{"id":59242,"date":"2026-09-24T14:01:54","date_gmt":"2026-09-24T14:01:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=59242"},"modified":"2026-09-24T14:04:58","modified_gmt":"2026-09-24T14:04:58","slug":"trocando-as-lentes-precisamos-construir-uma-nova-forma-de-olhar-para-nos-mesmos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=59242","title":{"rendered":"Trocando as lentes: precisamos construir uma nova forma de olhar para n\u00f3s mesmos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7o este texto trazendo para o debate a reflex\u00e3o de um importante e amplamente conhecido escritor mo\u00e7ambicano, Mia Couto, presente em um dos seus textos mais aclamados.&nbsp;Nesse texto, o autor denuncia&nbsp;sete h\u00e1bitos que, segundo ele, os africanos precisam abandonar para entrar na modernidade. Metaforicamente, chamou&nbsp;esses h\u00e1bitos de \u201csapatos\u201d e elencou&nbsp;sete deles que precisamos descal\u00e7ar.&nbsp;O que&nbsp;me&nbsp;interessa, particularmente, \u00e9 o quinto sapato, que ele denomina \u201cA vergonha de ser pobre e o culto das apar\u00eancias\u201d. Nessa parte, o autor afirma:&nbsp;[&#8230;]&nbsp;vivemos hoje uma atabalhoada preocupa\u00e7\u00e3o em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidad\u00e3o nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.&nbsp;Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. \u201cMas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compat\u00edvel\u201d. O termo \u00e9 curioso: \u201ccompat\u00edvel\u201d. Estamos vivendo num palco de teatro e de representa\u00e7\u00f5es: uma viatura j\u00e1 \u00e9 n\u00e3o um objeto funcional. \u00c9 um passaporte para um estatuto de import\u00e2ncia, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa esp\u00e9cie de santu\u00e1rio, numa verdadeira obsess\u00e3o promocional. Esta doen\u00e7a, esta religi\u00e3o que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua.&nbsp;[&#8230;]&nbsp;A arrog\u00e2ncia e o exibicionismo n\u00e3o s\u00e3o, como se pretende, emana\u00e7\u00f5es de alguma ess\u00eancia da cultura africana do poder. S\u00e3o emana\u00e7\u00f5es de quem toma a embalagem pelo conte\u00fado (Couto, 2013,&nbsp;p. 9&nbsp;sic).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu poderia debater esse assunto sem recorrer a essa cita\u00e7\u00e3o, pois se trata de uma constata\u00e7\u00e3o relativamente simples e \u00f3bvia: qualquer pessoa minimamente atenta consegue perceber essa deplor\u00e1vel realidade&nbsp;de&nbsp;precisar&nbsp;possuir algo ou ostentar determinados acess\u00f3rios para merecer&nbsp;o respeito e&nbsp;ser bem tratado. Infelizmente, essa pr\u00e1tica afeta a todos; n\u00e3o h\u00e1 grupo da nossa sociedade que esteja completamente imune a esse mal, dos intelectuais aos pastores. \u00c0s vezes, tenho a impress\u00e3o de que os guineenses est\u00e3o mais preocupados&nbsp;em n\u00e3o parecerem pobres do quen\u00e3o serem, de fato, pobres. Afinal, o que importa \u00e9 a apar\u00eancia; a embalagem parece valer mais do que o conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, trouxe essa cita\u00e7\u00e3o por dois motivos. O primeiro, e mais evidente, \u00e9 mostrar que n\u00e3o sou o \u00fanico a diagnosticar esse mal que assola a nossa sociedade e, assim, evitar a acusa\u00e7\u00e3o oportunista de que estaria simplesmente tentando moralizar a sociedade guineense. Algu\u00e9m antes de mim j\u00e1 havia identificado o problema, ainda que o tenha&nbsp;abordado num contexto mais amplo, o continente africano como um todo. A Guin\u00e9-Bissau, naturalmente, est\u00e1 contemplada, por ser parte integrante desse continente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo motivo \u00e9 aproveitar a reflex\u00e3o de Couto para ir al\u00e9m do diagn\u00f3stico&nbsp;e den\u00fancia, isto \u00e9,&nbsp;tentar rastrear a poss\u00edvel origem hist\u00f3rica dessa pr\u00e1tica: essa necessidade de provar, ainda que por meios torpes, que se \u00e9 digno de respeito ou, simplesmente, digno de ser tratado como ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentemente de Couto, portanto, este texto pretende denunciar essa pr\u00e1tica naquilo que ela \u00e9: elitista, preconceituosa, opressora e colonialista. Mas pretende tamb\u00e9m buscar, na nossa hist\u00f3ria recente, respostas para algumas perguntas fundamentais: como chegamos a essa situa\u00e7\u00e3o? De onde veio e como se perpetuou essa necessidade de parecer rico, bem-sucedido ou socialmente superior?&nbsp;Isto porque,&nbsp;Entendo que compreender como chegamos a esse comportamento \u00e9 fundamental para decidirmos se continuaremos ou n\u00e3o a participar desse teatro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que Couto chama&nbsp;de&nbsp;\u201ca vergonha de ser pobre e o culto das apar\u00eancias\u201d,&nbsp;\u00e9, na verdade, pelo menos a partir da coloniza\u00e7\u00e3o de todo continente africano, com a exce\u00e7\u00e3o da &nbsp;Eti\u00f3pia e da Lib\u00e9ria,&nbsp;na&nbsp;primeira metade do s\u00e9culo XX (1914), segundo&nbsp;Boahem&nbsp;(1985),&nbsp;uma extrapola\u00e7\u00e3o ao longo do tempo de um comportamento que era exigido aos africanos (sob dom\u00ednio) como forma de conseguirem certos direitos b\u00e1sicos do Estado (na verdade, era um exig\u00eancia para serem tratados como sub-humanos, porque como humano igual a eles ningu\u00e9m conseguia ser, mesmo cumprindo todas as exig\u00eancias e, aqueles n\u00e3o as cumprissem eram tratados como n\u00e3o humanos, animais).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sequ\u00eancia, trago uma&nbsp;cita\u00e7\u00e3o que me parece sintetizar bem, ainda que pouco (mas&nbsp;o suficiente para entendermos), como tudo isso come\u00e7ou, pelo menos,&nbsp;no contexto da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa em \u00c1frica. O excerto subsequente versa sobre uma legisla\u00e7\u00e3o colonial&nbsp;portuguesa&nbsp;de 1954, que determinava, no seu artigo 56, os requisitos para que um n\u00e3o europeu, portanto&nbsp;um&nbsp;africano conseguisse a cidadania portuguesa e, com isso, passar a ser tratado como cidad\u00e3o portugu\u00eas, como&nbsp;Ser \u201cigual\u201d a eles,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;A assimila\u00e7\u00e3o \u00e9 o reconhecimento oficial da entrada de uma pessoa para a \u201ccomunidade lus\u00edada\u201d: com isso ela tem acesso a todas as facilidades dos brancos e supostamente tem as mesmas oportunidades educacionais e de progresso. Para conseguir este novo status, a pessoa deve satisfazer as seguintes condi\u00e7\u00f5es: 1. Saber ler, escrever e falar portugu\u00eas fluentemente. 2. Ter meios suficientes para sustentar a sua fam\u00edlia. 3. Ter uma boa conduta. 4. Ter a necess\u00e1ria educa\u00e7\u00e3o e&nbsp;h\u00e1bitos pessoais e sociais de modo a tornar poss\u00edvel a aplica\u00e7\u00e3o do direito p\u00fablico e privado em vigor em Portugal. 5. Requerer a autoridade administrativa da sua \u00e1rea, que por sua vez o enviar\u00e1 ao Governador do distrito para aprova\u00e7\u00e3o. (Mondlane, 2019, P. 217)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que Mia Couto denunciou no texto anteriormente citado pode ter tido a sua origem nesse momento hist\u00f3rico descrito por Mondlane. vale salientar que, no mesmo texto, Mondlane faz referencia \u00e0 uma lei colonial de 1921&nbsp;(o c\u00f3digo de assist\u00eancia ao nativo), que&nbsp;definiu o africano civilizado como aquele que sabia falar portugu\u00eas e que estava desligado de todos os costumes tribais.&nbsp;A partir dessa exig\u00eancia colonial, sobretudo considerando&nbsp;a lei de 1921 eos pontos 3 e 4, que apresentam um elevado grau de subjetividade, convido o leitor a refletir sobre a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos acontecimentos que nos trouxeram at\u00e9 ao atual culto das apar\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como j\u00e1 referi, o que acontece hoje \u00e9 uma extrapola\u00e7\u00e3o daquilo que, no passado, foi uma exig\u00eancia. A necessidade, contudo, permanece a mesma: buscar&nbsp;o&nbsp;respeito,&nbsp;a&nbsp;aceita\u00e7\u00e3o,&nbsp;a&nbsp;dignidade e oportunidades. Ou seja, a l\u00f3gica subjacente a esse comportamento \u2014 ter bens para exibir e, assim, ser digno de respeito e tratamento condigno&nbsp;\u2014 permanece essencialmente a mesma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto povos&nbsp;colonizados, precisamos&nbsp;saber aseguinte coisa:&nbsp;no per\u00edodo colonial, o&nbsp;preto que n\u00e3o cumprisse&nbsp;as exig\u00eancias estabelecidas&nbsp;(destacadas anteriormente), n\u00e3o era humano tanto quanto branco que o era naturalmente,&nbsp;pois&nbsp;a humanidade do negro estava naquilo&nbsp;que ele podia conquistar, exibir, provar. Isto \u00e9, precisava&nbsp;mostrar-se&nbsp;digno de ser trato como humano. Diz-me em que isso se difere do que vivemos hoje, onde voc\u00ea precisa estar vestido de tal maneira&nbsp;e possuir determinados bens&nbsp;para ser respeitado e bem tratado!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, no nosso pa\u00eds,&nbsp;que ainda n\u00e3o implementou uma educa\u00e7\u00e3o anticolonial, a humanidade de muitas pessoas continua a ser negada pelo simple fato de que&nbsp;n\u00e3o&nbsp;apresentarem determinadas marcadore sociais&nbsp;que a sociedade, herdeira da coloniza\u00e7\u00e3o, ainda insiste em exigir. Isso come\u00e7a pela l\u00edngua: pessoas que n\u00e3o dominam a l\u00edngua guineense, sobretudo quando aparentam falar apenas l\u00ednguas \u00e9tnicas, s\u00e3o, em certos espa\u00e7os e por algumas pessoas, tratadas com menos considera\u00e7\u00e3o. Curiosamente, quando a mesma pessoa&nbsp;n\u00e3o fala a l\u00edngua nacional, mas uma l\u00edngua estrangeira, como o ingl\u00eas ou o franc\u00eas&nbsp;(com sotaque brit\u00e2nico ou franc\u00eas), o respeito tende a aumentar. E, quando essa pessoa fala&nbsp;portugu\u00eas, especialmente com determinado sotaque de Portugal, e se veste \u201cbem\u201d,&nbsp;ela&nbsp;experimenta&nbsp;o cl\u00edmax&nbsp;do que \u00e9 ser bem tratado, respeitado e at\u00e9 temido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pessoa pode ser desonesta, incompetente ou corrupta, mas ser\u00e1, a priori, respeitada e tratada com toda a dignidade poss\u00edvel,&nbsp;um direito que \u00e9 negado, de antem\u00e3o, \u00e0queles que n\u00e3o apresentam essas mesmas credenciais. \u00c9 por isso que a nossa pra\u00e7a est\u00e1 cheia de desonestos e incompetentes \u201cbem vestidos\u201d, cuja apar\u00eancia \u00e9 capaz de intimidar os mais simples e menos atentos, beneficiando-se dessa l\u00f3gica enquanto tantos outros, qualificados,&nbsp;honestos e s\u00e9rios s\u00e3o destratados invariavelmente.&nbsp;Eu pr\u00f3prio quase fui expulso de uma institui\u00e7\u00e3o onde trabalhava porque, aos olhos da pessoa, n\u00e3o estava suficientemente \u201cbem vestido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Me recuso a participar desse teatro por ach\u00e1-lo colonial e discriminat\u00f3rio.&nbsp;N\u00e3o vejo nenhuma racionalidade nele. Ele \u00e9, sob qualquer ponto de vista, irracional, ineficiente e impreciso na medida em que n\u00e3o consegue determinar quem&nbsp;\u00e9 quem. N\u00e3o se pode medir o car\u00e1ter de uma pessoa pela sua apar\u00eancia muito menos pela roupa&nbsp;que veste,&nbsp;pela&nbsp;l\u00edngua&nbsp;que fala,&nbsp;pelo&nbsp;carro&nbsp;que&nbsp;dirige,&nbsp;menos&nbsp;ainda&nbsp;pelo&nbsp;rel\u00f3gio ou perfume que usa, o mesmo vale para intelig\u00eancia, achar que algu\u00e9m pode ser mais ou menos inteligente&nbsp;a depender de como se apresenta&nbsp;do ponto de vista de vestu\u00e1rio e acess\u00f3rios,&nbsp;denuncia a estupidez da pr\u00f3pria pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caro leitor, o que precisa saber e nunca esquecer, sob nenhuma circunst\u00e2ncia,&nbsp;\u00e9 que a escravid\u00e3o e a coloniza\u00e7\u00e3o desumanizaram todos aqueles que a elas foram submetidos. Durante esses dois acontecimentos, os corpos n\u00e3o brancosforam transformados em coisas,&nbsp;objetos: ora de uso, ora de prazer e, em muitos casos, tratados como animais ferozes para exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Fomos brutalmente desumanizados e, infelizmente, continuamos, em alguma medida, a reproduzir, de maneira atom\u00e1tica e desatenta,&nbsp;algumas praticas desumanizadoras.&nbsp;Vide a banaliza\u00e7\u00e3o do nosso sofrimento&nbsp;(a morte das nossas crian\u00e7as n\u00e3o comove os nossos governantes), a repress\u00e3o violenta das autoridades e a cren\u00e7a de muitos de que para lidar&nbsp;(no sentido de manter a ordem)com guineense ou&nbsp;com&nbsp;preto, em geral, tem que ser a base da porrada e brutalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar, por exemplo, que a deprecia\u00e7\u00e3o do formato do nosso nariz, da textura do nosso cabelo, da cor da nossa pele ou dos nossos olhos resulta de uma avalia\u00e7\u00e3o imparcial e objetiva de um observador s\u00e9rio, interessado apenas no belo em si, \u00e9 ignorar o papel da coloniza\u00e7\u00e3o e do poder que ela exerceu \u2014 e ainda exerce \u2014 sobre a defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 belo,&nbsp;digno e desej\u00e1vel. E, por sua vez,&nbsp;explica o comportamento de muitos que vivem&nbsp;a se autodepreciar&nbsp;e&nbsp;a se esfor\u00e7ar&nbsp;di\u00e1ria e incansavelmente para extirpar as pr\u00f3prias caracter\u00edsticas,&nbsp;enquanto perseveram&nbsp;obcecadamente&nbsp;em emular&nbsp;as do colonizador pelo resto de&nbsp;suas&nbsp;vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabendo de tudo isso, n\u00e3o \u00e9 de estranhar quando vemos algu\u00e9m obcecado com a pr\u00f3pria apar\u00eancia, com a forma como vai se apresentar \u00e0 sociedade, com que l\u00edngua falar e, sobretudo, com que sotaque; que roupa usar, que marca de rel\u00f3gio imp\u00f5e mais respeito etc. Essa pessoa est\u00e1, em alguma medida, reproduzindo uma l\u00f3gica cuja origem hist\u00f3rica talvez desconhe\u00e7a completamente. O que entristece, por\u00e9m, \u00e9 ver pessoas desumanizando outras seguindo essa mesma l\u00f3gica colonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 pueril pensar que esse comportamento nada tem a ver com a coloniza\u00e7\u00e3o e com as suas marcas na nossa atualidade. Ali\u00e1s, poucas atitudes e cren\u00e7as s\u00e3o mais coloniais do que a pr\u00f3pria tentativa de negar as consequ\u00eancias e os resqu\u00edcios da coloniza\u00e7\u00e3o nos problemas de&nbsp;\u00c1frica de hoje. Essa tentativa de eximir a coloniza\u00e7\u00e3o de qualquer responsabilidade pela atual mis\u00e9ria africana encontra a sua express\u00e3o m\u00e1xima na seguinte \u201cpondera\u00e7\u00e3o\u201d: \u201cChega de culpar os colonizadores por tudo! Ficamos nisso e n\u00e3o constru\u00edmos o nosso pa\u00eds e, por extens\u00e3o,&nbsp;o nosso continente.\u201d De racional, essa afirma\u00e7\u00e3o tem apenas a apar\u00eancia; submetida \u00e0 mais b\u00e1sica an\u00e1lise, revela-se um grande disparate.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos \u201cponderados\u201d e \u201cequilibrados\u201d que me confrontam com esse argumento, costumo lan\u00e7ar-lhes&nbsp;o seguinte desafio:me citem dois pol\u00edticos, na hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds ou do continente, que tenham passado \u2014 ou passam \u2014 o tempo culpando a coloniza\u00e7\u00e3o enquanto destru\u00edam \u2014 ou destroem&nbsp;\u2014 o pr\u00f3prio pa\u00edsV. At\u00e9 o momento em que escrevo este texto, ningu\u00e9m conseguiu mencionar sequer um&nbsp;\u00fanico pol\u00edtico assim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o conseguem porque essa rela\u00e7\u00e3o simplesmente n\u00e3o existe. Na verdade, a rela\u00e7\u00e3o parece ser inversa: aqueles que t\u00eam consci\u00eancia dos estragos da coloniza\u00e7\u00e3o e lhe d\u00e3o o devido reconhecimento, denunciando os seus males de forma recorrente, est\u00e3o entre os que mais lutaram e lutam para construir os seus pa\u00edses e o continente como um todo. Exemplos n\u00e3o nos faltam: Am\u00edlcar Lopes Cabral, Samora Machel, Kwame Nkrumah, Ibrahim Traor\u00e9 e tantos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o fazer nada para mudar essa realidade por meio da educa\u00e7\u00e3o, da cultura, da pol\u00edtica etc.,&nbsp;e esperar que ela se transforme por si s\u00f3 com o passar do tempo, ou&nbsp;pior ainda,acreditar que j\u00e1 mudou simplesmente porque a coloniza\u00e7\u00e3o terminou h\u00e1 d\u00e9cadas, \u00e9 o c\u00famulo&nbsp;da ignor\u00e2ncia sobre a colonialidade e a sua influ\u00eancia no nosso inconsciente. Precisamos, urgentemente, trocar as lentes atrav\u00e9s das quais enxergamos a n\u00f3s mesmos. N\u00e3o podemos continuar a ver nossos irm\u00e3os, irm\u00e3s, pais, m\u00e3es, filhos, filhas e parentesatrav\u00e9s da lente colonial que nos desumanizou&nbsp;e ainda nos desumaniza, precisamos olhar para n\u00f3s com um olhar end\u00f3gina, que enxerga a nossa beleza e humanidade de maneira natural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Precisamos de uma educa\u00e7\u00e3o s\u00e9ria, humanizadora e anticolonial e, ao mesmo tempo, precisamos repudiar, de forma firme,&nbsp;contundente&nbsp;e permanente, todas as pr\u00e1ticas coloniais que ainda persistem entre n\u00f3s.&nbsp;Por isso&nbsp;n\u00e3o participo e&nbsp;nunca participarei desse teatro,&nbsp;nem para buscar&nbsp;o&nbsp;respeito, nem para respeitar ou desrespeitar algu\u00e9m segundo os crit\u00e9rios aqui denunciados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Guineenses e todos os povos colonizados do mundo,&nbsp;<strong>r<\/strong><strong>espeitemo-nos<\/strong>&nbsp;simplesmente por sermos humanos e&nbsp;<strong>humanizemo-nos<\/strong>, a cada dia, por meio do respeito e da considera\u00e7\u00e3o, sem exig\u00eancias externas.&nbsp;Chega de destratar o outro porque n\u00e3o est\u00e1 \u201cbem&nbsp;vestido\u201d ou porque n\u00e3o fala essa ou aquela&nbsp;lingua, muito menos porque parece pobre e analfabeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bissau, 23 de setembro de 2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por:\u00a0Fernando Colonia (o bolamense)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REFER\u00caNCIAS&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BOAHEM, A.&nbsp;Albert. General History of Africa, VII: Africa under colonial domination, 1880-1935. Paris: UNESCO; Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational Publishers Ltd., 1985.&nbsp;(Primeira edi\u00e7\u00e3o publicada em ingl\u00eas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">COUTO, Mia.<strong>&nbsp;<\/strong>\u00c0 porta da modernidade, h\u00e1 sete sapatos sujos que necessitamos descal\u00e7ar.&nbsp;08-28-2013. Por Dentro da \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MONDLANE, Eduardo. A estrutura social: mitos e fatos. In: Revolu\u00e7\u00e3o africana: uma antologia do pensamento marxista. Organizadores Jones Manuel, Gabriel Landi Fazzio. S\u00e3o Paulo, SP: Autonomia Liter\u00e1ria, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7o este texto trazendo para o debate a reflex\u00e3o de um importante e amplamente conhecido escritor mo\u00e7ambicano, Mia Couto, presente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":59243,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-59242","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opinioes","wpcat-25-id"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Trocando as lentes: precisamos construir uma nova forma de olhar para n\u00f3s mesmos - O Democrata GB<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.odemocratagb.com\/?p=59242\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Trocando as lentes: precisamos construir uma nova forma de olhar para n\u00f3s mesmos - 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