O coordenador do Grupo Kumpuduris di Paz da região de Oio, António Tchuda, desafiou o Governo de transição a impulsionar o setor da produção nacional, com destaque para a agricultura, através de mecanismos modernos, eficientes e eficazes, de forma a pôr fim aos conflitos intercomunitários que, segundo ele, “representam uma ameaça à convivência social”.
Em entrevista ao jornal O Democrata, ao abordar os fatores que alimentam conflitos recorrentes na região de Oio, o ativista defendeu que o Estado deve criar incentivos para os agricultores e cooperativas agrícolas, reativar políticas públicas capazes de atrair investidores estrangeiros e trabalhar com parceiros de desenvolvimento na recuperação das bolanhas destruídas pela água salgada, bem como na construção de diques. O objetivo, explicou, é permitir que os agricultores produzam em grande escala e, assim, combater a insegurança alimentar na Guiné-Bissau.
“O governo deve acompanhar permanentemente a situação dos agricultores no terreno e disponibilizar sementes de ciclo curto. Os atrasos na obtenção de sementes adequadas a cada época de produção levam, muitas vezes, os agricultores a enfrentarem inúmeras dificuldades e a registarem maus resultados agrícolas”, afirmou.
António Tchuda defendeu ainda a diversificação da produção agrícola no país, de modo a não depender exclusivamente da castanha de caju, sublinhando que “a diversificação pode compensar a fraca produção dos pomares de caju”.
ATIVISTA PEDE MAIOR ATENÇÃO DO GOVERNO AOS AGRICULTORES DO CONTROLO DOS COMERCIANTES

O ativista alertou o Governo para a necessidade de dar maior atenção aos agricultores e à população em geral neste ano agrícola que se aproxima, bem como reforçar o controlo das atividades e movimentações dos comerciantes na fase final da campanha da castanha de caju.
O objetivo, segundo ele, é evitar que muitos produtores, já fragilizados por diversas dificuldades, caiam em esquemas de comerciantes que alegam suposta falta de qualidade da castanha para comprar o produto a preços inferiores aos oficialmente anunciados pelo Governo no lançamento da campanha.
Denunciou ainda o estado avançado de degradação das infraestruturas rodoviárias que dão acesso às tabancas e comunidades com produção razoável, o que tem dificultado o escoamento atempado da castanha. Como consequência, recordou, muitos agricultores sofreram prejuízos incalculáveis na campanha anterior, em 2025, por não conseguirem transportar o produto até Bissau.
Nesse sentido, apelou à intervenção urgente do Governo para apoiar os produtores no escoamento da castanha antes da intensificação das chuvas, que poderá agravar ainda mais a situação.
KUMPUDURIS DI PAZ TEMEM QUE FRACA PRODUÇÃO DE CAJÚ SE TRANSFORME EM CAOS NAS COMUNIDADES
António Tchuda revelou que a região de Oio enfrenta, nos últimos tempos, uma nova vaga de conflitos resultantes da fraca produção dos pomares de caju e teme que o fenómeno se transforme num verdadeiro caos nas comunidades. Por essa razão, defendeu que a situação seja comunicada às autoridades competentes para a tomada de decisões e às organizações não-governamentais que atuam na mediação de conflitos em contextos de vulnerabilidade.
Uma das principais preocupações levantadas pelo ativista prende-se com o período de pré-campanha da comercialização da castanha de caju, em que muitos produtores contraem dívidas e recorrem a empréstimos de arroz. Esses compromissos deveriam ser pagos durante a campanha da safra de 2026, mas, sem produção, muitos agricultores terão dificuldades em honrar os acordos assumidos.
“Há casos de produtores que, em situações de aflição e crise financeira, recorreram a empréstimos de cinquenta quilogramas de arroz, com o compromisso de devolver sessenta quilogramas de castanha. Esse tipo de contrato pode ser fonte de conflitos imprevisíveis, que talvez a própria justiça não consiga resolver”, alertou.
Segundo Tchuda, o incumprimento desses compromissos está a gerar discussões intensas entre produtores e comerciantes, que já se transformam em conflitos em várias comunidades.
O coordenador do Grupo Kumpuduris di Paz em Oio denunciou ainda a existência de casos de resistência por parte de alguns produtores em cumprir os acordos firmados, enquanto outros ponderam avançar com queixas formais. Perante esse cenário, a organização manifestou preocupação e apelou à intervenção das autoridades e das entidades que trabalham na resolução de conflitos.
Relatou igualmente denúncias de invasão de gado bovino em pomares de caju, nomeadamente na tabanca de Batur, setor de Mansabá. Segundo explicou, a situação provocou discussões acesas entre agricultores e criadores de gado, com troca de ameaças que poderiam ter degenerado em confrontos graves, não fosse a intervenção do grupo.
“Estamos a lidar com vários níveis de conflitos resultantes da fraca produção dos pomares de caju. Imagine um agricultor já afetado pela baixa produção, por dívidas e empréstimos de arroz, a sofrer ainda prejuízos causados pelo gado. É um caso sério que exige uma intervenção urgente de todas as partes”, alertou.
Embora reconheça a inexistência de campos de pastagem adequados, António Tchuda aconselhou os criadores a adotarem mecanismos de controlo dos animais como medida preventiva para evitar choques e tensões entre comunidades, sobretudo durante o período da colheita da castanha de caju.
“Os criadores devem recorrer à sua inteligência tradicional para evitar riscos e garantir a coesão e a convivência harmoniosa nas comunidades”, frisou.
INCÊNDIOS E RISCO DE FOME EXTREMA AMEAÇAM PAZ SOCIAL NAS COMUNIDADES VULNERÁVEIS
Muitos produtores contraíram dívidas em dinheiro e recorreram a empréstimos de arroz que deveriam ser pagos durante a campanha de 2026.
“Sem produção, tudo indica que teremos de enfrentar uma situação muito difícil, incluindo a fome”, declarou à imprensa uma das vítimas de incêndios recentes, que teme que esses fenómenos criem pertubações e ameacem a paz social.
Associados à fraca produção dos pomares de caju, incêndios de origem desconhecida têm destruído áreas agrícolas no norte do país, nomeadamente nas regiões de Oio e Cacheu. No dia 7 de abril de 2026, onze pomares de caju na secção de Maquê, setor de Bissorã, região de Oio, ficaram completamente carbonizados, deixando dezenas de famílias expostas à fome.
Estimativas apontam que cerca de 150 famílias, dependentes da produção de castanha de caju para a sua subsistência, estejam em risco de enfrentar fome extrema nos próximos meses, caso não sejam adotadas medidas urgentes de apoio às vítimas.
Até ao momento, não há informações oficiais sobre os autores dos incêndios, e as vítimas continuam a apelar às autoridades por ajuda e por investigações eficazes.
“Nota-se ausência de medidas eficazes de prevenção das violações dos direitos humanos em Oio”, afirmou
Relativamente à situação dos direitos humanos na região de Oio, António Tchuda afirmou que não existem medidas de segurança eficazes e que a situação está a ganhar proporções alarmantes, devido à persistente onda de violações dos direitos humanos.
“A população tem manifestado repetidamente que vive em situação de insegurança. Os violadores e os abusadores de poder continuam impunes. As pessoas cometem crimes, são detidas, mas o julgamento é um tabu”, criticou.
O ativista citou vários casos que permanecem sem responsabilização, incluindo o alegado assassinato de uma criança na secção de Cutia, setor de Mansoa; um caso em que um adolescente terá matado um colega de 13 anos; e um episódio ocorrido em Mansoa, no qual uma rapariga foi queimada com óleo alimentar aquecido após uma discussão.
Segundo Tchuda, a ausência de funcionamento regular dos Tribunais Setoriais agrava a situação, obrigando o Tribunal Regional de Mansoa a concentrar processos acumulados, o que fragiliza ainda mais o sistema judicial.
Apontou como principais focos de conflito na região os litígios de posse de terra, o roubo de gado e os assassinatos, apelando às autoridades para assumirem as suas responsabilidades e reforçarem a justiça como pilar da estabilidade social.
“Como podem os mais fracos sobreviver a tantas violações de direitos humanos, conflitos e roubos de gado?”, questionou.
ATIVISTA APELA AO REFORÇO DE MEDIDAS DE SEGURANÇA E DE COMBATE AO CONTRABANDO
António Tchuda apelou às autoridades de transição, no poder desde 26 de novembro de 2025, a investirem seriamente no setor da justiça para restaurar a estabilidade e permitir que o país saia da “desordem social”, promovendo a paz e o progresso na Guiné-Bissau.
Referindo-se ao recente caso ocorrido em Tchalana, setor de Mansoa, envolvendo uma adolescente queimada com óleo quente, afirmou que o episódio reforça a preocupação do grupo com a impunidade enraizada na sociedade guineense.
Indicou ainda que os setores de Mansoa, Bissorã e Mansabá têm sido, nos últimos tempos, centros de criminalidade e de violações dos direitos humanos, apelando a medidas corretivas por parte das autoridades policiais e da investigação criminal.
Por fim, manifestou preocupação com o contrabando da castanha de caju para países vizinhos, prática que considera prejudicial à economia nacional. Informou que os Kumpuduris di Paz submeteram ao Governo uma proposta de sensibilização das populações fronteiriças sobre os riscos do contrabando, mas que, até ao momento, não obtiveram resposta favorável das autoridades.
Por: Filomeno Sambú
















