Polémica sobre vacina: Hepatite B continua a ameaçar vidas na Guiné-Bissau, avisa especialista

A médica de saúde pública e especialista guineense em doenças infeciosas, Magda Nely Robalo, esclareceu que o protocolo de estudo do Projeto de Saúde de Bandim (PSB) é um documento que foi amplamente discutido em janeiro de 2026. Segundo afirmou, o documento também foi alvo de críticas por parte de atores nacionais e internacionais por não cumprir critérios científicos que permitiriam a sua aprovação por comités de ética europeus ou norte-americanos, apesar de ter recebido parecer favorável do Comité de Ética da Guiné-Bissau.

“O protocolo foi duramente criticado por atores internacionais e nacionais, nos quais me incluo, por não obedecer, devido ao seu desenho, a padrões universais de ética, por falta de mérito científico e, entre outras razões, por não responder aos critérios científicos que permitiriam a sua aprovação por comités de ética europeus ou americanos, apesar de ter sido aprovado pelo Comité de Ética da Guiné-Bissau”, indicou.

A antiga Alta-Comissária para a Resposta à Covid-19 na Guiné-Bissau afirmou, contudo, que a vacina contra a hepatite B é extremamente segura e eficaz, estando disponível no mercado mundial desde 1981. Segundo a especialista, o imunizante já foi administrado a mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo.

Num esclarecimento publicado na sua página do Facebook, consultado pelo jornal O Democrata, Magda Robalo referiu ainda que, na Guiné-Bissau, a vacina já é administrada às crianças, “salvo erro, às 6, 10 e 14 semanas de vida”. Confirmou igualmente que os fundos destinados ao estudo foram solicitados pelo Projeto de Saúde de Bandim e não pelo Governo da Guiné-Bissau.

“Este protocolo foi submetido pelo PSB, e não pelo Governo da Guiné-Bissau, e aprovado para financiamento pelo Governo norte-americano”, afirmou.

A médica lembrou ainda que o protocolo de estudo, que gerou forte polémica em janeiro de 2026, acabou por ser rejeitado pelo Governo da Guiné-Bissau, razão pela qual a sua implementação não avançou.

Apesar das inquietações levantadas em torno dos alegados ensaios envolvendo recém-nascidos guineenses, Magda Robalo considera que seria um erro privar as crianças da proteção proporcionada pela vacinação contra a hepatite B administrada logo após o nascimento.

A especialista confirmou que a hepatite B é uma doença muito frequente na Guiné-Bissau e alertou que não existe cura através de tratamentos tradicionais, incluindo o consumo diário de óleo de palma.

Segundo explicou, a doença pode provocar consequências graves a curto, médio e longo prazo, podendo mesmo levar à morte. Por essa razão, defende que a discussão sobre o protocolo de estudo, venha ele a avançar ou não, não deve atrasar a introdução urgente da vacina contra a hepatite B para recém-nascidos, tendo em conta a elevada prevalência da infeção no país.

De acordo com Magda Robalo, a vacina contra a hepatite B foi amplamente testada, demonstrando elevados níveis de segurança e eficácia, sendo recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a prevenção da infeção.

“O que o PSB pretendia, ou pretende, fazer é avaliar se a vacina confere benefícios adicionais, tendo como população-alvo crianças guineenses recém-nascidas. Julgo que é daqui que nasce toda a confusão”, salientou.

A especialista defendeu ainda a necessidade de distinguir claramente o estudo proposto pelo PSB da eventual decisão do Governo de incluir a vacina no calendário nacional de vacinação.

“Mas é preciso não meter no mesmo saco a proposta do PSB de estudar a vacina da hepatite B em crianças recém-nascidas e a possível decisão do Governo de introduzir a vacina no calendário nacional de vacinação, para se vacinarem crianças recém-nascidas contra a hepatite B”, esclareceu.

Na opinião de Magda Robalo, o Governo da Guiné-Bissau deve ser encorajado a introduzir a vacina contra a hepatite B o mais rapidamente possível. Defende igualmente que as mães guineenses devem ser incentivadas a vacinar os seus bebés à nascença, assim que o imunizante passar a integrar o calendário nacional de vacinação.

“Não devemos confundir o protocolo de estudo submetido pelo PSB para avaliação dos efeitos inespecíficos da vacina da hepatite B com a necessidade de vacinar as crianças guineenses à nascença, responsabilidade do Governo, nomeadamente do Ministério da Saúde Pública”, concluiu.

Por: Filomeno Sambú

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