Começo este texto trazendo para o debate a reflexão de um importante e amplamente conhecido escritor moçambicano, Mia Couto, presente em um dos seus textos mais aclamados. Nesse texto, o autor denuncia sete hábitos que, segundo ele, os africanos precisam abandonar para entrar na modernidade. Metaforicamente, chamou esses hábitos de “sapatos” e elencou sete deles que precisamos descalçar. O que me interessa, particularmente, é o quinto sapato, que ele denomina “A vergonha de ser pobre e o culto das aparências”. Nessa parte, o autor afirma: […] vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres. Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. “Mas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compatível”. O termo é curioso: “compatível”. Estamos vivendo num palco de teatro e de representações: uma viatura já é não um objeto funcional. É um passaporte para um estatuto de importância, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa espécie de santuário, numa verdadeira obsessão promocional. Esta doença, esta religião que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. […] A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo (Couto, 2013, p. 9 sic).
Eu poderia debater esse assunto sem recorrer a essa citação, pois se trata de uma constatação relativamente simples e óbvia: qualquer pessoa minimamente atenta consegue perceber essa deplorável realidade de precisar possuir algo ou ostentar determinados acessórios para merecer o respeito e ser bem tratado. Infelizmente, essa prática afeta a todos; não há grupo da nossa sociedade que esteja completamente imune a esse mal, dos intelectuais aos pastores. Às vezes, tenho a impressão de que os guineenses estão mais preocupados em não parecerem pobres do quenão serem, de fato, pobres. Afinal, o que importa é a aparência; a embalagem parece valer mais do que o conteúdo.
Ainda assim, trouxe essa citação por dois motivos. O primeiro, e mais evidente, é mostrar que não sou o único a diagnosticar esse mal que assola a nossa sociedade e, assim, evitar a acusação oportunista de que estaria simplesmente tentando moralizar a sociedade guineense. Alguém antes de mim já havia identificado o problema, ainda que o tenha abordado num contexto mais amplo, o continente africano como um todo. A Guiné-Bissau, naturalmente, está contemplada, por ser parte integrante desse continente.
O segundo motivo é aproveitar a reflexão de Couto para ir além do diagnóstico e denúncia, isto é, tentar rastrear a possível origem histórica dessa prática: essa necessidade de provar, ainda que por meios torpes, que se é digno de respeito ou, simplesmente, digno de ser tratado como ser humano.
Diferentemente de Couto, portanto, este texto pretende denunciar essa prática naquilo que ela é: elitista, preconceituosa, opressora e colonialista. Mas pretende também buscar, na nossa história recente, respostas para algumas perguntas fundamentais: como chegamos a essa situação? De onde veio e como se perpetuou essa necessidade de parecer rico, bem-sucedido ou socialmente superior? Isto porque, Entendo que compreender como chegamos a esse comportamento é fundamental para decidirmos se continuaremos ou não a participar desse teatro.
O que Couto chama de “a vergonha de ser pobre e o culto das aparências”, é, na verdade, pelo menos a partir da colonização de todo continente africano, com a exceção da Etiópia e da Libéria, na primeira metade do século XX (1914), segundo Boahem (1985), uma extrapolação ao longo do tempo de um comportamento que era exigido aos africanos (sob domínio) como forma de conseguirem certos direitos básicos do Estado (na verdade, era um exigência para serem tratados como sub-humanos, porque como humano igual a eles ninguém conseguia ser, mesmo cumprindo todas as exigências e, aqueles não as cumprissem eram tratados como não humanos, animais).
Na sequência, trago uma citação que me parece sintetizar bem, ainda que pouco (mas o suficiente para entendermos), como tudo isso começou, pelo menos, no contexto da colonização portuguesa em África. O excerto subsequente versa sobre uma legislação colonial portuguesa de 1954, que determinava, no seu artigo 56, os requisitos para que um não europeu, portanto um africano conseguisse a cidadania portuguesa e, com isso, passar a ser tratado como cidadão português, como Ser “igual” a eles,
A assimilação é o reconhecimento oficial da entrada de uma pessoa para a “comunidade lusíada”: com isso ela tem acesso a todas as facilidades dos brancos e supostamente tem as mesmas oportunidades educacionais e de progresso. Para conseguir este novo status, a pessoa deve satisfazer as seguintes condições: 1. Saber ler, escrever e falar português fluentemente. 2. Ter meios suficientes para sustentar a sua família. 3. Ter uma boa conduta. 4. Ter a necessária educação e hábitos pessoais e sociais de modo a tornar possível a aplicação do direito público e privado em vigor em Portugal. 5. Requerer a autoridade administrativa da sua área, que por sua vez o enviará ao Governador do distrito para aprovação. (Mondlane, 2019, P. 217)
O que Mia Couto denunciou no texto anteriormente citado pode ter tido a sua origem nesse momento histórico descrito por Mondlane. vale salientar que, no mesmo texto, Mondlane faz referencia à uma lei colonial de 1921 (o código de assistência ao nativo), que definiu o africano civilizado como aquele que sabia falar português e que estava desligado de todos os costumes tribais. A partir dessa exigência colonial, sobretudo considerando a lei de 1921 eos pontos 3 e 4, que apresentam um elevado grau de subjetividade, convido o leitor a refletir sobre a evolução histórica dos acontecimentos que nos trouxeram até ao atual culto das aparências.
Como já referi, o que acontece hoje é uma extrapolação daquilo que, no passado, foi uma exigência. A necessidade, contudo, permanece a mesma: buscar o respeito, a aceitação, a dignidade e oportunidades. Ou seja, a lógica subjacente a esse comportamento — ter bens para exibir e, assim, ser digno de respeito e tratamento condigno — permanece essencialmente a mesma.
Enquanto povos colonizados, precisamos saber aseguinte coisa: no período colonial, o preto que não cumprisse as exigências estabelecidas (destacadas anteriormente), não era humano tanto quanto branco que o era naturalmente, pois a humanidade do negro estava naquilo que ele podia conquistar, exibir, provar. Isto é, precisava mostrar-se digno de ser trato como humano. Diz-me em que isso se difere do que vivemos hoje, onde você precisa estar vestido de tal maneira e possuir determinados bens para ser respeitado e bem tratado!
Hoje, no nosso país, que ainda não implementou uma educação anticolonial, a humanidade de muitas pessoas continua a ser negada pelo simple fato de que não apresentarem determinadas marcadore sociais que a sociedade, herdeira da colonização, ainda insiste em exigir. Isso começa pela língua: pessoas que não dominam a língua guineense, sobretudo quando aparentam falar apenas línguas étnicas, são, em certos espaços e por algumas pessoas, tratadas com menos consideração. Curiosamente, quando a mesma pessoa não fala a língua nacional, mas uma língua estrangeira, como o inglês ou o francês (com sotaque britânico ou francês), o respeito tende a aumentar. E, quando essa pessoa fala português, especialmente com determinado sotaque de Portugal, e se veste “bem”, ela experimenta o clímax do que é ser bem tratado, respeitado e até temido.
Essa pessoa pode ser desonesta, incompetente ou corrupta, mas será, a priori, respeitada e tratada com toda a dignidade possível, um direito que é negado, de antemão, àqueles que não apresentam essas mesmas credenciais. É por isso que a nossa praça está cheia de desonestos e incompetentes “bem vestidos”, cuja aparência é capaz de intimidar os mais simples e menos atentos, beneficiando-se dessa lógica enquanto tantos outros, qualificados, honestos e sérios são destratados invariavelmente. Eu próprio quase fui expulso de uma instituição onde trabalhava porque, aos olhos da pessoa, não estava suficientemente “bem vestido”.
Me recuso a participar desse teatro por achá-lo colonial e discriminatório. Não vejo nenhuma racionalidade nele. Ele é, sob qualquer ponto de vista, irracional, ineficiente e impreciso na medida em que não consegue determinar quem é quem. Não se pode medir o caráter de uma pessoa pela sua aparência muito menos pela roupa que veste, pela língua que fala, pelo carro que dirige, menos ainda pelo relógio ou perfume que usa, o mesmo vale para inteligência, achar que alguém pode ser mais ou menos inteligente a depender de como se apresenta do ponto de vista de vestuário e acessórios, denuncia a estupidez da própria pessoa.
Caro leitor, o que precisa saber e nunca esquecer, sob nenhuma circunstância, é que a escravidão e a colonização desumanizaram todos aqueles que a elas foram submetidos. Durante esses dois acontecimentos, os corpos não brancosforam transformados em coisas, objetos: ora de uso, ora de prazer e, em muitos casos, tratados como animais ferozes para exibição pública. Fomos brutalmente desumanizados e, infelizmente, continuamos, em alguma medida, a reproduzir, de maneira atomática e desatenta, algumas praticas desumanizadoras. Vide a banalização do nosso sofrimento (a morte das nossas crianças não comove os nossos governantes), a repressão violenta das autoridades e a crença de muitos de que para lidar (no sentido de manter a ordem)com guineense ou com preto, em geral, tem que ser a base da porrada e brutalidade.
Pensar, por exemplo, que a depreciação do formato do nosso nariz, da textura do nosso cabelo, da cor da nossa pele ou dos nossos olhos resulta de uma avaliação imparcial e objetiva de um observador sério, interessado apenas no belo em si, é ignorar o papel da colonização e do poder que ela exerceu — e ainda exerce — sobre a definição do que é belo, digno e desejável. E, por sua vez, explica o comportamento de muitos que vivem a se autodepreciar e a se esforçar diária e incansavelmente para extirpar as próprias características, enquanto perseveram obcecadamente em emular as do colonizador pelo resto de suas vidas.
Sabendo de tudo isso, não é de estranhar quando vemos alguém obcecado com a própria aparência, com a forma como vai se apresentar à sociedade, com que língua falar e, sobretudo, com que sotaque; que roupa usar, que marca de relógio impõe mais respeito etc. Essa pessoa está, em alguma medida, reproduzindo uma lógica cuja origem histórica talvez desconheça completamente. O que entristece, porém, é ver pessoas desumanizando outras seguindo essa mesma lógica colonial.
É pueril pensar que esse comportamento nada tem a ver com a colonização e com as suas marcas na nossa atualidade. Aliás, poucas atitudes e crenças são mais coloniais do que a própria tentativa de negar as consequências e os resquícios da colonização nos problemas de África de hoje. Essa tentativa de eximir a colonização de qualquer responsabilidade pela atual miséria africana encontra a sua expressão máxima na seguinte “ponderação”: “Chega de culpar os colonizadores por tudo! Ficamos nisso e não construímos o nosso país e, por extensão, o nosso continente.” De racional, essa afirmação tem apenas a aparência; submetida à mais básica análise, revela-se um grande disparate.
Aos “ponderados” e “equilibrados” que me confrontam com esse argumento, costumo lançar-lhes o seguinte desafio:me citem dois políticos, na história do nosso país ou do continente, que tenham passado — ou passam — o tempo culpando a colonização enquanto destruíam — ou destroem — o próprio paísV. Até o momento em que escrevo este texto, ninguém conseguiu mencionar sequer um único político assim.
Não conseguem porque essa relação simplesmente não existe. Na verdade, a relação parece ser inversa: aqueles que têm consciência dos estragos da colonização e lhe dão o devido reconhecimento, denunciando os seus males de forma recorrente, estão entre os que mais lutaram e lutam para construir os seus países e o continente como um todo. Exemplos não nos faltam: Amílcar Lopes Cabral, Samora Machel, Kwame Nkrumah, Ibrahim Traoré e tantos outros.
Não fazer nada para mudar essa realidade por meio da educação, da cultura, da política etc., e esperar que ela se transforme por si só com o passar do tempo, ou pior ainda,acreditar que já mudou simplesmente porque a colonização terminou há décadas, é o cúmulo da ignorância sobre a colonialidade e a sua influência no nosso inconsciente. Precisamos, urgentemente, trocar as lentes através das quais enxergamos a nós mesmos. Não podemos continuar a ver nossos irmãos, irmãs, pais, mães, filhos, filhas e parentesatravés da lente colonial que nos desumanizou e ainda nos desumaniza, precisamos olhar para nós com um olhar endógina, que enxerga a nossa beleza e humanidade de maneira natural.
Precisamos de uma educação séria, humanizadora e anticolonial e, ao mesmo tempo, precisamos repudiar, de forma firme, contundente e permanente, todas as práticas coloniais que ainda persistem entre nós. Por isso não participo e nunca participarei desse teatro, nem para buscar o respeito, nem para respeitar ou desrespeitar alguém segundo os critérios aqui denunciados.
Guineenses e todos os povos colonizados do mundo, respeitemo-nos simplesmente por sermos humanos e humanizemo-nos, a cada dia, por meio do respeito e da consideração, sem exigências externas. Chega de destratar o outro porque não está “bem vestido” ou porque não fala essa ou aquela lingua, muito menos porque parece pobre e analfabeto.
Bissau, 23 de setembro de 2026
Por: Fernando Colonia (o bolamense)
REFERÊNCIAS
BOAHEM, A. Albert. General History of Africa, VII: Africa under colonial domination, 1880-1935. Paris: UNESCO; Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational Publishers Ltd., 1985. (Primeira edição publicada em inglês).
COUTO, Mia. À porta da modernidade, há sete sapatos sujos que necessitamos descalçar. 08-28-2013. Por Dentro da África.
MONDLANE, Eduardo. A estrutura social: mitos e fatos. In: Revolução africana: uma antologia do pensamento marxista. Organizadores Jones Manuel, Gabriel Landi Fazzio. São Paulo, SP: Autonomia Literária, 2019.


















