O diretor executivo da ONG Tiniguena, Miguel de Barros, alertou que as alterações climáticas têm afetado gravemente a produção das mulheres rurais em África, sobretudo nas zonas costeiras e do litoral.
Miguel de Barros fez este alerta esta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, durante a cerimónia de encerramento do projeto Ação Climática Feminista na África Ocidental (ACFAO) e do projeto Reforçar a Igualdade de Género através da Agroecologia na África Ocidental (EGALE-AO).
No seu discurso, o sociólogo destacou algumas das conquistas alcançadas ao longo dos cinco anos de implementação das iniciativas. Segundo explicou, os projetos contribuíram para a legalização de terras comunitárias destinadas à produção agrícola das mulheres e para a criação de uma rede de jovens para o clima, uma experiência considerada inovadora no contexto guineense.
O encontro constituiu uma oportunidade para a partilha dos principais resultados, experiências e aprendizagens dos dois projetos, permitindo dar voz às comunidades e aos diferentes atores envolvidos, bem como promover uma reflexão conjunta sobre a sustentabilidade e continuidade das ações desenvolvidas.
A iniciativa serviu igualmente para reconhecer o contributo das comunidades, das instituições públicas, das organizações da sociedade civil, dos parceiros técnicos e financeiros e de outros intervenientes que acompanharam a implementação dos projetos.
Na ocasião, Miguel de Barros afirmou que as alterações climáticas têm um impacto particularmente forte sobre as mulheres, aumentando a sua carga de trabalho e agravando desafios relacionados com a saúde, a autonomia económica e o abandono escolar das raparigas.
Segundo o responsável, dados referentes ao contexto guineense indicam que, nas zonas rurais, pelo menos sete em cada dez meninas acabam por abandonar a escola devido à conjugação de fatores como a falta de acesso à posse da terra, os efeitos das alterações climáticas e as dificuldades económicas das famílias.
Durante a sua intervenção, Miguel de Barros salientou ainda o papel das mulheres na produção agrícola africana, destacando a sua participação em todas as etapas da cadeia produtiva, desde a preparação dos campos à conservação, plantação, colheita, transporte, transformação e comercialização dos produtos.
“O elemento mais interessante é que, com essa presença, conseguimos garantir a segurança alimentar das famílias, independentemente das flutuações do mercado”, afirmou.
O sociólogo manifestou também preocupação com a situação das mulheres no continente africano, sublinhando que muitas continuam sem acesso pleno ao direito à posse da terra. Segundo indicou, estima-se que apenas uma reduzida percentagem das mulheres produtoras detenha efetivamente direitos sobre as terras que cultivam.
Para Miguel de Barros, esta realidade representa uma ameaça à segurança alimentar e ao desenvolvimento económico. O responsável alertou ainda que não será possível construir políticas públicas eficazes nem promover um desenvolvimento sustentável sem a participação plena das mulheres que produzem, transformam e asseguram a alimentação das famílias.
“Não haverá desenvolvimento sustentável sem igualdade de género”, defendeu.
O diretor executivo da Tiniguena acrescentou que a promoção dos direitos das mulheres, especialmente das que vivem nas zonas rurais, constitui um desafio nacional, regional e internacional, sendo igualmente uma exigência para a preservação da dignidade humana e para a prosperidade das sociedades.
Ministra defende integração da perspetiva de género nas políticas climáticas
Por sua vez, a ministra da Mulher, Família e Solidariedade Social, Yessénia Suad de Brito Arif Ibrahim, afirmou que o encontro representa uma oportunidade para avaliar os resultados alcançados, identificar desafios persistentes e aprofundar a reflexão sobre igualdade de género, justiça climática e desenvolvimento sustentável na África Ocidental.
A governante sublinhou que as alterações climáticas constituem um dos maiores desafios da atualidade, devido aos seus impactos crescentes sobre a produção agrícola, a segurança alimentar, o acesso à água, a conservação dos recursos naturais e os meios de subsistência das famílias.
Apesar destes desafios, a ministra defendeu que as mulheres não devem ser vistas apenas como vítimas das mudanças climáticas, mas também como agentes essenciais da transformação social e ambiental.
“As mulheres são detentoras de conhecimentos tradicionais, de práticas agrícolas sustentáveis e de capacidades fundamentais para a adaptação e a resiliência das comunidades”, afirmou.
Yessénia Ibrahim considerou igualmente essencial que as estratégias de adaptação às alterações climáticas integrem uma perspetiva de género, assegurando às mulheres acesso à formação, aos recursos produtivos, às oportunidades económicas e aos espaços de participação e tomada de decisão.
A ministra manifestou ainda a expectativa de que o encontro permita consolidar os resultados obtidos, sistematizar as lições aprendidas, reconhecer as dificuldades encontradas e formular recomendações concretas para dar continuidade às ações de promoção da agroecologia, da participação das mulheres e da justiça climática.
Por: Carolina Djeme


















