No Congresso de Cassacá, durante a luta armada de libertação nacional, Amílcar Cabral foi, sem dúvida, um grande líder político ao criar um imaginário coletivo de “camarada”, com o objetivo de estabelecer uma Democracia Revolucionária na Guiné-Bissau.
Na Democracia Revolucionária da luta de libertação nacional, Amílcar Cabral não vendia diplomas. Ele vendia conhecimento, o que proporcionou o estabelecimento de um verdadeiro imaginário coletivo de democracia revolucionária em todas as regiões libertadas.
Hoje, em plena democracia multipartidária, a Guiné-Bissau não possui verdadeiros stakeholders como Amílcar Cabral. Reina, atualmente, no país, diferentes tipos de golpes de Estado. Falta um verdadeiro Cabral para implementar uma autêntica democracia multipartidária.
Não existem valores sólidos de imparcialidade e transparência na gestão da coisa pública. Ou seja, não há um líder como Amílcar Cabral capaz de estabelecer um imaginário coletivo democrático e multipartidário. Implantou-se, assim, na nossa sociedade multipartidária, um sistema democrático onde não há espaço para a opinião crítica. Os media não conseguem reproduzir de forma transparente a realidade a partir da perspetiva das fontes nacionais.
A nossa democracia multipartidária funciona como um tribunal de repreensão dos governos sobre os governados. Trata-se de um sistema que combate a opinião e inviabiliza a construção de um imaginário coletivo semelhante ao conceito de “camarada” que Amílcar Cabral construiu no Congresso de Cassacá.
Os governos que emergem de sucessivos “telegolpes” de Estado democráticos limitam-se a vender diplomas. Ainda estão longe de vender conhecimento capaz de criar um verdadeiro imaginário coletivo democrático multipartidário.
Na ausência de um imaginário coletivo, em que vivemos hoje, nunca o Zé‑povinho de Bandim foi devidamente informado sobre a melhor forma de gestão dos bens públicos do país. Nunca os governos oriundos de sucessivos golpes de Estado informaram de forma clara sobre o nosso défice orçamental no contexto internacional. Hoje, o Zé‑povinho de Bandim não possui uma opinião consolidada nem credibilidade para formular um juízo informado sobre as governações resultantes de telegolpes de Estado.
Fica evidente que, na Guiné-Bissau, os membros dos governos da democracia multipartidária sentem‑se livres para ocultar ou mentir sobre as dificuldades na gestão do país. Contudo, a razão não grita; ela costuma sentar‑se à espera do seu dia.
Na Guiné-Bissau, o sistema dos media ainda está muito longe de contribuir para a definição de um imaginário coletivo democrático multipartidário. Ainda não surgiu no país um líder como Amílcar Cabral, que definiu, no Congresso de Cassacá, o “camarada” como imaginário coletivo da democracia revolucionária durante a luta armada de libertação nacional. É o fim das certezas da democracia multipartidária na Guiné-Bissau.
Dr. António Nhaga
Diretor-Geral
E-mail: angloria.nhaga@gmail.com






















