INSPEÇÃO REVELA QUE TEM UM REGISTO “NEGRO” DE CERCA DE DOIS MIL AUTOMÓVEIS

[ENTREVISTA_abril_2022] O Centro de Inspeção de Automóveis da Guiné-Bissau (CIAGB) disse ter inspecionado a nível nacional, mil e seiscentos e cinquenta automóveis, desde pesados, ligeiros e atrelados em comparação ao ano anterior, tendo considerado “negro” e “muito fraco” este registo. Ou seja, o número de automóveis inspecionados no último trimestre na Guiné-Bissau “ é uma gota de água no oceano”

Em entrevista ao jornal O Democrata para falar de, entre outros assuntos, da situação da inspeção na Guiné-Bissau, o diretor técnico da CIAGB, Lourenço Luís Mendes Punguram, responsabilizou a polícia de trânsito e a direção-geral de viação, duas entidades fiscalizadoras das vias públicas, pelo fracasso.

“Não tem havido intervenção rigorosa das duas entidades fiscalizadoras das vias públicas, a polícia de trânsito e a direção-geral de viação, porque é da sua exclusiva competência exigir a inspeção de automóveis na via pública”, disse.

Segundo dados avançados ao seminário guineense pelo diretor técnico do CIAGB, o Centro de Inspeção Automóvel da Guiné-Bissau (CIAGB) inspecionou, a nível nacional, mil e seiscentos e cinquenta automóveis, desde pesados, ligeiros e atrelados em comparação ao ano anterior. O nosso entrevistado considera esse número muito fraco.

Por exemplo, em janeiro deste ano foram inspecionados no total 604 automóveis, dos quais 149 eram pesados (toca-tocas, transportes mistos) e 455 ligeiros, cujo número máximo de passageiros não ultrapassa nove. Desse número, 306 viaturas não apresentaram condições técnicas para circular, 290 carros reprovados e 38 viaturas reinspeccionadas.

Até final de fevereiro, o Centro de Inspeção Automóvel da Guiné-Bissau examinou um total 498 carros, dos quais 124 pesados, 371 ligeiros e 3 atrelados (veículos longos).

Dados indicam que desses números, 282 carros foram aprovados, 209 reprovados e 25 viaturas reinspeccionadas. No mês de março, o número de carros inspecionados foi no total 548, dos quais 135 pesados, 385 ligeiros e 8 atrelados. O mês de março teve um registo de 302 viaturas aprovadas, 237 não foram aprovadas e 24 reinspeccionadas.

Perante estes fatos, Lourenço Luís Mendes Punguram mostrou-se preocupado com o número de acidentes de viação que o país tem registado, sendo alguns deles derivados de falta de inspeção.

“A inspeção para carros particulares tem a validade de um ano, se aprovado, para carros de transporte público e veículos longos a inspeção tem a duração de seis meses”, disse, alertando que, se esses prazos não são respeitados será difícil evitar acidentes de viação derivados de falta de inspeção.

“TEMOS REGISTO NEGRO DE VIATURAS A CIRCULAREM NAS VIAS PÚBLICAS SEM INSPEÇÃO”

O diretor técnico do CIAGB disse que a sua instituição tem um registo “negro” de viaturas a circularem nas vias públicas sem inspeção ou cuja validade venceu.

“A maioria de carros inspecionados no primeiro trimestre deste ano são as viaturas que foram despachadas recentemente e alguns carros são das instituições públicas e privadas com a validade da inspeção já vencida”, salientou, para de seguida revelar que grosso número de automóveis na via pública não reúne as mínimas condições para circular, porque “quem deve confirmar e autorizar a circulação de viaturas é a inspeção e esses carros não procuraram os serviços da inspeção”, frisou.

Para Lourenço Luís Mendes Punguram, tendo em conta as más condições das estradas do país, é fundamental que esses carros, sobretudo os dos transportes públicos, vão à inspeção de três em três meses, para confirmar se os carros recebem a manutenção adequada ou não.

“Os proprietários de carros só fazem a manutenção quando estão prestes a fazer a inspeção. Ou seja, só fazem a manutenção sob pressão da polícia. A falta de manutenção de carros coloca em risco a vida de todos na via pública”, afirmou.

De acordo com Punguram, as causas de acidentes de viação decorrem de dois fatores: causa humana e causa técnica, por isso defendeu que é importante que cada motorista examine o seu carro antes de sair, sobretudo analisar o sistema de travagem, da direção e os pneus, porque “constituem elementos fundamentais para a boa saúde de automóveis”.

Lourenço Luís Mendes Punguram informou que a inspeção inclui também as regiões, e carros que circulam nas regiões são velhos.

“A cidade de Bissau é o centro de abastecimento e a maioria dos carros das regiões fazem ligação entre regiões e a capital e procuram os serviços de inspeção em Bissau. Só um número reduzido circula localmente.

MAIORIA DAS VIATURAS QUE ENTRAM NO TERRITÓRIO NACIONAL TÊM MAIS DE VINTE ANOS DE VIDA

O técnico da CIAGB admitiu, na mesma entrevista, que a maior parte de viaturas que entram no território nacional têm mais de 20 anos de vida nos países de fabrico. Neste particular, fez lembrar que a constituição da República da Guiné-Bissau e a legislação da União Económica Monetária Oeste Africana (UEMOA) determinam que viaturas com mais de 20 anos de vida nos seus países fabrico não devem entrar em nenhum dos países que fazem parte da UEMOA.

“Mas infelizmente a Guiné-Bissau não está a cumprir essa diretiva. Em 2005/2006, altura em que essa lei entrou em vigor no nosso país, a Guiné-Bissau aplicou a lei e carros naquelas condições deixaram de entrar no nosso país, mas o poder de compra dos guineenses não permite adquirir um carro novo. Temos carros velhos no nosso país e fora de usos nos seus países, porque o nosso mercado aceitou recebê-los. O Senegal já não recebe esse tipo de carros”, disse.

Punguram disse que para acabar com carros velhos será preciso que o governo imprima rigor na fiscalização e faça cumprir a lei que proíbe a entrada de automóveis com mais de 20 no país.

“É óbvio que vai dificultar a nossa população, porque a rentabilidade da maioria das pessoas está nas suas atividades de transporte. Se a medida for aplicada, podem ficar sem trabalho. Porém, é importante lembrarmos que a vida humana é a prioridade e pouco a pouco vamos encaixar com a compra de viaturas novas”, aconselhou.

Lourenço Luís Mendes Punguram apelou aos condutores que é necessário fazer sempre a manutenção e inspeção dos automóveis, tendo lembrado que é necessário respeitar o código de estrada e ter em posse toda a documentação necessária para andar na via pública.

“Se os carros reunirem as condições necessárias, podem circular livremente. É uma obrigação dos motoristas fazer a manutenção das viaturas e levá-las à inspeção, caso vença o período de validade estabelecido da inspeção anterior para cada categoria”, indicou.

Lourenço Luís Mendes Punguram disse que periodicamente, uma equipa do Centro de Inspeção de Automóveis da Guiné-Bissau (CIAGB) desloca-se às regiões, sobretudo às zonas com maior número de carros, nomeadamente: Gabú, Bafatá, Quebo e Buba para fazer a inspeção das viaturas.

“Criamos um calendário de visitas para a realização de inspeção automóvel nessas localidades” disse.

Finalmente, Mendes Punguram chamou atenção para maior contenção neste período da campanha de comercialização da castanha de cajú, período em que muitos carros velhos são colocados nas estradas para escoar o produto das matas para os centros urbanos.

“É necessário fazer a manutenção e inspecionar os carros que vamos colocar nas estradas para a campanha de comercialização da castanha de cajú, porque carregam muito peso e causam facilmente acidentes”, alertou o diretor técnico.

Por: Djamila da Silva

Foto: D.S

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