O QUE A EMBAIXADA DO BRASIL EM BISSAU QUER SABER

Por: Félix Sigá.

No passado dia 23 de Abril – Dia Internacional do Livro, o Centro de Estudos Brasil – Guiné-Bissau, da Embaixada do Brasil situada naquilo que podia ser a “praceta da república”, na Avenida Francisco Mendes, – teve lugar o acto comemorativo da efeméride, marcado por praticamente 3 palestras proferidas por figuras, as mais destacadas da Literatura Guineense, como sejam o Eng°. Adulai Silá, Presidente da Associação dos Escritores da Guiné-Bissau, o Sr. António Soares Lopes, Júnior (Tony Tcheka), Vice-Presidente da mesma e a Profa. Dra. Maria Odete da Costa Soares Semedo, Secretária Geral da agremiação cultural.

O evento tem lugar há apenas alguns dias do falecimento do Prémio Nobel da Literatura, Gabriel García Marquez, aos 87 anos de idade, colombiano de origem, que sucumbiu à doença de que padecia, no México. E depois da morte em Portugal, da consagrada escritora portuguesa de origem alemã, casada com um português – a grande Sophya de Mello Breyner Andresen. Ela no passado dia 12 e ele dois dias depois. Que arrebatamento necrológico em tão curto espaço de tempo e no mesmo trágico mês de Abril! Glória às suas honradas memórias.

Antes das palestras registaram-se breves discursos improvisados de altos diplomatas latino-americanos como o anfitrião, Ministro Conselheiro da Embaixada do Brasil, o Embaixador da Argentina e o Embaixador de Cuba.

Após os comentários do Director do Centro de Estudos Brasil – Guiné-Bissau, intervieram os 3 convidados.

A Profa. Dra. Odete Semedo que também é Reitora da Universidade Amílcar Cabral, teceu considerações sobre a literatura brasileira, relevando os traços que constituem as constantes dos naturais laços culturais que unem o Brasil (país do seu doutoramento) à África, citando alguns escritores dos dois lados, incluindo o compatriota Tony Tcheka, da obra do qual leu um trecho de um dos seus poemas.

Ao Tony Tcheka coube a abordagem do percurso editorial da Guiné-Bissau. O  também Jornalista e consultor internacional, falou dos “esboços” do que poderia ter sido uma editora estatal segura e, em tempos de liberalização política e económica, propiciar uma rede de editores capazes de gerar lucros e promover publicações de autores nacionais e expatriados, a ritmos aceitáveis. Referia-se à Casa da Cultura, dos anos 70/80, adstrita ao departamento da edição do livro e do disco, da direcção geral da Cultura, cujo responsável se encontrava no acto, o músico e pintor Duco Castro Fernandes. Realçou o papel do angolano Mário de Andrade, que foi Vice-Presidente fundador do MPLA e que por incompatibilidades políticas com o Lider, Dr. Agostinho Neto, procurou o nosso país [como o Dr. Manuel Boal e a esposa, Dra. Lilica Boal e outros]. Andrade foi Coordenador da Cultura, estruturando-a e promovendo exposições em Paris, França, até de esculturas locais [acabando por ascender a comissário de estado da educação (equivalente a ministro), deu contributo valioso até o Reajustamento de 14 de Novembro. Destacou a “Ku Si Mon Editora”, propriedade de Adulai Silá e a Editora Corubal, de que é sócio. Recordou as primeiras obras publicadas no país, entre as quais destacou a antologia poética “Mantenhas para quem luta”, como uma das primeiras editadas em Bissau no  período pos-independência. No fim dirigiu-se directamente à juventude à qual desejou oportunidades melhores que as parcas que tivemos, sem televisão nem vídeos, muito menos a fabulosa internet.

O pai do romantismo guineense, Adulai Silá (já pude explicar porquê, neste mesmo espaço), por sua vez, analisou a situação da Cultura Nacional, criticou severamente o Estado e sobretudo o Governo por se eximirem das suas responsabilidades sócio-políticas e atribuiu-lhes responsabilidades pela situação caótica que se vive actualmente, tanto na Cultura como em todos os domínios da vida do país e não escondeu a irritação que lhe causa a presença e o movimento das forças estrangeiras de manutenção da segurança, paz e estabilidade.

Em consequência, o Director do Centro, se calhar expressando o sentir dos Diplomatas seus superiores, pediu que, em termos concretos, os convidados dissessem “O que é necessario neste momento para que se comece a alterar esta situaçao? O que é que a Embaixada do Brasil pode fazer neste momento para ajudar a resolver os problemas da Cultura da Guiné-Bissau…?”

Além das intermitentes leituras de alguns poemas pela Secretária Geral, durante as intervenções dos colegas, os três oradores da noite revezaram na crítica à ausência do Estado na promoção de trabalhos publicados e no fomento da produção de obras da Cultura.

Ora, eu acho que a minha resposta mais ou menos aproximada ao pedido feito pelo Director do Centro de Estudos Brasil – Guiné-Bissau, senhor André Luís Mendes, sincera e simplesmente, não cabia na esplanada-biblioteca (em reparação). Donde este texto, com a mesma finalidade. E vai se ver que é certo.

Quero começar por agradecer à Embaixada e ao Governo Federal do Brasil (uma potência económica, cultural e desportiva com 190 milhões de habitantes), pela discriminação positiva que descobri na internet há 3 anos, com benefícios enormes e efeitos futuros – em 15 anos -, que não posso mesurar agora: enquanto que Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe recebiam entre 90 a 20 bolsas de estudo, ano, e variam os números, à Guiné-Bissau cabiam 175 bolsas estatais.

Primeiro, portanto, ó Brasil (!) – “Oh Céus! …E se mais Brasis houvessem agora!”. Muito obrigado! Prossigam, que já começaram melhor! Graças a Deus! Estes números pertenciam às estatisticas da antiga União Soviética e de Cuba. A Rússia agora oferece 25 bolsas e manteve-se constantemente solidário. Já teremos cá, uma comunidade de formados no Brasil com membros em número significativo e competências técnicas com alguma harmonia, em termos sistémicos. O equivalente à homogeneidade para chefes e técnicos.

Segundo, podem – e tenham paciência de o fazerem, porque eu sei que podem muito bem: criar um fundo editorial que cubra os custos de edição de, pelo 3 livros, por ano, sendo: uma antologia dos vencedores do Concurso anual ao Prémio Nacional José Carlos Schwarz. Porque o que têm feito (a premiação com certificados e, mais recentemente, acrescido de um valor pecuniário e gratificação dos membros do júri), é muito importante. Mas, o que fazem com os textos que premeiam? Nao, sejamos sinceros, isso é estímulo à produção! Ajudem-nos: a divulgar a alma guineense ou difundam a guineidade! Acaso não lhes reconhecem qualidade merecedora de edição? Então, tenham a bondade de declarar e explicar pública e claramente que os niveis dos textos continuam abaixo do aceitavel, do vosso ponto de vista. Psicologicamente, os encorajados sao possuidos pela ansiedade e, na indefiniçao, desistem. Ja ganharam um prémio e nao escrevem mais. Isto é facil de confirmar. Em todo o caso, definitivamente, publiquem os textos premiados. E em cada ano, teremos 3 livros: uma antologia poética dos melhores (10 a 15 autores) e ajudam-nos bastante; outra antologia dos melhores contos (2 a 5 autores); e uma obra de um escritor ou poeta da geração consagrada (e para este último, a Embaixada do Brasil rubricaria um protocolo com a Associação AEGUI para suportar formalmente, a cooperação).

Terceiro, eu tenho uma editora, a EDIÇÕES ÁGIS, o Adulai Silá também tem e surgiu a Corubal, do Tcheka e associados, todasprivadas. Já editei um valioso livro de poesia em 2009 e tenho mais 3 livros prontos (antologia poética, colectânea minha e uma de um jovem empregado bancário e um quarto livro de um professor de português do Instituto Camões e creio que também do CEBGB). Até podiam distribuir-no-los simplesmente. A Guiné-Bissau passaria a ter presenças regulares nas bancas, em certames e nas bibliotecas do mundo. Robusteceriam a nossa autoridade cultural interna e externamente. Quem sabe, um desses livros poderia vir a ser adoptado oficialmente, como literatura obrigatória para o ensino secundário e ou superior. E financiavam também traduções. A Profa. Dra. Odete Semedo tem um livro de contos que quer expandir. Por outro lado pderão incluir obras guineenses nas feiras americanas. Ja os nossos trabalhos foram analisados, criticados por duas autoridades brasileiras: a Profa. Dra; Moema Parente Augel e o Prof. Pós-Dr. João Adalberto Campato Júnior. Isso é enorme! Além da antologia lusófona, Portuguesía.

Quarto, ajudem a distribuir bons volumes de exemplares dos nossos livros, para fins comerciais e académicos, intermediando apenas os primeiros contactos, e pouco mais.

Quinto, promovam quanto antes, a criação de uma associação dos ex-estudanes do Brasil.

Sexto, promovam a vinda de grandes e não só, ensaístas e catedráticos brasileiros para oferecerem conferências nas universidades e falarem conosco. Desde o nascimento da Guiné-Bissau, não mantivemos encontros como colóquio, conferência nacional, ou outro fórum por mais do que duas vezes. E quando houver eventos de grande envergadura, apoiem a nossa participação, ainda que de duas pessoas (bilhetes de avião e alguma soma, sobretudo no quadro da CPLP. CÁ POR MIM, EU NÃO CONHEÇO NENHUM PAÍS DA CPLP(!), apesar da minha contribuição para a sua criação, através do Embaixador José Aparecido de Oliveira, em Portugal e do então Embaixador em Bissau, Marcelo Didier.

Sétimo, quando for possível, convoquem-nos a nós Escritores, Pintores, Músicos, Escultores e às Autoridades educativas nacionais, para planificarmos juntos, a natureza das bolsas que nos possam oferecer no ano seguinte. Foi-me solicitado recentemente, durante os debates para as eleiçoes, pelo Magnânimo Reitor da Universidade Lusófona de Bissau, o Prof. Dr. Rui Jandi, colaborar na mobilização e encaminhamento de pretendentes ao curso de Letras, cadeira que não tem tido procura dos estudantes. Mas, eles podem fluir dos 3 centros culturais (que fazer?). O homem de letras também pode ser embaixador, pode chefiar gabinetes ministeriais, tivemos uma ministra da educaçao e da saude e o actual Ministro da Educaçao é graduado em letras mas tem software e lembre-se que foi um exímio professor de física no Liceu Kwame Nkrumah. São porém, muitos os que acorrem aos 3 centros culturais de Bissau para estudarem cultura e lingua para emprego ou bolsa de estudo: francês, brasileiro e português. Falta articulação, Ministério de Educação incluso.

Oitavo, se possível, facilidades na obtenção de bolsas especiais de graduação, para personalidades com backgrownd e vontade. Isto é, licenciaturas, mestrados e doutoramentos (curta duração).

Nono, temos uma federação de escritores e artistas por sediar e tem décadas de existência: nem casa nem mobiliário muito menos equipamentos. 4 secretárias com cadeiras, 4 computadores, instrumentos musicais, material para um atelier de pintura e escultura em madeira, pedra, metais, 100 cadeiras plásticas, gerador de 30 kw, tv (tipo TFT ou plasma, aparelho de som com colunas de potência suficiente para shows. Cenfim, um total de uns 12,850 U$D only. The most important UNAE – National Union for the Artists and Writers of Guinea Bissau, todavía, queda donde quiera en las calles de Bissau. C’est claire que à l’Ambassade d’Espagne, vous pouvez, en cas de besoin, demander à l’Union Europeenne, Bureau de Bissau, une subvention de € 50 mille.Und das can ser ser gut für alle leute in die unsere organization und für unser Heimat. Pajalosta: Gwinea’s Bissau’s intelectualish, eta nie nasha!

Décimo, tínhamos até 1996, um Festival Nacional da Canção Infantil, cujos vencedores representavam o país nos festivais internacionais de Aveiro e Évora em Portugal e de Cabo Verde. É para não se falar mais.

Mais duas palavrinhas: que o país nunca teve prémio literário – já sabiam? Que o ministério ou a secretaria de estado da Cultura nunca criou um fundo de fomento cultural, desde 1981 – já sabiam? Que o governo guineense, mesmo que seja de natureza transitória, podia financiar pelo seu orçamento, a ediçao anual de 2 livros, um de cariz literario e outro científico (podendo este ser um estudo, ensaio económico, jurídico, electrotécnico, histórico ou historiográfico, sociológico [que os tínhamos muitos], antropológico, pedagógico, política educativa [o meu amigo Alexandrino Gomes, do INDE, deve ter trabalhos de pesquisa, que tecnicamente, só passam à investigação quando publicados], médico, farmacológico, ecologia, física [Fernando Baial e Amadeu Badinca], química e matemática [o Geraldo já é mais jurista no Banco Mundial, mas há muitos homens e mulheres no domínio] – e eu refiro-me mais aos técnicos mais velhos -, aviação civil, gastronomia, estilistica, gestão hoteleira e cultural e outras, comércio internacional, relações económicas internacionais, pintura, agronomia, mecânica, arquitectura [ainda não temos linhas claras de algo identitário, a classe dos arquitectos não tem ordem e mal se concerta, como de resto toda a engenharia em geral, economistas – que são muitos -, funcionam mais as ordens de advogados e de médicos] engenharia civil, ou teses de licenciatura, de mestrado, de doutorado e pós-doutorado, etc. O problema maior do pais é o da Economia, que determina a situaçao politica. Isto é universal. “Quem não entendeu isto não entendeu nada ainda.” – dizia Amílcar Cabral num seminário de quadros, em 1969. Conferencistas e formadores químicos, economistas, agronomos qe voltem a formar novas geraçoes de camponeses pois, os que haviam sido formados no quadro do TPS/USAID ou envelheceram ou faleceram mesmo. O Brasil tem centenas de aplicações ao cajú e nós nem o descascamos o suficiente. O mesmo sucede com a manga. Ninguém estuda as tendências internas e do exterior de pelo menos 2 anos, por isso, o governo não tem hipóteses de uma previsibilidade cientificamente correcta e vantajosa.

Bem diferente é isto: tenho ciúmes: desde quando era chef du petrsonnel da grande empreiteira italiana, ASTALDI CMB DUE (1991), fui informado de que os brasileiros detinham o monópolio das empreitadas das estradas e outras obras da Guiné (Conakry). Até hoje não temos um único brasileiro a vender agulhas ou fósforos em Bissau, Bafatá, Gabú, Bissorã, Canchungo, Buba. A juventude está possuída pela psicose de todos os produtos Made in Brazil, seja da lingerie, das calças, vestidos e roupa multicolorida e de cores garridas em geral, as raparigas todas amaneiradas pela subjugação televisiva das novelas, ganharam novas atitudes e formas de estar em familia, no meio estudantil, nos empregos e em sociedade. Isto é para um adido comercial. Mas é bom que se saiba que não há trocas comerciais inter-estados da CPLP. O eixo é Portugal, que desenvolve relações comerciais com todos os países, quantas vezes mais por razões culturais. Acho que as feiras do livro (até “e do disco”) são a via, melhor feito com apresentaçoes dos últimos.

Julgo ter contribuído a bem do meu e dos dois países. Sirva isto para algo – queira Deus, ai Jesus Cristo!

Quanto a Vocês, da Embaixada do Brasil, acaso isto responde à questão colocada naquela noite? Oxalá.

ERA ISTO QUE A EMBAIXADA DO BRASIL QUERIA SABER? Então, tranquilizo-me.

Com os meus melhores votos!

 

Por: Félix Siga, poeta e jornalista

felixsiga@gmail.com

1 thought on “O QUE A EMBAIXADA DO BRASIL EM BISSAU QUER SABER

Deixe um comentário para Orlando Cristiano Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *