“TRANSPORTAR A ENERGIA ELÉTRICA DE KALETA É MAIS BARRATO QUE CONSTRUIR BARRAGEM EM SALTINHO”

GRANDE ENTREVISTA:

O técnico da energia elétrica, Eng. António Samba Baldé, disse, na rubrica da grande entrevista do jornal “O Democrata”, que “transportar a energia elétrica de Kaleta (Guinée-Conakri), é mais barato, em lugar de construir a barragem em Saltinho (sul do país).

Este especialista da energia afirmou ainda que em termos económicos e humanos o transporte da corrente elétrica a partir da barragem de Kaleta (Guiné-Conacri) vai custar ao país menos, em vez de construir uma barragem própria que carretará mais custo ao país, uma vez que vai-se precisar de construir reservatórios de água para injetar as tribunas na época da seca e estes têm elevados custos, entre outros.

Nesta entrevista com este técnico da energia, igualmente líder de uma formação política na oposição, ao falar daquilo que motivou o Presidente JOMAV a libertar os presos militares envolvidos no caso 21 de Outubro, disse que “se houver ainda alguma coisa subjacente no gesto, então ele acha que a ideia não está correta. Porque a libertação dos detidos é da responsabilidade dos tribunais”.

Democrata (D): A cidade de Bissau registou um pouco de melhoria em termos da energia eléctrica fornecida pela Empresa de Eletricidade e Água da Guiné-Bissau (EAGB) nos últimos dois meses. Mesmo assim alguns bairros da capital continuam a deparar-se com a falta da energia, como também a própria empresa que continua a confrontar-se com problema de redes de distribuição. Acha que neste ritmo de funcionamento a empresa está em condições de fornecer a corrente eléctrica para toda a cidade, incluindo algumas cidades periféricas da capital?

António Samba Baldé (ASB): Acho que hoje não deveriamos falar da energia eléctrica, porque estamos em pleno século XXI. Na verdade, houve certa melhoria em algumas zonas da capital Bissau no que diz respeito a fornecimento deste bem indispensável numa sociedade. Para mim, isso não foi o objectivo principal da empresa, ou então, dos sucessivos governos que passaram neste país. O objectivo era de levar a corrente eléctrica para todo o país, mas não apenas para alguns bairros da cidade de Bissau.

A corrente eléctrica não só vai nos permitir estar em competitividade a nível sub-regional, mas também a nível nacional vai-nos permitir ter mais capacidade de produção e ao mesmo tempo trabalhar para desenvolver a nossa terra. Agora respondendo a sua pergunta, se neste ritmo a empresa estará em condições de fornecer a energia para toda a cidade de Bissau, incluindo algumas cidades periféricas, sinceramente digo que nestas condições, em que a empresa está a funcionar, é impossível fornecer a energia para toda a cidade de Bissau, e muito menos para algumas cidades próximas da capital.

Neste momento a empresa apostou na solução paliativa. Isto é, preocupar-se a resolver problemas correntes de pequeno grupo de consumidores nas pequenas necessidades. A energia eléctrica é uma coisa que se projecta para 100 e 200 anos, não é uma coisa que se faz apenas para servir pequenas necessidades.

Quero dizer que não estou a minimizar os esforços da actual administração, que até por sinal fez alguma coisa, mas a maior verdade é que actual autoridade tem que começar a projectar o fornecimento da energia para toda a cidade de Bissau, bem como criar as condições de levar a energia para as regiões que também precisam, porque, como deve ser do conhecimento de todos, a corrente eléctrica não é um luxo para ninguém no século XXI, portanto deve ser um produto que devemos usar no sentido de ajudar a resolver os nossos problemas do dia-a-dia.

A melhoria que se regista neste momento é baseado na produção via combustão diesel, quer dizer, pôr gasóleo e fazer o gerador funcionar a fim de fornecer a energia. Penso que devemos começar a preconizar para que a corrente eléctrica nos traga mais-valia para a produção de riqueza, mas para isso é necessário repensar seriamente a empresa e a sua forma de produção.

D: Alguns meses atrás, a empresa nem sequer conseguia fornecer a energia com regularidade, mas hoje registou-se essa melhoria assim como a estrutura da direcção-geral. O que acha, a seu ver, pode estar por detrás desta melhoria em termos de fornecimento da energia eléctrica?

ASB: Está a referir-se a um passado de cinco a seis meses. Naquela altura estávamos numa situação anómala, porque o país se encontrava na situação de golpe de Estado. Quando se gere o país numa situação não legítima, como o nosso caso, certamente que não se pode contar com os apoios de parceiros de desenvolvimento.

Para dizer aquilo que está por detrás da melhoria que se verifica neste momento na empresa, acho que a própria empresa já começa a estar em condições de dar essa informação. Quero aproveitar a ocasião para louvar a actual administração da empresa, porque realmente registou melhorias. Acho que isso tem a ver com o indivíduo que está a gerir o sector da energia neste momento, é ele, quem trouxe a melhoria que se regista na empresa.

D: A central eléctrica continua a deparar-se com a falta de capacidade técnica de alimentar toda a cidade. Qual é a capacidade em mega dos geradores que são necessários para alimentar a cidade de Bissau, no seu ponto de vista?

ASB: Neste momento não temos as indústrias ou grandes empresas que consomem certa quantidade da energia. Apenas o grande consumidor da energia neste momento é a administração do Estado, que, por sinal, é o mau pagador deste serviço. Acho que, de momento, precisamos de um gerador de 20 mega que pode fornecer a energia eléctrica até nas cidades periféricas de Bissau, designamente Safim.

Se estivermos a pensar numa coisa mais séria, que pode fornecer a energia para fábricas e grandes empresas para a transformação dos seus produtos, temos que projectar uma coisa com maior capacidade que pode fornecer a energia eléctrica, não só para a cidade de Bissau, mas também para todo o território nacional.

Isto é, estamos já a falar de central de 120 a 130 mega que vai permitir a empresa fornecer todo o país a corrente eléctrica. Isto vai permitir o país ter excedentes, no momento da recepção do produto, e vai dar garantias de que noutra saída já tem uns 30 ou 40 mega à disposição na eventualidade do que pode vier acontecer em termos de consumo.

D: Outra preocupação que se pode levantar sempre tem a ver com as linhas de distribuição da corrente eléctrica da EAGB e os postos de transformações de corrente. Existem vozes que defendem a remodelação das linhas de distribuição da corrente e dos postos de transformações. O senhor comunga essa opinião?

ASB: Para que a corrente eléctrica chegue bem nas nossas casas, é preciso sérias coisas, portanto é necessário termos uma boa rede de distribuição de corrente, que também deve estar em boas condições. A rede tem de ter a fiabilidade. No entanto, se a produção é fiável acho também que a rede tem de ser fiável no sentido de poder ter um produto acabado e que chegue às casas dos consumidores em melhores condições para uso.

Eu defendo sempre que seja removida a antiga linha de distribuição da corrente, e em seu lugar que sejam instaladas outras, sobretudo as subterrâneas. Se não fizerem isso, então ainda não se conseguiu resolver o problema da distribuição da corrente. E é isso que deve ser feito, pelas pessoas que estão a dirigir o sector neste momento, mas também se não se remover a linha antiga que saibam que ainda não se resolveu o problema da distribuição, porque mais cedo ou tarde terão que o fazer.

D: Fala-se muito nos últimos tempos na restruturação da própria empresa, a fim de dar mais dinamismo e qualidade a mesma. Como técnico na energia, acha que é necessária a restruturação da empresa para resolver o problema energético na Guiné-Bissau?

ASB: Sou uma das pessoas que até a certo momento acha que a solução da EAGB passa pela privatização. Actualmente cheguei a conclusão de que não é preciso privatizá-la para resolver o problema com que se depara, mas sim é necessário que se proceda uma restruturação profunda no seu seio.

A Empresa da Electricidade e Água da Guiné-Bissau tem problema da restruturação e da gestão, portanto para mim isso é extremamente importante. Nesta primeira fase devemos reestruturar à empresa de raiz, temos que ver aqueles que não são rentáveis na empresa, indemnizá-los e depois mandá-los para casa. Isso vai permitir a empresa respirar de alívio do encargo que tinha nas costas em termos de gastos financeiros, porque paga muitas pessoas e a produção não correspende com as despesas.

Depois recrutava-se pessoas sérias, que independentemente de serem técnicas da energia ou não. Mas que sejam pessoas que vão trabalhar na gestão da empresa e que permitirão a mesma render mais e que ela faça as despesas de acordo com a sua capacidade de produção. Acho que é isso que está a faltar a EAGB uma restruturação séria, a fim de permitir que a empresa marche com os seus próprios pés.

D: Actualmente todo o país está esperançado no projecto da energia proveniente da barragem de Kaleta, na Guinée-Conakri, onde o país está inserido através da OMVG. Conforme os técnicos da área, são necessários um montante de 100 milhões de Euros (65 bilhões de francos cfa) para a construção de uma rede de mais de 200 quilómetros para a condução da corrente eléctrica da Kaleta até a Guiné-Bissau. Acha que o país deve engajar-se neste projecto, tendo em conta o custo estimado pelos técnicos?

ASB: Qualquer projecto energético desta dimensão, sobretudo da produção da corrente eléctrica, se for a energia hídrica, é muito mais rentável, para que países que têm menos extensão territorial e populacional, juntarem-se numa coisa séria que os permite aproveitar a produção daquele produto, a fim de poderem servir do mesmo da melhor forma possível. Portanto, acho que a Guiné-Bissau deve engajar-se muito bem neste projecto, porque é mais rentável para nós.

No meu ponto de vista, é menos custoso transportar a corrente eléctrica de 130 mega em função daquilo que foi projectado para todo o país, a partir da barragem de Kaleta através da rede de destribuição da corrente. Se a Guiné-Bissau pretende construir a barragem em Saltinho, é muito mais custoso em relação ao transporte da corrente a partir da Guiné-Conakri.

Transportar energia eléctrica de Kaleta é mais barato, em vez de construir a barragem em Saltinho. Em termos económico e humanos a transportação da corrente a partir de Kaleta vai custar ao país menos, em vez de construir uma barragem. Daí que é mais viável negociar ao nível sub-regional, onde toda gente se vai envolver no projecto e na sua protecção. Toda gente terá o interesse de ver as instalações à funcionar durante muitos anos, porque é ali que está as suas vidas.

D: Se percebo, no seu ponto de vista, tecnicamente não é rentável a construção da barragem de Saltinho neste momento?

ASB: É necessário construirmos uma barragem para um espaço de 36 mil km2 e uma população de aproximadamente 1,7 milhão de habitantes? Não é rentável economicamente, no meu ponto de vista. A construção de barragem tem custos elevadíssimos, sobretudo no momento em que se regista a queda da água no leito do rio Geba, que alimenta a zona de Saltinho, que deminuiu quase 50 por cento.

Se construirmos a barragem de Saltinho, neste momento, vamos ser obrigados a construir grandes reservatórios de água de compensação cuja água será utilizada no período da seca, a fim de injectar nas turbinas de forma a poderem trabalhar. Isso já é um custo igual a construção da barragem, portanto no nosso caso vamos acabar que construir duas barragens. A construção de reservatórios da água para alimentar as tribunas na época da seca tem custos que quase chega a 50 por cento do orçamento para a construção de barrragem.

D: O projecto da construção da barragem de Saltinho é assegurado por uma empresa chinesa. Acha que mesmo assim, a prioridade deveria ser o transporte da corrente eléctrica a partir da barragem de Kaleta?

ASB: No meu ponto de vista, devemos apostar mais na barragem de Kaleta, em vez de construirmos uma barragem que nos vai acarretar mais custos. A barragem de Kaleta é um projecto sub-regional, além disso, a sua capacidade de produção é muito superior a consumo só da Guiné-Conacri, por isso muitos países estarão interessados em procurar a energia eléctrica de Kaleta.

 

A construção da barragem exige custos enormes, independentemente de quem vai construí-la, se são chineses, japoneses ou americanos. A minha maior preocupação continua a ser os enormes custos que tal acarreta, portanto a questão é o seguinte: quem é que vai suportar os custos da construção da barragem de Saltinho? Quem está disposto a negociar com a Guiné-Bissau na construção da barragem de Saltinho neste momento que depara com problema da queda da água, depois em benefício de quem? Penso que essas questões todas precisam de respostas para depois começarmos a pensar se é bom continuar na implementação do projecto ou não.

Confesso também que não tenho o dossier da construção da barragem de Saltinho. Eu gostava de ver os custos da construção da barragem de Saltinho, de forma a poder continuar a defender a tese de transporte de corrente eléctrica a partir de Kaleta em vez de construirmos uma barragem na nossa terra.

D: Acha que as autoridades terão a capacidade de obter o montante de 100 milhões de Euros, para a construção da rede de transporte da corrente a partir da barragem de Kaleta?

ASB: Este é a responsabilidade do Governo, por isso, deve ter a capacidade de mobilizar os fundos junto dos parceiros. Para a execução de um grande projecto como aquele da construção da rede de transporte da corrente que exige grandes recursos financeiros. Para mim o executivo tem de fazer uma grande projecção no futuro que o vai permitir mobilizar os recursos da parte dos parceiros.

Quem vai buscar o financiamento e como vai conseguí-lo tudo isso é da responsabilidade do Governo. Para obter apoios em termos de empréstimo de 100 milhões de Euros, é preciso apresentar ao parceiro um projecto muito sério, onde vai mostrar a forma como pensa executá-lo, para depois conseguir ganhar o dinheiro e consequentemente pagar a dívida.

Ninguém vai conceder um empréstimo de 100 milhões de Euros, apenas para dar corrrente às pessoas nas casas, a fim de assistir televisor ou refrescar as bebidas. Temos que apresentar o projecto ambicioso com as indústrias e grandes fábricas que precisam da energia para funcionar, porque se as indústrias estão a funcionar muito bem, o Estado vai buscar os impostos que o vão permitir criar a riqueza.

D: Tendo em conta a crise da corrente eléctrica com que a cidade de Bissau se depara, surgiu algumas iniciativas de fornecimento da energia eléctrica através de pequenos grupos de geradores, mas que estão a funcionar com grandes dificuldades em termos de distribuição da corrente eléctrica. Até que ponto é que isso pode constituir um perigo para a sociedade, devido à forma como efectuam as suas ligações nos bairros?

ASB: Isso é a falta de autoridade de Estado, porque se houvesse, na verdade, a autoridade de Estado, isso não podia acontecer. O Estado não deve permitir as coisas que não estão correctas, portanto mesmo se o produto está dar falta e em nenhumas circunstâncias não se pode admitir o funcionamento daquela iniciativa nas condições em que estão a funcioar.

Mesmo a olhos nus vê-se as ligações da corrente eléctrica mal feitas. O mais grave é que os próprios responsáveis da área sabem disso e nada fazem para parar a prática. Certamente que estão a esperar até que isso dê mal, ou seja, que haja estragos causados pela má ligação feita nos mercados e nas residências para depois começarem a andar de um lado para outro, para acabar com aquilo.

Essas pessoas que vendem a corrente eléctrica à população nas tabancas, a maioria nem sequer têm a licença que as permite fazer esse tipo de negócio, ou seja, não pagam impostos. Ou quem sabe se calhar, pagam na mão de um fulano ou beltrano da empresa para os permitir funcionar sem que sejam inspeccionadas?

Mesmo a situação do roubo de combustível que se verifica na EAGB, muita gente sabia como se fazia aquilo, mas não estavam e nem estão interessados em acabar com aquilo. Se assim for, é porque estão envolvidos nisso também. O Estado deve preocupar-se muito na reorganização ou restruturação da EAGB, como também na formação dos seus técnicos. Porque, actualmente o sistema está totalmente sofisticado, pelo que é preciso formar os técnicos a fim de compreenderem a forma de trabalhar nos aparelhos.

Senão se fizer isso, os técnicos terão problema de trabalhar nos aparelhos de distribuição da corrente eléctrica que se perspectiva fazer através de transporte da mesma a partir de Kaleta. Mesmo se transportarmos bem a corrente a partir da barragem, mas, se for mal gerida por falta de quadros que possam trabalhar nos aparelhos, é impossível fazer chegar a corrente em boas condições nas casas ou nas empresas e isso vai causar prejuízos enormes.

Por isso é que defendo sempre que a EAGB precisa de uma restruturação profunda. São necessários, no máximo, 200 trabalhadores na EAGB que serão instruídos ou preparados para fazer todo o tipo de serviços. Tendo já um número reduzido dos funcionários vai permitir a empresa fazer um controlo eficiente dos mesmos e garantindo-lhes um bom salário e condições de trabalho.

Devem ser criadas as condições de trabalho e ao mesmo tempo exigi-los para produzirem e responsabilizá-los, a fim de poderem saber que os produtos que estão a vender é um produto vital e transversal para toda a sociedade. Por isso, é que devem fazer um bom trabalho no transporte do produto, de forma a permitir que o mesmo chegue de forma normal e em bom uso aos consumidores. Isso é que se deve fazer naquela empresa de fornecimento da energia eléctrica, por que, senão, é impossível esperar bons resultados da parte da mesma.

D: O senhor é líder do Partido Social Democrata (PSD)… O Governo do PAIGC, onde se integram igualmente outras formações políticas com assento no Parlamento, vai completar no fim deste mês 90 dias. Pode fazer um pequeno balanço de três meses do executivo liderado por Domingos Simões Pereira?

ASB: Como sabe, sou o político que gosta de fazer crítica e ao mesmo tempo apontando as possíveis soluções. O que percebi é que o Primeiro-Ministro parece uma pessoa com as ideias, mas tem grande dificuldade de implementá-las, devido às questões eleitorais, da hierarquia a nível do partido e da própria máquina do PAIGC.

Tendo em conta a situação política, pretende levar toda agente ao governo, porque acha que aquilo é que é a solução definitiva. Infelizmente, tem o seu partido que é uma máquina que funciona mal e, doutro lado, tem o PRS que não é melhor que outro… Sinceramente, tenho pena do Primeiro-Ministro. Sei que ele é capaz e, acima de tudo, tem ideias e a vontade de querer ajudar, mas estou muito reticente quanto a isso.

O balanço que gostaria de fazer é que estamos na fase inicial. Ele conseguiu arrancar o motor na primeira, mas precisa pôr a viatura na segunda, para depois seguir para a terceira velocidade, a fim de fazer chegar a viatura ao destino. Se a dificuldade de andar de mais depressa tem a ver com aquela estrutura pesada, complicada e corrupta do PAIGC, então é dificil.

D: O Primeiro-ministro apresentou ao Parlamento o Orçamento Retificativo de 2014 que é estimado em mais de 150 biliões de francos cfa. Tem algum cometário a fazer sobre o assunto?

ASB: Não tenho comentário a fazer, porque esse é o Orçamento possível neste momento. Acho que vai passar sem problema nenhum, tendo em conta a composição do Parlamento.

D: Fala-se que a participação do Partido da Renovação Social no executivo em companhia de outras formações políticas acabou por minar a oposição. É verdade que agora já não existe a oposição na Guiné-Bissau?

ASB: Não estou de acordo com a opinião de que a oposição não existe. O facto de estar a falar neste assunto demonstra claramente que estou a fazer a opoisção, porque sou o líder de uma formação política. Infelizmente não conseguimos tomar parte nas eleições devido à situação que tivemos com o Supremo Tribunal da Justiça e que é do seu conhecimento. O povo acha que o PAIGC está mais bem colocado para dirigir o destino do país.

Para mim, os renovadores deveriam abdicar do Governo, de forma a poderem fazer uma oposição mais séria. Se entenderem que, nas suas estratégias, devem ir ao governo para poder ajudar, portanto não tenho objecção para fazer. Estamos aqui para ver depois de completarem 120 dias, a fim de fazer umas análises profundas sobre o que fizeram e o que não conseguiram fazer.

Ele fez muita promessa durante a campanha eleitoral, portanto vamos dar-lhe o benefício de dúvida para depois ver se conseguiu alguma coisa ou não. Penso que a oposição não está aniquilada, depois de três meses vamos fazer um pequeno balanço do exercício do governo líderado pro Eng. Domingos Simões Pereira.

D: Retecentemente o Presidente da República instaurou o critério da quota étnica na corporação do Batalhão da Presidência da República. Tem um comentário a fazer sobre isso…

ASB: No meu entendimento se o Presidente da República tinha a intenção de fazer isso, então que o faça sem comentários. No meu ponto de vista o Presidente falhou na tentativa de fazer isso e mostrando ao povo que pretendia instaurar a quota étnica daquela forma. O que não percebo de tudo isto é o seguinte:

Quem é que o Presidente da República quer visar com isso? Ou seja, o que é que ele quer com isso? Será que a convivência entre diferentes grupos étnicos criou problema nesta terra? Se ele quer instaurar a quota étnica na Presidência com o intuito de fazer com que todo o grupo étnico seja representado na Presidência, então que seja de uma forma natural.

D: O que quer dizer com a forma natural?

ASB: Forma natural significa para mim através de um Decreto Presidencial. Podia fazer isso de uma forma democrática, através do decreto presidencial.

D: O Presidente pediu a libertação de todos os presos militares que se envolveram no caso 21 de Outrubro, inclusive o líder do grupo capitão Pansau Intchama. Quer fazer um comentário sobre isso?

ASB: Penso que a única entidade competente para a libertação dos detidos são os tribunais. Se alguém for para o calabouço via judiciária, portanto quando vai sair é através da via de justiça também. O que é que aconteceu que levou o Presidente da República a ajudar na libertação dos militares presos que estiveram envolvidos numa tentativa de subversão da ordem constitucional?

Há um aspecto do Presidente da República que a lei confere certos poderes, mas também temos que ter em conta o aspecto nacional. Será que se libertarmos as pessoas, sem dizer que foram culpadas ou não, não vão trazer mais problema…? Se o Presidente tomar essa iniciativa no quadro das suas prerrogativas, na qualidade do Primeiro Magistrado da Nação, a fim de criar bases de uma estabilidade permanente para que não haja desturbios nos próximos tempos, estarei inteiramente de acordo com ele nisso. Se não for isso, então é da sua responsabilidade. Aliás, se houver ainda alguma coisa subjacente que o motivou a libertar os presos militares, penso que alguma coisa não está correcta, porque a libertação dos detidos é da inteira e exclusiva responsabilidade dos tribunais.

Por: Assana Sambú

4 comentários

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    • Joaquim Luís fernandes em 24/09/2014 às 00:09
    • Responder

    E porque não estudar a possibilidade de aproveitamento energético das marés em alguns canais e rios que para isso têm aptidão? São muitos milhões de m3/h de água, turbináveis,ininterruptamente, quer de dia quer de noite, sempre e inesgotável. Tenho algumas ideias e estudos sobre as técnicas e tecnologias aplicáveis à situação concreta de alguns desses rios e canais da Guiné-Bissau. Espero poder brevemente apresentar esses projetos, em desenvolvimento, a quem de direito, para apreciação e consideração.

  1. Snr, ministro de energia eletrica so quero dizer voce que pais precisa de comstroir seu proprio Barragem com capasidade maxima que capas de dar cubertura todo o pais, sem depender de outros pais de subrezion,nao importamos nada de custos, que nos importa ter no pais um barragem de capacidade que capas de nos satifaser.

    1. É possível construir uma barragem sem primeiro fazer o estudo da viabilidade econômica?
      E se for construído, para quem vai servir essa energia…só para refrescar as bebidas e assistir tv?
      Concordo plenamente com o Eng. António Samba Baldé, quando ele disse: É necessário construirmos uma barragem para um espaço de 36 mil km2 e uma população de aproximadamente 1,7 milhão de habitantes?
      Tendo em conta que se regista a queda da água no leito do rio Geba, que alimenta a zona de Saltinho, que deminuiu quase 50 por cento.
      Vamos pensar bem, todos nós de uma certa forma queremos que nosso país tenha um arranque produtivo no que diz respeito sistema energético, que na verdade não é uma novidade neste século. Pois é um arranque no desenvolvimento socioeconômico de um país, mas temos que levar em consideração os elevados custos para essa magna empreendimento. Estamos falando da maior reserva da água doce do pais. Vamos pensar bem meus irmão, e é aqui que entra a sustentabilidade, e para mim, a verdadeira sustentabilidade é aquilo que é voltado pelo Homem, será que isso que estamos fazendo? E as gerações futuras, estamos pensando neles?

    • Orlando Cristiano em 24/09/2014 às 13:39
    • Responder

    Parabenizo ao Eng. Antônio Samba Baldé pela forma técnica e lúcida como abordou a questão da energia elétrica na Guiné. Concordo plenamente com tudo o que disse. Deve haver um plano de reestruturação profunda deste setor, que envolva a modernização técnica, administrativa e no âmbito da regulação. Saltinho não é solução para a oferta energética para a Guiné. Estudos da empresa portuguesa COBA estimara uma potência nominal de 18 Mega Watts, mas que em termos da potência disponível deve situar-se muita abaixo disso, considerando o prolongamento cada vez maior da época seca e as perdas na transmissão e distribuição de energia. Não conheço estudos mais recentes, mas penso que a tendência não é aumentar, mas sim, diminuir este potencial. Infelizmente não somos um país com uma disponibilidade hidrelétrica que gostaríamos, pela nossa própria geomorfologia. A Guiné Conacri o é, e comercialização de energia entre países fronteiriços é algo muito comum e natural. Não adianta construir barragem onde não é propício para tal, pois corremos o risco de ficar com um monte de betão armado na mão, sem água e nem energia. Além do problema econômico focado pelo Eng. Baldé, existe o problema do ciclo hidrológico regional que tem registado redução das vazões hídricas; existe o problema ambiental da bacia de inundação, que tem que ser ampla, considerando a baixa declividade do nosso território. Isso resultará na inundação de grandes áreas florestais, afetando os serviços ecossistêmicos e socioeconômicos oferecidos; existe o problema de confiabilidade, já que se trata de um sistema elétrico de pequeno porte, entre outros.
    Existem muitas potencialidades energéticas alternativas, que devem ser estudadas, não apenas a maré motriz. Desde já adianto que esta alternativa (maré) não é expressiva, do ponto de vista da potência instalada e acarreta problemas sérios impacto na zona estuarina que devem ser levados em consideração. Contudo, qualquer estudo SÉRIO é bem vindo.

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