{"id":49738,"date":"2024-08-27T19:49:32","date_gmt":"2024-08-27T19:49:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=49738"},"modified":"2024-08-27T19:50:32","modified_gmt":"2024-08-27T19:50:32","slug":"cronica-as-primeiras-redes-de-energia-eletrica-na-guine-nas-decadas-de-1930-a-1950-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=49738","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica : AS PRIMEIRAS REDES DE ENERGIA EL\u00c9TRICA NA GUIN\u00c9 NAS D\u00c9CADAS DE 1930 A 1950 (parte I)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bissau e Bolama em 1930 e Bafat\u00e1 em 1932 foram as primeiras cidades a fornecer eletricidade ao p\u00fablico na Guin\u00e9. Apesar da pequena dimens\u00e3o das centrais, a administra\u00e7\u00e3o via-se a bra\u00e7os com v\u00e1rios desafios t\u00e9cnicos e socais para assegurar o funcionamento regular dessas redes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1187.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"684\" src=\"https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1187-1024x684.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49736\" srcset=\"https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1187-1024x684.jpeg 1024w, https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1187-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1187-768x513.jpeg 768w, https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1187-1230x822.jpeg 1230w, https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1187.jpeg 1274w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As primeiras centrais el\u00e9tricas \u2013 Bissau, Bolama, Bafat\u00e1<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bissau inaugurou o seu servi\u00e7o p\u00fablico de eletricidade em mar\u00e7o de 1930. A Sociedade Industrial Ultramarina obteve a concess\u00e3o de fornecer energia el\u00e9trica \u00e0 cidade de Bissau durante 20 anos. Dois meses depois, a cidade de Bolama, capital da Guin\u00e9 at\u00e9 1941, come\u00e7ou a fornecer energia el\u00e9trica ao p\u00fablico (maio de 1930). Bafat\u00e1 &#8211; como terceira cidade da col\u00f3nia &#8211; ganhou acesso \u00e0 eletricidade em agosto de 1932.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cria\u00e7\u00e3o destas tr\u00eas redes p\u00fablicas de distribui\u00e7\u00e3o de eletricidade marca a primeira fase da eletrifica\u00e7\u00e3o da Guin\u00e9 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, apesar de, j\u00e1 uma d\u00e9cada antes, alguns pequenos servi\u00e7os comerciais ou ind\u00fastrias de Bissau (f\u00e1brica de gelo) e Bubaque (f\u00e1brica de \u00f3leo) terem sido abastecidos por geradores individuais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As caracter\u00edsticas das centrais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A central el\u00e9trica de Bissau, que se manteve inalterada entre 1930 e 1955, tinha dois geradores MAN de 72 kW, somando-se em 144 kW (em compara\u00e7\u00e3o: Bissau tem atualmente uma capacidade instalada em cima de 30.000 kW no Karpowership). Foram instalados numa pequena central el\u00e9trica junto ao atual campo Lino Correia (atual ag\u00eancia da EAGB). A rede de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica tinha 318 postes de ilumina\u00e7\u00e3o. Compreendiam um total de 442 l\u00e2mpadas de 100, 75 ou 40 watts. A c\u00e2mara municipal e o governo da col\u00f3nia pagavam \u00e0 companhia de eletricidade uma quantia fixa pelo consumo do servi\u00e7o e da rede de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u2013 o consumo n\u00e3o era registado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Bolama, um gerador de 65 kW fornecia eletricidade \u00e0 cidade e alimentava a ilumina\u00e7\u00e3o publica. O servi\u00e7o era pago por kW-hora ou aven\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rede de Bafat\u00e1 foi a mas diminuta. A cidade era abastecida por um gerador de 18 kW. O pagamento do servi\u00e7o era feito sob a forma de uma taxa fixa, dependendo do n\u00famero das l\u00e2mpadas e tomadas utilizadas numa casa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os desafios da eletrifica\u00e7\u00e3o na cidade de Bolama na d\u00e9cada de 1930<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1935, cinco anos ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o do abastecimento p\u00fablico de eletricidade, a central el\u00e9trica de Bolama estava equipada com um pequeno gerador de 65 kW. Embora o gerador estivesse em bom estado, o quadro e a rede de distribui\u00e7\u00e3o e os contadores el\u00e9tricos estavam mal instalados e j\u00e1 em estado de deteriora\u00e7\u00e3o. As inteiras instala\u00e7\u00f5es tinham sido montadas de forma descuidada e j\u00e1 necessitavam de uma revis\u00e3o geral. A C\u00e2mara Municipal atribuiu o facto \u00e0 fraca experi\u00eancia do pessoal respons\u00e1vel pela manuten\u00e7\u00e3o da central el\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo 20 das 25 l\u00e2mpadas el\u00e9tricas da central estavam avariadas. O material armazenado, por exemplo 100 l\u00e2mpadas, n\u00e3o era adequado para ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, uma vez que a sua pot\u00eancia (25 W) era demasiado fraca para iluminar as ruas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00famero de clientes tinha vindo a diminuir para chegar a 133 em 1935, causando assim dificuldades econ\u00f3micas para manter a central. As receitas da central apenas cobriam cerca de 65% das despesas anuais. Muitas fam\u00edlias estavam ligadas \u00e0 eletricidade, mas quase n\u00e3o a utilizavam; outras recusavam-se a instalar eletricidade, embora a legisla\u00e7\u00e3o as obrigasse a faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em geral, a eletricidade era utilizada principalmente para ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica (71%), edif\u00edcios p\u00fablicos (13%), enquanto apenas 10% eram consumidos por particulares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dez anos mais tarde, o abastecimento de eletricidade em Bolama pouco tinha evolu\u00eddo. Em 1946 foram instalados dois geradores, de 46 kW e 65 kW, na central el\u00e9trica, com uma capacidade total de 111 kW.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A crise energ\u00e9tica de Bissau de 1950<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pouco se sabe sobre as condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas em que o sistema el\u00e9trico em Bissau funcionou nos anos ap\u00f3s a sua inaugura\u00e7\u00e3o em 1930. <a>Em 1950, os problemas j\u00e1 se tinham adensado numa crise energ\u00e9tica. <\/a>Os geradores (2x72kW) estavam desatualizados e eram insuficientes para satisfazer as necessidades b\u00e1sicas da cidade. Para poder ligar as casas particulares e as empresas, a ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica tinha de ser reduzida todos os anos. Em compara\u00e7\u00e3o com o ano de 1930, havia menos 60% de eletricidade dispon\u00edvel para a ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, pelo que a ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica tinha sido drasticamente reduzida. Algumas ruas ficaram completamente \u00e0s escuras, enquanto nas restantes apenas sobraram luzes fracas, uma vez que as l\u00e2mpadas de 100 W foram substitu\u00eddas por l\u00e2mpadas de 40 watts para poupar corrente. Grande parte dos refletores estavam corro\u00eddos e precisavam de ser substitu\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o chegava a todos os bairros da cidade: Santa Luzia, Alto Crim e partes de Ch\u00e3o de Papel ainda n\u00e3o estavam servidos de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, enquanto outros nunca tinham recebido qualquer fornecimento de eletricidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia v\u00e1rios anos que os dois geradores funcionavam em paralelo durante as horas de ponta, mas ainda assim as quebras de tens\u00e3o eram frequentes. Bissau estava a crescer, mas n\u00e3o havia capacidade para ligar imediatamente todos os novos edif\u00edcios. Assim, mesmo o pal\u00e1cio do governador e a catedral n\u00e3o podiam ser ligados sem aumentar a capacidade da central el\u00e9trica. Neste sentido, a col\u00f3nia andou para tr\u00e1s, desabafou o Governador Rodrigues Serr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise energ\u00e9tica foi resolvida com a inaugura\u00e7\u00e3o da nova central el\u00e9trica em 1955, situada ao lado do atual matadouro de Bissau. Os dois geradores de 440 kW instalados foram suficientes para a livre expans\u00e3o do consumo at\u00e9 ao in\u00edcio da d\u00e9cada 1960, quando Bissau entrou numa nova crise energ\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1188.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1188-1024x613.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49735\" srcset=\"https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1188-1024x613.jpeg 1024w, https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1188-300x180.jpeg 300w, https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1188-768x460.jpeg 768w, https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1188-1230x736.jpeg 1230w, https:\/\/www.odemocratagb.com\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_1188.jpeg 1235w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Despachar geradores \u2013 eletrificar o interior sem plano. As d\u00e9cadas 1940 e 1950<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na mesma altura em que em Bissau se debatia com tantos problemas no fornecimento de energia el\u00e9trica foi introduzido, a partir de 1946, o sistema de geradores dispersos com redes isoladas nas cidades do interior. N\u00e3o existia um plano de eletrifica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, embora houvesse reflex\u00f5es sobre uma rede el\u00e9trica nacional e uma central hidroel\u00e9trica no Saltinho (1950), que at\u00e9 hoje \u00e9 discutida, mas nunca foi realizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1946, o material para a eletrifica\u00e7\u00e3o de Cati\u00f3, Canchungo, Varela, Mans\u00f4a e Gab\u00fa foi despachado para esses destinos. Em 1948, a inaugura\u00e7\u00e3o da central el\u00e9trica em Canchungo estava para breve. Cati\u00f3 recebeu ilumina\u00e7\u00e3o publica e uma central el\u00e9trica no mesmo ano. Farim j\u00e1 tinha uma central el\u00e9trica, mas o respetivo gerador estava ainda em instala\u00e7\u00e3o. Na praia de Varela, a central el\u00e9trica estava em constru\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante lembrar que nesta altura as localidades no interior eram muitas pequenas e a eletricidade foi somente fornecida para uma pequena percentagem da popula\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, a administra\u00e7\u00e3o tinha tantas dificuldades estabelecer o servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maioria das capitais de distrito apenas teve acesso \u00e0 eletricidade no final da d\u00e9cada de 1940. A maioria dos edif\u00edcios para instalar as centrais el\u00e9tricas foi constru\u00edda na d\u00e9cada de 1950, por exemplo em 1953 em Bissor\u00e3, em 1954 em Bafat\u00e1 ou em 1958 em Farim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas centrais ficaram em servi\u00e7o at\u00e9 ao primeiro programa de eletrifica\u00e7\u00e3o do interior depois da independ\u00eancia, quando entraram em servi\u00e7o as centrais russas e suecas (a partir de 1978).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Eletrifica\u00e7\u00e3o \u2013 desafios passados e presentes &#8211; e projetos isolados de energia solar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso hist\u00f3rico dos primeiros 30 anos do servi\u00e7o p\u00fablico de eletricidade na Guin\u00e9 deixa patentes os desafios na eletrifica\u00e7\u00e3o a partir de um sistema decentralizado. Muitos problemas, como os referentes aos pagamentos dos clientes e os desafios t\u00e9cnicos, s\u00e3o inerentes a esse sistema desde a \u00e9poca colonial. Assim, estes antecedentes ajudam a compreender os desafios da eletrifica\u00e7\u00e3o em locais sem ind\u00fastrias como principais clientes, sentidos at\u00e9 hoje nalgumas cidades do interior (Bambadinca 2015, Cont\u00faboel 2017, Bissor\u00e3 2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por<\/strong>: Manfred Johannes Stoppok,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisador p\u00f3s-doutorado<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Projeto de pesquisa financiado pela funda\u00e7\u00e3o Fritz Thyssen, Alemanha<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dr. Manfred Stoppok \u2013 Universidade de Bayreuth, Alemanha \u2013 manfred.stoppok@uni-bayreuth.de<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bissau e Bolama em 1930 e Bafat\u00e1 em 1932 foram as primeiras cidades a fornecer eletricidade ao p\u00fablico na Guin\u00e9&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":49737,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-49738","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opinioes","wpcat-25-id"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - 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