Máscara “Maronete-Robô” marca debate sobre modernização do Carnaval guineense

Os escultores guineenses da Oficina de Máscaras avançaram com a iniciativa de realizar um workshop sobre máscaras em Bissau, com o objetivo de sensibilizar jovens e crianças que trabalham no domínio da escultura para a importância das máscaras e mostrar-lhes como podem construir uma máscara científica denominada “Maronete-Robô”, uma espécie de robô.

“Queremos também modernizar a nossa atividade, adaptando-a às exigências da modernidade, para que, no próximo Carnaval, em 2027, o país possa apresentar diferentes modelos de máscaras em maior quantidade, porque só assim será possível elevar a cultura guineense a um nível mais alto”, disse Dodo Pereira Tecanhe (Dodo das Máscaras), coordenador da Oficina de Máscaras, entidade promotora do workshop realizado na quarta-feira, 23 de setembro de 2026.

O responsável falava em entrevista ao jornal O Democrata sobre a iniciativa e os temas a serem abordados no encontro, que reúne escultores, artesãos, técnicos da cultura e autoridades competentes.

O workshop, que decorre amanhã no Centro Cultural Franco-Bissau-Guineense, incidirá sobre a confeção do “Nturudu” nos bairros, a criatividade da máscara Maronete e a expansão da construção de máscaras para as regiões, entre outros temas a serem apresentados por especialistas do setor.

Artesãos enfrentam enormes dificuldades financeiras e pedem investimento do Governo

O coordenador da Oficina de Máscaras revelou, em entrevista, que os artesãos que confeccionam máscaras enfrentam enormes dificuldades, tanto pela falta de materiais que lhes permitam desenvolver um trabalho de qualidade como por problemas financeiros que, segundo explicou, limitam a sua capacidade de produção de máscaras e de outros objetos artesanais.

Assegurou que o Governo deve investir nos setores do artesanato, do turismo e da cultura, “porque este investimento ajudará a Guiné-Bissau na arrecadação de receitas, dado que haverá vários turistas e outras entidades que visitarão o país para ver e adquirir os trabalhos dos artesãos guineenses, como acontece noutros países da sub-região”.

Relativamente ao workshop sobre máscaras, Dodo Pereira Tecanhe explicou que a iniciativa de criar a Oficina de Máscaras surgiu após constatar que, nos últimos tempos, se tem registado uma fraca participação na construção de máscaras na Guiné-Bissau. Acrescentou que, antigamente, existiam iniciativas em todos os bairros de Bissau, protagonizadas por jovens e crianças, para a confeção de máscaras de vários tipos, com representações de animais e figuras humanas.

Acrescentou ainda que, no passado, existiam várias máscaras nos diferentes bairros da capital, produzidas em modalidades distintas.

“Havia máscaras com rosto di tuga, boca di baca, rosto di lebre, rosto di santchu e rosto di galinha. Estas representações feitas nas máscaras eram manifestações artísticas desenvolvidas pelos artesãos”, disse, acrescentando que, atualmente, a tendência de produção de máscaras se inverteu completamente.

“Hoje em dia, ninguém tem vontade de fazer esse trabalho, razão pela qual pensamos na promoção desta conferência para incentivar os jovens e apresentar uma nova abordagem de modernização através das máscaras científicas”, afirmou.

Questionado sobre os principais temas a serem abordados no workshop, Dodo Pereira Tecanhe assegurou que serão discutidos diversos assuntos relacionados com a confeção de máscaras e com as iniciativas de modernização desta atividade, nomeadamente o “Nturudu” nos bairros, a criatividade da máscara Maronete e a expansão da construção de máscaras para as regiões.

Explicou que a conferência contará com a presença de delegados regionais e adiantou que a iniciativa visa envolver todos os escultores do país, proporcionando-lhes conhecimentos técnicos para a confeção de máscaras científicas. Segundo afirmou, a Oficina de Máscaras pretende igualmente promover um festival regional de máscaras, cujo objetivo é descobrir novos talentos na área, que posteriormente poderão representar as suas regiões no maior evento cultural do país: o Carnaval.

Instado a pronunciar-se sobre a seleção dos artesãos para participar no evento, o coordenador da Oficina de Máscaras lembrou que, antes da realização do Carnaval deste ano, foi promovida uma Oficina de Máscaras no Centro Cultural Franco-Bissau-Guineense, na qual participaram representantes de 27 bairros. Durante o evento, foram selecionados 20 artistas considerados mais talentosos, que irão participar neste workshop para, posteriormente, transmitirem os conhecimentos adquiridos nas regiões, ajudando a população a compreender melhor o significado das máscaras e a sua importância para a cultura guineense.

Dodo Pereira Tecanhe informou que o workshop foi patrocinado pela Escola IPNOVE e pelo Centro Cultural Franco-Bissau-Guineense. Segundo explicou, esta última instituição disponibilizou o espaço para a realização do evento.

“Os escultores dispõem de diferentes especialidades de trabalho. Alguns trabalham com madeira, barro, papel e ferro, entre outros materiais, mas desenvolvem as suas atividades em conjunto. Por isso, neste workshop participarão diferentes artistas, com o objetivo de fortalecer a cultura da Guiné-Bissau”, sublinhou.

Questionado ainda sobre os mecanismos essenciais para a revitalização do Carnaval guineense, Tecanhe defendeu que é necessário criar uma agência ou estrutura específica para cuidar da maior festa cultural do país.

“Porque, caso contrário, o Carnaval perderá a sua essência e poderá desaparecer enquanto espaço de descoberta e valorização dos nossos valores culturais”, alertou.

“A agência do Carnaval teria como missão principal pensar na inovação e na criatividade em termos de organização a cada ano, bem como promover atividades carnavalescas fora da época festiva. O Carnaval pode constituir uma importante fonte de riqueza através da venda de produtos, bebidas, estatuetas e outros artigos. Por isso, é necessário criar esse departamento, substituindo as comissões temporárias que são constituídas anualmente para organizar a festividade”, aconselhou.

“O Carnaval é o momento em que conseguimos descobrir os melhores talentos em termos culturais, tanto na dança como na música, animando a população, como acontecia antigamente com agrupamentos como Nkassa Kobra, Mama Djombo e Cobiana Djaz, que atuavam na capital e nas regiões, sensibilizando a população para a importância de participar e valorizar a cultura nacional através do Carnaval. Hoje em dia, infelizmente, essa realidade já não se verifica”, concluiu.

Por: Aguinaldo Ampa

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