PESCADORES AFIRMAM QUE ABASTECIMENTO DO MERCADO NACIONAL COM PESCADO INTERNO NUNCA SERÁ REGULAR

[REPORTAGEM_outubro_2021] O presidente da Associação Nacional dos Armadores da Pesca Artesanal (ANAPA), Augusto Djú, afirmou que o abastecimento no merco nacional com o pescado interno nunca será regular, porque “de abril a agosto muitos pescadores abandonam  a pesca para a campanha de comercialização da castanha de caju e o trabalho de campo agrícola”.  

“De abril a agosto, muitos pescadores abandonam a pesca para a campanha de comercialização da castanha de cajú e o trabalho de campo agrícola”, precisou.

Augusto Djú fez essa afirmação em entrevista ao jornal O Democrata para falar da situação da pesca artesanal, do impato da Covid-19 no setor e da escassez do pescado que se vem registando nos últimos tempos no mercado nacional. O presidente da ANAPA sublinhou que, para além desses fatores, nesses meses registam-se também temperaturas elevadas o que faz os peixes a descerem a maiores profundidades nas águas.

“Portanto, o fornecimento ou abastecimento do mercado nunca será regular”, referiu o pescador que defendeu que é preciso reativar as fábricas de gelo que o país tem para a conservação do pescado. Apesar dos fatores apontados, Djú indicou que de novembro deste ano a janeiro de 2022 haverá uma melhoria significativa no fornecimento.

“Nesse período muitos pecadores fazem-se ao mar para angariar dinheiro para festejar a quadra festiva do Natal e Ano Novo e porque também muitos barcos renovam as licenças no final do ano, o que permite ter pescado em quantidades bastantes para abastecer o mercado nacional”, assinalou.

Questionado sobre a situação da pesca artesanal, o presidente da ANAPA disse que a situação da pesca artesanal na Guiné-Bissau está complicada, porque as espécies mais consumidas no mercado nacional (sereia, bagre e tainha, etc) têm seus períodos de maior movimentação.

“De agosto a outubro essas espécies são difíceis de encontrar, porque nesse período o mar contém a grande quantidade da água doce e são espécies que não gostam da água doce, preferem certa mistura. E quando isso acontece fogem para maiores profundidades. Para além da água doce, a trovoada também é grande inimiga dessas espécies. A espécie que se pesca em grande quantidade é Djafal, porque no período das chuvas aparecem em grande quantidade e são mais consumidos, devido à falta de poder de compra do cidadão comum. Djafal movimenta-se mais na maré cheia e para pescá-lo tem de se fazer ao mar de quinze em quinze dias”, frisou.

 Augusto Djú admitiu, na mesma entrevista, que há escassez do pescado no mercado nacional, porque os pescadores artesanais são ao mesmo tempo agricultores.

“A pesca é conjunto de canoas e quando a maior parte dos pescadores vai ao campo agrícola na época das chuvas, é óbvio que vai haver quebra no fornecimento ou abastecimento do mercado, sobretudo com as espécies mais consumidas pelos guineenses”, salientou. Lembrou que no passado dia 10 de agosto deste ano uma trovoada destruiu 34 canoas no porto de Alto Bandim, em Bissau, o que tem reduzido também a atividade da pesca artesanal.

“A temperatura que se faz sentir nesse período não favorece a permanência de peixes na parte de cima das águas, porque são sensíveis à temperatura, se calhar, mais do que os homens e vivem num ambiente de menos de trinta graus de temperatura”, esclareceu.

O presidente da Associação Nacional dos Armadores da Pesca Artesanal disse esperar que a situação venha a melhorar só a partir de dezembro, período em que a maior parte dos pescadores fazem-se ao mar para angariar dinheiro para festejar a quadra festiva do Natal e Ano Novo e porque também muitos barcos renovam as licenças no final do ano, o que permite ao mercado ter pescado em grande quantidade.

“De abril a agosto, muitos pescadores abandonam a pesca para a campanha de comercialização da castanha de cajú e para o trabalho de campo. Para além desses fatores, nesses meses registam-se temperaturas elevadas o que provoca a descida dos peixes a maiores profundidades. Portanto, o fornecimento ou abastecimento do mercado com o pescado interno nunca será regular. É preciso reativar as fábricas de gelo que o país tem para a conservação do pescado. De novembro a janeiro haverá uma melhoria significativa no fornecimento”, alertou.

AUGUSTO DJÚ: “PODEM ESTAR A PESCAR NO NOSSO MAR MIL E QUINHENTAS CANOAS NACIONAIS”

Augusto Djú referiu que os pescadores artesanais  enfrentam muitas dificulldades porque muitos não conseguem trabalhar para comprar embarcações de 15 ou 20 metros para pescar nas zonas onde vivem peixes de qualidade.

“As canoas a remo não podem pescar nas zonas de grandes profundidades, apenas as de 15 e 20 metros podem pescar no oceano, porque nessa zona faz vento forte que pode naufragar as pequenas canoas e provocar perda de vidas”, salientou.

Segundo Augusto Djú, neste momento podem estar a pescar, legalmente, nas águas territoriais da Guiné-Bissau, mil e quinhentas (1.500) canoas nacionais e setecentas e cinquenta (750) canoas estrangeiras.

“O país tem mais ou menos dois milhões de habitantes. Se dividirmos as cerca de duas mil canoas nacionais que estão no mar a pescar para o número da população da Guiné-Bissau vamos ter uma canoa para mil pessoas, o que é insignificante”, frisou e disse que a pesca artesanal não é uma atividade diária e requer observar certos requisitos, nomeadamente, as avarias de motores, acidentes, óbitos, assuntos familiares, etc, que fazem a atividade da pesca artesanal parar por um determinado período.

“Portanto, não se pode programar a pesca artesanal por período exato, quando temos situações como estas que podem provocar muitas interrupções nessa atividade”, enfatizou.

“SE HOUVESSE APOIOS A PESCA ARTESANAL PODERIA ABASTECER O MERCADO INTERNO SEM INTERRUPÇÃO” – AUGUSTO DJÚ

Apesar de considerar a frota nacional da pesca artesanal fraca, Augusto Djú esclareceu que isso não significa que o mercado nacional esteja a ser ou seja abastecido pelo pescado do Senegal ou da Guiné-Conacri.

“Se houvesse apoios, a pesca artesanal poderia abastecer o mercado interno sem interrupção”, afirmou, para DE seguida afirmar que, no âmbito da política de desenvolvimento do setor da pesca artesanal, o Ministério das Pescas criou sete fábricas, nomeadamente, Cacine, Buba, Bolama, Bubaque, Uracane, Biombo e Cacheu, mas todas não estão a funcionar neste momento.

Sobre este assunto, Augusto Djú anunciou que a sua organização teria um encontro com o ministro das pescas para analisar a situação. Sublinhou que a pesca artesanal não pode continuar a funcionar sem fábricas de gelo para conservação de peixes.

“Todo gelo usado para a conservação do pescado sai de Bissau e a quantidade que é comprada de Bissau para diferentes zonas, onde se faz a pesca, às vezes não é suficiente para abastecer todas as canoas que pescam no nosso mar. Às vezes deparamo-nos com vários contornos, o que nos leva a sofrer muitas vezes enormes prejuízos quando perdemos a metade da quantidade de gelo que compramos em Bissau.  Se continuarmos nessa situação, não podemos ter uma pesca rentável. Mas se tivéssemos fábricas a funcionar nessas localidades, o mercado de Bissau teria pescado em abundância”, contou.

Augusto Djú afirmou que a escassez do pescado é mais notável no interior do país, devido à falta de meios de conservação.

“Não podemos arriscar levar peixe em quantidade sem garantias para conservá-lo e o pior de tudo a população do interior não tem poder de compra. Temos ainda custos adicionais e quem vai suportá-los, a população não tem salário” notou, para DE seguida salientar que o nível de consumo do pescado na Guiné-Bissau está alto, mas a qualidade consumida não é das melhores.

Comparativamente ao Senegal e à Guiné-Conacri, Djú reconheceu que os pescadores destes países vizinhos têm melhores condições técnicas e canoas grandes que podem pescar onde os barcos pescam para conseguir peixe de qualidade.

“Os pescadores senegaleses, por exemplo, recebem formação sobre navegação via GPS  e bússola, mas a maior parte dos nossos pescadores não tem esse nível de conhecimento, pesca apenas com intuição  e é muito arriscado sobretudo para quem faz a pesca seletiva”, referiu.

“Os senegaleses, os guineenses de Conacri, os pescadores da Serra Leoa e do Gana não precisam de muitos cuidados durante a navegação, porque têm mais  condições e conhecimentos em navegar com GPS e Bússola”, precisou.

Sobre esse assunto Djú afirmou que houve um primeiro grupo que foi formado em Bolama no projeto PRODEPA, mas desde então nunca mais houve formação nesse domínio e os que foram formados nunca tiveram experiência na gestão de uma embarcação.

O presidente da ANAPA disse que a pandemia da Covid-19 teve um impacto desastroso na atividade da pesca artesanal e na economia nacional, porque sofreram enormes prejuízos. Contudo, não precisou em termos monetários qual foi a perda para o setor, porque “é difícil estimar tudo isso assim de cabeça”. Augusto Djú afirmou que as águas da Guiné-Bissau continuam a ser invadidas por pescadores estrangeiros, sobretudo os que praticam a pesca ilegal e sem licença.

“Há alguns que têm licenças de pesca e estão a respeitar as regras e têm redes de monofilamento, mas outros não estão a cumprir as regras. O nosso Estado não tem condições para fazer a fiscalização. A fiscalização que se faz aqui é com vedetas de recreio, mas tinha que ser com meios navais, não vedetas de recreio”, criticou.

Augusto Djú admitiu que conflitos entre os pescadores nacionais e estrangeiros é recorrente, sobretudo nas zonas da linha fronteiriça com os países vizinhos. Os conflitos, segundo o presidente da ANAPA, são derivados de tipos de redes que são usados para pescar.

“Há pescadores que usam redes flutuantes que atrapalham as atividades de quem usa, por exemplo, armadilhas. Se a atividade de quem usa armadilha é atrapalhada recorrentemente é claro que vão nascer conflitos entre os pescadores. Os pescadores que usam as redes flutuantes pescam em grande parte na maré cheia, os de redes de fundo na maré baixa e os de armadilha no período de dia”, salientou.

VENDEDORAS DENUNCIAM SUBIDA DE PREÇOS DE PEIXE NO MERCADO

As vendedoras entrevistas pelo jornal O Democrata na sequência da entrevista com o presidente da ANAPA denunciaram que uma caixa de peixe que era vendida a 15 mil francos CFA´s subiu para 21 mil francos CFA´s, devido à escassez do produto no mercado.

Binta Silá, uma das nossas entrevistadas, disse que a escassez do pescado no mercado levou-a a vender três peixes olhos de vinho, uma espécie pouco consumida na Guiné, a um preço de 500 franco CFA´s para compensar os custos adicionais

“É verdade que existem fatores que provocam a escassez do pescado no mercado. Neste momento uma caixa de peixe que custava 15 mil francos CFA´s está a comercializado a 21 mil francos CFA´s. Comprei o peixe olhos de vinho, que não é consumido muito na Guiné-Bissau. Se não tivéssemos essa escassez, não teria motivos para vender três peixes a 500 francos CFA´s”

Por sua vez, Jisa Pereira da Gama, vendedora do mercado improvisado do espaço VERDE do Bairro de Ajuda, em Bissau, disse que começaram a sentir a escassez desde o princípio do mês de julho  deste ano.

Segundo Jisa Pereira da Gama, a escassez deve-se ao mau tempo e à falta de gelo, o que levou muitos pescadores a perderem os seus pescados no mar. Porém, assegurou que a partir de finais de outubro até dezembro a situação poderá melhorar e o mercado poderá voltar a ter peixe.

“Os pescadores vão à faina neste período, primeiro porque não há registo de mau tempo e segundo por causa da quadra festiva do Natal e Ano Novo”, sublinhou.

Por: Filomeno Sambú/ Noemi Nhanguan

Foto: F.S  

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