O ataque coordenado envolvendo a Frente de Libertação de Azawad (FLA) e o Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos (JNIM), afiliado da Al‑Qaeda, contra importantes bases estratégicas do exército maliano e instituições governamentais teve, sem dúvida, como objetivo a mudança de regime — na prática, um golpe de Estado. Não se pode excluir a hipótese de o ataque ter contado com cumplicidades ao nível dos serviços de segurança e de inteligência, tanto internos como externos, incluindo de países vizinhos.
O general Assimi Goïta, juntamente com os seus companheiros de armas, conhecidos à época como os “cinco coronéis”, assumiu o poder após um golpe de Estado que destituiu o Presidente Ibrahim Boubacar Keïta (IBK). Naquele momento, definiu três grandes eixos de ação: restaurar a segurança, restabelecer a soberania nacional e retomar o controlo do território, que, em grande parte, se encontrava ocupado por grupos terroristas provenientes da Líbia e da Argélia.
Apesar das múltiplas adversidades enfrentadas — a nível interno, sub‑regional (inclusive por parte de parceiros da CEDEAO) e internacional, sobretudo do Ocidente e particularmente de países europeus —, os “cinco coronéis” conseguiram reestruturar e equipar as Forças Armadas para fazer face à ameaça da fragmentação do território maliano. Foram recuperadas, das mãos dos terroristas, regiões estratégicas do norte, como Gao e Kidal, há muito consideradas santuários de grupos jihadistas.
A luta sangrenta e violenta travada pelo exército maliano não se limita ao combate no deserto contra jihadistas, nem apenas aos confrontos com os rebeldes da FLA. Trata‑se, na realidade, de uma luta mais ampla contra um sistema neocolonial que, através de múltiplos tentáculos, manipula aliados da sub‑região e apoia, direta ou indiretamente, grupos terroristas hostis à Aliança dos Estados do Sahel.
Esse apoio, manifestado sob a forma de informações privilegiadas, bases de retaguarda e facilidades logísticas, tornou‑se particularmente evidente durante o ataque de sábado, 25 de abril do corrente ano.
Os jihadistas e os rebeldes da FLA mobilizaram milhares de homens, centenas de motorizadas e dezenas de viaturas Land Cruiser de cabine dupla, operando simultaneamente em várias frentes. De acordo com relatos da imprensa internacional, o objetivo era semear o caos, neutralizar líderes do regime para desorganizar as forças armadas e ocupar bases militares estratégicas.
Atualmente, o exército maliano, sob a liderança do general‑presidente Assimi Goïta, dispõe de capacidades militares relevantes, aliadas a uma vasta experiência de combate, tanto no deserto como em zonas urbanas. Essa capacidade ficou demonstrada durante o referido ataque coordenado.
As Forças Armadas Malianas (FAMA) conseguiram repelir os ataques e lançar uma contraofensiva eficaz, forçando os atacantes à retirada. Ainda assim, tratou‑se de uma operação de grande envergadura, que poderia ter abalado seriamente o regime em Bamako.
É inegável o elevado nível de coordenação entre os grupos atacantes, a mobilização significativa de efetivos e, sobretudo, a logística envolvida — fatores que revelam um grau de organização que merece atenção por parte de estrategistas militares.
A questão central, porém, reside no facto de que jihadistas e rebeldes, atuando isoladamente, dificilmente disporiam de meios militares, logísticos e de inteligência suficientes para executar uma operação desta magnitude. Daí surge a hipótese plausível da existência de uma “mão oculta”, com cumplicidades ao nível de serviços de inteligência internos e externos, possivelmente envolvendo países vizinhos e atores ocidentais.
Essa suspeita foi reforçada pelo próprio Chefe do Estado‑Maior General das Forças Armadas do Mali, general Oumar Diarra, que denunciou, em entrevista à televisão nacional (ORTM), ingerências externas nos ataques, ainda que sem identificar os países implicados.
Colocam‑se, assim, questões incontornáveis:
Quem definiu a estratégia dos ataques coordenados em Bamako, Kati, Kidal, Gao e Sévaré, todas localidades com bases militares fortemente protegidas?
Como foi possível executar operações dessa dimensão sem capacidades avançadas de inteligência e planeamento militar?
Quem organizou a logística, incluindo centenas de motorizadas (algumas armadas) e dezenas de viaturas Land Cruiser?
Como foi possível atingir Kati, zona altamente securitizada, onde residem altas figuras do Estado e operam forças de segurança reforçadas, inclusive com apoio externo?
As interrogações que se multiplicam nas ruas de Bamako e além‑fronteiras incidem igualmente sobre eventuais fragilidades dos serviços de informação malianos e dos seus aliados da Aliança dos Estados do Sahel — Burkina Faso e Níger — que, contando com apoio de inteligência estrangeira, em particular da Rússia, poderiam ter antecipado e prevenido o ataque.
A envergadura logística utilizada sugere a possibilidade de infiltração ou cumplicidade interna nos serviços de inteligência. Tal vulnerabilidade deve ser investigada com urgência pelas autoridades malianas, identificando responsabilidades e corrigindo falhas nos dispositivos de segurança, desde as fronteiras até à capital.
Esta guerra, na qual o exército maliano se encontra profundamente empenhado, assemelha‑se à luta de um “órfão”, abandonado pelos seus antigos aliados e parceiros sub‑regionais. Não se trata apenas de uma disputa pelo poder ou pelo controlo de recursos naturais, mas de uma luta pela soberania, pela independência política e económica e pela segurança do Mali — e, em última instância, de África.
O Mali é o oitavo maior país de África, com uma superfície de cerca de 1,24 milhão de quilómetros quadrados, fazendo fronteira com sete países: Guiné‑Conacri, Senegal, Níger, Burkina Faso e Costa do Marfim (todos membros da CEDEAO), além da Mauritânia e da Argélia. Esta última é frequentemente apontada como cúmplice, servindo de base para jihadistas e rebeldes de Azawad.
A luta contra o terrorismo, conduzida pelos países da Aliança do Sahel e, em particular, pelo Mali, deveria contar com o apoio dos Estados com os quais partilha extensas fronteiras. Caso o Mali sucumba ao jihadismo ou os rebeldes de Azawad assumam definitivamente regiões do norte, como Gao e Kidal, tal representará uma ameaça séria à segurança de toda a sub‑região.
Com ou sem o apoio dos vizinhos, o povo maliano assumiu esta luta como condição sine qua non para a sua sobrevivência e existência enquanto nação soberana.
Esta é a convicção de muitos malianos — um povo historicamente resiliente e determinado. Como proclama o seu hino nacional:
“Por África e por ti, Mali, a nossa bandeira será a liberdade;
por África e por ti, Mali, a nossa luta será pela unidade.”
O sacrifício do povo maliano, assim como dos Estados do Sahel na luta contra o terrorismo, transformou‑os num símbolo de resistência e determinação — o retrato de uma África que procura erguer‑se, caminhar com os seus próprios meios e pensar com autonomia, como defendia Amílcar Cabral.
Por: Assana Sambú
Diretor‑Adjunto do Jornal O Democrata





















