Juventude de Cacine acusa autoridades de tratamento desigual em relação às regiões de leste

A Associação de Jovens do Setor de Cacine, na região de Tombali, extremo sul da Guiné-Bissau, denuncia as dificuldades estruturais que afetam a população local, nomeadamente a precariedade dos serviços básicos e essenciais, como saúde, energia, educação e emprego. A organização exige igualmente esclarecimentos à Empresa de Eletricidade e Água da Guiné-Bissau (EAGB) sobre a alegada disparidade no fornecimento de energia elétrica entre as diferentes regiões do país.

As preocupações foram partilhadas (setembro de 2026) com uma equipa do jornal O Democrata por Abubacar Djau, presidente da Associação de Jovens do Setor de Cacine.

Uma equipa de repórteres do semanário deslocou-se ao setor de Cacine, situado a 276 quilómetros de Bissau, no âmbito das comemorações do 24 de Setembro, Dia da Independência Nacional, para ouvir as preocupações da população. Mais de meio século após a independência, a localidade continua confrontada com elevados níveis de pobreza, escassez de água potável, fornecimento irregular de eletricidade, serviços de saúde insuficientes e limitações no acesso à educação de qualidade. Entretanto, a tão prometida estrada asfaltada continua a ser uma aspiração distante para os habitantes e viajantes da região.

Em entrevista ao jornal O Democrata, o presidente da associação descreveu ainda as dificuldades enfrentadas por quem viaja para Cacine e para as localidades circundantes.

“Dispenso, sem menosprezar, o esforço que fizeram para viajar e o pesadelo que tiveram de enfrentar para chegar aqui. São jornalistas e acredito que a primeira coisa que vão relatar é aquilo que viram e sentiram durante as 13 horas de viagem que fizeram”, afirmou.

DEGRADAÇÃO DA ESTRADA COLOCA CACINE EM ISOLAMENTO E AGRAVA FALTA DE COMUNICAÇÕES

Os factos observados no terreno revelam uma situação de carência crónica que exige respostas urgentes. Viajar para Cacine implica enfrentar enormes dificuldades, assumir riscos e suportar sacrifícios incomuns. A deslocação até ao setor permite conhecer uma das regiões com forte significado histórico para a luta de libertação nacional, particularmente Cassacá, mas também evidencia a realidade de uma população privada de condições mínimas de mobilidade e de acesso a serviços básicos.

Grande parte dos habitantes desloca-se a pé ou em motociclos. Muitos percorrem longas distâncias para obter água potável, cuidados de saúde ou acesso à educação.

A equipa de O Democrata que visitou Cacine e Cassacá viveu parte desta realidade durante menos de 72 horas. Foram mais de 25 horas de viagem entre ida e regresso, acompanhadas por dificuldades adicionais: reduzida atividade comercial, ausência de dinâmica turística, degradação de infraestruturas históricas, pistas de aterragem tomadas pela vegetação, juventude sem oportunidades de ocupação e produção agrícola ameaçada pela irregularidade das chuvas.

Entre os problemas enfrentados pelos viajantes destacam-se a superlotação dos transportes, as paragens frequentes para embarque e desembarque de passageiros, a entrega de encomendas, o desgaste físico provocado pelas longas horas de viagem, a circulação desordenada de mototáxis e as inúmeras pausas para alimentação e outras necessidades.

A viagem de ida demorou cerca de 13 horas, enquanto o regresso consumiu apenas uma hora a menos. Para os repórteres, trata-se de uma realidade difícil de conciliar com as exigências de mobilidade do século XXI.

O setor estende-se por uma área de 613,4 quilómetros quadrados e possui uma população de 20.383 habitantes, distribuídos por 10 secções e 94 tabancas, segundo dados do Quarto Recenseamento Geral da População e Habitação (RGPH4).

Uma particularidade observada é a inexistência de um mercado local estruturado. A atividade comercial resume-se a pequenos estabelecimentos, maioritariamente pertencentes a comerciantes estrangeiros. Muitos produtos essenciais chegam de Bissau, da Guiné-Conacri e do Senegal, especialmente da localidade de Djaube.

Outra preocupação apontada pelos residentes relaciona-se com as dificuldades de acesso aos serviços de telecomunicações. Segundo relataram, as redes móveis operam de forma bastante irregular na zona sul do país. Para aceder ao sinal telefónico ou à internet, os utilizadores são frequentemente obrigados a deslocar-se para locais específicos onde a cobertura é menos instável.

Perante esta realidade, Abubacar Djau identificou quatro grandes preocupações da população: energia, serviços sociais básicos, saúde e educação, além da degradação das infraestruturas rodoviárias.

Relativamente à energia proveniente da Barragem Hidroelétrica de Kaleta, na Guiné-Conacri, o dirigente juvenil denunciou que, apesar do lançamento da corrente elétrica há cerca de seis meses, a população continua sem beneficiar do serviço.

“Lançaram a corrente elétrica há seis meses e até hoje a população não está a consumi-la. Não houve qualquer explicação. As famílias fizeram as instalações nas residências, compraram materiais, contrataram técnicos e pagaram inspeções. Os técnicos da EAGB aprovaram os trabalhos e os clientes celebraram contratos e carregaram saldos. No entanto, nunca tiveram acesso à energia”, lamentou.

Segundo explicou, os moradores evitaram inicialmente protestos porque acreditavam tratar-se de um problema temporário. No entanto, com o passar do tempo, concluíram que a situação representa um sinal de abandono e isolamento do setor.

“Recentemente, quando ocorreram problemas semelhantes em Bafatá e Gabú, as autoridades atuaram rapidamente e deram um tratamento especial a essas localidades”, criticou.

Djau afirmou que a associação acompanha regularmente as informações difundidas nas redes sociais e nos meios de comunicação social, considerando que outras regiões recebem tratamento prioritário.

Segundo referiu, sempre que surgem avarias em Bafatá e Gabú, a EAGB e o Ministério da Energia organizam missões específicas para resolver os problemas.

O ativista acrescentou que atualmente essas localidades já beneficiam de um fornecimento estável da energia proveniente de Kaleta.

“Somos todos cidadãos nacionais e partilhamos o mesmo bilhete de identidade. Não pode haver tratamento desigual nem dois pesos e duas medidas para o mesmo povo”, afirmou.

“OS NOSSOS AVÓS FORAM VÍTIMAS DA LUTA E HOJE SOMOS VÍTIMAS DA DISCRIMINAÇÃO”

Djau apelou à EAGB e ao Governo para que esclareçam a situação e adotem medidas concretas para responder aos problemas da população.

Segundo sustentou, a região de Tombali e, em particular, o setor de Cacine, continuam a enfrentar dificuldades históricas que contrastam com a sua importância durante a luta de libertação nacional.

“Os nossos avós sentiram a dor da luta na pele e hoje continuamos a sofrer em pleno século XXI. De Mampatá Fórea até Cacine são 76 quilómetros. Não é aceitável percorrer essa distância em sete horas. Se houver uma emergência médica ou uma grávida em situação crítica, as condições da estrada podem ser fatais”, denunciou.

O dirigente associativo destacou igualmente que o maior centro de saúde do setor não dispõe de ambulância.

Segundo afirmou, apesar das reivindicações recorrentes, as autoridades nunca responderam adequadamente aos apelos da população.

Djau observou ainda que alguns setores da região de Tombali dispõem de duas ou três ambulâncias, enquanto Cacine continua sem meios adequados.

“Estamos a sofrer vários tipos de discriminação. O setor de Cacine continua a ser excluído até no acesso aos serviços básicos de saúde”, disse.

O ativista lamentou igualmente o estado de abandono de Cassacá, local histórico onde foi realizado o primeiro congresso do então Estado da Guiné-Bissau.

“Vai-se a Cassacá e quase nada se encontra. O local onde decorreu o primeiro congresso encontra-se degradado. Como falar de desenvolvimento quando os espaços históricos mais importantes foram ignorados?”, questionou.

Segundo Abubacar Djau, centenas de jovens formados no liceu privado que funcionou durante anos na localidade e no atual liceu estatal abandonaram o setor em busca de melhores oportunidades e acesso ao ensino superior.

O dirigente associativo considera que este fenómeno está ligado ao êxodo rural, à centralização dos recursos em Bissau e à escassez de oportunidades económicas na região.

Entre os principais fatores apontados estão a falta de emprego, a procura de formação profissional, as limitações de infraestruturas e serviços básicos, bem como os impactos das alterações climáticas sobre a agricultura.

“As alterações nos padrões de chuva e a ocorrência de secas têm reduzido a rentabilidade da agricultura familiar. Com a diminuição dos rendimentos agrícolas, muitos jovens sentem-se obrigados a abandonar o campo”, explicou.

Segundo defendeu, a inexistência de instituições de ensino superior e de formação técnica no interior do país obriga muitos jovens a deslocarem-se para a capital para prosseguir os estudos.

Além disso, as dificuldades de acesso à energia, água potável, serviços de saúde e internet reforçam o sentimento de isolamento e incentivam a migração para os centros urbanos.

O dirigente alertou ainda para fenómenos sociais como casamentos precoces e gravidezes prematuras, que, em alguns casos, levam jovens raparigas a abandonar as suas comunidades.

DEGRADAÇÃO DO ENSINO: ALUNOS MAIS AVANÇADOS ASSUMEM PAPEL DE TUTORES

Abubacar Djau afirmou que o setor de Cacine praticamente não beneficia da presença permanente de organizações não-governamentais. Segundo relatou, a maioria das ONG desenvolve as suas atividades a partir de Catió, Buba ou Bissau, sem instalação efetiva na localidade.

O único projeto de dimensão relevante identificado na região é o Centro de Pesca Corona, financiado pelo Governo do Japão. Contudo, segundo o dirigente, o projeto tem funcionado abaixo das expectativas e sem criar oportunidades significativas para os jovens.

Djau recordou que a pesca artesanal constitui uma das principais atividades económicas locais, mas salientou que os pescadores não dispõem de meios suficientes para expandir a produção.

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O ativista acusou ainda as autoridades das pescas de favorecerem operadores estrangeiros na atribuição de licenças, em detrimento dos pescadores nacionais.

Apesar disso, reconheceu avanços na proteção ambiental, referindo que a prática do corte indiscriminado de mangal diminuiu graças às ações de sensibilização promovidas por organizações que trabalham nas zonas costeiras.

O dirigente alertou igualmente para o risco de insegurança alimentar, devido à escassez de chuvas registada este ano.

“A água nos arrozais continua salgada. Estamos no final de setembro e muitos agricultores perderam as suas plantações. Ninguém pode garantir que teremos chuvas suficientes nos próximos meses”, advertiu.

Em relação à educação, Djau classificou a situação como preocupante. Segundo afirmou, devido à escassez de professores e às frequentes ausências do corpo docente, tornou-se comum que alunos mais avançados assumam o papel de tutores dos colegas.

Para o dirigente, esta realidade demonstra simultaneamente a solidariedade entre estudantes e a profundidade da crise que afeta o sistema educativo nacional.

De acordo com Djau, os problemas na educação estão ligados às dificuldades estruturais que afetam o setor, incluindo a falta de água potável, energia elétrica e outros serviços essenciais.

Por: Filomeno Sambú e Natcha M’Bundé

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