Especialista defende agroindústria e recursos como base da transformação digital do país 

O especialista em dados e presidente do Conselho de Administração da InnovaLab, Adulai Bary, afirmou que a estratégia nacional para a transformação digital da Guiné-Bissau não pode ser uma cópia decorativa de planos europeus ou norte-americanos. Contudo, defendeu que uma estratégia nacional eficaz para a transformação digital do país deve assentar na digitalização de setores âncora, designadamente a agroindústria e os recursos.


“A nossa economia vive da castanha de caju, da pesca artesanal e industrial e da agricultura nas nossas bolanhas. A aplicação de IA preditiva, visão computacional e Internet das Coisas (IoT) deve servir para monitorizar safras, automatizar a certificação de qualidade dos nossos produtos para exportação — agregando valor à castanha antes de esta sair do Porto de Bissau — e combater a pesca ilegal na nossa Zona Económica Exclusiva, com sistemas de radar e imagem de satélite com deteção algorítmica autónoma”, alertou o engenheiro informático e especialista em dados, em entrevista ao jornal O Democrata, no quadro da edição especial de 24 de setembro, na qual foi desafiado a falar sobre o atual estágio de desenvolvimento digital da Guiné-Bissau, bem como sobre os principais desafios e oportunidades para os próximos anos.


Na entrevista, o especialista apontou as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) como a maior ferramenta de democratização de oportunidades da história humana, tendo enfatizado que, para a juventude, representam a quebra definitiva do teto geográfico.


“A juventude guineense já não precisa de arriscar a vida em rotas de migração desesperadas para ter acesso ao mercado de trabalho internacional. Com competências sólidas de programação, gestão de redes, ciência de dados, cibersegurança e suporte técnico, o jovem guineense pode exportar massa cinzenta e faturar em divisas fortes sem sair da sua terra, aplicando esse rendimento na melhoria das condições de vida da sua família”, disse.


Sobre o investimento do Estado nas infraestruturas e na educação digital, ou sobre a possibilidade de avançar simultaneamente para a adoção da Inteligência Artificial, Bary disse que, enquanto o Estado investe na extensão da rede elétrica, na eletrificação solar rural, no reforço da fibra ótica e na formação contínua de professores, deve também adotar de imediato soluções de IA ligeiras (low-compute e mobile-first) que reduzam drasticamente os custos operacionais dos serviços básicos.

O Democrata (OD): Como avalia o atual estágio de desenvolvimento digital da Guiné-Bissau? Quais são os principais desafios e oportunidades para os próximos anos?

Adulai Bary (AB): A Guiné-Bissau encontra-se num ponto de inflexão crítico. Se olharmos para a superfície, assistimos a uma massificação da conectividade móvel: o cidadão comum tem hoje um smartphone no bolso e o mobile money — sustentado pelo Orange Money e pelo TeleTaku da Telecel — tornou-se o verdadeiro motor da inclusão financeira informal, do comércio e da sobrevivência económica das famílias de Bissau ao interior mais profundo. A amarração do cabo submarino de fibra ótica (o consórcio ACE em Suru) e o trabalho que estamos desenvolvendo na ativação do ponto de troca de tráfego de internet nacional (o GwIX) provaram que temos infraestrutura de base capaz de suportar saltos qualitativos.

Contudo, não podemos confundir penetração de redes sociais com maturidade digital. O nosso estágio atual é predominantemente de consumo passivo e extrativo. Pagamos tarifas de telecomunicações e pacotes de dados dispendiosos para alimentar plataformas estrangeiras, enquanto os nossos serviços públicos, os nossos hospitais e as nossas escolas operam ainda, na sua esmagadora maioria, sobre pilhas de papel e processos analógicos vulneráveis.

Os principais desafios: A instabilidade crónica e o custo da energia elétrica (sem uma rede fiável da EAGB e alternativas renováveis não há servidores nem centros de dados); a literacia digital funcional que vá além do WhatsApp, do Facebook e do TikTok; a carência de quadros técnicos especializados em engenharia de software e análise de dados; e, sobretudo, a ausência de um quadro legal e fiscal moderno que encoraje a inovação em vez de a asfixiar em burocracias herdadas do século passado.

As grandes oportunidades: O nosso país dispõe do bónus demográfico da juventude. A tecnologia digital é o único setor onde um jovem em Bissau, em Gabú ou em Canchungo, munido apenas de um computador e de uma ligação à rede, pode prestar serviços e faturar junto de empresas em Lisboa, Paris, São Paulo ou Riade. Além disso, temos a oportunidade histórica do leapfrogging — podemos saltar etapas tecnológicas obsoletas e erguer uma administração pública e serviços financeiros diretamente sobre modelos digitais modernos e leves.

OD: Qual deve ser a estratégia nacional para que a transformação digital e a Inteligência Artificial contribuam efetivamente para o desenvolvimento económico e social do país?

AB: A estratégia nacional não pode ser uma cópia decorativa de planos europeus ou norte-americanos. A inteligência artificial só terá utilidade real para a Guiné-Bissau se for aplicada para resolver os nossos estrangulamentos sistémicos mais graves.

Uma estratégia nacional eficaz deve assentar em três pilares pragmáticos:

Digitalização dos Setores Âncora (Agroindústria e Recursos): A nossa economia vive da castanha de caju, da pesca artesanal e industrial e da agricultura nas nossas bolanhas. A aplicação de IA preditiva, visão computacional e Internet das Coisas (IoT) deve servir para monitorizar safras, automatizar a certificação de qualidade dos nossos produtos para exportação (agregando valor à castanha antes de sair do Porto de Bissau) e combater a pesca ilegal na nossa Zona Económica Exclusiva com sistemas de radar e imagem de satélite com deteção algorítmica autónoma.

Eficiência e Desintermediação do Estado: A IA e a automatização de processos devem ser introduzidas prioritariamente na Direção-Geral das Alfândegas, na Direção-Geral dos Impostos e no Tesouro Público. Quando automatizamos o desembaraço aduaneiro no porto e nas fronteiras terrestres, a liquidação tributária e a identificação de fraudes, eliminamos a discricionariedade humana, aumentamos as receitas fiscais do Estado e reduzimos drasticamente os circuitos de corrupção que corroem a confiança pública.

Estratégia Soberana de Dados: O Estado guineense precisa de compreender que os dados dos seus cidadãos, das suas empresas e dos seus recursos naturais constituem património soberano. Precisamos de infraestruturas locais de armazenamento (data centers nacionais ou partilhados no quadro da CEDEAO) para que as decisões de políticas públicas sejam orientadas por evidências estatísticas e não por palpites conjunturais.

OD: Que oportunidades as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) oferecem hoje à juventude, ao setor privado e à administração pública guineense?

AB: As TIC são a maior ferramenta de democratização de oportunidades da história humana.

Para a Juventude: Representam a quebra definitiva do teto geográfico. A juventude guineense já não precisa de arriscar a vida em rotas de migração desesperadas para ter acesso ao mercado de trabalho internacional. Com competências sólidas de programação, gestão de redes, ciência de dados, cibersegurança e suporte técnico, o jovem guineense pode exportar massa cinzenta e faturar em divisas fortes sem sair da sua terra, aplicando esse rendimento na melhoria das condições de vida da sua família.

Para o Setor Privado: O mercado interno é pequeno e fragmentado. O comércio eletrónico, a faturação digital e a integração fluida com as carteiras de pagamentos móveis — como o Orange Money e o TeleTaku — permitem que uma cooperativa de mulheres transformadoras de pescado nos Bijagós ou um produtor de arroz em Tombali vendam diretamente aos centros de consumo em Bissau ou à diáspora espalhada pelo mundo, contornando intermediários especulativos.

Para a Administração Pública: A oportunidade reside na restauração da dignidade do próprio Estado. Um Estado digitalizado emite um bilhete de identidade, um passaporte ou um registo predial em escassos minutos, em vez de submeter o cidadão a semanas de filas degradantes; cruza dados hospitalares para saber onde faltam medicamentos essenciais nas regiões; e gere o erário com transparência orçamental auditável em tempo real.

OD: Quais são os principais riscos associados à expansão da Inteligência Artificial, nomeadamente em matéria de emprego, privacidade, desinformação e exclusão digital?

AB: A inteligência artificial é uma força de aceleração exponencial. O perigo não reside na tecnologia em si, mas no descompasso gritante entre a velocidade do algoritmo e a lentidão da nossa preparação institucional.

O abismo da exclusão e do emprego: O maior perigo para países em desenvolvimento não é a substituição imediata de postos de trabalho — até porque a nossa economia é maioritariamente informal. O perigo real é o alargamento do fosso cognitivo. Se os países industrializados usarem a IA para multiplicar a sua produtividade por dez enquanto as nossas escolas continuam sem computadores, sem manuais e sem eletricidade, seremos remetidos a uma dependência económica ainda mais severa do que no período colonial.

A invasão da privacidade e o extrativismo de dados: Quando os nossos cidadãos descarregam aplicações gratuitas nos telemóveis sem qualquer literacia de salvaguarda, os seus hábitos de consumo, contactos, biometria e comunicações estão a ser capturados e enviados para servidores no exterior. Tornamo-nos meros fornecedores de dados brutos que alimentam modelos alheios, sobre os quais não temos o mais pequeno controlo regulamentar.

A ameaça à coesão social e a desinformação: A circulação de áudios manipulados com recurso a vozes de dirigentes políticos (deepfakes de voz) e imagens forjadas por IA distribuídas massivamente no WhatsApp tem um potencial de desestabilização avassalador num país com a sensibilidade política da Guiné-Bissau. Uma mentira desenhada com inteligência artificial pode inflamar tensões comunitárias ou políticas em escassos minutos, muito antes de qualquer autoridade conseguir repor a verdade dos factos.

OD: Que competências devem ser desenvolvidas entre estudantes, professores, empreendedores e funcionários públicos para uma utilização crítica, ética e produtiva da Inteligência Artificial?

AB: Precisamos de desmistificar a tecnologia com urgência. Escrever um prompt num chatbot qualquer pessoa aprende em quinze minutos. O que precisamos de ensinar é a mecânica por trás do ecrã:

Pensamento Crítico e Rigor Lógico: O modelo de linguagem gera textos convincentes, mas frequentemente inventa factos («alucina») ou reflete os enviesamentos socioculturais das regiões onde foi treinado. O estudante e o docente necessitam de arcaboiço crítico para auditar fontes, questionar saídas de dados e validar respostas.

Matemática Aplicada e Alfabetização em Dados: A IA assenta em álgebra linear, estatística e probabilidade. O sistema de ensino guineense precisa de revalorizar o ensino das ciências exatas. Quem compreende a lógica matemática dos dados deixa de ver a tecnologia como feitiçaria e passa a encará-la como ferramenta de engenharia.

Ética e Ciber-Higiene Básica: Os funcionários públicos e empreendedores têm de interiorizar que não se carregam despachos confidenciais do Estado, balancetes de empresas, dados bancários de clientes ou segredos comerciais em plataformas públicas na internet. A proteção do sigilo e a privacidade dos cidadãos devem fazer parte da formação cívica de qualquer profissional.

OD: Numa realidade de recursos limitados, o Estado deve priorizar as infraestruturas e a educação digital ou avançar simultaneamente para a adoção da Inteligência Artificial?

AB: Esse é um falso dilema que tem paralisado as lideranças em África. Não temos o luxo de esperar vinte anos para construir toda a infraestrutura física de estradas e redes elétricas convencionais para só depois começarmos a pensar na era digital. Se ficarmos à espera, o mundo já terá transitado para a biocomputação e nós continuaremos presos à retórica do atraso estrutural.

A abordagem tem de ser simultânea e convergente:

Enquanto o Estado investe na extensão da rede elétrica, na eletrificação solar rural, no reforço da fibra ótica e na formação contínua de professores, deve adotar de imediato soluções de IA ligeiras (low-compute e mobile-first) que reduzam drasticamente os custos operacionais dos serviços básicos.

Dou um exemplo prático: em vez de esperar décadas até que haja médicos especialistas colocados em todos os setores sanitários de Cacheu, Tombali ou Gabú — o que exigirá gerações de formação clínica —, podemos equipar os enfermeiros nos centros de saúde regionais com tablets dotados de algoritmos de triagem visual para rastreio preventivo de patologias oculares, dermatológicas ou infecciosas. Isso é colocar a inteligência artificial ao serviço do combate à escassez de recursos.

OD: Como criar um ecossistema nacional de inovação e empreendedorismo tecnológico capaz de gerar emprego qualificado e atrair investimento?

AB: Um ecossistema de inovação não nasce de declarações políticas de boas intenções; constrói-se com incentivos económicos concretos e segurança jurídica.

Recentemente tive a oportunidade de assinalar publicamente uma contradição gritante: na legislação que aprovou o pacote político de 2026, o legislador detalhou com minúcia isenções fiscais aduaneiras e prediais para as sedes e materiais de propaganda dos partidos políticos. Se há agilidade legislativa para desenhar benefícios fiscais para os aparelhos partidários, com que legitimidade negamos essa mesma audácia fiscal aos jovens que criam empresas e geram postos de trabalho?

A Guiné-Bissau necessita com urgência de um Startup Act:

Tributação Reduzida ou Nula na Fase Inicial: Isenção total de direitos aduaneiros e impostos sobre a importação de computadores, servidores, equipamentos de laboratório e conectividade para empresas nascentes de base tecnológica devidamente certificadas.

Ambientes Experimentais de Regulação (Sandboxes): Criação de janelas regulatórias flexíveis pela ARN e pelo banco central que permitam a fintechs e inovadores testar novas soluções de pagamento, microcrédito e serviços comerciais sem o espartilho burocrático imposto à banca tradicional.

Mecanismos de Estímulo ao Capital da Diáspora: Garantias jurídicas claras e incentivos para que os quadros da nossa diáspora e fundos de investimento internacionais possam aplicar capital de risco (seed capital) em ideias de fundadores locais.

OD: Que papel podem desempenhar as universidades, a diáspora e os parceiros internacionais na aceleração da transformação digital da Guiné-Bissau?

AB: O desenvolvimento tecnológico exige a articulação harmoniosa deste triângulo:

As Universidades: Têm de romper com a transmissão puramente teórica de saberes obsoletos. Os planos de estudo têm de ser concebidos em ligação direta com os problemas do mercado. É premente criar laboratórios de desenvolvimento de software e incubadoras de dados onde os estudantes resolvam desafios reais de empresas nacionais e da administração pública durante a licenciatura.

A Diáspora: É o nosso fundo de capital humano mais valioso e menos mobilizado. A diáspora não pode continuar a ser olhada apenas como fonte de remessas para consumo imediato e cerimónias fúnebres. Temos quadros guineenses colocados em multinacionais de tecnologia de ponta, bancos de investimento e centros de investigação na Europa, na América e no Médio Oriente. Eles são as pontes naturais para transferir know-how, abrir portas comerciais e investir em empresas de base tecnológica em Bissau.

Os Parceiros Multilaterais (Banco Mundial, PNUD, BAD, União Europeia): Devem migrar do modelo assistencialista de seminários e doações avulsas de computadores para o financiamento de infraestruturas catalisadoras: energias renováveis dedicadas a centros de dados, expansão das redes metropolitanas de fibra ótica e capacitação técnica avançada de quadros nacionais.

OD: Com o crescimento das redes sociais e das ferramentas de Inteligência Artificial, onde deve ser traçada a fronteira entre liberdade de expressão e práticas abusivas?

AB: A liberdade de expressão é uma conquista histórica inalienável, fruto do sacrifício da luta de libertação nacional e da consagração do Estado de Direito. Não existe sociedade livre nem desenvolvimento económico sustentável sem contraditório, pensamento plural e escrutínio dos atos de quem governa.

A fronteira legítima entre o exercício da livre expressão e o cometimento de abusos não pode ser fixada pela censura ou pela perseguição da crítica incómoda. Essa fronteira está estritamente delimitada pela prática de condutas tipificadas na lei penal comum:

O incitamento à violência, à xenofobia, ao tribalismo ou à perseguição religiosa;

A difamação deliberada, a calúnia e o atentado contra a honra de cidadãos concretos;

A extorsão, a chantagem digital e o assédio moral;

A criação dolosa e disseminação de ficheiros forjados com o objetivo de imputar crimes falsos ou provocar alteração grave da ordem pública.

Tudo o que caia fora da moldura penal pertence à esfera do debate cívico e ideológico. O poder público nunca deve arvorar-se no papel de juiz do pensamento alheio.

OD: Como combater a desinformação e as chamadas “fake news” sem comprometer a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e o pluralismo democrático?

AB: A desinformação não se combate calando a sociedade com medidas repressivas; combate-se com transparência célere e rigor informativo. Quando o Estado se arroga o monopólio de decretar administrativamente o que é «verdade» ou «mentira», sufoca-se a democracia e abre-se a estrada ao autoritarismo.

Uma resposta eficaz e verdadeiramente democrática assenta em três alicerces:

Transparência e Proatividade Institucional: O boato prospera no vazio do silêncio oficial e da opacidade. Se as instituições públicas prestarem contas de forma acessível, partilharem dados estatísticos abertos e comunicarem crises com rapidez e clareza, retiram o terreno de propagação às redes de manipulação.

Valorização do Jornalismo Profissional e Independente: O contrapeso mais robusto à desinformação é uma imprensa livre, financeiramente viável e deontologicamente rigorosa. Valorizar a carreira dos jornalistas, garantir independência aos órgãos de comunicação social públicos e apoiar núcleos independentes de verificação de factos (fact-checking) é infinitamente mais eficaz do que a via penal.

Educação Cívica para os Media: Promover a literacia midiática nas escolas e nos meios comunitários, ensinando o cidadão comum a cruzar fontes antes de partilhar cegamente ficheiros de áudio e texto nas redes móveis.

OD: Que mecanismos legais e institucionais podem evitar que medidas de combate à desinformação sejam utilizadas para limitar a atividade de jornalistas, opositores políticos ou organizações da sociedade civil?

AB: Esse é um risco palpável em várias geografias do nosso continente, onde leis sobre cibercrime são instrumentalizadas como ferramentas de intimidação contra o jornalismo de investigação e opositores políticos.

Para blindar o nosso ordenamento jurídico contra derivas autoritárias, precisamos de três garantias inegociáveis:

Reserva Absoluta de Competência Judicial: Nenhuma autoridade administrativa, policial ou ministerial pode deter a faculdade discricionária de bloquear páginas na internet, suspender comunicações ou apreender equipamentos eletrónicos. Qualquer medida intrusiva carece de despacho prévio e fundamentado de um juiz independente, salvaguardando o contraditório e as garantias constitucionais de defesa.

Definição Estrita dos Tipos Criminais: A legislação sobre cibercrime tem de expurgar expressões dúbias ou elásticas — como «perturbação da paz social» ou «atentado ao bom-nome das instituições». As infrações devem descrever com exatidão técnica os atos fraudulentos e materiais visados, impedindo interpretações arbitrárias de conveniência.

Fiscalização Civil Independente: Fortalecer o Conselho Nacional de Comunicação Social e criar instâncias de concertação com associações de jornalistas e da sociedade civil, garantindo que conflitos de opinião sejam resolvidos por via deontológica e regulatória, nunca por via policial.

OD: Como promover uma cultura de cibersegurança e aumentar a capacidade de resposta das instituições e empresas face às ameaças digitais?

AB: A cibersegurança deixou de ser um detalhe informático para se assumir como matéria de soberania económica e de segurança nacional. No ciberespaço não há guarnições de fronteira nem postos aduaneiros que impeçam a intrusão externa.

Para construir resiliência digital, impõem-se medidas pragmáticas:

Operacionalização de um CSIRT/CERT Nacional: É imperioso instalar com brevidade uma Equipa Nacional de Resposta a Incidentes de Segurança Informática, que funcione em articulação contínua entre especialistas técnicos, o setor bancário, os operadores móveis e as forças de defesa, monitorizando vulnerabilidades e emitindo alertas antecipados.

Auditorias Rigorosas a Infraestruturas Críticas: As operadoras de telecomunicações (Orange Bissau e Telecel Guiné-Bissau), que sustentam serviços vitais de carteira digital como o Orange Moneye o TeleTaku, as centrais e redes de distribuição de energia da EAGB, a banca comercial e os servidores do Tesouro Público devem ser sujeitos por lei a testes periódicos de intrusão e planos certificados de recuperação de desastres.

Programas Sistemáticos de Ciber-Higiene na Administração Pública: A quase totalidade das violações de segurança não decorre de ciberataques cinematográficos, mas de vulnerabilidades humanas básicas — passwords partilhadas, computadores sem antivírus e cliques em anexos fraudulentos. O treino contínuo de boas práticas deve ser obrigatório para todo e qualquer servidor do Estado.

OD: O que significa, na prática, soberania digital para a Guiné-Bissau e como o país pode fortalecê-la num mundo dominado por grandes plataformas tecnológicas?

AB: Em termos práticos, soberania digital é o poder que um povo tem de deliberar sobre o seu destino político, proteger a sua economia e salvaguardar a dignidade dos seus cidadãos sem estar subordinado aos termos de serviço unilaterais nem às contingências operacionais de governos ou conglomerados tecnológicos estrangeiros.

A nossa Constituição delimita a soberania sobre o solo, o mar e o espaço aéreo. No entanto, o mundo atual joga a sua independência no espaço digital. Se uma quebra de sistemas no estrangeiro paralisar as plataformas de mobile money com que o comércio informal subsiste, ou se o acesso aos registos fiscais e aduaneiros for bloqueado remotamente, a nossa soberania fica comprometida na prática.

Fortalecer a nossa soberania digital implica três compromissos estratégicos:

Reter o Tráfego Local Dentro de Fronteiras: Foi exatamente com esse propósito que lançámos o GwIX. Não faz qualquer sentido económico nem técnico que uma mensagem eletrónica enviada entre dois ministérios situados na mesma avenida de Bissau tenha de navegar por centros de comutação na Europa ou nos Estados Unidos para depois regressar ao nosso território. O tráfego nacional tem de ser trocado, protegido e acelerado localmente.

Soberania sobre Bases de Dados Fundamentais: Os ficheiros do registo civil, o recenseamento eleitoral biométrico, os dados de saúde pública e as informações financeiras têm de residir em servidores instalados em solo nacional ou sob salvaguarda direta do Estado.

Alianças Estratégicas Regionais: Um mercado de dois milhões de habitantes não possui poder negocial isolado perante os gigantes tecnológicos mundiais. A Guiné-Bissau tem de concertar a sua voz no seio da CEDEAO e da União Africana, defendendo regras equitativas de tributação digital internacional, partilha de infraestruturas e transferência efetiva de tecnologia.

OD: Como imagina a Guiné-Bissau digital em 2035? Que objetivos o país deveria alcançar até lá?

AB: Em 2035 imagino uma Guiné-Bissau que se libertou do complexo de fatalidade do subdesenvolvimento e que se consolidou como uma economia ágil, inovadora e respeitada no espaço lusófono e na África Ocidental.

Para transformar essa visão em realidade palpável na próxima década, temos de atingir metas concretas:

Identidade Digital Única e Segura: Cada cidadão guineense, desde o seu nascimento, com acesso a um registo biométrico seguro que garanta a sua cidadania plena, viabilize o acesso a cuidados de saúde, à matrícula escolar e aos serviços bancários, eliminando a exclusão civil.

Serviços Públicos 100% Desmaterializados: Uma administração pública onde qualquer certidão, licença comercial ou declaração tributária possa ser tratada através do telemóvel, apoiada por portais de dados abertos onde cada franco CFA do Orçamento Geral do Estado possa ser escrutinado com total transparência pelo cidadão comum.

Agroindústria e Pescas Inteligentes: Os nossos camponeses e pescadores a beneficiarem de previsões agroclimáticas rigorosas e sensores de baixo custo para maximizar o rendimento das suas colheitas e garantir a segurança alimentar da nação.

Um Viveiro de Empresas Tecnológicas Exportadoras: Uma geração de jovens talentos em Bissau e nas regiões a liderar empresas de software, consultoria analítica e serviços digitais, financiadas por capitais da nossa diáspora e por investidores internacionais, criando milhares de empregos dignos e exportando propriedade intelectual para os países da CPLP e da África Ocidental.

Por: Redação

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