CERCA DE TRÊS MIL CRIANÇAS ABANDONARAM A ESCOLA EM BAFATÁ, EM 2019

[REPORTAGEM_semana 16_2021] O presidente do Movimento da Sociedade Civil da Região de Bafatá, Braima Darame, revelou ao jornal O Democrata que há dois anos, em 2019, mais de duas mil crianças do sexo feminino abandonaram a escola para serem submetidas ao fanado (excisão). Segundo ativista, a situação era também aproveitada pelas fanatecas para submeter as raparigas à Mutilação Genital Feminina (fanado da mulher). Contudo, realçou que, com a sensibilização intensa leva a cabo no terreno em 2020, o número de crianças que abandonaram a escola na região de Bafatá para o fanado reduziu de mais de duas mil para pouco mais de mil crianças e que neste ano, 2021, a previsão aponta para cerca de setecentas crianças que poderão abandonar a escola, para serem submetidas ao fanado.

Em relação à prevenção e ao combate do novo Coronavírus,  Braima Darame denunciou que o uso de máscaras faciais na região de Bafatá está a um nível muito baixo, ou seja, não é recorrente as pessoas usarem máscaras, sobretudo os jovens.

“Queríamos fazer muito mais do que temos feito até aqui em relação à sensibilização sobre as medidas de prevenção contra a Covid-19, mas temo-nos deparado com muitas dificuldades, dificuldades que têm limitado também a nossa intervenção na sensibilização junto das diferentes bancadas, escolas, mercados, feiras populares “lumus”, mesquitas, igrejas e lugares de culto”, frisou.

Braima Darame fez essa observação em entrevista ao jornal O Democrata para falar de, entre outros assuntos, das ações do Movimento na  região em relação aos direitos humanos, resolução de conflitos nas comunidades, casamento forçado e  precoce e o abandono escolar.  

Na sua primeira abordagem, Darame frisou que o Movimento da Sociedade Civil da Região de Bafatá é uma organização da sociedade civil descentralizada, que tem estruturas e representações em todos os seis setores que compõem a região.

A organização tem onze elementos no setor de Bafatá, igual número de representantes por cada setor, com três mil e cento e catorze pontos focais, representantes da sociedade civil de Bafatá nas comunidades distantes dos setores como forma de aproximá-las dos setores, desde a recolha de informações até à resolução de conflitos, “o que significa que o Movimento da Sociedade Civil está mais perto da população do que as autoridades regionais”.

Braima Darame justificou que a sua organização definiu essa estratégia de alargar os pontos focais às comunidades, porque “a região de Bafatá tem sido foco de conflitos de natureza variada”.

O presidente do Movimento da Sociedade Civil da região de Bafatá referiu que os pontos focais têm um papel importante na organização, porque ajudam o Movimento na sensibilização da população, sobretudo na educação cívica, na mediação de conflitos para evitar que a população faça a justiça pelas suas próprias mãos e mostrae-lhe cominhos que levem à resolução de conflitos de forma pacífica, envolvendo régulos e chefes das tabancas e, consequentemente, a polícia e o tribunal, o que tem contribuído na redução de conflitos desnecessários que acabam por resultar em feridos e mortes.

“Portanto, é assim é que estamos estruturados. Temos direções em todos os seis setores e nas comunidades que fazem parte dos setores da região. Temos um ponto focal em cada comunidade, portanto há uma interligação intrínseca entre as comunidades e os setores, o que quer dizer que não há nada que aconteça na região que não seja do conhecimento do Movimento e, consequentemente, das autoridades”,  indicou.

BRAIMA DARAME: “SUSTENTAMOS O MOVIMENTO ATRAVÉS DAS CONTRIBUIÇÕES DOS MEMBROS”

Questionado pelo jornal O Democrata sobre os projetos que o Movimento gere a nível da região, o ativista disse que o Movimento não gere projetos da sua autoria, mas consegue sustentar as suas atividades e fazê-las funcionar através das contribuições dos seus membros que trabalham nas Organizações Não Governamentais (ONG´S). Essas contribuições, segundo indicou, eram canalizadas para a sensibilização dos pais e encarregados de educação das crianças sobre o abandono escolar.

O presidente do Movimento da Sociedade Civil da Região de Bafatá, Braima Darame, revelou que há dois anos, 2019, mais de duas mil crianças do sexo feminino abandonaram a escola para serem submetidas ao fanado (circuncisão). Segundo o ativista, essa situação era também aproveitada pelas fanatecas para submeter as raparigas à Mutilação Genital Feminina (fanado da mulher). Contudo, realçou que com a sensibilização intensa levada a cabo no terreno em 2020, o número de crianças que abandonaram a escola na região de Bafatá para o fanado reduziu de mais de duas mil para cerca de mil crianças e que neste ano, 2021, a previsão aponta para cerca de setecentas crianças que poderão abandonar a escola para serem submetidas ao fanado.

Braima Darame frisou que o maior estrangulamento tem a ver com a falta de meios para poder fazer face ao volume de exigências ou situações que acontecem na região, sobretudo nesse momento em que a Guiné-Bissau enfrenta o novo Coronavírus que assola também o mundo inteiro.

“Queríamos ter feito muito mais do que temos feito até aqui em relação à sensibilização sobre as medidas de prevenção contra a Covid-19, mas temo-nos deparado com muitas dificuldades, dificuldades que têm limitado também a nossa intervenção na sensibilização junto de diferentes bancadas, escolas, mercados, feiras populares ” lumus”, mesquitas, igrejas e lugares de culto”, avançou.

“Queríamos, portanto, ter reforçado tudo isso para garantir que a população possa cumprir as medidas restritivas e o estado de calamidade, mas infelizmente estamos limitados”, precisou.

Em termos de ações desenvolvidas no âmbito de prevenção e do combate à Covid-19, Braima Darame destaca a formação promovida às forças de defesa e segurança da região de Bafatá (Militares, a Polícia da Ordem Pública, a corporação da Guarda Nacional) e a formação de formadores a sessenta professores de diferentes liceus, porque “foram detetados casos nas escolas e é importante que as pessoas cumpram as medidas estabelecidas pelo Alto Comissariado e as autoridades sanitárias do país, para evitar que a doença continue a propagar-se a cada dia”. 

“A região de Bafatá tem de cerca de duzentas organizações, entre as da sociedade civil e as ONG`S que atuam na região. Conseguimos reunir em diferentes ações de formação de formadores e capacitar membros de cerca cento e trinta delas sobre medidas de prevenção e de combate à Covid-19. E estão a servir de disseminadores das mensagens. Têm cartazes e panfletos para executar os planos do Movimento”, afirmou.  

De acordo com o presidente do Movimento da Sociedade Civil da região de Bafatá, devido à falta de meios, as ações de sensibilização sobre a Covid-19 diminuíram no terreno, tendo sido intensificadas nas rádios locais e em línguas locais e através de atividades que são realizadas pelos pontos focais nas comunidades, sobretudo em relação ao distanciamento físico e ao uso coreto de máscaras. 

Braima Darame denunciou que uso de máscaras faciais na região de Bafatá está a um nível muito baixo, isto é, não é recorrente as pessoas usarem máscaras, sobretudo os jovens.

“Nas escolas privadas, sim, há rigorosidade. Nas outras, as públicas, o uso de máscaras é de cinquenta por cento, mas de forma incorreta”, frisou Darame e lamentou o fato de a população da região de Bafatá ser difícil.

CASAMENTO FORÇADO E PRECOCE E A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA AINDA SÃO UMA REALIDADE

Em relação à situação dos direitos humanos, o ativista enfatizou que apesar de alguma melhoria registada no capítulo dos direitos humanos na região, os casamentos forçados e precoces, a violência doméstica e o abandono escolar ainda são uma realidade indiscutível em Bafatá. O abandono escolar, segundo Braima Darame, é provocado em grande medida pelos fenómenos do casamento forçado e precoce e o fanado da mulher e dos meninos.

O ativista frisou que embora o número de casamentos precoces e forçados tenha diminuído ultimamente, os país e encarregados de educação de crianças cujas escolas se encontram paralisadas na sequência das greves dos professores estão a aproveitar-se disso para submetê-las às práticas nefastas, sobretudo as raparigas, “o que tem preocupado a nossa organização, por isso intensificamos as ações de sensibilização nas rádios locais”.

Outra situação levantada pelo Movimento da Sociedade Civil de Bafatá tem a ver com a falta de informações em relação a algumas isenções nos hospitais anunciadas pelo governo da Guiné-Bissau e pede aos técnicos de saúde a terem paciência com os doentes e explicar claramente às grávidas e aos pacientes em geral que procuram serviços dos hospitais sobre serviços, análises e medicamentos  que são ou não gratuitos, porque “tem criado estrangulamentos e impedido muitas mulheres e grávidas, sobretudo, de fazerem consultas pré-natais”.

“Muitas taxas que são aplicadas às grávidas e crianças têm criado problemas ao ponto de muitos passarem a não recorrer aos serviços dos  hospitais”, assinalou Darame.

Sobre os danos causados pelas chuvas que caíram no ano passado, Braima Darame estima que no universo de cem por cento das bolanhas existentes na região, sessenta foi inundada pelas águas fluviais da época das chuvas de 2020. Darame lamentou que o apoio das autoridades não foi suficiente para cobrir os danos, sobretudo apoios que poderiam ter sido úteis ou determinantes para a reconstrução nesta época seca das casas demolidas pelas chuvas nessa época.

CONFLITO À VOLTA DA CENTRAL ELÉTRICA DEVE-SE À MÁ GESTÃO E À FALTA DE COLABORAÇÃO

Interpelado sobre o “conflito” gerado em torno da gestão da central elétrica de Bafatá, Braima Darame frisou que toda a situação  à volta da central de Bafatá deve-se à má gestão e à falta de colaboração entre o  governo central e o governo regional. Lembrou que, depois de ter ficado parada por vários anos sem funcionar, internamente criou-se, em 2018, uma comissão de gestão que contratou um fornecedor de combustível, Selo Bari, para sustentar o funcionamento da central “e funcionou”.

“Tudo ficou complicado quando o governo decidiu que assumiria a gestão. Começou por pouco tempo e a iniciativa não teve sustentabilidade, porque a receita que era arrecadada das faturas das cobranças não cobria as necessidades e na sequência dessa incapacidade e de troca recorrente de fornecedores, a gestão da central contraiu uma dívida de mais de 120 milhões de francos CFA aos fornecedores, Selo Djaló, Selo Bari, BDU e Botche Candé. O combustível fornecido por Botche Candé foi o maior problema de toda a história, porque o fornecedor queria que a gestão da central adquirisse o produto a um preço de 647 francos CFA, preço das bombas de venda de combustível, enquanto a gestão queria que fosse em 400 francos CFA, mas negligentemente aceitaram a proposta do fornecedor e depois não conseguiram fazer cobertura”, frisou.

Segundo Brama Darame, na sequência das diligências feitas para encontrar soluções, o Movimento reuniu-se com a Liga Guineense dos Direitos Humanos, Conselho Regional da Juventude, Régulo local e demais entidades envolvidas no processo para se inteirar dos problemas reais.

“Depois de várias rondas de encontros, concluiu-se que todo o puxa-puxa tinha a ver com a mudança do fornecedor com o qual antiga comissão trabalhava, dinheiro das taxas derivadas de despacho de combustível que era canalizado às regiões para subvencionar e apoiá-las “, assinalou e disse que mesmo com os descontos sejam feitos o dinheiro não chega às regiões, porque “a falta de colaboração entre a atual direção e o sindicato e porque também não são técnicos da área”.

Braima Darame aconselhou que é fundamental que o problema de fornecedor seja resolvido, canalizar para as regiões os benefícios que deveriam estar receber do governo central, que as guias de remessas das instituições de Estado que beneficiam da energia sejam pagos pelas finanças, pagar uma dívida de mais de cinquenta milhões de francos CFA e a nomeação de um técnico da área para gerir a central elétrica de Bafatá.

 “A mesma coisa está acontecer em Gabú, um conflito entre trabalhadores da central elétrica, a direção provincial e a nova gerência sobre a gestão da mesma”, revelou.

GRANDE DOR DE CABEÇA CONTINUA A SER CONFLITOS DERIVADOS DE LUTA PELA POSSE DE TERRA

Questionado sobre conflitos freq1uentes na região, Braima Darame disse que os conflitos que eram frequentes na região eram disputas entre maridos e amantes das mulheres casadas, uma situação que disse ter causado mortes por envenenamento a muitas pessoas e a justiça com as próprias mãos. Porém, sublinhou que ultimamente essa situação  têm diminuído drasticamente  na região. Mas, segundo Braima Darame, a grande dor de cabeça continua a ser conflitos derivados de luta pela posse de terra e conflito entre pastores e agricultores, que tem resultado na perda de muitas vidas humanas.

Destacou, por isso, a necessidade da implementação da lei de terra para que sirva de suporte legal para dirimir conflitos nas comunidades.

“Já criamos uma plataforma de multiplicadores regionais e estruturas a nível de todos os seis setores da região de Bafatá e  o que falta é a capacitação dessas estruturas para começarmos a campanha de sensibilização nas comunidades. Criamos essa plataforma porque lidamos diretamente com as comunidades “, informou.

Por: Filomeno Sambú

Fotos: F.S 

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