Editorial: AMÍLCAR CABRAL COMPROU DIGNIDADE DOS BALANTAS

A etnia Balanta nunca foi, por si só, a Luta Armada da Libertação Nacional. Amílcar Cabral conquistou, de forma consciente e estratégica, a honestidade e a dignidade do povo Balanta para que os seus jovens se tornassem guerrilheiros da Luta Armada da Libertação Nacional. Não é, portanto, estranho que hoje existam muitos jovens balantas nos quartéis das Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP). Contudo, se Amílcar Cabral tivesse conquistado a independência da Guiné-Bissau logo no dia 3 de agosto de 1959, provavelmente hoje não haveria balantas nos quartéis; muito possivelmente, estivadores pepéis e maquinistas manjacos seriam maioritários nas FARP.

O Balanta, quando entrega a sua dignidade, levanta a cabeça e olha sempre em frente. Não olha para trás, não desiste da luta. É uma das etnias da Guiné-Bissau que não permite que a sua dignidade seja posta em causa. Um Balanta prefere morrer a viver na vergonha. A dignidade balanta está profundamente enraizada na ancestralidade familiar de cada tabanca.

Quando Amílcar Cabral percebeu, após o 3 de agosto de 1959, que não conseguiria alcançar a independência por vias imediatas, mudou a estratégia da luta para o sul do país. Este facto demonstra que a etnia Balanta não foi a luta em si, mas sim o destino da luta. A luta foi ter com eles, sentados nas suas tabancas. Não foram mobilizados à força para combater; foi na calada da noite que, enquanto estratega, Amílcar Cabral conquistou a honestidade e a dignidade da etnia Balanta no sul do país. Foi Cabral quem alertou o povo Balanta — sobretudo do sul — para a realidade da opressão e da injustiça praticadas pelos colonos portugueses na então Guiné Portuguesa.

Quando alguém conquista a dignidade e a honestidade da etnia Balanta, tem a garantia de que os seus jovens cumprirão a missão. Na cultura Balanta, prefere‑se a morte à vergonha. Por isso, quando essa dignidade é comprometida de forma consciente, toda a sociedade balanta adapta o seu discurso, a sua forma de falar e de cantar à realidade vivida naquele momento histórico.

A música “Amílcar Cabral Lante Dam” (Amílcar Cabral, homem grande) foi a prova inequívoca de que a etnia Balanta já havia recebido e abraçado a Luta Armada da Libertação Nacional em todas as tabancas de Catió portuguesa. Praticamente não houve jovens balantas mobilizados a partir de Bissau ou de outras cidades da então Guiné Portuguesa para participar na luta armada.

O discurso de Amílcar Cabral sobre a Luta Armada da Libertação Nacional era, para os jovens balantas, como um prato de arroz: algo que se ouvia e se consumia com gosto, na plenitude da sua honestidade e dignidade etnocultural. Assim, a música “Amílcar Cabral Lante Dam” refletia, nas tabancas balantas, uma adesão intensa e determinada dos jovens à luta armada de libertação.

Hoje, infelizmente, não se sabe com clareza se a nova geração balanta que integra o Alto Comando Militar vendeu realmente a sua honestidade e a sua dignidade, tal como os seus antepassados fizeram com Amílcar Cabral. A sua comunicação nos sistemas de media revela duas canetas: uma que escreve romances políticos e outra que escreve notícias e reportagens.

Tudo parece navegar à deriva, em águas turvas. Os jovens balantas do Alto Comando Militar ainda não foram capazes de explicar, de forma explícita, se venderam ou não a sua honestidade e a sua dignidade. Toda a comunidade balanta do país espera uma explicação objetiva: venderam ou não essa herança ancestral? Como? A quem? Que tipo de conteúdo da dignidade e da honestidade balanta foi colocado em causa?

Até ao momento, não existe informação visível nem explicações objetivas sobre os princípios de ancestralidade que poderiam levar os jovens balantas do Alto Comando Militar a vender — ou não — a sua dignidade e honestidade culturais.

Curiosamente, o Alto Comando Militar proibiu conferências de imprensa, silenciando os “homens grandes” balantas que alertavam para a decadência dos valores ancestrais que historicamente asseguraram a dignidade e a honestidade balanta na Guiné-Bissau.

É fundamental que os jovens balantas do Alto Comando Militar saibam pensar bem para poder escrever bem a história da honestidade e da dignidade da ancestralidade balanta. Caso contrário, arriscam-se a vender essa herança sem razão de ser, perdendo a ideologia balanta que os seus pais e avós construíram ao lado de Amílcar Cabral. O Balanta não vende a sua dignidade e honestidade por vender.

Os seus avós e pais entregaram a Amílcar Cabral a sua honestidade e dignidade balanta para libertar a Guiné-Bissau. A etnia Balanta espera agora que os jovens do Alto Comando Militar saibam comprometer essa mesma dignidade e honestidade para resgatar a democracia multipartidária na Guiné-Bissau.

Dr. António Nhaga
Diretor-Geral

angloria.nhaga@gmail.com

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