O administrador da Academia de Futebol da Guiné‑Bissau (MEPA), Paulo Mendonça, afirmou que as academias de formação atravessam sérias dificuldades, situação que, segundo alertou, está a comprometer o futuro do futebol nacional, tendoexortado a Federação de Futebol da Guiné‑Bissau (FFGB) a abrir um diálogo franco, defendendo que é necessário “dizer a verdade” e que todos os que acompanham o futebol guineense devem preocupar‑se seriamente com os campeonatos de formação.
“É fundamental encontrarmos uma solução através do diálogo e da troca de ideias para sairmos desta situação, caso contrário o futebol vai afundar‑se”, advertiu.
Em entrevista ao jornal O Democrata, Mendonça lamentou a ausência de competições nas categorias de base, salientando que os jovens atletas realizam a pré‑época desde setembro até março sem qualquer perspetiva do arranque do campeonato. “Os miúdos estão com fome de jogar futebol, mas não se vê sequer sinal do início do campeonato das academias de formação”, afirmou.
A entrevista teve como objetivo abordar a ausência prolongada dos campeonatos de formação na Guiné‑Bissau e o silêncio da FFGB face a esta situação, que tem gerado críticas de treinadores e dirigentes, preocupados com o futuro do futebol nacional.
“MIÚDOS GUINEENSES PERDEM LUGAR NA EUROPA POR FALTA DE COMPETIÇÃO”
O Democrata apurou que o último campeonato nacional de formação concluído foi realizado na temporada 2021‑2022. Nessa edição, as categorias juvenil e júnior foram vencidas pela Academia Valusa e pela Academia Vitalis, respetivamente, tendo cada uma recebido um prémio de 750.000 francos CFA.
Na temporada passada, 2024‑2025, a FFGB, segundo informações recolhidas, organizou uma competição de formação para permitir alguma atividade competitiva aos jovens, mas apenas foi disputada uma volta, desconhecendo‑se o desfecho da prova.
De acordo com as informações apuradas, para além da falta de competição interna, os clubes nacionais estão a perder importantes fundos de solidariedade da FIFA, devido à não inscrição de jovens promissores no sistema TMS (TransferMatching System), plataforma responsável pelo registo de transferências e dos intermediários envolvidos.
Perante este cenário, Paulo Mendonça alertou que a ausência de campeonatos de formação nos últimos quatro anos está a “afundar seriamente” o desenvolvimento do futebol guineense, devido à falta de competição regular nas categorias juvenil e júnior.
Segundo explicou, a inexistência de provas oficiais dificulta a colocação de jovens jogadores guineenses em clubes europeus, em comparação com outros países africanos. “Quando um jogador da Guiné‑Bissau concorre no mesmo mercado que um jogador do Senegal, fica em desvantagem pela falta de minutos de jogo. Os agentes são obrigados a convencer os clubes apenas com argumentos sobre a qualidade do atleta”, disse.
“Sem competição, torna‑se difícil valorizar um jogador no mercado”, acrescentou.
Além da formação, o administrador da MEPA manifestou também preocupação com a incerteza e a demora no arranque do Campeonato Nacional da Segunda Divisão e do futebol feminino.
Sem apontar responsabilidades diretas, Mendonça defendeu a necessidade de diálogo entre todos os intervenientes do futebol, evitando protagonismos. “É essencial que academias, clubes, Governo e federação discutam soluções. Caso contrário, é lamentável que os miúdos fiquem sem competir e sejamos obrigados a improvisar jogos amigáveis apenas para que possam jogar”, afirmou.
Com vários anos de experiência na inserção de jogadores guineenses no futebol europeu, Mendonça sublinhou que a qualidade individual não é suficiente sem competição interna regular.
Refira‑se que, nos últimos anos, vários jovens talentos oriundos de clubes e academias nacionais foram integrados em ligas europeias, sobretudo em Portugal. No entanto, não existem registos que comprovem uma participação consistente desses atletas em competições internas na Guiné‑Bissau.
Para vários comentadores desportivos, a realização regular dos campeonatos nacionais nas categorias juvenil e júnior permitiria criar uma base sólida para a seleção nacional, através da prospeção, análise e identificação de talentos pela estrutura técnica nacional.
Por: Alison Cabral





















