Opinião: A HISTÓRIA DA “CARTA ROUBADA” E O PODER NA GUINÉ-BISSAU

Após eu derramar, numa tarde preguiçosa de boteco no centro de São Paulo, as minhas angústias sobre a interminável instabilidade política do meu país a uma amiga filósofa, ela, uma semana depois, convocou-me para o mesmo lugar. Havia, em seu gesto, um silêncio cúmplice que eu não soube decifrar de imediato. Mal eu suspeitava que trazia consigo uma revelação: um exemplar antigo de Edgar Allan Poe, A Carta Roubada. Ao me entregar o livro, com um sorriso que misturava ironia e ternura, ela sugeria — sem precisar dizer — que, na Guiné, o poder raramente pertence a quem apenas ocupa o cargo; ele se esconde, circula e se revela, como a carta de Poe, diante dos olhos de todos e, ainda assim, invisível para quase todos.

O livro – A célebre narrativa A Carta Roubada, de Edgar Allan Poe, é frequentemente lembrada como uma história policial engenhosa. No entanto, a sua verdadeira força está na dimensão política: o poder não pertence necessariamente a quem ocupa cargos formais, mas a quem detém os instrumentos reais de influência. Essa metáfora ajuda a compreender, de forma surpreendentemente atual, a dinâmica política da Guiné-Bissau.

No conto, uma carta comprometedora circula entre personagens, e com ela circula o poder. Quem possui o documento controla a situação, independentemente da posição institucional que ocupa. O conteúdo da carta nunca é revelado — e isso é precisamente o ponto central: não importa o que está escrito, mas quem a detém. O objeto funciona como símbolo de autoridade, vulnerabilidade e dominação.

A política guineense apresenta uma lógica semelhante. O poder formal está distribuído entre Presidente, Governo, Parlamento e tribunais. Contudo, o poder efetivo muitas vezes depende de fatores menos visíveis: alianças políticas, influência militar, redes econômicas, reconhecimento internacional e capacidade de mobilização social. Assim como na história, existe uma diferença entre a aparência institucional e a realidade estratégica.

A instabilidade recorrente do país — marcada por crises institucionais, tensões entre órgãos de soberania e episódios de intervenção militar ao longo da história — pode ser interpretada como uma disputa permanente pela “carta”. Ou seja, pelo controlo dos mecanismos reais de poder do Estado. Quando esses mecanismos não estão firmemente institucionalizados, tornam-se objetos de disputa entre atores políticos, e a governabilidade passa a depender mais de equilíbrios informais do que de regras constitucionais.

Outro elemento importante da metáfora é que, na narrativa, a polícia falha porque procura a carta em lugares secretos e complexos, enquanto ela está simplesmente visível. A lição é clara: o excesso de formalismo pode impedir a compreensão da realidade. Aplicado à Guiné-Bissau, isso significa reconhecer que muitos fatores decisivos da política não se encontram apenas nos textos legais, mas nas relações de poder concretas que estruturam o funcionamento do Estado.

A principal consequência dessa leitura é estratégica. A estabilidade política não depende apenas da alternância de lideranças, mas da consolidação institucional. Enquanto a “carta” — isto é, a autoridade efetiva — puder circular entre indivíduos ou grupos, o sistema permanecerá vulnerável a crises. Quando a autoridade estiver ancorada em instituições fortes, previsíveis e respeitadas, o poder deixará de ser um objeto disputado e passará a ser um atributo do próprio Estado.

A Guiné-Bissau enfrenta, portanto, um desafio que é menos conjuntural do que estrutural: transformar poder pessoal em poder institucional. Isso implica reformas profundas, incluindo a profissionalização das forças de defesa e segurança, o fortalecimento do sistema judicial, a estabilidade constitucional e a construção de uma economia capaz de sustentar a autonomia política. Sem essa base, qualquer equilíbrio será temporário.

A grande lição política da “carta roubada” é que o problema fundamental não é quem governa, mas quem controla os mecanismos que tornam o governo possível. Compreender isso é o primeiro passo para que o poder deixe de circular entre as mãos e passe, finalmente, a pertencer à República.

Por: Rafael J. Dias

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