JUVENTUDE DE GABÚ NÃO ADERE AO CENTRO DE FORMAÇÃO LOCAL

[REPORTAGEM] Apenas um número reduzido de jovens da região de Gabú procura o único centro de formação existente na sede regional, revelou administrador do sector de Gabú. Trata-se do Polo Regional da Escola Nacional da Administração (ENA-Gabú) instalado desde 2012.

Numa das reportagens do jornal O Democrata, a juventude de Gabú queixou-se da falta de centros de formação, assim como do aumento das escolas privadas naquela que é considerada uma das maiores cidades do país e para muitos a capital económica da Guiné-Bissau, devido a sua dinâmica no comércio.

Em resposta à preocupação da juventude local, o Administrador do setor de Gabú, Adulai Bobo Sissé, igualmente Coordenador da ENA, disse que as especulações lançadas em relação à falta de centros de formação na região, não correspondem a verdade.

Acrescentou, neste sentido que a iniciativa de criar a ENA, em Gabú, foi sua. Contudo lamenta o que considera “a fraca aderência de jovens de Gabú ao centro”.

“Na altura era diretor do Liceu ‘Luís Fona Tchuda’, decidi estabelecer uma parceria entre o nosso liceu e a Escola Nacional da Administração com vista a instalação de um polo regional em Gabú no sentido de ajudar os finalistas de 12º ano de escolaridade com escassos recursos para prosseguirem estudos em Bissau. Outra intenção era ajudá-los  a inscreverem-se nos dois cursos disponíveis, a Administração e Contabilidade, ambos cursos médios com duração de dois anos”, explica Bobo Sissé.

O administrador afirma ainda que a maioria dos jovens não se inscreve para formar-se localmente. Preferem estudar em Bissau ou no estrangeiro. De acordo com Bobo Sissé, nos dados estatísticos da ENA relativos aos dois cursos, Administração e Contabilidade não chegam atualmente a cem por cento (100%). Lembra, contudo, que Gabú tem muitos funcionários e estudantes com 12º Ano que podiam aproveitar a oportunidade de se formarem em duas áreas disponíveis na ENA, em Gabú.

“Há um número significante de jovens que já concluiu 12º Ano e estão aqui parados, porque não querem ingressar-se ao centro de formação. Se não tiver condições para ir estudar fora, deveria-se aproveitar a oportunidade para se formar internamente (no país) ou localmente, como é o caso de ENA de Gabú”, nota.

Adulai Bobo Sissé revelou, no entanto, que administração de Gabú já solicitou às universidades de Bissau para instalarem os polos regionais em Gabú, mas os responsáveis regionais foram confrontados com as questões de número de inscritos que podem alcançar e consequentemente que reflita na remuneração dos professores que serão colocados nesses polos.

Bobo Sissé não esconde a realidade local e diz que em Gabú, quem cobrar uma mensalidade para além dos dez mil Francos CFA terá dificuldades em receber os pagamentos. Dá exemplo da ENA que fixou a propina em dez mil Francos CFA, e neste momento depara-se com enormes dificuldades em honrar os seus compromissos para com os docentes, devido ao atraso no pagamento pelos estudantes.

Acrescenta ainda que às vezes os responsáveis do centro são obrigados a recorrer a empréstimos para pagar os professores e esperar pelo pagamento dos alunos para devolver o dinheiro emprestado.

Para Adulai Bobo Baldé, quando a juventude reclama por centros de formação têm que se inscrever neles quando os têm.

“Não podemos dizer que os jovens não estão interessados em formação, mas há uma fraca aderência da juventude ao centro de formação disponível na região. Se a ENA fosse privada já teria fechado as suas portas, mas como é pública está a resistir a estas dificuldades”.

Na visão de Bobo Sissé, se houvesse uma aderência massiva de jovens certamente atrairia outros centros de formação para instalarem os seus polos na região de Gabú.

A Escola de Condução ‘Taborda’ já tentou instalar um polo em Gabú, mas acabou por encerrar as portas, devido à fraca aderência das pessoas. Na sua visão, as receitas não conseguiam cobrir as despesas. “A par de Taborda, a escola ‘Mário Soares’ também fechou as portas”, acrescenta.

ADMINISTRAÇÃO DE GABÚ GERE O MERCADO NOVO DESDE JUNHO DE 2015

A versão administrativa da cidade de Gabú diz que o mercado novo do bairro de Algodão não estava sob a responsabilidade da administração local. Só em junho de 2015 é que passou a ser gerida pela administração local depois de ter sido gerido por um privado. Por isso, disse Adulai Bobo Sissé, “há uma necessidade de se compreender o porquê de as pessoas não aderirem à nova feira de Gabú”.

O Governo regional justifica que o mercado central, que fica logo no coração de Gabú, já não oferece as condições higiénicas necessárias e nem o conforto para sua normal utilização. Um espaço superlotado, como constatou a nossa equipa de reportagem. Complica o trânsito na avenida principal de Gabú, sobretudo no período de manhã a hora de maior fluxo.

Um assunto tido como preocupante pela administração setorial que, na tentativa de encontrar respostas para o estrangulamento, foi diagnosticar o real problema que impede que muitos comerciantes mudem-se para o novo mercado.

Segundo as informações da Administração local, constatou-se que a falta de segurança na feira de bairro de Algodão e roubos constantes são características do mercado novo, cuja construção foi financiada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, através de FENU-Fundo de Equipamentos das Nações Unidas, no quadro de um projeto que visa melhorar as condições de vida dos habitantes da cidade de Gabú orçado em 7,5 milhões de dólares americanos.

Muitos operadores económicos do mercado novo foram obrigados a abandonar o local devido a falta de segurança e regressaram a feira antiga no centro da cidade, que, no entender dos comerciantes, oferece melhores condições de segurança em relação ao novo.

A estratégia da administração local para elevar o nível de segurança no mercado do bairro de Algodão passa pela construção de uma vedação à volta do recinto. Nessa perspectiva, as autoridades decidiram bater as portas tanto aos parceiros internacionais como as do governo central, mas tudo resultou em nada. Agora a solução passa em atribuir espaços à volta da feira aos interessados, cujos boutiques, armazéns e lojas servirão de vedação para o mercado novo. As obras já estão em curso e algumas já terminadas.

De acordo com Bobo Sissé, se as construções terminarem, a administração local pretende dar uma nova dinâmica ao mercado novo, com o plano de desalojar todos os comerciantes que praticam as suas atividades económicas nos locais considerados inapropriados para operar.

O jornal O Democrata apurou que enquanto decorrem as construções, os comerciantes estão a exercer normalmente as suas atividades nos lugares que julgam adequados no centro de cidade.

“Se as obras terminarem vamos transferir todos os comerciantes para o mercado novo onde ocuparão novos espaços, descongestionando o centro de cidade”, conta Adulai Bobo Sisse. E promete que paulatinamente solucionarão as questões de água potável e energia no novo mercado de Gabú.

ESPAÇO NO MERCADO NOVO DE GABÚ: ADMINISTRAÇÃO VERSUS COMERCIANTES

A administração de Gabú nega ter restringido aos comerciantes locais o acesso ao mercado, tal como avançaram à nossa equipa de reportagem que visitou as duas feiras no passado mês de março.

O Comité do Estado de Gabú anunciou nas duas rádios locais a abertura de inscrições para o preenchimento de espaços. A secretaria administrativa foi encarregada de receber os nomes das pessoas interessadas em montar seus negócios no novo mercado.

O administrador considerou que alguns comerciantes não estavam interessados em inscreverem-se para obter espaços no mercado de Algodão e só depois da concessão e terminado espaços é que começaram a manifestar interesse.

Nega ainda que em nenhum momento administração local tenha dito que o comerciante que opera no mercado velho (no centro de cidade) não pode ter outro lugar no mercado novo. Segundo Bobo, muitos possuem espaços em ambos os mercados.

O jornal O Democrata soube de uma fonte que boa parte de comerciantes teria recusado mudar-se para novo mercado porque a via que dá acesso ao mercado está em más condições. Sobre o assunto, Bobo Sissé esclarece que o troço não é a única via que fica intransitável em Gabú na época das chuvas, por isso minimizou os dois pretextos.

Apesar de tudo, Bobo Sisse considera que o setor de Gabú tem um nível razoável de segurança, apesar das enormes dificuldades no que se refere aos equipamentos de trabalho.

ADMINISTRAÇÃO DE GABÚ PROMETE EQUIPAR O NOVO MATADOURO

Administração do setor de Gabú promete equipar o novo matadouro da cidade – [construído pelas Nações Unidas]. O novo plano prevê vedar as instalações e construir um furo de água no local para que o matadouro tenha água potável.

A reportagem do jornal constatou que há um poço tradicional próximo do matadouro atual que não oferece as mínimas condições para o abate dos animais. O interior do matadouro transformou-se em casa de banho e dormitório de abutres. Não tem portões para proteger.

As autoridades de Gabú indicam ainda que depois de colocar muro nas instalações de matadouro atual, o passo seguinte será equipar o novo matadouro e reabilitar o velho.

Adulai Bobo Sisse garante, no entanto, que se tudo correr como previsto antes das chuvas os citadinos de Gabú terão a situação do matadouro solucionada.

EXISTE UM PLANO DE DESENVOLVIMENTO DO SETOR DE GABÚ    

        

O atual administrador de Gabú, há dois anos no cargo (desde abril de 2015), revelou, em entrevista a O Democrata, que a sua direção fez um diagnóstico para inteirar-se da real situação da maior cidade do leste do país. Depois dos levantamentos, as autoridades de Gabú trabalharam um documento que denominaram de ‘Plano de Desenvolvimento do Setor de Gabú’, que ilustra o que tem que ser feito na sede setorial, o respectivo orçamento, mas que aguarda pelo financiamento para a sua implementação.

Do plano de desenvolvimento nasceram três projetos específicos para diferentes áreas tais como: Projeto de Reabilitação da Cidade de Gabú, orçado em mais de três bilhões de Francos CFA, que abrange o setor energético, a reabilitação das vias, água, saneamento básico e recuperação das infraestruturas.

O outro projeto tem a ver com a Reabilitação dos Espaços Verdes Urbanos e Semiurbanos, orçado em 500 mil (quinhentos mil dólares norte-americano). Um terceiro projeto específico estará ligado ao saneamento básico na sede setorial, orçado em 35.000.000 (trinta e cinco milhões de Francos CFA).

Para atender as necessidades das crianças, a administração elaborou um Projeto no domínio da construção civil que visa edificar espaços de lazer para as crianças, ou seja, espaços verdes – orçado em 50.000.000 (cinquenta milhões de Francos CFA).

Elaborou igualmente um projeto para a vedação do cemitério local para impedir que animais e crianças tenham acesso ao seu interior. Todos estes projetos aguardam um financiamento.

As autoridades de Gabú dizem ter feito contactos junto dos seus parceiros e algumas parcerias com cidades da Sub-região, Europa e da América, sobretudo do Brasil, para executar os projetos, mas até a realização desta nossa reportagem nenhuma resposta fora dada à administração.

“Muitas vezes o que nos cansa é a falta de estabilidade governativa. Às vezes levamos uma ação tão longe e quando há instabilidade política ou queda do governo, cria muitas dúvidas aos parceiros em responder a certas solicitações. Havia um parceiro do governo central que vinha aqui e estava disposto para asfaltar dez (10) quilómetros da cidade de Gabú. Todas as ruas da cidade estariam asfaltadas. E do mesmo parceiro, Gabú receberia 1.500 candeeiros solares que iluminariam toda cidade e aldeias nos arredores do setor, mas devido às instabilidades tudo ficou complicado e não realizamos nada ainda”, explica Bobo Sisse sem, no entanto, avançar com o nome do referido parceiro, mesmo com as insistências dos nossos repórteres.

ESTRANGEIROS RESPEITAM AS NORMAS PARA MONTAR NEGÓCIOS EM GABÚ

Em resposta à preocupação levantada pela juventude local em como a economia de Gabú e o setor do emprego estão nas mãos de estrangeiros, Bobo Sisse considera que a entidade melhor posicionada para responder a preocupação é o governo central. Contudo, reconhece que os estrangeiros têm poder económico, porque montam os seus negócios obedecendo às normas estabelecidas.

Os jovens de Gabú denunciaram também que está em curso um plano bem montado para uma compra desenfreada de terrenos por parte dos cidadãos estrangeiros, sobretudo os da Guiné-Conacri. Sobre essa denúncia, Adulai Bobo Sisse lança a culpa aos ocupantes tradicionais.

Segundo disse, estes fazem muitas vezes seus negócios com os estrangeiros sem o conhecimento das autoridades administrativas, assim como assumem a responsabilidade de ajudar o cidadão estrangeiro comprador na legalização do mesmo espaço.

“Neste caso, se o estrangeiro adquirir o espaço e o legaliza com ajuda do cidadão nacional, o Comité do Estado não é culpado e muito menos o governo regional. Os meus antecessores fizeram um mapeamento que define cada parte das zonas urbanizadas, desde área para instituições estatais, parceiros do governo – as organizações não governamentais, associações e zonas para pessoas particulares adquirirem espaços para construção de casas”, remata Bobo Sisse.

Adiantou, no entanto, que a juventude de Gabú vê com olhos diferentes a situação dos estrangeiros que ocupam espaços na cidade comercial, por isso alertaram que isso pode resultar, no futuro, num desentendimento.

Observação de O Democrata conclui que centro da cidade de Gabú necessita de uma intervenção profunda para torna-lo mais atraente. No período da seca é o pó que incomoda as pessoas e na época das chuvas, os relatos apontam que algumas ruas ficam intransitáveis.

 

Por: Alcene Sidibé/Sene Camará

Fotos: SC

março de 2017

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