Repressão de marcha : COLETIVO DE BÔR DENUNCIA ENVOLVIMENTO DE FORÇAS DE SEGURANÇA LIGADAS AO PRIMEIRO-MINISTRO

O presidente do Coletivo de Líderes Ativistas de Bôr para Ação, David Domingos da Silva, denunciou o envolvimento de elementos das forças de defesa e segurança atribuídos ao gabinete do primeiro-ministro na repressão da marcha pacífica realizada na quarta‑feira, 07 de janeiro. A manifestação exigia justiça pela morte de Luís Bidam, ajudante de toca‑toca, espancado até à morte por dois militares no dia 27 de dezembro de 2025.

“Refiro‑me à equipa de patrulha pertencente às forças de defesa e segurança do primeiro-ministro, que esteve no local com duas viaturas. Estamos a falar de uma operação de grande brutalidade, com cerca de dez viaturas e homens fortemente armados, claramente com o objetivo de intimidar a população e forçar os que marchavam por justiça no caso de Luís Bidam a desistirem”, afirmou.

De acordo com o ativista, agentes da Esquadra de Bôr, da Terceira, Quinta e Sétima Esquadras, assim como da Polícia de Intervenção Rápida (PIR), atuaram com reforços dessa equipa especial de patrulha. A declaração foi feita durante uma conferência de imprensa realizada esta sexta-feira, 09 de janeiro, na sede da organização, em Bôr, arredores de Bissau.

Para David Domingos da Silva, o comportamento dos agentes — que dispararam armas de fogo e lançaram gás lacrimogéneo contra civis indefesos, provocando pânico entre a população — constitui uma tentativa de “legitimar o crime de homicídio” atribuído ao Sargento Carlitos Luís Imbana e ao Soldado Abene Albino Sambé, além de refletir “outros atos graves que têm ocorrido na Guiné-Bissau”.

A organização classificou o episódio como um “perigo preocupante” e um sinal negativo para o futuro do país.

O líder ativista acusou ainda os agentes envolvidos de cometerem “atos de brutalidade” não só contra os participantes da marcha, mas também contra cidadãos que se encontravam a trabalhar nos becos e pequenas feiras ao longo da estrada, onde tiros para o ar e gás lacrimogéneo interromperam as atividades quotidianas.

Segundo o Coletivo, o gás lacrimogéneo foi lançado inclusive dentro de domicílios, durante perseguições a participantes da vigília que tentavam refugiar-se.

Ainda de acordo com os dados da organização, mais de 19 ativistas foram detidos na Esquadra de Bôr, na Quinta e na Segunda Esquadra, além de haver relatos de atropelamentos, espancamentos severos e invasões de residências.

David Domingos da Silva acrescentou que duas pessoas permanecem internadas em estado de saúde crítico. O número exato de feridos ligeiros não foi confirmado, uma vez que muitos não se apresentaram publicamente, apesar dos efeitos do gás lacrimogéneo lançado sobre a população.

O Coletivo denuncia também intimidações e ameaças contra seus membros, mas reafirma a determinação em acompanhar o caso judicialmente. O ativista considerou positiva a reação do Ministério Público, que afirmou ter pedido a prisão preventiva dos suspeitos, descrevendo o ato como “um passo importante, o primeiro de cem passos” necessários para que a justiça seja feita.

“Apenas deixaremos de reivindicar quando estes criminosos forem julgados, condenados e começarem a cumprir a pena que merecem. Reforçamos o apelo aos ativistas determinados: não desistam. Vamos lutar pela justiça”, declarou.

Por fim, o líder destacou que a determinação demonstrada pela comunidade de Bôr na marcha reforça o compromisso da organização com a defesa dos direitos humanos, do respeito à dignidade humana e do Estado de direito na Guiné‑Bissau.

Por: Filomeno Sambú

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