idade, mas com um f\u00edsico bem-disposto gra\u00e7as aos produtos naturais que produz para garantir a sua sobreviv\u00eancia, segundo a sua explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Ilha de Komo tornou-se num dos s\u00edmbolos da luta do PAIGC devido a uma opera\u00e7\u00e3o al\u00ed protagonizada pelas tropas portuguesas que pretendiam recup\u00e1-la nos primeiros meses de 1964. A batalha durou 72 dias e \u00e9 considerada pelos especialistas em guerras africanas e na hist\u00f3ria da luta de liberta\u00e7\u00e3o como a maior batalha das guerras africanas de Portugal. O PAIGC conseguiu impedir o regresso de militares portugueses \u00e0 base estrat\u00e9gica na ilha, gra\u00e7as aos esfor\u00e7os e a coragem dos seus guerrilheiros que eram abastecidos por Quedel\u00e9 Na Ricthe que transportava homens e muni\u00e7\u00f5es numa canoa a remo da zona libertada para as matas de Komo.<\/p>\n<p>O ex-combatente encontra-se neste momento a residir em casa de um sobrinho em Djogor\u00f3 (Bissau). Mas o her\u00f3i de Komo reside oficialmente na sua terra natal em Katungo, no sul do pa\u00eds (Tombali, sector de Komo). A nossa reportagem soube que o papel desempenhado pelo ex-combatente Na Ritche na batalha com o mesmo nome foi reconhecido pelo pr\u00f3prio l\u00edder da guerra, Am\u00edlcar Cabral, que o mandara chamar a Conakri (base do partido) a fim de lhe prestar uma justa homenagem, em gesto do reconhecimento pela sua contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>FUI MOBILIZADO PELO GENERAL NINO VIEIRA, AQUANDO DA SUA PASSAGEM PELA NOSSA ALDEIA<\/p>\n<p>Quedel\u00e9 Na Ricthe contou \u00e0 nossa reportagem que foi mobilizado para aderir a causa da luta pela independ\u00eancia pelo falecido Presidente da Rep\u00fablica, General Jo\u00e3o Bernardo Vieira \u201cNino\u201d, aquando da sua passagem pela sua aldeia natal Katungo. Acrescentou ainda que Nino se fazia acompanhar do seu colega, Buota Na Fantchamna que aderira muito cedo a causa da independ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cForam o Nino Vieira e o meu colega Buota Na Fantchamna que me mobilizaram. Incumbiram-me a tarefa de prosseguir com a mobiliza\u00e7\u00e3o de jovens na nossa aldeia inclusive das outras tabancas que comp\u00f5em o sector do Komo\u201d, explicou o ex-combatente.<\/p>\n<p>Na Ritche assegurou ainda que fazia parte de uma barraca do partido que se encontrava nas matas de Komo e que tinha como companheiros o comandante Pansau Na Isna, o Buota Na Batcha, bem como alguns camaradas que foram enviados para aquela zona para ajudar na defesa da ilha que os portugueses queriam recuperar a todo custo. O nosso entrevistado contou que o capit\u00e3o portugu\u00eas, a sua chegada \u00e0 ilha, intensificou os combates usando ca\u00e7as, helic\u00f3pteros, bombas de artilharia pesada acompanhados de colunas de infantaria bem equipados.<\/p>\n<p>Mas os guerrilheiros do partido conseguiram resistir e protegeram a ilha do ex\u00e9rcito portugu\u00eas, tendo sustentado que at\u00e9 os seus pr\u00f3prios colegas reconheceram os seus esfor\u00e7os no transporte de homens e muni\u00e7\u00f5es da zona libertada para as matas da ilha sem ser visto pelas tropas portuguesas que tinha homens e outros meios para controlar o rio.<\/p>\n<p>\u201cCarreguei material b\u00e9lico e homens de canoa a remo para lev\u00e1-los at\u00e9 as matas da ilha, onde se encontrava a barraca dos guerrilheiros. Muitas vezes andamos a noite e as vezes durante o dia. Conhecia a zona muito bem por isso sempre consegui passar bem por \u201cbaixo dos narizes\u201d da tropa portuguesa que nem sequer percebia que ia passar pelo rio\u201d, contou.<\/p>\n<p>Solicitado a pronunciar-se sobre como fazia as suas fa\u00e7anhas, se tudo era por um poder sobrenatural ou algo normal\u00edssimo, o ex-combatente limitou-se a explicar com um sorriso que conhecia bem o rio, pelo que passava facilmente sem ser descoberto pela tropa portuguesa.<\/p>\n<p>\u201cCABRAL CONSIDERA-ME DE LIBERTADOR DA ILHA DE KOMO\u201d<\/p>\n<p>Quedel\u00e9 Na Ritche disse n\u00e3o estar arrependido por ter contribu\u00eddo para a liberta\u00e7\u00e3o nacional. Disse que se sente particularmente satisfeito por tudo o que fez para proteger a ilha de Komo que os portugueses queriam recuperar devido a sua situa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Revelou que o pr\u00f3prio Cabral considerava-o como libertador da ilha de Komo por causa do seu papel no transporte de homens e muni\u00e7\u00f5es sob intenso bombardeamento.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o me sinto arrependido, porque fui a luta com a convic\u00e7\u00e3o de combater para libertar a minha terra do jugo colonial. O ex\u00e9rcito portugu\u00eas matou o meu colega da inf\u00e2ncia que tamb\u00e9m estava na mata a combater, cortaram-lhe pesco\u00e7o como se fosse uma galinha. Isso foi uma das causas que me motivou mais a lutar pela independ\u00eancia, porque achava que uma vez que nos libert\u00e1ssemos, viver\u00edamos livres na nossa terra\u201d, assegurou.<\/p>\n<p>Lembrou neste particular que a batalha de Komo fora uma batalha dura que tanto os guerrilheiros e o pr\u00f3prio ex\u00e9rcito portugu\u00eas sentiram, porque muita gente perdeu a vida na batalha e houve quem ficasse deficiente fisicamente devido a ferimentos de bala.<\/p>\n<p>\u201cA Batalha de Komo durou dois meses e meio de intensos bombardeamentos das for\u00e7as portuguesas que pretendiam recuperar a ilha com toda a for\u00e7a. N\u00f3s, com a nossa coragem, conseguimos resistir, apesar dos parcos meios na altura. Conseguimos resistir em nome da liberdade. A popula\u00e7\u00e3o, sobretudo as mulheres e as crian\u00e7as, foi a maior v\u00edtima da batalha de Komo. Como se sabe, \u00e9 uma ilha e a popula\u00e7\u00e3o decidiu refugiar-se num ilh\u00e9u para se proteger. Quem n\u00e3o conseguiu chegar \u00e0s localidades mais seguras morreu devido aos bombardeamentos dos tugas\u201d, vincou.<\/p>\n<p>\u201cFUI ESQUECIDO PELO PARTIDO COMO SE ESQUECEU TAMB\u00c9M DA ILHA DE KOMO\u201d<\/p>\n<p>O ex-combatente Quedel\u00e9 Na Ritche lamentou o facto de nunca ter sido chamado pelo partido para qualquer cerim\u00f3nia oficial. Nem sequer as autoridades se lembram dele para as cerim\u00f3nias comemorativas nos dias que marcaram a luta de liberta\u00e7\u00e3o. Sustentou que desde a independ\u00eancia at\u00e9 a data presente ningu\u00e9m se lembrou dele, muito menos o partido que serviu durante a luta de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cFui esquecido pelo partido como se esqueceu tamb\u00e9m da ilha de Komo, que para ele (partido) n\u00e3o faz parte desta terra\u201d, disse o ex-combatente visivelmente emocionado.<\/p>\n<p>Na Ritche contou que se sente uma pessoa abandonada apesar de tudo aquilo que fez no passado para a liberta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Por\u00e9m afirmou que nada pediu a quem quer que fosse e que deseja apenas que seja considerado como uma pessoa que deu a sua vida e o seu esfor\u00e7o para a liberdade da Guin\u00e9-Bissau e do seu povo.<\/p>\n<p>Lembrou ainda que chegou a beneficiar de um apoio do Presidente Nino Vieira que mandou um helic\u00f3ptero buscar o seu filho na sua aldeia porque este tinha beneficiado de uma bolsa de estudos para Cuba. Acrescentou que o seu filho foi estudar, mas infelizmente regressou \u201cdoente da cabe\u00e7a\u201d (maluco) e que nunca mais conseguiu a total recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cSinto-me uma pessoa perdida na vida\u2026 estou com dores no cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje pelo sofrimento por causa da doen\u00e7a do meu filho. Agrade\u00e7o e sempre agradecerei o Presidente Nino pelo gesto de amizade, apesar do destino ter ditado outra sa\u00edda o que acabou por consumir a nossa esperan\u00e7a\u201d, lamentou o ex-combatente com voz tr\u00e9mula de dor que lhe consumia o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BIOGRAFIA<\/p>\n<p>O ex-combatente Quedel\u00e9 Na Ritche, nasceu no dia 15 de Mar\u00e7o de 1928, em Katungo no sul do pa\u00eds (sector do Komo). Integrou na fileira do partido no in\u00edcio do ano 1962, aquando da mobiliza\u00e7\u00e3o de jovens influentes para a causa da independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Foi um dos respons\u00e1veis do partido para a mobiliza\u00e7\u00e3o de jovens na sua vila, bem como nas tabancas que comp\u00f5em o sector de Komo. N\u00e3o beneficiou de nenhuma forma\u00e7\u00e3o militar para uma determinada especialidade. Aprendeu com os seus colegas no in\u00edcio da luta a especialidade da infantaria. Obteve grande sucesso o que levou para muito longe o seu nome.<\/p>\n<p>Foi quem transportava homens do partido e muni\u00e7\u00f5es para as matas. A coragem e as habilidades demonstradas no rio durante a batalha de Komo fizeram chegar o seu nome aos ouvidos do l\u00edder da guerra, Am\u00edlcar Cabral em Conakri. Foi considerado por Am\u00edlcar do \u201clibertador de Komo\u201d devido o seu desempenho.<\/p>\n<p>Por: Assana Samb\u00fa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma equipa da reportagem do jornal O Democrata deslocou-se este fim-de-semana ao bairro de Antula Bono, concretamente em Djogor\u00f3 (periferias&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":3348,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,18],"tags":[],"class_list":["post-3384","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-inicio","category-entrevista","wpcat-6-id","wpcat-18-id"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>LIBERTADOR DA ILHA DE KOMO ESQUECIDO NA VILA DE CATUNGO - O Democrata GB<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=3384\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"LIBERTADOR DA ILHA DE KOMO ESQUECIDO NA VILA DE CATUNGO - 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