EMIGRANTE GUINEENSE CONFECIONA “BONECAS NEGRAS” PARA RESGATAR VALORES CULTURAIS AFRICANOS

Uma emigrante guineense, Edviges Tavares Lima, que vive há 20 anos na Europa e neste momento com a residência fixa na Escócia, criou um projeto denominado “Blessing e Love – Bênção e Amor “, que confecciona “Bonecas” de pele negra com tecidos da África, no sentido de “resgatar memória” de filhos de emigrantes sobre valores culturais africanos, principalmente no continente europeu.

A informação foi transmitida ao Jornal O Democrata pela própria mentora da iniciativa, em entrevista via telefone [fevereiro de 2021], com objetivo de debruçar-se sobre a iniciativa que pretende alargar para a América do Sul, em particular no Brasil. 

Ainda de acordo com as infirmações apuradas, o projeto começou com a criação da linha chamada “Emadollsema”, 4 bonecas negras, com vestidos de padrões africanos. Além de permitir às crianças conhecer os valores culturais da África, ainda vai ajudar na luta contra discriminação racial entre brancos e africanos.

EDVIGES LIMA: “INTEGRAÇÃO DE AFRICANOS NA EUROPA NÃO PRECISA SER PELA PELE BRANCA OU OLHOS AZUIS”

“O objetivo é mostrar às nossas crianças que independentemente do tom da nossa pele e cabelo, tudo aquilo que queremos a partir do momento em que acreditamos e nos esforçarmos, podemos realizar qualquer sonho, porque acreditar no nosso potencial é meio caminho andado para o sucesso”, disse.

“Por isso, tive esta ideia juntamente com os meus dois irmãos e decidimos criar este projeto que iniciou com lançamento de quatro bonecas, com o objetivo de inclusão dos nossos tecidos africanos, para mostrar que aquilo que temos como africanos é muito bom, por isso, devemos mostrar ao mundo as nossas potencialidades, este é o nosso objetivo sobre este projeto”, explicou Edviges Lima.

Embora reconheça que vários africanos estão a viver em países europeus, Tavares Lima lamenta que as médias internacionais só têm divulgado os valores culturais dos seus respetivos países, uma situação que acaba por influenciar os cidadãos “dissidentes” da África desde a nascença e acabam por não conhecer os valores culturais dos seus países de origem.

Tavares Lima revelou que pretende dar oportunidade às crianças europeias e africanas que nasceram na Europa e que a integração dos cidadãos da África na Europa não precisa ser pela pele branca, olho azul e cabelo lizo.

“Estou a viver na Escócia, mas tenho muito orgulho de dizer que sou da Guiné-Bissau e explicar às pessoas que o meu país está situado na Costa Ocidental da África, mostrar no Google as nossas maravilhosas praias e as pessoas acabam por ficar super admiradas e até questionam as razões da nossa presença na Europa, devido às potencialidades do meu país”, acrescentou.

Edviges Tavares Lima explicou que outro dos objetivos do projeto é lutar contra a descriminação racial, sublinhou que “é ainda uma forma de demonstrarmos igualdade, porque diversas vezes os cidadãos brancos encontram os negros e não sabem como lidar com eles, porque em várias localidades na Europa, há pessoas que nunca tiveram oportunidade de ver um negro. O fato de existirem estas bonecas e a oportunidade de fazê-las chegar a cada residência é um passo alcançado nesta luta”. 

O projeto foi lançado na Europa, concretamente na Escócia há um ano, mas a iniciativa tem mais impacto no Brasil, devido aos problemas do racismo e da aceitação das pessoas negras. As as bonecas estão a ter impulso positivo naquele país da América do Sul.

Em relação aos restantes países, a mentora do projeto afirma que o seu maior sonho é sentir o engajamento dos guineenses no projeto, permitindo assim aos seus filhos conhecer a iniciativa, e prometeu continuar a trabalhar neste sentido nos próximos tempos, principalmente na sua divulgação.

Lima transmitiu ao Democrata que ainda não arranjou um espaço físico onde possa expor para venda a produção de “Bonecas” de pele negra com tecidos da África, mas a exposição online está a correr de forma positiva.

Embora nesta fase inicial esteja somente a produzir a partir da China as suas bonecas femininas, Tavares Lima tranquilizou os pais e encarregados de crianças que futuramente vão começar a fazer bonecas masculinas.

Neste momento, a mentora do projeto adquire toda a produção a partir da China, mas abriu a possibilidade de trabalhar futuramente com costureiros residentes na Guiné-Bissau.

Edviges Tavares Lima que deixou a Guiné-Bissau em 1998 devido a guerra civil, foi forçada a viver em Lisboa, Portugal, durante 17 anos, de onde saiu com a sua família a procura de melhores condições de vida na Escócia.

Durante a entrevista ao semanário privado, Lima prometeu que antes do final do ano em curso visitará o país, sublinhando que a visita não só servirá para encontrar a sua família, amigos e colegas de infância, mas também para apresentar o seu projeto junto dos guineenses e abrir uma loja em Bissau.

Casada com o escritor guineense Emílio Tavares Lima, a mentora é formada em Marketing e Relações Públicas. Atualmente, trabalha no setor da educação.

Por: Alison Cabral

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