{"id":4886,"date":"2015-05-22T16:15:33","date_gmt":"2015-05-22T16:15:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=4886"},"modified":"2015-05-22T16:15:33","modified_gmt":"2015-05-22T16:15:33","slug":"entrevista-com-carlos-lopes-a-africa-para-alem-dos-jornais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=4886","title":{"rendered":"Entrevista com Carlos Lopes: A \u00c1FRICA PARA AL\u00c9M DOS JORNAIS"},"content":{"rendered":"<p>A imagem da \u00c1frica ante a opini\u00e3o p\u00fablica mundial \u00e9 baseada em exageros, equ\u00edvocos e preconceitos. Os principais investidores dos pa\u00edses mais ricos sabem disso h\u00e1 tempos e o Brasil, antes um parceiro privilegiado do continente, vem perdendo espa\u00e7o para outros emergentes, como a Turquia. Essa \u00e9 a avalia\u00e7\u00e3o de Carlos Lopes, secret\u00e1rio-adjunto da ONU, que em abril esteve no Brasil por uma semana para uma s\u00e9rie de compromissos, entre eles a forma\u00e7\u00e3o do Conselho \u00c1frica, iniciativa do Instituto Lula, congregando historiadores, diplomatas e estudiosos do continente.<\/p>\n<p>Natural da Guin\u00e9-Bissau, Lopes \u00e9 o respons\u00e1vel maior pela \u00c1frica nas Na\u00e7\u00f5es Unidas e divide a sede da organiza\u00e7\u00e3o na Eti\u00f3pia com outros 2 mil funcion\u00e1rios. \u201cAdis-Abeba \u00e9 a Genebra da \u00c1frica, l\u00e1 tamb\u00e9m est\u00e1 a sede da Uni\u00e3o Africana, com outros 2,5 mil funcion\u00e1rios\u201d, explica.<\/p>\n<p>CartaCapital (CC): Naufr\u00e1gios como os ocorridos recentemente no Mediterr\u00e2neo s\u00e3o a face tr\u00e1gica do fluxo de imigrantes africanos rumo \u00e0 Europa. Qual a equa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Carlos Lopes (CL): H\u00e1 quatro aspectos importantes. Primeiro, trata-se de uma trag\u00e9dia humanit\u00e1ria, e os l\u00edderes europeus t\u00eam dado sinais contradit\u00f3rios, n\u00e3o sabem muito bem o que fazer. O segundo ponto \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica. H\u00e1 um envelhecimento muito grande da popula\u00e7\u00e3o europeia, os partidos de direita pressionam os governos e o debate da imigra\u00e7\u00e3o acaba no campo da seguran\u00e7a. Mas a pr\u00f3pria Comiss\u00e3o Europeia reconhece a situa\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica da natalidade. A Europa, na verdade, precisa dos imigrantes.<\/p>\n<p>O terceiro elemento \u00e9 que a imigra\u00e7\u00e3o africana \u00e9, na verdade, pequena. Se olharmos do ponto de vista macro, cerca de 2 milh\u00f5es de imigrantes seguem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa a cada ano, e isso \u00e9 muito pouco em rela\u00e7\u00e3o a 1 bilh\u00e3o de africanos. Por \u00faltimo, a maior parte desses imigrantes parte de duas zonas em tens\u00e3o, a Som\u00e1lia e a Eritreia. Seguem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 L\u00edbia atrav\u00e9s do deserto tunisiano. Desses quatro territ\u00f3rios \u2013 L\u00edbia, Tun\u00edsia, Som\u00e1lia e Eritreia \u2013, tr\u00eas s\u00e3o antigas col\u00f4nias italianas, e isso n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia, estamos tentando resolver um problema p\u00f3s-colonial.<\/p>\n<p>CC: Ent\u00e3o, o senhor acredita que a imigra\u00e7\u00e3o, em vez de um problema, pode ser parte de uma solu\u00e7\u00e3o de problemas econ\u00f4micos europeus, como a falta de m\u00e3o de obra, inclusive a qualificada?<br \/>\nCL: Exatamente. H\u00e1 uma grande oportunidade na Europa, se for estruturada uma pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o voltada para as suas necessidades. A previd\u00eancia e a prote\u00e7\u00e3o social, por exemplo, n\u00e3o podem ser mantidas com esse envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CC: Doen\u00e7as como o ebola causam grande temor e refor\u00e7am estigmas negativos do continente e at\u00e9 a xenofobia?<\/p>\n<p>CL: O mundo tem alguma experi\u00eancia com epidemias. Recentemente, lidamos com epidemias como a Aids, o H1N1 ou a gripe avi\u00e1ria, e em todas essas crises houve certo exagero no impacto econ\u00f4mico e na forma de transmiss\u00e3o. Aos poucos vamos conhecendo-as melhor, e hoje ningu\u00e9m, por exemplo, \u00e9 estigmatizado de forma ostensiva porque tem Aids. Mas, no princ\u00edpio, era, e havia esse p\u00e2nico. No caso do ebola acontece um pouco isso, a doen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 muito conhecida e imagina-se uma transmissibilidade gigantesca. E essa percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 por acaso, h\u00e1 muita informa\u00e7\u00e3o exagerada.<\/p>\n<p>Vejamos: o centro de controle e preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as em Atlanta, nos Estados Unidos, um dos principais do mundo, previu h\u00e1 alguns anos que a \u00c1frica teria 1 milh\u00e3o de casos de ebola em 2015. Temos hoje 19 mil casos. O Banco Mundial tamb\u00e9m fez uma proje\u00e7\u00e3o, a do impacto econ\u00f4mico do ebola para o continente: 32 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. A entidade reviu sua proje\u00e7\u00e3o agora em fevereiro para 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Esqueceu-se, por exemplo, que a economia dos tr\u00eas pa\u00edses atingidos (Guin\u00e9-Conacri, Lib\u00e9ria e Serra Leoa) somam 6,4 bilh\u00f5es de PIB, menos de 1% do total do continente. Portanto, houve a\u00ed tamb\u00e9m um exagero gigantesco. O n\u00famero de pessoas que chegaram a morrer de ebola, cerca de 2 mil, n\u00e3o \u00e9 muito diferente do balan\u00e7o de outras febres hemorr\u00e1gicas.<\/p>\n<p>CC: O impacto do ebola n\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o assim avassalador?<\/p>\n<p>CL: Se em vez de termos exagerado e dramatizado tiv\u00e9ssemos tido uma an\u00e1lise um pouco mais fria, correta e racional sobre o que est\u00e1 se passando, os esfor\u00e7os feitos de uma forma dispersa teriam sido muito mais focados e teriam havido menos mortos. Comparemos, por exemplo, com a dengue. Em S\u00e3o Paulo h\u00e1 hoje mais de 20 mil casos de dengue. Obviamente n\u00e3o v\u00e3o morrer 20 mil pessoas porque h\u00e1 estruturas sanit\u00e1rias capazes de absorver boa parte da epidemia. Na \u00c1frica isso n\u00e3o existe em todos os pa\u00edses. Mas existe em alguns.<\/p>\n<p>Quando o ebola chegou ao Senegal, \u00e0 Nig\u00e9ria e ao Mali, pa\u00edses com estruturas sanit\u00e1rias de melhor qualidade, foi imediatamente contido. No Senegal foi s\u00f3 uma pessoa. No Mali, tamb\u00e9m apenas um contaminado. Na Nig\u00e9ria, o pa\u00eds mais populoso do continente, foram 19 pessoas. Portanto \u00e9 preciso dar a correta dimens\u00e3o das coisas, e a dramatiza\u00e7\u00e3o excessiva n\u00e3o ajuda.<\/p>\n<p>CC: Mil\u00edcias crist\u00e3s realizaram uma limpeza \u00e9tnica de mu\u00e7ulmanos na Rep\u00fablica Centro-Africana em janeiro. Ao mesmo tempo, o Boko Haram, o Al-Shabab e o Estado Isl\u00e2mico protagonizam casos terr\u00edveis de viol\u00eancia jihadista. Esses problemas adicionam novos ingredientes a um mosaico de conflitos j\u00e1 bastante complexo?<\/p>\n<p>CL: A sensa\u00e7\u00e3o de risco aumenta e isso \u00e9 p\u00e9ssimo para a economia. Mas o pior \u00e9 para as pessoas. S\u00e3o 100 milh\u00f5es de africanos afetadas pelos conflitos. \u00c9 muita gente. Mas a \u00c1frica tem 1 bilh\u00e3o de habitantes. H\u00e1, portanto, 900 milh\u00f5es n\u00e3o afetados. Ou seja, 90% do continente marcha na boa dire\u00e7\u00e3o, tem ganhos de governan\u00e7a e est\u00e1 fazendo muito melhor do que se fazia antes. Mas 100 milh\u00f5es ainda \u00e9 muito. Por muito tempo havia dois tipos de conflitos no continente: primeiro, aqueles gerados por grupos armados com interesses econ\u00f4micos em zonas ricas em min\u00e9rios. Interessava criar desordem para se beneficiar das ind\u00fastrias extrativas em regi\u00f5es como a dos grandes lagos \u2013 Congo, Rep\u00fablica Centro-Africana etc.<\/p>\n<p>O outro tipo de conflito vem da m\u00e1 gest\u00e3o da diversidade. Os africanos tratam mal as minorias, a solidariedade africana \u00e9 um mito. Quem chega ao poder, mesmo por meio de elei\u00e7\u00f5es, quer governar absolutamente. Agora surgiu um terceiro elemento, a filia\u00e7\u00e3o de grupos locais com grandes causas mundiais, como o islamismo radical. A mescla desses ingredientes \u00e9 particularmente forte no Sul do Saara. Nessa faixa, de uma ponta \u00e0 outra da \u00c1frica, os grupos t\u00eam conex\u00f5es uns com os outros, e alguns est\u00e3o ligados ao Estado Isl\u00e2mico, outros \u00e0 Al-Qaeda&#8230; \u00c9 um coquetel explosivo.<\/p>\n<p>CC: H\u00e1 ainda as ditaduras longevas, como a da Guin\u00e9 Equatorial, falada aqui no Brasil este ano pelo patroc\u00ednio \u00e0 escola de samba Beija-Flor. De forma geral, como anda a democracia no continente africano?<\/p>\n<p>CL: S\u00f3 em 2015, sete pa\u00edses j\u00e1 mudaram de l\u00edder de forma pac\u00edfica. At\u00e9 o final do ano teremos mais 20 elei\u00e7\u00f5es presidenciais. E, entre esses sete pa\u00edses, est\u00e1 a Nig\u00e9ria, o mais populoso do continente, que nunca tinha passado por uma mudan\u00e7a pac\u00edfica de lideran\u00e7a. Portanto h\u00e1 progressos claros, o n\u00famero de ditadores longevos \u00e9 pequeno. N\u00e3o despareceram como ainda n\u00e3o desapareceram na \u00c1sia, e como podem reaparecer na Am\u00e9rica Latina dependendo das mudan\u00e7as em curso em alguns pa\u00edses&#8230; De uma maneira geral as constitui\u00e7\u00f5es africanas imp\u00f5em limites de mandato, hoje cerca de 90% delas t\u00eam esses limites.<\/p>\n<p>CC: Hoje, o mundo todo est\u00e1 de olho no continente&#8230;<\/p>\n<p>CL: H\u00e1 um paradoxo. A imprensa especializada, como o Financial Times, The Economist ou o Wall Street Jornal, diz s\u00f3 coisas positivas, est\u00e3o muito otimistas. Consultorias importantes, como McKinsey, Boston Consulting Group ou Ernst &amp; Young t\u00eam an\u00e1lises extremamente positivas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1frica. A influ\u00eancia sobre a opini\u00e3o dos investidores \u00e9 a mais favor\u00e1vel dos \u00faltimos 30 anos. O continente cresce cerca de 5% ao ano h\u00e1 mais de 15 anos, resistiu bem \u00e0 crise de 2008-2009 e os investimentos privados s\u00f3 fazem aumentar. E neste ano ser\u00e3o aportados 104 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, o equivalente aos investimentos a serem feitos no mesmo per\u00edodo na China, que tem uma popula\u00e7\u00e3o similar.<\/p>\n<p>Estamos bem nessa fotografia. Mas na grande m\u00eddia e na opini\u00e3o p\u00fablica internacional a imagem segue muito negativa, baseada em doen\u00e7as, guerra, corrup\u00e7\u00e3o, fome&#8230; E agora h\u00e1 a dramatiza\u00e7\u00e3o dos imigrantes, antes havia a pirataria na costa da Som\u00e1lia&#8230;<\/p>\n<p>CC: Nessa m\u00e1 imagem, influencia o preconceito racial?<\/p>\n<p>CL: Pode at\u00e9 ter algum preconceito racial, mas h\u00e1 uma quest\u00e3o de fundo ainda pior: o costume de considerar a \u00c1frica um continente para o qual n\u00e3o h\u00e1 muitas esperan\u00e7as, de crescimento mais d\u00e9bil&#8230;<\/p>\n<p>CC: E esses investimentos chegam ao \u201candar de baixo\u201d, em forma de benef\u00edcios \u00e0 popula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>CL: N\u00e3o chega nem perto do que deve. \u00c9 um crescimento sem qualidade porque n\u00e3o \u00e9 includente, n\u00e3o \u00e9 estruturante. A economia africana est\u00e1 extremamente dependente do consumo interno, e isso n\u00e3o \u00e9 bom porque n\u00e3o \u00e9 necessariamente gerador de empregos. A transforma\u00e7\u00e3o tem que vir de uma maior produtividade agr\u00edcola e de uma industrializa\u00e7\u00e3o. Enquanto isso n\u00e3o acontecer, o \u201candar de baixo\u201d ser\u00e1 algo beneficiado por esses investimentos, mas n\u00e3o muito.<\/p>\n<p>CC: Ap\u00f3s a aproxima\u00e7\u00e3o promovida pelo governo Lula, o Brasil seguiu avan\u00e7ando em sua rela\u00e7\u00e3o com a \u00c1frica?<\/p>\n<p>CL: Houve muito investimento de empresas brasileiras e algum do BNDES \u2013 mas n\u00e3o muito \u2013, e uma rela\u00e7\u00e3o mais estreita traz consequ\u00eancias boas tanto para o Brasil quanto para os africanos. O interesse crescente pelo continente, entretanto, n\u00e3o est\u00e1 sendo acompanhado pelo Brasil. Parceiros mais recentes como a Turquia ou pa\u00edses do Leste Europeu j\u00e1 fazem mais. Digo isso para o Pa\u00eds acordar e n\u00e3o perder o espa\u00e7o conquistado nos \u00faltimos anos.<br \/>\nPor : Lino Bocchini, IN JORNAL CARTA CAPITAL, Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imagem da \u00c1frica ante a opini\u00e3o p\u00fablica mundial \u00e9 baseada em exageros, equ\u00edvocos e preconceitos. 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