Reportagem: COP22 PODE EVITAR A EXTINÇÃO DA HUMANIDADE

O aumento da temperatura mundial ameaça a extinção de muitas espécies que não se adaptam ao excesso da temperatura, motivo pelo qual as partes envolvidas no COP22 têm em suas mãos uma decisão crucial para salvar a humanidade. Se aumentar a temperatura, os animais vão morrer, a flora, a fauna e toda a biodiversidade vai desaparecer e por último o próprio homem desaparecerá.

COP22 – Vigésima segunda (22ª) Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que decorre em Marraquexe, Marrocos de 7 a 18 de Novembro, na qual estão reunidos 195 países do mundo que ratificaram a convenção da ONU sobre alterações climáticas.

No solo marroquino, COP22 tem como missão principal implementar e forçar a implementação do ‘Acordo de Paris’, que as partes assumiram na capital francesa em reduzir em dois por cento (2%) a temperatura mundial.

Em Paris, as partes acordaram no sentido de iniciarem a desconsiderar os combustíveis fósseis – sobretudo, o carvão e o petróleo, passando a ser gradualmente desconsiderados, favorecendo as energias renováveis – particularmente, as energias Solar, Eólica, Energia das Marés, Energias que são consideradas sustentáveis para o planeta.

Porém há entraves, porque que existem lobbies e há multinacionais ligados a negócios de petróleo e do carvão. Para estes, a redução de carbono é um mau sinal. E farão, sem dúvidas, tudo que estiver ao seu alcance para que muitas coisas boas para o mundo não se concretizem.

COP surgiu em ano 1992 no encontro da ONU sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – realizado no Rio de Janeiro, Brasil, e formalizou-se em 1994. Tem vindo a realizar-se anualmente. Há três anos conheceu o seu momento mais alto com a assinatura, entre as partes, do compromisso chamado ‘Acordo de Paris’.

Se as partes envolvidas na COP22 não conseguirem alcançar um entendimento para que o acordo seja implementado, a cada ano que se segue a temperatura mundial vai subindo, devido à emissão do carbono. Essas emissões provocam o efeito estufa, e aumentam a temperatura, provocando uma série de consequências para o ambiente, por exemplo, a subida do nível da água do mar, o aumento da própria temperatura em termos gerais.

Na visão do Biólogo e Antropólogo (Bioantropólogo) português, Rui Sá, além da subida da água do mar, o aumento da temperatura tem enormes consequências na agricultura, porque há espécies de produtos agrícolas que não se adaptam a excesso de temperatura.

O aumento da temperatura provoca a seca, a seca traz a desertificação e desaparecerão muitas espécies [com valor comercial] que não se adaptam ao aumento da temperatura. Finalmente poderemos perder a biodiversidade na sua totalidade. Também corre-se o risco de aumentar as doenças infecciosas, devido ao aumento da temperatura.

IMPORTÂNCIA DE MUDANÇAS INDIVIDUAIS DOS PAÍSES

A nível individual, cada país deve começar a adaptar-se a determinadas mudanças, reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis, por exemplo, a emissão de fumos dos carros e a forma como as fábricas consomem a energia. No entender do Professor Rui Sá, as referidas medidas levarão que os países, a nível individual, se adaptem e cumpram parte do acordo que assinaram e ratificaram.

“Esse é o principal desafio! Como é que vamos fazer isso? Vamos ver o que vai acontecer na COP22. Há já um roteiro – há uma série de propostas.COP22 surge numa altura muito importante, porque no ano passado chegou-se de facto a este acordo e já há uma série de objectivos definidos. O acordo vai entrar em vigor neste mês de Novembro, resta apenas perceber como é que isto será implementado. É aí que entra a parte prática do ‘Acordo de Paris’ para os países em vias do desenvolvimento como é o caso da Guiné-Bissau, assim como dos países desenvolvidos que são grandes poluidores, que têm aqui uma quota de responsabilidade”, explica Rui Sá, Professor doutorado em Genética da Conservação das Espécies, actualmente Coordenador do curso Ciências do Mar e do Ambiente na Universidade Lusófona da Guiné (ULG).

Espera-se ainda da COP22 a disponibilidade de várias linhas de financiamentos e várias oportunidades de fundos criados para que os países a nível regional comecem a adaptar-se até o ano 2020 a esta nova realidade.

Do ponto de vista pragmático, COP22 poderá remover as barreiras de financeiras do clima, desbloqueando financiamentos e fazer com que haja um acordo sobre quanto é que será dado ou disponibilizado para o bolo comum que posteriormente será distribuído às partes, afiançou o Bioantropólogo luso que baseou seus estudos de Mestrado e de Doutoramento ao meio ambiente guineense.

O mundo é obrigado a reduzir o carbono, afirmou Rui Sá. Na sua visão, há várias estratégias para fazer isso, apontando a mitigação da emissão do carbono que considera de extremamente importante, baixando o uso de energias que põem em causa a segurança do planeta. O projecto RED, de compensação do carbono, já não é suficiente face a dinâmica das alterações climáticas. Cabe agora aos países comprometerem-se a usar energias que não ponham em causa o planeta.

BOA VONTADE SERÁ ‘CHAVE’ PARA O SUCESSO DA COP22

A boa vontade das partes será determinante ou chave nas decisões que poderão sair da COP22.

Há uma expectativa elevada para que seja criado um roteiro para o Fundo Verde do Clima – um dos objectivos esperados, mas tudo dependerá da boa vontade e dos interesses dos países. O facto real é que de um lado, temos o desenvolvimento económico, e do outro, temos a sustentabilidade ambiental. Muitas vezes, os dois interesses antagónicos chocam. Os países desenvolvidos não querem colocar em risco as suas economias e seu crescimento económico. Uma vez que alguns são mais renitentes a essas mudanças, resta ao mundo assistir como é que essa boa vontade se concretiza, para o bem-estar do planeta e do homem.

Há países mais vulneráveis e outros menos, por exemplo, a Guiné-Bissau é um país particularmente débil no aspecto das mudanças climáticas, sendo um país plano com uma grande linha costeira, além de possuir um enorme conjunto insular – Arquipélago dos Bijagós. Tem uma população muito dependente dos serviços fornecidos pelo ecossistema.

Algumas estratégias culturais favorecem essa resiliência da parte guineense, por exemplo, alguns agricultores já começam a seleccionar sementes que não dependem demasiadamente de água, ou seja, que conseguem suportar a seca. Os camponeses têm vindo a recuperar as bolanhas através de construção de diques mais altos do habitual, prevenindo-se de uma eventual subida do nível da água do mar. Tudo isso são estratégias que demonstram de que as pessoas já começaram a perceber as mudanças que tem vindo a ocorrer ano pós ano.

Na zona Leste da Guiné-Bissau é clara a subida drástica da temperatura. Nota-se o aumento dos ciclones – grandes tempestades. Este último facto tem que ver com a desflorestação abusiva que o país sofreu ultimamente, facilitando a progressão e o aumento de temporais.

Rui Sá está convencido que as pessoas já estão a perceber que alguma coisa está passar-se no meio ambiente, sobretudo a nível local onde vivem – “aquilo que era há dez anos …não é igual àquilo que é hoje!”.

Sendo insuficiente a consciência da dinâmica das comunidades sobre as alterações climáticas, Rui Sá aconselha o Estado da Guiné-Bissau a arranjar instrumentos que lhe permitam lidar com as mudanças climáticas. Para poder proteger a vida das pessoas, do seu ecossistema, da sua biodiversidade. As lalas, aos tarrafes e os palmares podem estar em causa. Estes ecossistemas fornecem tudo aquilo que as pessoas necessitam: desde comida, e até materiais para construir casas, medicamentos tradicionais. Mas se nada for feito, tudo isso começará a estar em causa, alerta Rui Sá.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS NÃO TEM FRONTEIRAS

O problema que se coloca é se os países desenvolvidos, que são os poluidores por excelência, aceitarão assumir o compromisso de reforçar as capacidades institucionais dos países mais vulneráveis. Rui Sá acredita que isso pode acontecer na COP22 e acrescenta que a questão climática não é apenas um problema do país A ou B, mas um problema a escala mundial. E dependerá ainda da boa vontade e da forma como os países industrializados olham para os países em vias de desenvolvimento.

Posto este facto visível, a COP22 servirá como um espaço privilegiado para que os países coloquem em cima da mesa, para discussões, as questões climáticas, olhando para o privilégio de uns e a vulnerabilidade de outros.

Se não for feita nada na COP22, a vida humana estará ameaçada a curto e médio prazo. Vamos sofrer, porque o vector dos mosquitos vai aumentar com excesso da temperatura, assim como muitas doenças infecciosas irão proliferar. Sem contar com uma série de coisas que vão desaparecer, obrigando a grandes esforços para colmatar essas perdas. Por isso, não é um problema só da África, mas sim de todos: da Ásia, da Europa, da América e de todo mundo.

MUNDO DISPÕE DE CANAIS DE PARTILHA DE EXPERIÊNCIAS CLIMÁTICAS

Plataformas para troca de experiencias e partilha das melhores práticas na matéria de adaptação e mitigação de uma forma holística e integrada não faltam. Existem vários fóruns, várias redes e vários consórcios internacionais, tanto a nível da ciência, assim como das organizações ambientalistas. Ambientalistas de todo mundo, climatológos, meteorológos têm vindo a alertar para esse facto ambiental. E essa interacção foi ampliada actualmente com a integração do mundo numa sociedade global a nível da informação através da internet, onde estão disponíveis várias plataformas ambientalistas que mostram exemplos do que acontece em outros países para justificarem e tentarem arranjar estratégias de acção nos seus próprios países.

Resta saber se haverá linhas de financiamentos destinados a compilação dessas informações partilhadas, das estratégias e desses exemplos de diferentes países que depois possam servir para ilustrar relatórios com vista a levar tais informações a outros membros.

Como há vários actores no jogo climático, resta agora ver até que ponto cada um desses actores quer partilhar as suas experiências.

COP22: MUDANÇAS CLIMÁTICAS, DO MITO À REALIDADE

Mesmo com algumas reticências, os peritos ambientais e demais pessoas atentas às questões climáticas, esperam, assim como todo o mundo espera que se mantenha a boa-fé dos líderes mundiais que rubricaram o ‘Acordo de Paris’ no ano passado, em França, com vista a facilitar na implementação em Marraquexe do documento assinado pelas partes na COP21.

Afinal o objectivo da COP22 é obrigar e forçar a implementação do ‘Acordo de Paris’, porque para chegar a esse acordo foram precisos muitos anos de trabalho. Foram 22 anos de debates até se chegar a esse ponto histórico sobre o clima.

Muitas etapas foram ultrapassadas e hoje em dia, questões das alterações climáticas não são um mito, mas sim uma realidade. Uma realidade que tem que ser forçosamente abordada, não fingindo tapar o céu com a peneira, fingindo que o problema não existe. Na verdade o problema existe e é muito real. Por isso, o ‘Acordo de Paris’ tem que ser implementado. Para não acontecer a mesma coisa com o Protocolo de Quioto, onde alguns países assumiram um duplo jogo. Em Marraquexe espera-se que cada país assuma a sua real posição, se é sim ou não.

Para que o ‘Acordo de Paris’ seja uma realidade, conta-se com o espírito do encontro de Marraquexe, no qual se presume que haja boa vontade das pessoas em resolver o problema do clima, embora se presuma que será difícil para alguns países perceberem e reconhecerem os privilégios que têm tido. Conta-se também que haja outros países que têm que ir para além do discurso, e que percebam que é necessário levar propostas concretas e dizer que é neste caminho que queremos investir esses fundos.

Teoricamente, o mundo já sabe o que fazer, e cientificamente há já vários exemplos, o mundo chegou a um ponto em que é necessário arregaçar as mangas e abordar o problema do clima. E isso que se espera da COP22, que saiam dali medidas concretas para implementar Acordo de Paris.

CHINA E EUA DERAM UM PASSO GIGANTE PARA A COP22

A China e os Estados Unidos da América ratificaram recentemente o Acordo de Paris, ou seja, os dois maiores poluidores mundiais deram um passo gigante, aumentando a esperança do mundo em ver realizado o sonho de reduzir a temperatura actual em dois por cento. Mesmo com o engajamento de Pequim e Washington, que simboliza um passo diferente da do Protocolo de Quioto – um engajamento ao mais alto nível, o Bioantropólogo luso sublinha que ambos os países vão querer salvaguardar os seus interesses económicos.

“Se perceberem que o dinheiro que vão investir nas energias renováveis compensará a longo prazo, e que ao mesmo tempo vai começar o desaceleramento da necessidade do petróleo e do carvão, vamos ver como é que os outros actores que estão do outro lado do tabuleiro vão reagir. Estamos a falar de grandes empresas que geram milhares e milhares de dólares”, espelha.

GUINÉ-BISSAU SEGUNDO MAIS VULNERÁVEL DO MUNDO

A Guiné-Bissau é o segundo país mais vulnerável do mundo no que tange à subida do nível médio da água do mar, por ter uma vasta área insular, o arquipélago dos Bijagós, constituído por mais de oitenta e oito (88) ilhas e ilhéus. Na parte continental regista-se cortes de tarrafes que servem de barreira natural à progressão do mar. Por isso, o país precisa descobrir os constrangimentos que as alterações climáticas estão a provocar.

O país dispõe de um ponto focal sobre as mudanças climáticas. Há vários institutos ligados às áreas ambientais. Hoje em dia o ambiente não é uma área fechada, é uma zona transdisciplinar que toca diversos aspectos: económicos, saúde, até a segurança alimentar. O ambiente hoje assumiu essa perspectiva interdisciplinar e está ligado a diversas áreas. Se o país identificar claramente os seus constrangimentos climáticos poderá elaborar uma proposta concreta em colaboração com as organizações nacionais e internacionais, ajudando na conservação da sua riqueza, que é seu património natural e torná-lo sustentável para as gerações vindouras.

A Guiné-Bissau não é um país poluente, mas tem uma grande dependência do carbono. Contudo, em comparação com os países poluentes, a Guiné-Bissau pode ser considerada um reduto de sustentabilidade ambiental, vinte e três (23) por cento de território são áreas protegidas, um sinal claro de uma estratégia de valorizar o património natural. Essa estratégia nacional pode ir buscar e beneficiar de linhas de financiamento ou de programas – ou de acções a que se pode candidatar.

Portanto, o país precisa apostar na formação de recursos humanos devidamente qualificados para perceberem a técnica e cientificamente todos estes factores climáticos, para que o país possa candidatar-se a esses fundos, a essas linhas ou a essas acções. Caso contrário, se a Guiné-Bissau não estiver de olhos abertos e atentos a essas possibilidades, esses fundos serão encaminhados para outros países.

Rui Sá aconselha o país a começar a pensar mais longe, ou seja, a pensar globalmente e agir localmente, enaltecendo os trabalhos das organizações ambientais guineenses. O importante na sua opinião é consciencializar as pessoas sobre as alterações climáticas. Em sua opinião, quase todas as pessoas já ouviram falar das mudanças climáticas, como exemplo, quando se falou muito do corte de florestas.

APOSTAR NO ENSINO PARA PROTEGER O AMBIENTE

Sendo um país que está em alerta, a Guiné-Bissau deve apostar mais a nível dos programas de ensino, promovendo acções de formação específica aos docentes e quadros técnicos que possam dar o seu apoio e as suas contribuições junto das ONG’s e das instituições nacionais que trabalham na área do ambiente. Assim, o país disporá de um grupo de quadros que lhe permitirá pensar e reflectir, de guineenses para guineenses.

Um aspecto preocupante que deve ser ponderado tem que ver com uso de centrais termoeléctricas. A energia usada no país é derivada do petróleo. O país tem que começar a repensar, dentro do espírito do Acordo de Paris, a sua estratégia energética – um debate que deve ser feito dentro da própria sociedade guineense, porque a longo prazo o preço do petróleo vai flutuar e a Guiné-Bissau poderá ficar a refém disso. Temos que implementar o Acordo de Paris, que favorece as energias renováveis. A Guiné-Bissau tem muito SOL e tem grandes possibilidades de adoptar as energias limpas.

TEMPERATURA AMEAÇA A BIODIVERSIDADE GUINEENSE

A Guiné-Bissau tem zonas húmidas, consideradas muito importantes na nidificação de aves migratórias. Essas zonas estão regidas através da Convenção RANSAR. Se a subida da temperatura se mantiver, essas aves migratórias e anfíbias que fazem a polinização das árvores que dão frutos deixarão de vir, e deixarão de polinizar as árvores. E entraremos assim num ciclo de dependência.

Se nada for feito para parar esse aumento brutal da temperatura, as consequências serão graves para a saúde humana, animal e ambiental, porque emergirá uma série de doenças que poderão passar dos animais domésticos ou selvagens para os seres humanos. Poderá tratar-se de doenças para as quais os seres humanos não têm resistências.

Pior de tudo, num país como a Guiné-Bissau, com sistema nacional de saúde vulnerável, as pessoas sem poder económico suficiente para suportar tratamento de certos tipos de doenças e sem médicos suficientes e qualificados para fazer faces às referidas doenças vão sofrer devido a um problema que vem da base – do problema ambiental.

COP22 – ENCONTRO DE AMIGOS E DE INTERESSES

COP22 será um encontro de amigos e cada um com seus interesses. Daí a Guiné-Bissau tem que zelar pelo bem comum e pelos seus próprios interesses, o interesse nacional, pensar no bem nacional. Pensar acima de tudo que tem que marcar, advogar e defender aquilo que está disposto a aceitar e daquilo que está pronto e disposto a abdicar-se.

Os guineenses devem olhar para a natureza como sendo a nossa Casa Comum, onde todos vivemos, onde todos coabitamos, onde todos temos que existir e estar. E se olharmos e percebermos o ambiente, como essa Casa Comum, isso pode fazer operar em nós algum tipo de mudança – nós vamos reflectir se estamos a fazer bem ou mal. – Rui Sá recorreu à encíclica denominada de Casa Comum do Papa Francisco para aconselhar os guineenses no uso racional do ambiente.

 

 

Por: Sene Camará

Foto: Marcelo N’Canha Na Ritche

 

 

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