Crônica: A NÉVOA MENTAL

… Se … e se… se… e se… se… e se… fosse verdade … mas se fosse mentira… se… e se… se… e se… se… e se…

Pois entao vamos aos fatos:

Nos bulícios da Cidade de Bissau uma cena nos apavora. Trata-se, a meu ver, de empreender um percurso pelos meandros da cidade para, a título de exemplo, destrinchar as questoes, a priori, de boa índole que, de passo em passo, sem que eu tenha perdido o also, analisar as cenas dos cidadaos e das cidadaes que, no corre-corre da vida, vao tecendo seus sonhos feitos de obstinaçao e fé.

Um olhar de menina como se fosse uma onda a farfalhar-se ao sabor do vento, na preamar; ou nas marés enchentes de gente ingente, ou ainda nas marés baixantes de gente de baixo que nem sei se de nível ou se de escalao dessa piramide social forjada, íngreme, pedregosa porque perigosa.

Fosse como fosse, estou a ver as ancas das ondas a salpicar e a saltitar como se fossem o jogo de salta-cordas das meninas deste país singular.

Nao sei navegar nas ondas, nem as do mar ku fadin gora as da Internet. Entretanto, tu, menina, que não fitavas o meu olhar ontem; e eu nem sei, hoje, por que razao o estás a fazer. Se por puro cinismo – que é muito duro para o meu coraçao – se por escuro sentimento que vem à tona assim tao de repente, mas tao de repente que chego a sentir medo – sei lá se a má e boa índoles estejam em sintonia fina que desatina em amor assassino.

  1. Algum sinal

Penso, às vezes,  repito penso, às vezes, que algum sinal indicava que o porvir nao tinha relampagos. Este sinal deu-se pela ventania que vem tocando suavemente a pele minha; porém doí no corpo este vento. E aí comecei a pensar como será, ou como ha-de ser se vier o relampago?

Mas isso era apenas pensamento. Ou apreensao. Ou qualquer coisa que escapa a minha capacidade de imaginaçao. Nao o sei dizer. Talvez desdizer o inaudito. Ou melhor, o maldito.

No tempo de chuva em Farim, acrescida a Bissau, minha Cidade de nascimento, em Quinhamel, em Biombo, em Buba, eh pa tantas cidades da minha infancia guardada na memória insana deste meu coraçao de apaixonado pela vida; mas de um modo especial pelas coisas, momentos, ideias, pessoas, cidades, campos que esta nobre vida foi me proporcionando.

Além disso, vou também pensando nos prazeres carnais, espirituias, sentimento de culpa, ou de revolta, ou de amor; pensamentos lógico-filosóficos, sentimentos humanísticos ou teológicos… sei lá tanta confusao de temas que provocam em mim cenas horrorosas quando um paciente, na maca do Hospital, é submetido à profusao sanguínia; e depois, muito depois, sente dores que lhe causam náuseas, estrias, tremores pelo corpo…

É verdade isso: de que as paixoes é que dão sentido aos sonhos?

Tenho medo, mas um medo terrível, estonteante. Um medo deles nos lixarem a vida. Acabarem com a nossa capacidade resiliente de resistencia às intempéries da vida. Esta vida que, se digna, é só nome.

Olhando ao meu redor, ou seja, à volta tudo parece ser uma sinfonia de mistérios. Mistérios sem ministérios. Nao pensem que esteja eu a imiscuir-me na política. Ou em política. Nao sei, com este meu pobre portugues… espero que génio Camoes e o incomensurável Pessoa nao me condenem por erros de gramática, ou de sintagma, ou de pragmática, ou de análise de discurso.

À noite, na Cidade, e na calada da noite, uma nuvem escura, sombria, ataca os corações proibindo-os de amar.

Os ministérios? Sem chefes nem projetos.

  • As lenhas

Disse muitas vezes que onde há muitos direitos acabamos por ter deveres nenhuns. Mas por incrível que pareça, digo que pareça; pois nao sei se um dia os houve nesta Cidade de N Tin, ao invés de ver o farfalhar das folhas das árvores no Parque de N Batonha, estou é a ver um movimento soturno para o exercício do direito da dor.

Pensando bem: as lenhas estao preparadas para acender o fogo da grande festa. A festa do meu aniversário que coincide com o da minha noiva.

As datas, para dizer outrossim, nao importam aqui, nem tao pouco os meses; mas sim o ano de nascimento, o meu e o dela.

Para dizer ainda mais que na minha tabanka-humanidade, dizem os mais velhos, que os verdadeiros membros são os senhores ratos.

A chama das lenhas em barbaredas. A festa já começou. E estou muito feliz por esta noite em cuja intensidade do fogo vai fustigando os olhos dos convivas.

Foi então que, nestas (minhas) andanças pelas cidades brasileiras e italianas, concebi o seguinte princípio esperança fundamental à minha existencia como ser humano pensante: que nem tudo são flores, e que nem todos os dias sai o sol.

Dizem uns que os dias estao nublados; outros que estes mesmos dias que virão trarão flores novas. A quem assiste o direito de rogar-se para si a razao?

Nao o sei. Certeza mesmo é que só os ciclos sao eternos. O resto efémero.

Quem cria o contragosto perece no contraponto.

A lua e o sol serão as testemunhas vivas das chamas acesas para o desenvolviemnto sustentável deste amor-nação. E durável ou perene?

Bye, bye, caro leitor d|O Democrata. Fuja dos desassossego pátrio.

Bissau, 14 de abril de 2021.

Por: Jorge Otinta,

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.