Sem gás lacrimogénio : MARCHA DA UNTG CONTRA “IMPOSTOS MILIONÁRIOS” RESTRINGIDA A METROS

O itinerário da marcha pacífica da maior central sindical do país, União Nacional dos Trabalhadores da Guiné-Central Sindical (UNTC-CS), ficou reduzido a metros, em cumprimento da lei que proíbe manifestações ou marchas cem metros das representações diplomáticas na Guiné-Bissau. A segunda marcha, de um ciclo de manifestações desencadeadas pela UNTG para comemorar o 3 de agosto, data instituída em homenagem aos mártires de Pindjiguiti, teria o seu ponto de partida na sede nacional da UNTG e terminaria na Assembleia Nacional Popular.

Porém, dada às restrições, a “marcha simbólica” dos servidores públicos guineenses viu-se obrigada a terminar ao lado da Direção Geral das Contribuições e Impostos, na Avenida Osvaldo Vieira, com discursos dos líderes sindicais de base e do secretário-geral da UNTG, Júlio Mendonça.

“Sou escravo da minha palavra, portanto a nossa luta só termina, se às exigências dos trabalhadores forem atendidas e a vida do povo guineense conhecer as melhorias necessárias”, frisou e disse que o povo não consegue estabilizar-se economicamente, porque todos os partidos políticos têm navios de pesca a pescar nas águas da Guiné-Bissau, o que os torna ainda mais ricos do que o próprio Estado.

O líder sindical teceu duras críticas ao governo e aos deputados que acusa de subtrair aos trabalhadores um dos legados da UNTG – reajuste salarial – depois de várias  décadas. Mendonça voltou a defender o recrutamento de novos quadros e a abertura de concurso público para o ingresso na função pública e, consequentemente, dinamizar a administração pública.

Júlio Mendonça revelou estar na posse de uma lista com mais de setecentos polícias, com juramento já feito em 2015, mas que não recebem os salários. 

Em relação aos novos impostos aprovados pelos deputados, o sindicalista disse que estes não merecem continuar a ser chamados de deputados, por representarem apenas os interesses  dos seus partidos políticos, não do povo nem dos trabalhadores.

Júlio Mendonça afirma que é apartidário e desafiou quem quer que seja  a provar a sua militância político-partidária na Guiné-Bissau.

 A sociedade civil representada por Guerri Lopes também condenou a restrição do itinerário inicial da marcha e pede o fim do conformismo e da alienação na Guiné-Bissau.

Por sua vez, o presidente da Comissão Organizadora das marchas pacíficas da UNTG alusivas às celebrações de 3 de agosto, Yasser Turé, espera que a próxima marcha seja a de resgate do povo da Guiné, não dos deputados nem dos membros do governo.

O também vice-secretário-geral da UNTG disse que a marcha desta quarta-feira é expressiva, depois dos acontecimentos do passado dia 14, a marcha fracassada pela polícia, porque os trabalhadores estão a mostrar a resiliência do povo da Guiné-Bissau e cumprir as suas obrigações  no processo democrático guineense.

“Queremos é que a política governativa reflita no desejo do povo”, precisou o sindicalista.

Nos últimos tempos tem havido críticas relativamente ao aumento dos impostos e ao aumento de preços dos produtos de primeira necessidade. Sobre o assunto, Yasser Turé enfatizou que, neste momento, e de forma geral, “nenhum funcionário público ou chefe de família consegue sustentar a sua vida e a da sua família”.

Os trabalhadores públicos da Guiné-Bissau continuam a exigir do governo, entre outros aspetos, a revogação de despachos  que nomearam trabalhadores sem concurso público, o cumprimento dos diplomas legais aprovados pelo governo e a nulidade dos impostos introduzidos no Orçamento Geral de Estado do ano económico 2021 aprovado pelos deputados da  nação.

Por: Filomeno Sambú

Foto: Marcelo Na Ritche

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