[REPORTAGEM] A esquadra da polícia de Beli, sede do sector de Boé, região de Gabú no leste do país, dispõe apenas de uma arma de fogo (AK – 47) e uma motorizada para combater a criminalidade naquele que é considerado um dos maiores sectores em termos geográficos. A Esquadra conta no total, com seis elementos dos Serviços de Informação de Estado (SIE), dos quais cinco auxiliares recrutados internamente e o próprio delegado do SIE.
A retirada dos agentes da Guarda Nacional que faziam a segurança e a ordem pública no sector, levou os elementos do Serviço de Informação de Estado a engajar-se em garantir a segurança e a ordem pública aos populares daquele sector. Madina do Boé tem uma linha extensiva da fronteira com a república vizinha da Guiné-Conacri, que está totalmente descoberta em termos de segurança e sem nenhuma marca de sinalização, segundo narram os chefes das tabancas. Boé conta com uma população estimada em mais de dez mil habitantes, de acordo com o último censo populacional do Instituto Nacional de Estatística (INE). Apenas a sede do setor (Beli) conta com mais de 1.500 (Mil e quinhentos) habitantes.
Beli é a única sede do setor no país e particularmente na linha de fronteira sem a cobertura ou a presença de nenhuma força de segurança, nem a Guarda Nacional e muito menos a presença de um aquartelamento militar.
ISOLAMENTO E DIFICULDADES MOTIVAM ‘ABANDONO’ DO QUARTEL PELA GUARDA NACIONAL
Beli contava com cerca de dez (10) elementos da Guarda Nacional encarregados de garantir a segurança aos populares bem como vigiar a linha fronteiriça com a Guiné-Conacri. O edifício do antigo ‘Armazém do Povo’ funcionava como o quartel.
Alguns elementos da Guarda Nacional resolveram abandonar o quartel e voltar para a região ou Capital Bissau, depois de virem seus colegas transferidos para zonas com melhores condições através de apoio de seus familiares ligados ao comando daquela unidade policial militarizada.
“Estavam aqui e até conformaram-se com as dificuldades, porque são paramilitares colocados ali para garantir a segurança do setor. Alguns estão no posto adiantado do controlo de Tchetche para o controlo e segurança do setor, até foram afetados com uma viatura. A informação que temos é que alguns foram transferidos para a zona de Ingoré, no sentido de apoiar na manutenção da segurança da fronteira naquela zona. Mas o comando não enviou outros agentes para reforçar os seus colegas e isso levou os que ficaram a abandonar o quartel”, informou um dos elementos do Serviço de Informação contactado por repórter.
Adiantou ainda que é preciso colocar agentes da Guarda Nacional no setor e dotá-los de meios necessários para trabalharem, de forma a poderem garantir a segurança aos populares daquela zona, como também ajudar no controlo da linha fronteiriça.
Acrescentou neste particular que o número reduzido dos elementos da Guarda Nacional que se encontram no posto do controlo avançado de Tchetche, depara igualmente com certas dificuldades e particularmente no concernente aos aspectos logísticos. Frisou que o comando do controlo de Tchetche dispõe de uma viatura, mas não consegue desdobrar-se para cobrir todo o setor para garantir a segurança.
ESQUADRA DE POLÍCIA DE BELI FUNCIONA NO ‘NATU CA-SUDO’ DE CRIADORES DE GADO
A esquadra de Beli é uma pequena casa semelhante a ‘Natu Ca-Sudo’ de pastores de gado construídas no fundo das matas. A esquadra foi construída graças a iniciativa dos próprios agentes do serviço de informação do Estado, de forma a poderem dispor de um sítio para atenderem as pessoas e reunir-se para definir a estratégia do trabalho.
Para o serviço de segurança que agora lhes cabe, contam com seis (6) elementos dos quais cinco recrutados localmente como auxiliares mais o delegado do serviço de Informação do Estado, Capitão Talibe Mané.
Os próprios habitantes discordam com o funcionamento da esquadra do Serviço de Informação do Estado naquela pequena casa. Na opinião das populações, Beli é a sede do setor, razão pela qual os representantes ou funcionários do Estado devem ser dotados de meios de trabalho que dignifica o Estado da Guiné-Bissau.
Sana, chefe de tabanca de Beli, diz na sua declaração ao repórter que a ‘Esquadra – Natu-Ca-Sudo’ deixa a população local, incluindo os próprios agentes, envergonhados perante a população da vizinha república da Guiné-Conacri. Frisou que a referida situação espelha o desprezo e a falta de consideração das autoridades, ou seja, do Governo Central para com o povo de Madina do Boé.
Relativamente à questão do roubo de gado e conflitos por posse de terra, explicou que a nível do setor não se registam problemas de roubos de gado. Informou, no entanto, que houve certos casos de conflito por posse de terra, que segundo ele, são resolvidos por ele (chefe de tabanca) em colaboração com os anciões de tabanca. Frisou ainda que, quando não conseguem entender-se ou sanear o problema, encaminham o caso para a polícia local que acaba por resolvê-lo.
Aproveitou a ocasião para apelar às autoridades no sentido de ajudar os agentes do serviço de informação, construindo um edifício onde passe a funcionar a esquadra, porque os agentes do serviço de informação é que garantem a ordem pública no setor.
“Precisam de um edifício que tenha melhores condições. Até pode ser um dos edifícios velhos das organizações que estão abandonados aqui, pode servir da Esquadra e estará em melhores condições do que aquela pequena palhota, onde não conseguem fazer nada, dado que não tem condição e nem sequer para deter um criminoso”, lamentou.
DELEGADO DE SEGURANÇA PEDE MEIOS E AGENTES SUFICIENTES PARA SEGURAR O SECTOR

O delegado do Serviço de Informação do Estado de Setor de Boé, Capitão Talibe Mané, disse na entrevista concedida ao repórter que não se regista com frequência questões de roubo de gado e muito menos casos de agressões físicas. Sublinhou que apenas no período da fome é que se verificam pequenos roubos de cabras por jovens que igualmente roubam pequenos animais e aves para se alimentarem.
Sobre a condição de trabalho dos agentes de segurança, informou que não foram criadas nenhumas condições de trabalho, sobretudo neste momento que trabalham agora como forças de ordem pública devido à ausência dos elementos da Guarda Nacional. Avançou que desde que a sede do setor foi transferida para Beli, os Serviços de Informação não beneficiou de nenhum edifício para instalar a sede.
“O Estado nunca deu-nos um edifício para nossa sede. Improvisamos barracas ou pequenas palhotas. A barraca que funciona como a esquadra de polícia de Beli foi construída por nossa iniciativa, a fim de podermos ter, pelo menos, um lugar onde as populações podem encontrar-nos para explicar os seus problemas. Construímos apenas uma barraca com mesas improvisadas. A grande verdade é que aquela casa não tem condições para estar a funcionar como esquadra, mas estamos lá a fazer o nosso trabalho”, contou.
Assegurou que dispõem apenas de uma motorizada afectada para o delegado, mas que acaba por ser colocada para os trabalhos dos agentes no terreno, tendo acrescentado que muitas vezes os agentes auxiliares recrutados são obrigados a deslocar-se certas vezes a pé ou de bicicletas emprestadas pela comunidade em missão, para deter uma pessoa que se encontra numa aldeia que dista a 20 quilómetros de Beli.
“Os agentes da Guarda Nacional já não estão aqui. Ficamos aqui a fazer todo o trabalho de manutenção da ordem pública. Fomos obrigados a recrutar auxiliares localmente para nos ajudar. Graças a essas pessoas garantimos a segurança no sector”, precisou.
Questionado se os agentes auxiliares recebem salários ou subsídios, respondeu que nenhum agente auxiliar recebe salário ou subsídio, mas informou que as autoridades já têm conhecimento da existência dos agentes recrutados localmente como auxiliares do serviço de informação do Estado. Acrescentou ainda que os próprios agentes foram chamados uma vez para se deslocarem à Bissau no sentido de regularizar os seus problemas de efectivação, inclusive os seus nomes foram encaminhados para as finanças, mas até agora não recebem salários nem subsídios.
“Os agentes que temos não são suficientes para os trabalhos que fazemos agora. O nosso trabalho não é manter a ordem pública, ou seja, resolver os problemas de agressões ou roubos. Temos um trabalho específico a fazer para garantir a segurança do país. Infelizmente as circunstância levaram-nos a fazer este trabalho agora. Por isso, as autoridades através do nosso ministério, devem engajar-se para nos conceder os meios necessários”, espelhou.
Revelou neste particular que a polícia não dispõe de nenhumas condições para o funcionamento normal, tendo assegurado que apenas têm uma arma que é requisitada por cada agente que se desloca para uma determinada aldeia.
Lembrou ainda que uma vez detiveram um cidadão conacri-guineense que atropelou uma criança e partiu-lhe uma perna, mas o recluso acabou por fugir e seguir o caminho das matas que conhece bem, até o seu país.
“Detivemo-lo. Como não temos celas para encarcerar os infractores, mandamo-lo sentar- se do lado e fora da pequena casa, porque estávamos a fazer outros trabalhos. Ele frequenta essa zona e conhece muito bem os caminhos da mata. Resolveu fugir e seguir o caminho da mata até o seu país. Não nos atrevimos à segui-lo. Aqui nem algemas temos e apenas dispomos de uma arma”, espelhou o delegado do Serviço de Informação do Estado, que entretanto, avançou ainda que neste período da chuva algumas aldeias já não contam com os seus serviços, porque não podem deslocar para aquela zona por causa dos pequenos rios.
“Para trabalhar aqui é preciso que a pessoa tenha um coração que consegue aguentar o sofrimento, porque quando é colocado aqui e ninguém mais se lembra de você. Cheguei aqui e comecei tudo de zero, não havia nenhuma residência para o delegado de segurança. Residi numa casa familiar, mas fui obrigado a labutar para construir essa pequena casa de palha para viver com a minha família”, lamentou o delegado de segurança colocado no setor de Boé, há 8 (oito) anos.
Por: Assana Sambú
Foto: AS
Junho de 2017























Que pena, se fose eu abandonaria esse trabalho à muito tempo porque não há respeito para os que trabalham mas sim para aqueles que andam a mendigar e contar as coisas que não correspondem minimamente a verdade.