A representação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na Guiné-Bissau alertou que cerca de 12 milhões de meninas casam todos os anos antes dos 18 anos em todo o mundo. Na África Subsaariana, a taxa de casamento infantil é de 31%, a mais elevada do planeta.
O alerta foi feito esta quinta-feira, 8 de outubro de 2026, por Mariama Sissé, embaixadora e representante das crianças e meninas, durante uma conferência de imprensa realizada no âmbito da iniciativa Take Over, que antecede o Dia Internacional das Meninas, assinalado a 11 de outubro sob o lema “Acabar com o casamento infantil e investir nos direitos das meninas”.
Falando em nome do representante da Unicef na Guiné-Bissau, Sissé considerou preocupante a situação do país. Segundo a organização, 26% das mulheres entre os 20 e os 24 anos casaram ou viveram em união antes dos 18 anos, havendo casos de meninas com apenas 13 anos, sobretudo nas zonas rurais.
“Quando a família não tem comida suficiente, casar uma filha parece ser a única saída. Por isso, não basta dizer não ao casamento precoce. É preciso combater as causas profundas deste fenómeno”, defendeu.
A Unicef destacou ainda a violência digital como uma ameaça crescente para meninas e adolescentes.
“O telemóvel e a internet fazem parte da nossa vida, mas também se transformaram num espaço de medo. Através deles circulam mensagens que assustam, humilham e ameaçam”, afirmou.
Segundo Mariama Sissé, a situação agravou-se com a divulgação de conteúdos íntimos sem consentimento nas redes sociais, especialmente no TikTok. Recordou que, em 2025, um vídeo íntimo de uma jovem guineense foi divulgado sem autorização, provocando assédio e humilhação pública.
Para a Unicef, estes casos demonstram a necessidade de reforçar os mecanismos de proteção e apoio às vítimas.
“Precisamos de espaços seguros para falar sobre estes temas, de adultos que nos escutem sem nos julgar e de leis que nos protejam também no ambiente digital”, salientou.
Sobre as alterações climáticas, Sissé revelou que cerca de 540 mil crianças, o equivalente a 55% da população com menos de 18 anos, estão expostas a temperaturas extremas superiores a 35 graus Celsius durante mais de 83 dias por ano.
As recentes inundações e tempestades danificaram pelo menos 33 escolas, afetando cerca de nove mil alunos, enquanto quase 470 mil crianças vivem em zonas costeiras com elevado risco de inundações.
A Unicef informou ainda que 28% das crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição crónica e que 53% vivem em situação de pobreza alimentar severa, mais do dobro da média mundial.
Para Mariama Sissé, a insegurança alimentar continua a comprometer a educação das meninas. “Quando uma família não tem o que comer, a educação da menina é a primeira coisa a ser sacrificada”, afirmou.
A responsável lembrou ainda que a Guiné-Bissau ocupa o quarto lugar entre os países com risco climático extremamente elevado para crianças vulneráveis.
No final da intervenção, apelou à valorização da educação das meninas como instrumento de desenvolvimento do país.
“É preciso que a comunidade compreenda que uma menina educada vale mais do que um dote”, concluiu.
Por: Jacimira Segunda Sia


















