Editorial: QUANDO UM EDITORIAL MATA DIRETOR GERAL DO JORNAL O DEMOCRATA

Num cenário de autêntico analfabetismo científico sobre os géneros jornalísticos no jornalismo nacional, um editorial acabou por “matar sem matar” o Director-Geral do jornal O Democrata, na Guiné-Bissau. A semana passada foi um verdadeiro pesadelo para a família do Dr. António Nhaga, após a divulgação de interpretações erróneas de um editorial por si assinado, intitulado “Morreu o Deus da Democracia na Guiné-Bissau”.

O editorial é um género opinativo do jornalismo que, infelizmente, continua pouco compreendido por grande parte do público leitor no contexto nacional. Trata-se de um género de elevada relevância no jornalismo contemporâneo, pois permite interpretar, analisar e problematizar acontecimentos de interesse público, com base numa linha editorial claramente assumida.

É através do editorial que a direcção de um órgão de comunicação social procura ajudar o público a compreender a semiose dos grandes acontecimentos, recorrendo a figuras de linguagem, metáforas e jogos semânticos. Por essa razão, torna-se urgente que o público nacional compreenda melhor os limites entre significado e significante, sobretudo quando se trata de títulos icónicos utilizados num jornal com projecção nacional e internacional, como é o O Democrata.

Por definição, o título de um editorial deve ser curto, forte e apelativo. Cabe ao Director ou Editor-Chefe dominar o uso de trocadilhos e jogos de palavras para captar a atenção do leitor e incentivá‑lo à leitura integral do texto. O uso inteligente desses recursos constitui um elemento essencial para despertar o interesse do público.

Respeitando inteiramente o género jornalístico opinativo, o título “Morreu o Deus da Democracia na Guiné-Bissau” representa apenas uma leitura metafórica e crítica do Director-Geral do jornal O Democrata. A motivação desse título esteve ligada ao alerta sobre a morte simbólica da imprensa — tradicionalmente considerada o pilar ou “pai” da democracia — face às recentes decisões do Alto Comando Militar. Em momento algum tal título se referiu à morte física do seu autor.

É fundamental que os leitores estejam atentos e desenvolvam uma leitura crítica, compreendendo que um título editorial não deve ser interpretado de forma literal. As palavras são escolhidas estrategicamente para conduzir o leitor à reflexão sobre um acontecimento social relevante na esfera pública.

O título “Morreu o Deus da Democracia na Guiné-Bissau” constitui, assim, um apelo à reflexão sobre o enfraquecimento da liberdade de imprensa no país. É consensual, nos Estados democráticos, que a imprensa desempenha um papel central na consolidação da democracia.

Trata-se de um texto opinativo com forte carga estética e retórica, cujo objectivo é captar a atenção do público e levá‑lo a compreender os argumentos críticos face às tentativas do governo do Alto Comando Militar de silenciar os media na Guiné-Bissau.

O editorial publicado a 15 de Janeiro de 2026 recorreu apenas a conceitos semióticos próprios do género opinativo para estimular o público nacional a reflectir sobre a decisão do Alto Comando Militar de restringir a liberdade de imprensa, entendida aqui como o verdadeiro “Deus da Democracia”.

O editorial é, acima de tudo, um apelo ao direito fundamental à liberdade de expressão, direito esse que está a ser negado aos cidadãos eleitores pelo actual governo militar. Convoca o público nacional a resistir e a lutar para que a imprensa não seja silenciada por completo. Não se tratou, em nenhum momento, de anunciar a morte do Director-Geral do jornal O Democrata.

A circulação de informações falsas sobre o alegado desaparecimento físico do Dr. António Nhaga constitui um sinal alarmante da necessidade urgente de combater o analfabetismo científico no jornalismo nacional. Tal episódio reforça ainda mais a união dos jornalistas e da direcção do jornal em torno da defesa da liberdade de imprensa.

Por: Dr. António Nhaga

Director-Geral

angloria.nhaga@gmail.com

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